sábado, 31 de outubro de 2015

Poesia: Samuel da Costa


Poesia: Samuel da Costa


Solaris lX

Penso que se casasse...
Com a moça do caixa do ‘’super-mercado’’...
Eu poderia ser menos infeliz!

***
Poderíamos juntos...
Caminhar pela praia de mãos dadas!
Deixaríamos os nossos rastros indeléveis.
Na areia norma no fim do dia...
Caminharíamos sob a complacência dos raios crepusculares
Ao longe avistaríamos a Kianda...
A embair com seu doce canto sagrado!
Marinheiros e pescadores desavisados! 
Bem poderia ser o teu aedo nessa hora do ocaso
Para cantar églogas de amor

***

E ao cair da noite...
Poderia encarnar o bardo...
Recitaria!
Em horas insones!
Poemas melodiosos e idílicos!
De amor puro e pastoril...
Ao som do forminx...

***

Se rapsodo eu fosse...
Comporia baladas de amor puro
Para tu minha amada Ártemis
Sangraria negras linhas
Em páginas em branco
Recitaria o poema profano
Em horas obscuras

***

Fico a pensar, se fosse Hierofante...
Praticaria a arte imortal e profana
Embrear-me-ia no teu sagrado sono
Trar-te-ia para o meu sonho profano...
Descortinar-te-ia por inteira...
Desvendaria todos os teus segredos

***

Às vezes penso se casasse
Com a moça do caixa do ‘’super-mercado’’.
Poderia ser muito mais feliz...
Não sofreria todas
As dores da solidão eterna...
Da noite sem fim

***

Se casasse...
Com a moça do caixa do ‘’super-mercado’’.
Poderia ser igual a Orestes...
A dedicar poesias bucólicas à Diana!
Poderia assim...
Quase morrer do mal de amor
Todos os dias...
Choraria lágrimas de sangue
Em horas extremas

***

Se casasse
Com a moça do caixa do ‘’super-mercado’’!
Comporia peças imortais
Poesias pós-modernas! 
Que nada dizem
Que ninguém lê!

***

Convidaria a musa sagrada
A andar de mãos dadas comigo
Pela seara...
Ao som do madrigal
No dilúculo...
No fim de tudo

***

Se casasse...
Com a moça do caixa do ‘’super-mercado’’
Dormiria o eterno sono
Descansaria por fim
De todas as dores
Da solidão sem fim


Aos pedaços

Desculpe-me amor!
Ontem não foi...
A melhor das minhas performances
Pois não vivo...
Os meus gloriosos dias!
Vivo aos pedaços.

***

Mais uma vez desculpe-me.
Por ontem à noite!
Não era eu...
Foi outra pessoa caída e derrotada
Diante de ti

***

Um ser amorfo
Sem identidade
Uma pessoa aos pedaços
Que visse ontem
Perdido em meio à bruma encantada!
Na noite mais escura...

 ***           

Desculpe-me...
Pela noite de ontem
Minha querida!
Eu mesmo não me reconheci

***

O meu estro...
O meu estribilho
Na noite de ontem
Foram frases sem vida
Poesia sem ritmo
Arte sem talento
Perdidos no teu doce vergel

***

Desculpe-me amor
Pela noite de ontem!
Não era eu
Era outra pessoa


Poema em Abril

Para Pricilla Martins

Pede-me um poema!
Então um poema dar-te-ei...
Palavras vagas
Jogadas no ar
Que flutuam
Voam
Adentram a floresta em chamas...
Palavras incineradas!
Que se transformaram em cinzas.
Palavras calcinadas
Renascidas...
Nas asas do pássaro Fênix

***                   

Pede-me um poema!
Um poema de amor?
Então um poema amor dar-te-ei...
São palavras lançadas ao infinito...
Iconoclastas
A se perdidas no labirinto do Fauno

***

Palavras mudas
Palavras vulcânicas
Nuas...
A relampear
A trovejar
Na noite mais escura

***

Se me pede poemas...
De amor...
Dou-te todas as palavras
Odes imortais dar-te-ei...
Poemas eternos...
Que alçam voo!
Rumo aos astros...
E ganham o cosmo infindo.



