segunda-feira, 3 de julho de 2017

VIAGEM DE PABLO NERUDA NO BRASIL


NO BRASIL

No Rio visitei Burle Marx, o Conquistador da flora, Libertador de jardins, Herói Verde do Brasil, que com Niemeyer e Lúcio Costa formam a trilogia procriadora das cidades radiantes. Passeia-me sob folhas imensas, mostra-me raízes espinhosas que defendem sob a terra, troncos com pruridos, quermelias marmoratas, ilairinas misteriosas e especialmente o tesouro de suas bromélias, reconhecidas do Brasil profundo ou investigadas em Samatra. São quilométricas de esplendor nos quais florescem o escarlate, o amarelo, o violeta até voltarmos a casa com uma ninféa puríssima que vibra como um relâmpago azul nas mãos de Matilde.

Mas Jorge Amado chama-me de Salvador e voamos ao mercado da Bahia, para comer vatapá e beber cerveja na cidade encaracolada da magia. Como o fiz no Rio, torno a ler meus versos ao público aberto, moços e moças, e gravar centenas de autógrafos que me oprimem.

Percorro com Jorge os retorcidos entrepechos de Salvador, sob a luz perfurante. Subimos ao avião saturados de cítrico aroma da Bahia, da emancipação marinha, do fervor estudantil. Deixemos em baixo, na laje do aeroporto, os Amado: robusto, Jorge, sempre do Célia, Paloma e João: minha família no Brasil.

Ao ar! Ao amplíssimo celeste! Da altura: a cidade branca, a cidade Vênus: BRASÍLIA!

O deputado Márcio me abre todas as portas. Mas Brasília não tem portas: é espaço claro, extensão mental, claridade construída. Os setores comuns pululam de crianças, seus palácios dão dignidade inédita às instituições. O arquiteto Ítalo, companheiro de Niemeyer, já tem dez anos de Brasília e nos assinala o novo Itamaraty, o Congresso, o Teatro inconcluso, a Catedral, rosa férrea que abre na altura grandes pétalas para o infinito.

 Brasília , isolada em seu milagre humano, em meio do espaço brasileiro, é como uma imposição da suprema vontade criadora do homem. Daqui nos sentiremos dignos de voar aos planetas. Niemeyer é o ponto final de uma parábola que começa em Leonardo: a utilidade do pensamento construtivo: a criação como dever social: a satisfação espacial da inteligência.

DIÁRIO DE VIAGEM

De Ipanema, com azul oceano, ilhas e penínsulas, montes corcovados, trepidação circulatória, Vinícius de Moraes me leva a Belo Horizonte (imensa Antofagasta da meseta), em seguida a Ouro Preto, colonial e calcárea, com o ar mais transparente da América do Sul e uma basílica em cada um de seus dez cerros que se elevam como os dedos das mãos na reconcentrada mansuetude. Aqui vive Elisabeth Bishop, grande poetisa norte-americana que conheci há anos no alto de uma pirâmide de Chichén Itzá. Como não estava no Brasil, escrevi-lhe um pequeno poema em inglês, um poema com erros, como deve ser.

O libertador de escravos e independentista Tiradentes olha as igrejas de uma altíssima coluna, no centro da praça onde foi esquartejado. Tiradentes – Sacamuelas, porque era dentista – encabeçou uma revolução derrotada no coração clerical e escravista da monarquia. Agora o deixaram, pequeníssimo, numa coluna ridícula, encarapitado na glória, em lugar de o colocarem em meio à gente branca e negra que passeia na praça de Ouro Preto.

Mas em Congonhas, aonde chegamos para ver as estátuas de Aleijadinho, encontramo-nos de repente dentro de uma romaria com esses cânticos que, com voz de bronze, um sacerdote dirige do templo, e crianças, mulheres, vendedores de rua, a multidão, enfim, cantando ou comendo fritada, os pequenos sentados sobre os profetas de pedra de nosso Miguel Ângelo americano.

Cortando a pobreza, como se corta um queijo, aproximamos, e Matilde me fotografa com Isaias, com Daniel, com Ezequiel, e não me sinto mal ao lado de cada um, só que eles foram melhores poetas que eu e se mostram agora, em seus retratos de pedra, poderosos ou pensativos, iracundos ou adormecidos. Jonas tem um pequeno peixe, do qual apenas divisamos a cauda entre cabecinhas negras e brancas dos romeiros da romaria. Aproximo-me para ver se é uma sereia (que beleza seria ver um profeta na rede de uma filha do mar), mas não. Trata-se apenas de uma baleia, de sua baleia, que o Aleijadinho lhe pôs sorridente junto da cintura para que não a deixe esquecida nos vagões ferroviários do céu.

