domingo, 29 de maio de 2016

Letras de africanidade - Consciencialização

A ideia de “consciencialização”, pela qual Agostinho Neto anuncia em seu poema homônimo, reflete a necessidade da tomada de consciência em relação à opressão do colonizador e da condição de colonizado que precisa se reconhecer enquanto colonizado para, ao libertar-se da opressão e da condição de colonizado, reescrever a “história a ser contada”. Noutras palavras, o projeto de independência de Angola dependia da reconstrução da identidade do povo angolano que não excluía seu passado de povo subjulgado, ao mesmo tempo em que o reconhecimento desta identidade abria a oportunidade histórica de libertação nacional. Evidentemente, essa tomada de consciência passava pelo reconhecimento da “pele negra” e do fato de que “não eram portugueses” e, a partir do momento que esta identidade é reconhecida pela consciência, torna-se possível mudar o curso da história.

Porém, tomar Agostinho Neto como um marco na literatura de afirmação da identidade angolana, como se antes esta questão fosse silenciada ou inexistente, parece um tanto equivocada.

No conto Nga Muturi (1882), de Alfredo Troni, é justamente a questão da angolanidade e o mundo colonizador português que é o foco de tensão vivida pela personagem principal Nga Muturi. A protagonista foi em algum momento de sua infância escrava. Depois de se tornar rica e ascender socialmente, ela quer esquecer este passado, mas que sempre lhe volta à memória.

Filha de um branco, inicialmente, chamada de Nga Ndreza, foi separada da mãe e do irmão quando era pequena e enviada para Angola. Então, passa o tempo, ela se torna mucama e, depois, concubina do patrão, um muari, isto é, um homem branco. E, apesar de nunca se casarem, ela se torna viúva, tornando-se Nga Muturi, herdando “dois mil contos de réis fortes, fora a casa”. Ao ficar rica, Nga Muturi é invejada e obtém o respeito da sociedade.

Tudo isso se passa na sociedade crioula que, apesar da forma ser europeia, possuíam hábitos predominantemente africanos. Isso fica claro no aniversário do óbito, quando nas homenagens, além da missa católica, comemora-se também seguindo tradições africanas, com festa, danças, músicas e batuques.

Porém, a questão da identidade está em jogo e a ascensão social de Nga Muturi, de certo modo, escamoteia sua origem negra na sociedade crioula. Uma passagem que mostra “apagamento” da identidade angolana pode ser bem representada por essa passagem: “É uma boa cidadã, paga bem os impostos, e está agora tentando de amigar a Bebeca, que trata como filha, e já tem muitos pretendentes, mas só quer branco do putu para arranjar uma buxila”.

Em A menina Vitória (Quinaxixe, 1965), de Arnaldo Santos, a questão racial como uma distinção hierárquica entre colonizador e colonizado também é importante. O texto se passa nos anos de 1948 e inicia a narrativa chamando a atenção para a questão da pronúncia da língua portuguesa pelo angolano como marca dialetal que reflete uma transformação da sociedade, a saber, urbanizada. Assim, a sociedade crioula, tal como descrita no conto Nga Muturi, não mais existe.

Embora filho de Dona Angelina, uma mulata, Gigi “se podia considerar como um branco”, então os pais do menino Gigi resolvem transferi-lo de escola, para um colégio de elite, muito caro, no intuito de afastá-lo da influência dos criados e dos meninos negros, moradores dos musseques, que falam quimbundo.

Na nova escola, a sala de aula é um microcosmo do universo colonial e a “professora do 3ª. classe, a menina Vitória, era uma mulatinha fresca e muito empoada, que tinha tirado o curso na Metrópole. Renovava o pó de arroz nas faces sempre que tivesse um momento livre, e durante as aulas, gostava de mergulhar os dedos nos cabelos alourados e sedosos de uns meninos que se sentavam nas primeiras filas”. A menina Vitória, para ser reconhecida numa sociedade hierarquizada racialmente, ela tem que parecer mais clara de fato. Quanto mais se parece com o colonizador, mais se consegue exercer o poder. Ela insiste em exercer o poder.

