quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Raduan Nassar - Prêmio Camões

Raduan Nassar, considerado por muitos o maior escritor brasileiro da atualidade, autor de “Lavoura arcaica”, “Um copo de cólera”, entre outros, foi galardoado com o Prêmio Camões de Literatura 2016. O prêmio é considerado o mais importante da língua portuguesa.

Na cerimônia de premiação, realizada no Museu Lasar Segall, dia 17 de fevereiro de 2017, São Paulo, Raduan proferiu, em seu discurso de agradecimento, uma crítica contundente ao governo Temer, ao qual o escritor considera ilegítimo e “golpista”. Lamentavelmente, o brilho da cerimônia foi obscurecido pelo ministro da (in)cultura Roberto Freire que, numa clara tentativa de cerceamento da liberdade de expressão e numa ode ao clientelismo mais arcaico e abjeto, insinuou, em sua fala, que pelo fato do prêmio ser concedido pelos governos de Brasil e Portugal, o escritor deveria assumir uma postura de submissa gratidão ao governo brasileiro; como se o prêmio fosse um favor e escritor devesse prestar homenagens ao governo, ao invés de criticá-lo.

As vaias foram a melhor resposta que cabia ao ministro e um alerta de que arte, ainda que sob regime de censura, jamais se calará aos desmandos dos poderosos.

Leia o discurso de Raduan:

Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.

Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.

Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

 Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.

 Saudações a todos os convidados.

Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.

Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.

Portanto, Sr.Embaixador, muito obrigado a Portugal.

Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.

Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.

Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.

Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.

Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.

Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas

É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.

O golpe estava consumado!

Não há como ficar calado.

Obrigado

Raduan Nassar

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