domingo, 4 de dezembro de 2016

A INVENÇÃO DA LINGUAGEM EM GUIMARÃES ROSA


por Alfredo Bosi
(em: História Concisa da Literatura Brasileira)

A obra de Guimarães Rosa implica uma alteração profunda no modo de encarar a palavra, tomada como um feixe de significações. Além do referente semântico, signo estético é portador de sons e de formas que desvendam, fenomenicamente, as relações íntimas entre significado e o significante.

Voltada para as forças virtuais da linguagem, a escritura de Guimarães Rosa procede abolindo intencionalmente as barreiras entre narrativa e lírica, revitalizando recursos da expressão poética: células rítmicas, aliterações, onomatopeias, rimas internas, ousadias mórficas, elipses, cortes e deslocamentos sintáticos, vocabulário insólito, arcaico ou de todo neológico, associações raras, metáforas, anáforas, metonímias, fusão de estilos, coralidade.

Suas experiências semânticas e invenções fundamentam-se no inventário dos processos da língua. Imerso na musicalidade da fala sertaneja, ele procurou, em Sagarana, fixá-la na melopeia de um fraseio no qual soam cadências populares e medievais.

“As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos de guampas, estrondos de baques, e o berro queixoso do gado Junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão...

Um boi preto, um boi pintado,
cada um tem sua cor.
Cada coração um jeito
de mostrar o seu amor.
Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando... Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito... Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando...”

Vale observar a riqueza e a ousadia de algumas reinvenções de Guimarães Rosa, em palavras como “essezinho”, “essezim”, “salsim”,” satanazim”, “semblar”, “fiúme”, “agarrante”, “levantante”, “maravilhal”, “fluifim” (adj.),” gaviãoão”, “ossoso”,” vivoso”, “brisbrisa”, “cavalanços”, “refrio”, “retrovão”, “remedir”, “deslei”, “desfalar”, “acismorro”, “de pouquinho em pouquim”, “o ferrabrir dos olhos”, “abrumalva”, “alemão-rana”; ou em frases e períodos como “a bala beija-florou”; “os passarinhos que bem-me-viam”; “os cavalos aiando gritos”; “recebe o encharcar dos brejos, verde a verde, veredas...”; “ao que nós acampapados em pé duns brejos, brejal, cabo de várzeas; me revejo de tudo, daquele dia a dia; aí a gente se curvar, suespendia uma folhagem, lá entrava; resumo que nós dois, sob num tempo, demos para trás, discordas”; “e aí se deu o que se deu – isto é”; “eu era um homem restante trivial”; “aí, de, já searapuava o Gorgulho mestre na desconfiança...”

O mitopoético foi a solução romanesca de Guimarães Rosa, situando sua obra na vanguarda da narrativa contemporânea que se tem abeirado dos limites entre o real e o surreal, explorando as dimensões pré-conscientes do ser humano e nutrindo-se de velhas tradiçõe, as mesmas que davam à gesta dos cavaleiros feudais a aura do convívio entre o sagrado e o demoníaco.

A saída proposta por Guimarães Rosa para esconjurar o pitoresco e o exótico do regionalismo deu-se com a entrega amorosa à paisagem e ao mito, reencontrados na materialidade da linguagem. A saída de Guimarães Rosa não é a única para o escritor brasileiro hoje, mas é que nos fascinará por mais tempo e com mais razões.

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