sábado, 1 de outubro de 2016

CAMÕES: COMENTÁRIO E INTERPRETAÇÃO LITERÁRIA - POR ANTONIO CANDIDO




Por: Antônio Candido


Num texto literário há essencialmente um aspecto que é tradução de sentido e outro que é tradução do seu conteúdo humano, da mensagem através da qual um escritor se exprime, exprimindo uma visão do mundo e do homem.


O estudo do texto importa em considerá-lo da maneira mais íntegra possível, como comunicação, mas ao mesmo tempo, e sobretudo, como expressão. O que o artista tem a comunicar, ele o faz na medida em que se exprime. A expressão é o aspecto fundamental da arte e portanto da literatura.


O comentário é uma espécie de tradução, feita previamente à interpretação, inseparável dela essencialmente, mas teoricamente podendo consistir numa operação separada. Neste sentido, vejamos alguns tópicos do já citado Benno von Wiese ("Ueber die Interpretation lyrischer Dichtung", p. 11-21).


Dizendo que o prazer estético é realçado, não prejudicado pela análise sistemática, von Wiese defende a possibilidade duma interpretação científica ou sistemática ("wissenschaftliche"), e lembra que as dúvidas a este respeito derivam do fato de se opor erradamente Comentário (externo, informativo, objetivo) à Interpretação (interna, afetiva, arbitrária). Em verdade "o comentário bem compreendido é o vestíbulo da interpretação" (p. 15).


O comentário é tanto mais necessário quanto mais se afaste a poesia de nós, no tempo e na estrutura semântica. Um poema medieval necessita um trabalho prévio de elucidação filológica, que pode ser dispensado na poesia atual. Mas mesmo nesta há uma etapa inicial de "tradução", gramatical, biográfica, estética, etc, que facilita o trabalho final e decisivo da interpretação.


O que é interpretação, alvo superior da exegese literária?


"Como já indicou expressivamente Emil Staiger, interpretar significa reproduzir e determinar com penetração compreensiva e linguagem adequada à matéria, a estrutura íntima, as normas estruturais peculiares, segundo as quais uma obra literária se processa, se divide e se constitui de novo como unidade" (p. 16).


Natureza: "(...) a Interpretação é uma tradução do tipo mais difícil que a tradução de uma língua para outra (...)" (p. 16).


Dificuldades: "um poema não se revela por si mesmo, nem para os que falam a mesma língua. É espantoso o quanto o leitor desprevenido (ou ingênuo) lê mal e não percebe" (p. 17).


Daí a necessidade de ensinar e aprender a interpretação sistemática.


Requisitos:

- Não se prender exclusivamente à forma nem ao conteúdo ("formalismo"e "materialismo"); não utilizar padrões alheios ao poema (p. 17).


- Não falar de si mesmo, mas da obra, isto é, não emprestar a ela os sentimentos e ideias pessoais que brotam por sua sugestão; mas procurar extrair os que estão contidos nela (p. 18).


Regras: "(...) aprender a ler, saber ouvir, prestar atenção a todas as particularidades" (p. 17).


A. análise comporta praticamente um aspecto de comentário puro e simples, que é o levantamento de dados exteriores à emoção poética, sobretudo dados históricos e filológicos. E comporta um aspecto já mais próximo à interpretação, que é a análise propriamente dita, o levantamento analítico de elementos internos do poema, sobretudo os ligados à sua construção fônica e semântica, e que tem como resultado uma decomposição do poema em elementos, chegando ao pormenor das últimas minúcias. A interpretação parte desta etapa, começa nela, mas se distingue por ser eminentemente integradora, visando mais à estrutura, no seu conjunto, e aos significados que julgamos poder ligar a esta estrutura. A análise e a interpretação, ao contrário do comentário, (fase inicial da análise) não dispensam a manifestação do gosto, a penetração simpática no poema. Comenta-se qualquer poema; só se interpretam os poemas que nos dizem algo. A análise está a meio caminho, podendo ser, como vimos, mais análise comentário ou mais análise-interpretação.


Análise e interpretação representam os dois momentos fundamentais do estudo do texto, isto é, os que se poderiam chamar respectivamente o "momento da parte" e o "momento do todo", completando o círculo hermenêutico, ou interpretativo, que consiste em entender o todo pela parte e a parte pelo todo, a síntese pela análise e a análise pela síntese.