As luzes e as trevas

Para Maura Pataxó Hã hãe hãe

Entre as luzes e as trevas!
Tem o Griot...
Que corre em desespero.
Pela mata-fechada sem fim.
O som a trovejar na relva...
O ladrar selvagem dos cães...
O silvo de ódio do capitão do mato.
A sede...
E a fome...

***

Entre as luzes e as trevas...
Tem a minha vida e a tua...
O olhar frio da Era da razão!
Tem o meu olhar...
Perdido no vazio.

***

Entre as luzes e as trevas!
Peço a misericórdia de todos os Deuses.
Nessa hora extrema...
Que eles tenham piedade de nós...
Pois a alma do inocente arde em chamas.   

***

Entre as luzes e as trevas.
Tem um frio olhar postado em mim.
E o dedo em riste...
Na minha face...
Mandando-me calar

***

Tem um corpo em chamas
Alma inocente imolada...
A queimar em praça pública

***

Entre risos insanos
Entre verdades e mentiras
Tem um inquisidor...
Tem um olhar bestial em mim.

***

Tem um fogo que queima alto!
Entre a minha vida...
E a tua...
Tem um abismo infindo.
Uma fossa abissal
São vidas separadas.
Entre mentiras e verdades!


Perdido em um ignoto sonho

No caminho bifurcado
Tem uma alma
Em conflito...



É tarde da noite amor!
Eu não consigo dormir.
Ao longe...
Tem uma velha música...
Que inunda o meu frágil ser...
Imperfeito!

***

Nessa hora extrema...
Eu descido não cair!
Fico de pé...
Enfrento as consequências!
De amar-te tanto...
Enquanto a cidade arde em chamas
Lá fora...

***

Mas agora é tarde amor...
É muito tarde para nós dois!
O nosso tempo já passou
E não sobrou mais nada

***

É tarde meu bem amor
O sono não vem...
O sonho não chega
E o último beijo não aconteceu
E a bruma ignota me abraça...
E me afoga...

***

Agora é tarde amor!
O abraço forte não veio...
E o beijo mágico não acontece...

***

Busco o exílio abissal...
Em mim!
São quilômetros de distância...
Da realidade avassaladora
Que me devora
E me flagela

 ***

Agora é tarde amor
Para nós dois...
O sono não vem
E o sonho não chega
Bruma ignota me abraça
E me afoga...


Em mil pedaços (a minha negra dor)

Entre soluços e gritos de dor!
Entre lágrimas e o negro pranto...
Sou o Aedo por acidente nessa hora...
Pois não quero dizer coisa alguma!
Para quem quer que seja
Nem mesmo para mim

***

Tomo a lira das mãos etéreas de Apolo...
Por momentos breves!
Sou o Bardo para a minha divina musa
Só querendo dizer: Amo-te
Com toda a força do meu estro...
Imperfeito...
Que brota do meu negro coração

***

São os meus sintéticos poemas!
Fragmentados!
Espalhados...
Em mil pedaços...
Arte liquefeita!
Imerso no mundo mutável...
São peças soltas e descartáveis
Que ninguém quer lê...
Mas feri a minha alma!
E faz sangrar o meu coração...  

***

Sou eu querendo ficar sozinho
Perdido nos meus pensamentos
Mais irracionais.

***

Sou eu que transito...
Livremente no labirinto irreal
Que construí para mim
Ali posso te tomar pelos braços
E dizer que és minha
Para todo o sempre


Entre mundos (um universo em mim)

Para Renan F. da Costa

Minha alma indomável
Margeia o rio...
Vai mergulhar os pés...
Nas águas límpidas e imaculadas.
Do Aqueronte...
Para depois voar livremente...
Ao sabor dos ventos alísios!

***

Minha negra alma!
Inconstante...
Aproveita o belo dia ameno de sol
Sem nuvens...
Desafia a realidade liquefeita!
Naufraga no oceano bravio...
Ouve o canto!
Da divina deidade...
Abraço a Kianda sagrada.
E desaparece no pelágio!
Sem fim...