Mais tarde, através da tarde, cruzamos selvas, grandes rios, caminhos subitamente atravessado por uma borboleta Marpho, dando-nos uma calafrio azul, e árvores junto à estrada, cobertos de fogo escarlate, de frutas pendentes dos ramos como melancias aéreas, de montículos de formigas térmitas, as que inventaram os arranha-céus, e mais tarde, à noite, fatigados de tanto esplendor, a dormir em Petrópolis, na cidade arejada do Brasil, onde Gabriela Mistral viveu talvez as horas mais felizes e as mais desditadas de sua existência. Boa noite, Gabriela.

COLÔMBIA ESMERALDINA

Do restaurante de 46º. andar, em São Paulo – onde o almoço transcorria quase entre as nuvens –, aviões a jato ou mosquitos de quatro asas me sacudiram, levantaram e depositaram em Manizales.

Faz vinte e cinco anos que visitei a Colômbia.

Reconheço do alto sua linhagem cordilheirana, o entrecruzamento de montanhas e rios, vales e vapores: uma geografia de esmeraldas molhadas que sobem e baixam do céu.

Devo presidir um Júri de Teatro Universitário Latino-americano.

 O aviãozinho baixa numa pista de quatro metros de largura, entre dois abismos: o fio de uma navalha andina.

Manizales estava irreconhecível, moderna, crescida, limpa como nenhuma outra cidade.

Submergi no cenário cotidiano com teatro novo todos os dias do Peru, Brasil, Venezuela, argentina, equador, Colômbia. Teatro lírico ou chocarreiro, experimental ou satânico, popular ou intelectualizante. Em todo caso, vivo e vital, trabalhado e meritório. Passei uma semana no interior da Sala escura, vivendo com estranhos personagens, arlequins e andrajosos, esquizofrênicos e papis executivos.

A mim me agradou mais de que tudo uma peça brasileira tirada dos teatros de marionetes populares que percorrem o Brasil.

Os atores revivem em três atos os movimentos simplórios e a vampiresa, o negrinho sábio, o afazendado apaixonado, chegam até o céu suspensos de cordas inexistentes. Frescor e raízes de povo se reúnem nesta unidade teatral que mereceu o prêmio por unanimidade.

(Assim que regressei a Bogotá, uma conspiração palaciana deu a “Máscara de Ouro” a uma obra norte-americana, vomitivamente obsceno).

Minha vida em Manizalas prosseguia, de dia, pelas ruas, o teatro à noite: perseguido por muitíssimos caçadores de autógrafos entrei numa barbearia local para cortar o cabelo, e ali estive rodeado por cinquenta espectadores assinando livros e papeizinhos enquanto  o paciente cabeleireiro afastava cabeças para trabalhar com as tesouras.

De volta a Bogotá, a poesia principal da Colômbia, os Rojas, Zalameas, Carranzas, De Greif, Camachos e Castro-Saavedras, montam guarda a fim de impedir a curiosidade e os álbuns.

Renuncio a prosseguir para o México, com o amor que lhe tenho e o muito que ali me espera. Corre, porém, o sangue estudantil e para mim a Tocha Olímpica se apaga.

Por esses mesmos dias morre crivado nas montanhas colombianas um guerrilheiro solitário: chama-se Ciro. Para a biografia policial é um bandido. Para muitos, um herói. Um batalhão o encurralou e o rapaz morreu disparando. Grande tristeza entre a emoção da amizade e da claridade poética da Colômbia.

Quando me recuso a ser condecorado pelo senhor Lleras Restrepo, não faltam os que se dão por ofendidos.

Respondo: nada me separará do coração verde da Colômbia. Uma medalha mais ou uma medalha menos significa. Minha poesia continuará e celebrar-te, Esmeralda.

Em seguida, o Museu do Ouro Pré-colombiano, com suas máscaras, caracóis, borboletas, rãzinhas refulgentes. Nossa América enterrada vive aqui acusando os seus cristãos crucificadores. E sua milagrosa ourivesaria não tem voz: é um calado relâmpago de ouro. Oxalá houvesse, à saída do Museu uma grande tigela de ouro para deixar as lágrimas.

Amanhã voaremos para a Venezuela.


(Trecho extraído de “Para nascer nasci”, de Pablo Neruda).

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