A este respeito, tomemos alguns conceitos de Staiger no citado estudo Die Kunst der Interpretation:


"O intérprete se mede pela capacidade de exprimir de maneira sistemática, a respeito da poesia, e sem destruir o seu encanto, o que determina o seu segredo e a sua beleza, e de aprofundar por meio do conhecimento o prazer causado pela valia da obra. Isto é possível? Depende do que se considerar sistemático.


A hermenêutica nos ensinou há muito que nós compreendemos o todo pela parte e a parte pelo todo. É o 'círculo hermenêutico', a cujo respeito não 19 dizemos mais que é necessariamente um círculo vicioso. Sabemos pela Ontologia de Heidegger que todo o conhecimento humano se desenvolve desta maneira, e também a Física e a Matemática não costumam andar de outra maneira. Portanto, não devemos evitar o círculo, mas apenas cuidar em entrar nele corretamente" (p. 12-13).


Em seguida, Staiger fala do prazer e da emoção da leitura como condição de conhecimento adequado, sem temer a acusação de fundar os estudos literários no sentimento subjetivo. O sentimento neste caso é um critério de orientação e de penetração. "O critério da sensibilidade se torna também critério de conhecimento sistemático" (p. 13).


Uma vez assegurada esta penetração simpática, o leitor deve apreender o ritmo, o largo compasso do poema(*) sobre o qual repousa o estilo, sendo o elemento que unifica num todo os aspectos de uma obra de um artista ou de um tempo (p. 14).


(* Segundo o Kltints Lilerariches Lexikon, a concepção de Staiger importa em assimilar o ritmo ao próprio estilo ["... Staiger setzt ihn mit Stil gleich..."XP- 126])


Quando apreendemos pela sensibilidade o ritmo geral de uma poesia, apreendemos no todo a sua beleza própria. Esclarecer esta intuição pelo conhecimento é a tarefa da interpretação.


"Neste estádio o estudioso se separa do amador. Para o amador, basta o sentimento geral e um domínio ainda vago, que pode esclarecer por meio de leituras atentas. Mas ele não sente a necessidade de comprovar como tudo se afina no todo, e como o todo se afina pelas partes. A possibilidade de estabelecer esta prova é o fundamento da nossa ciência" (p. 15).


* • *


Antes de entrar na apresentação dos elementos necessários à análise do poema, como encaminhamento para a sua interpretação posterior, façamos um exercício breve, que mostre como o comentário e a interpretação se completam e como cada um deles pode ser melhor compreendido por um caso concreto.


Seja o soneto de Camões numerado 74 na edição Hernani Cidade (Sá da Costa):


1 Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;


É um não querer mais que bem querer;
6 É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
8 É cuidar que se ganha em se perder;


E querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.


Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Ed. 1598 - 1. Amor é um fogo...
6. É um andar solitário...
8. É um cuidar...


COMENTÁRIO


Trata-se de um soneto. Significativo: adoção de um instrumento expressivo italiano (ou fixado e explorado pelos italianos), apto pela sua estrutura a exprimir uma dialética; isto é, no caso, uma forma ordenada e progressiva de argumentação. Há certa analogia entre a marcha do soneto e a de certo tipo de raciocínio lógico em voga ainda ao tempo de Camões: o silogismo. Em geral, contém uma proposição ou uma série de proposições (ou algo que se pode assimilar a ela) e uma conclusão (ou algo que se pode a ela assimilar).


Este soneto obedece ao modelo clássico. E composto em decassílabos e obedece ao esquema de rimas ABBA, ABBA, CDC, DCD. Isto permite a divisão do tema e a constituição de uma rica unidade sonora, na qual a familiaridade dos sons e a passagem dum sistema de rimas a outro ajuda ao mesmo tempo o envolvimento da sensibilidade e a clareza da exposição poética (proposição, conclusões).


O decassílabo, como aqui aparece, é de invenção italiana, embora exista com outros ritmos na poesia de outras línguas. Verso capaz de conter uma emissão sonora prolongada, e bastante variado para se ajustar ao conteúdo.


Este soneto apresenta uma particularidade: a proposição é feita por uma justaposição de conceitos nos dois primeiros quartetos, estendendo-se ao primeiro terceto. Só nó último tem lugar a conclusão (que é uma consequência do exposto), que de ordinário principia no anterior.


Quanto à estrutura rítmica, notar que na parte propositiva (11 versos), todos os versos têm cesura da 6a. sílaba, permitindo um destaque de 2 membros, o primeiro dos quais exprime a primeira parte de uma antítese, exprimindo o segundo a segunda parte. Vemos aqui a função lógica ou psicológica da métrica, ao ajustar-se à marcha intelectual e afetiva do poema.