A professora muda de lugar Gigi, colocando-o no fundo da sala e ao lado de um menino muito escuro, o Matoso, o exemplo negativo da sala, a quem a menina Vitória tratava com desprezo, pelo fato de um dia ter-lhe respondido em quimbundo, e que vivia sempre muito calado. Porém, Gigi se identifica com o Matoso, ao mesmo tempo, que receia ser identificado com ele pela professora, por isso, se afasta do amigo. “Precisava de esconder o segredo ilegítimo do seu passado igual”. Ao mesmo tempo, quando Gigi percebe que ela também é mulata, passa a insultá-la intimamente, para preservar “a sua juventude ameaçada”.

Mas o tempo todo que ela desafia o Gigi, até que um incidente com o uso do pronome “tu” faz com que ela humilhe o menino na frente de todos e lhe aplica um corretivo com a palmatória. Revoltado, Gigi se pergunta indignado: “Mas porquê, porquê que ela, logo ela, o queira humilhar? Ela que tinha carapinha. Ela que era filha de uma negra, pensou com furor”.

No final do conto, ele se identifica e compreende o mutismo do Matoso, nada mais que a resposta e resistência a opressão colonial. Então ele chora, com olhos secos, assim como termina o poema de Agostinho Neto.

Se todavia no conto Menina Vitória o dialeto quimbundo falado nos musseques gerava conflito, em Luuanda, José Luandino Vieira, a língua do nativo é fator de identidade, não é a língua do colonizador, mas língua do colonizador apropriada, ao fixar uma sintaxe e uma morfologia baseada na oralidade, no jeito de se falar angolano. Diante do apartheid criado pelo colonizador português, a perspectiva é a dos musseques, habitados por negros, mestiços e brancos pobres. Mas muito mais que isso, há em José Luandino Vieira uma elaboração artística tendo em vista uma autonomia literária.

Diante do que foi exposto, o regime colonial português acabou por criar uma sociedade completamente dividida, assim como foi o apartheid na África do Sul, no qual o racismo e a segregação eram institucionalizados. A concentração de riqueza, evidentemente, ficava nas mãos das classes dominantes, brancas e de origem europeia. Para subjugar, explorar as colônias e evitar movimentos insurgentes de emancipação, não havia outro recurso senão o da violência. E Portugal não hesitou em empregá-lo. Neste sentido, ao se fundar uma literatura angolana, era preciso distinguir o que era português daquilo que era angolano, até mesmo como uma forma de resistência, e criar uma literatura de identidade nacional no sentido de uma angolanidade, pela qual o material colonial forneceu os pressupostos constitutivos.