***

Minha alma livre corre o mundo...   
Dobra as esquinas...
E não conhece mais limites!
Desafia a tudo e a todos.
Embrenha-se em meio a multidão.

***

Meu sagrado estro...
Ganha os céus...
Voa pelo cosmo!
Para se perder no infinito!
Por fim...

***

Minha negra alma não conhece limites!
Vai até Arcádia!
Pede a bênçãos...
Aos pastores da noite!
Entoa a écloga em estase!
Embriaga-se junto a Dionísio!
Arvora-se entre as belas bacantes...

***

Minhas negras linhas correm livremente!
Ganhas as ruas...
E se perde no infinito...
Da um eterno adeus a musa sagrada
E parte por fim.   

***

Minha sôfrega negra alma...
Vague-a pelo mundo dos sonhos!
Vai enamorar a bela e imortal negra Valquíria
Perde-se no labirinto encantado do Fauno
Para morrer no olhar da Medusa


Poema pedra  e a realidade liquefeita

Para Roberto Lamim

Preciso compor um poema!
Com a urgência...
Escrever com poesia.
Palavras lançadas ao vento!
Sem regras e sem lógicas...
Sem rimas!
Sem dores!
Sem choros e sem lágrimas.
Sem velas.

***

Preciso esculpir na pedra-sabão.
Um poema com pretéritos...
Mais que perfeitos!!!
Sem deméritos.
Para me recompor...
Com o mundo líquido!
Com a realidade mutável...
Re-produzir a vida sem regras.
Sem rumos...
Onde reina as incertezas...

***

Mais que preciso...
Tenho que re-escrever!
A vida pós-moderna!
Sem crases...
Sem vírgulas...
Sem métricas...
E sem um ponto final.

***

Preciso com toda a emergência...
Escrever poemas na areia da praia...
Com verbos mais que perfeitos.
Com poética!

***

Peças soltas do mais...
Puro platonismo démodé...
Milimetricamente imperfeitos!
Em uma mimese...
Que não imita coisa alguma
Peças ocas liquefeitas
Que nada valem
Que não duraram nano-segundos!
Poemas sintéticos...
Para a Deusa de Ébano!

***

Re-produzir o deserto dentro de mim!
Re-produzir as belas-artes...
Em pedra-sabão,
Sem gritos sintéticos de dor!
Sem sustos...
Soluços...
E sem ponto final

***

Quero esculpir a minha negra poesia
Na dita pós-modernidade!
Virar as páginas em branco.
Sair do mundo virtual...
Ganhar as ruas...
Dobra as esquinas...
Voar e voar leve como uma pluma
Ganhar os céus sem nuvens...
Abraçar os astros.
E se perder no cosmo infindo!
Ser livre afinal!
De todas as dores
E de todos os amores


Conversão

O ontem e o hoje...
Projetam dias e noites.
Sempre iguais! 
Horizontes perdidos sempre iguais.

***

E Itajaí está tomada.
Pelo tédio.
Sentimento comum.
De quem não sabe para onde quer ir!

***

Na noite sibilina...
Eu prefiro ficar em casa sozinho.
Tomado pelo tédio...
Sentimento bem comum
Para quem não sabe de onde veio!
Ou mesmo para onde quer chegar!

***

Itajaí tem um aspecto nebuloso
Comum em cidades
Que se verticalizam rapidamente!
E ganham os céus…

***

Itajaí de hoje!
Itajaí do ontem...
Tediosa & nevoenta!
Convulsionada...

***

Estados bem comuns...
Para quem não sabe para onde vai!
Ou de onde quer chegar!


Na solidão da alcova

Para Fá Butler

Na solidão da alcova
Somente existe tu e eu
E mais ninguém minha divina musa  

***

Um deslumbre apenas
De vidas passadas
E nada mais

***

Um adágio
Um prelúdio
Um brilho perdido
Em meio às trevas
Depois vem o silêncio
O de uma existência vazia

***

Um vislumbre  
Um prelúdio apenas
E nada mais!  
Que precede uma eternidade
De nanossegundos de puro prazer

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