Note-se ainda que o poeta recorre discretamente à aliteração, isto é, à frequência num ou mais versos das mesmas consoantes, formando uma determinada constante sonora, ou antes, um efeito sonoro particular:


r no primeiro verso; t no terceiro e sétimo; d no quarto; v no décimo, etc.


Quanto a outras circunstâncias exteriores à interpretação, como data de composição, situação na vida do poeta, etc, não há elementos no caso. Apenas um pormenor erudito de variantes.


INTERPRETAÇÃO


1a. parte: aspecto expressivo formal


Evidentemente se trata de um poema construído em torno de antíteses, organizadas longitudinalmente em forma simétrica, por efeito da cesura significativa, dando nítida impressão de estrutura bilateral regular, ordenada em torno de uma tensão dialética. São duas séries de membros que se opõem, prolongando durante 11 versos um movimento de entrechoque.


Esta forma estrutural geral é movimentada por uma progressão constante do argumento poético, manifestada:


1a. pelo efeito de acúmulo das imagens, que acabam criando uma atmosfera de antítese;


2a. pela abstração progressiva das categorias gramaticais básicas que são no caso vocábulos chaves do ponto de vista poético. Assim é que temos sucessivamente uma área de substantivos, uma área de verbos substantivados e uma área de verbos.


Substantivos; l» estrofe: fogo, ferida, contentamento, dor. Verbos substantivados: 2a estrofe: um querer, um andar (solitário pode ser substantivo ou adjetivo, aliás; dupla leitura possível). Transição no terceiro verso que prepara a passagem para a área seguinte verbal (/um/ nunca contentar-se).


Verbos: 3a. estrofe, e já fim da segunda: querer estar, servir, ter. Trata-se de um nítido processo de abstração, que revela a passagem do estado passivo do sujeito poético à sua ação, intensificando a sua força emocional. Ainda sob este aspecto, note-se na área dos substantivos a evolução da causa material - fogo - para a consequência material imediata e apenas metaforicamente imaterial - ferida, - e dela para a consequência imaterial mediata - contentamento e dor, que são estados da sensibilidade.


Na última estrofe, a cesura não divide o verso, há transposição ("enjam-bement"), e todo o terceto se apresenta como unidade expressiva coesa e ininterrupta, pela presença de uma consequência lógico-poética, sob a forma de interrogação. Esta interrogação exprime a perplexidade do poeta e permite transitar à nossa segunda parte. (Ver nota abaixo).


2a. parte: aspecto expressivo existencial

Este soneto exprime, sob aparente rigidez lógica, uma densa e dramática tensão existencial; é o encerramento de uma profunda experiência humana, baseada na perplexidade ante o caráter contraditório (bilateral, para usar a expressão aplicada à forma estrutural do soneto), da vida humana. A vida é contraditória, e como os poetas não cansam de lembrar, amor e ódio, prazer e dor, alegria e tristeza, andam juntos. Sabemos hoje pela psicologia moderna que isto não constitui, para a ciência, motivo de perplexidade, mas a própria realidade dos sentimentos de toda a personalidade. A arte percebeu antes da ciência.


No soneto de Camões há uma rebeldia apenas retórica, sob a perplexidade do último terceto. Mas no corpo dialético do poema reponta uma aceitação das duas metades da vida, pelo conhecimento do seu caráter inevitável. A profunda experiência de um homem que viveu guerras, prisão, vícios, gozos do espírito, leva-o a esta análise que reconhece a divisão na unidade. E a própria conclusão perplexa do fim é o reconhecimento de que a unidade se sobrepõe afinal à divisão do ser no plano da experiência humana total. O amor é tudo o que vimos, e ele é aspiração de plenitude graças à qual o nosso ser se organiza e se sente existir. Grande mistério - sugere o poeta - que sendo tão aparentemente oposto à unidade do ser, ele seja um unificador dos seres (na medida em que é amizade).


A simetria antitética perfeitamente regular exprime a presença de uma ordem no caos. O espírito unifica no plano da arte as contradições da vida, não as destruindo, mas integrando-as.


Nota: Seria possível representar graficamente o soneto de Camões, levando em conta a estrutura antitética das três primeiras estrofes, cortadas verticalmente pela cesura no 6a verso, e o ritmo unificador da estrofe final:


CANDIDO, A., “Comentário e interpretação literária”, in O estudo analítico do poema.


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