sábado, 14 de maio de 2016

Os dez maiores artistas da música pop de todos os tempos

A revista Billboard do Brasil sugeriu uma lista dos dez maiores artistas de música pop de todos os tempos (veja a lista abaixo). Embora os artistas indicados de fato representem grande importância no cenário musical contemporâneo, sua importância histórica é relativa. Por isso, sugerimos uma outra lista. O critério adotado foi a relevância histórica de um determinado cantor ou músico. E nesse quesito Elvis Presley é disparado o vencedor. Sem o rei do rock e o filme “Juventude Transviada” (Rebel Without a Cause), estrelado por James Dean,  não existiria “juventude”. De fato, segundo os estudos de sociologia, o conceito de juventude antes de meados do século XX era inexistente. Outrora, o modelo de “ser humano” era o do adulto. A criança e o adolescente não passavam de miniaturas daqueles. A partir do surgimento da indústria cultural de massa, novos nichos de mercado foram criados fomentando segmentos diversificados no mercado consumidor. Surgia assim a juventude. E ninguém capitaneou melhor o espírito juvenil do que Elvis Presley. O ex-caminhoneiro, um homem branco cantando música negra - rock’n’roll, revolucionou as normas rígidas de conduta e os paradigmas morais da conservadora sociedade norte-americana de sua época, com o seu rebolado desconcertante. (Se hoje qualquer artista homem pode remexer o traseiro sem se preocupar se vão questionar sua masculinidade, ele deve isso ao rei do rock). Depois de Elvis, os Beatles consolidaram para sempre o império da guitarra e por isso também merecem destaque. Outro critério utilizado foi de o de imaginar uma situação hipotética em que um pesquisador apresentasse a transeuntes escolhidos aleatoriamente, sem distinção de raça, classe, idade, região etc., nomes ou imagens de astros da música pop para serem reconhecidos imediatamente ou não. Nesse sentido, quem não se lembraria ao cantarolar do pesquisador “One for the money…”; ou “Hey, Jude, don't make it bad…”; ou “Imagine all the people. Living for today...”; ou ainda: We are the champions, my friends…”; etc. Com base nestes critérios formulamos nossa lista. Todavia, isto é muito subjetivo, por exemplo, a escritora Nilza Monti Pires enviou uma lista bem particular.


1 - Elvis Presley
2- John Lennon
3 - Michael Jackson
4 - Madonna
5 - Bob Marley
6 - Jimmy Hendrix
7 - Freddie Mercury
8 - Bob Dylan
9 - Janes Joplin
10 - Kurt Kobain

Os cinco brasileiros (música pop):

1 - Roberto Carlos
2 - Raul Seixas
3 - Mamonas Assassinas
4 - Legião Urbana
5 - RPM

Billboard:

1 - David Bowie
2 - Michael Jackson
3 - Paul McCartney
4 - Mick Jagger
5 - Madonna
6 - Beyoncé
7 - Elvis Presley
8 - John Lennon
9 - Freddie Mercury
10 - Lady Gaga

Revista Rolling Stone (2012)

1 - Beatles
2 - Bob Dylan
3 - Elvis
4 - Rolling Stones
5 - Chuck Berry
6 - Jimmy Hendrix
7 - James Brown
8 - Little Richard
9 - Areta Franklin
10 - Ray Charles

Nilza Monti Pires:

1 - Elvis
2 - Beatles
3 - Janes Joplin
4 - Carlos Gardel
5 - Little Richard
6 - Elton John
7 - Orlando Silva
8 - Queen
9 - Dire Straits
10 - Roberto Carlos

E para você? Qual é a sua lista?

domingo, 1 de maio de 2016

O trabalho de Drummond ao punk rock

O OPERÁRIO NO MAR
Carlos Drummond de Andrade

Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa. No conto, no drama, no discurso político, a dor do operário está na blusa azul, de pano grosso, nas mãos grossas, nos pés enormes, nos desconfortos enormes. Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros, e com uma significação estranha no corpo, que carrega desígnios e segredos. Para onde vai ele, pisando assim tão firme? Não sei. A fábrica ficou lá atrás. Adiante é só o campo, com algumas árvores, o grande anúncio de gasolina americana e os fios, os fios, os fios. O operário não lhe sobra tempo de perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. Não ouve, na Câmara dos Deputados, o líder oposicionista vociferando. Caminha no campo e apenas repara que ali corre água, que mais adiante faz calor. Para onde vai o operário? Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos. Tenho vergonha e vontade de encará-lo: uma fascinação quase me obriga a pular a janela, a cair em frente dele, sustar-lhe a marcha, pelo menos implorar lhe que suste a marcha. Agora está caminhando no mar. Eu pensava que isso fosse privilégio de alguns santos e de navios. Mas não há nenhuma santidade no operário, e não vejo rodas nem hélices no seu corpo, aparentemente banal. Sinto que o mar se acovardou e deixou-o passar. Onde estão nossos exércitos que não impediram o milagre? Mas agora vejo que o operário está cansado e que se molhou, não muito, mas se molhou, e peixes escorrem de suas mãos. Vejo-o que se volta e me dirige um sorriso úmido. A palidez e confusão do seu rosto são a própria tarde que se decompõe. Daqui a um minuto será noite e estaremos irremediavelmente separados pelas circunstâncias atmosféricas, eu em terra firme, ele no meio do mar. Único e precário agente de ligação entre nós, seu sorriso cada vez mais frio atravessa as grandes massas líquidas, choca-se contra as formações salinas, as fortalezas da costa, as medusas, atravessa tudo e vem beijar-me o rosto, trazer-me uma esperança de compreensão. Sim, quem sabe se um dia o compreenderei?

PUNK ROCK

AOS FUZILADOS NA CSN
(Garotos Podres)

Aos que habitam
Cortiços e favelas
e mesmo que acordados
pelas sirenes das fábricas
não deixam de sonhar
de ter esperanças
pois o futuro
vos pertence

Pois o futuro vos pertence! (coro)
Pois o futuro vos pertence! (coro)

Aos que carregam rosas
Sem temer machucar as mãos
pois seu sangue não é azul
nem verde do Dólar
mas vermelho
da fúria amordaçada
de um grito de liberdade
preso na garganta

Pois o futuro vos pertence! (coro)
Pois o futuro vos pertence! (coro)

Fuzilados da CSN
assassinados no campo
torturados no DEOPS
espancados na greve
A cada passo desta marcha
Camponeses e operários
tombam homens fuzilados
Mas por mais rosas que os poderosos matem
nunca conseguirão deter
a Primavera!

Pois o futuro vos pertence! (coro)
Pois o futuro vos pertence! (coro)


O GESTOR
(Fecaloma)

O barulho das máquinas
São gritos de ordens
Que impõe a submissão
De milhares de homens

A voz rouca da razão
Por justiça implora
Mas abafada pelo desinteresse
Ecoa apenas revolta

Humilhados e sujos
Entregam suas vidas
A quem não sabe distinguir
O suor das lágrimas

Aonde está o gestor?


sábado, 2 de abril de 2016

Monte Castelo, Camões e cartas sobre o amor

Jean Pires de Azevedo Gonçalves


Alguns aficionados em literatura, digamos assim, “puristas”, detestam a canção “Monte Castelo” da Legião Urbana, composição de Renato Russo, por que teria, segundo eles, “destruído” o soneto de Luis Vaz de Camões e, por isso, seria um exemplo de mau gosto. A razão de tal argumento diz respeito às questões formais classicistas do soneto, isto é, versos decassílabos heroicos, arranjados em dois quartetos e dois tercetos, que foram sem mais nem menos adulteradas por enxertos dos não menos belos versículos de São Paulo, numa mixórdia que, de uma vez só, passa por cima das distâncias históricas e literárias que separam as duas obras. Não penso assim. Entretanto, se admitirmos, como eles – o que não o fazemos –, que algumas questões da forma de arte não podem ser contaminadas de modo promíscuo por valores estéticos de gêneros diversos, pelo menos a canção Monte Castelo teve o mérito de popularizar a mais bela poesia de amor já composta por um escritor, em todos os tempos. (Na minha opinião, nem Shakespeare escreveu versos de amor tão sublimes, que beiram mesmo a perfeição, como estes que saíram da pena do poeta português). Além disso, as cartas de São Paulo sobre o amor também são magníficas e de maneira alguma não dignificam ou rebaixam o soneto camoniano, ao contrário. Renato Russo pegou o suprassumo da poética que de melhor expressa esta “coisa” tão diáfana chamada amor, região deveras inacessível à palavra, onde as línguas cessam e o silêncio fala, e, através da música pop, deu ao povo, que cantou Camões e São Paulo, ao mesmo tempo. Aliás, diga-se de passagem, poesia não é algo exclusivo a um clubinho de aficionados ou do crítico literário, esse ser, nos dizeres de Nietzsche, exigente e oco. A poesia é do povo, como o céu é do Condor.


Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

1 Coríntios 13

1. Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.

2. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.

3. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.

4. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se envaidece.

5. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;

6. Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;

7. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

8. O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;

9. Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;

10. Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.

11. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.

12. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.

13. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.










segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Martín Rivas: romance nacional do Chile

Autor: Jean Pires de Azevedo Gonçalves


É quase um consenso na teoria literária que o romance moderno surge com a ascensão da burguesia à condição política de classe dominante. Tal fato se dá no contexto das Revoluções Burguesas, culminando com a Revolução Francesa, em 1789. Com a queda do Antigo Regime e a derrocada dos últimos resquícios feudais, os valores burgueses não apenas se tornam hegemônicos como também universais. Os direitos civis e individuais são estabelecidos e garantidos pelo Estado moderno. Se ainda é nos permitido pensar em termos de superestrutura e estrutura, para usar um jargão extraído da seiva marxista, o que subjaz a superestrutura é a consolidação definitiva e estrutural do modo de produção capitalista. A classe burguesa, enfim, se realiza de fato e de direito.


Feitas estas considerações iniciais, é importante pensar, do ponto de vista da economia capitalista, os termos da transição que se opera com as revoluções. A tradição de lealdade, os laços de sangue e clientela, que legitimam a propriedade e a rígida hierarquia feudal, são substituídos pela riqueza móvel, isto é, o dinheiro. No capitalismo, não é a esfera política, o fator social determinante, mas a econômica. A mobilidade social, alcançada pelo enriquecimento, produz novos padrões estéticos, mais condizentes com a realidade burguesa. O cotidiano passa a ser retratado a partir de então pela prosa, com os seus personagens vulgares, movidos apenas pelo enriquecimento. “O verdadeiro princípio que, em última análise, determina a unidade do romance é o processo da evolução social. A verdadeira ação consiste na ascensão social e no triunfo do capitalismo” (LUKÁCS, 1964, pp. 101 e 102). Nesse sentido, o romantismo que se pretendia questionar a sociedade burguesa encontra na figura de Balzac a passagem para o realismo. Em Eugênia Grandet, assim como em outros romances balzaquianos, o amor romântico não resiste às questões materiais, ou seja, financeiras. “Balzac retrata esse processo de transformação da literatura em objeto de troca em toda sua complexidade: do papel às convicções, às ideias, aos sentimentos dos escritores, tudo se transforma em mercadoria” (Ibidem, p. 98).


Isto é, a expressão do que se denominou na escola marxista de fetiche da mercadoria, ou, nos termos lukacsianos, reificação: quando as coisas passam a ter relações sociais e os seres humanos são convertidos em coisas. A mercadoria (o dinheiro) é o fator de sociabilização e intermedeia todas as relações humanas através da lógica da equivalência. Os próprios seres humanos, individualmente, são convertidos em mercadorias, em última instância, enquanto força de trabalho, fundamento de toda alienação.


Na América Latina, condenada ao status de colônia, a formação dos Estados nacionais modernos com os movimentos de independência não seguiu o modelo clássico dos países centrais. Em certo sentido, o liberalismo era estranho em uma sociedade de economia dependente e que sequer tinha um mercado interno consolidado. Muitas vezes, a teoria liberal serviu justamente para reafirmar a sua estrutura social arcaica, fundada na grande propriedade fundiária e no trabalho compulsório. Por isso a América Latina vive a ambiguidade do arcaico e do moderno, como afirma Roberto Schwarz e outros.


Sob esse prisma, traçando um paralelo com a realidade brasileira, o romance realista Martín Rivas, do autor chileno Alberto Blest Gana, as relações amorosas, que parecem se dar, a princípio, num embate de gênero, no qual o amor para os homens só é possível mediante o acesso ao dinheiro, enquanto para as mulheres é o sentimento em si que importa, ou seja, o amor romântico, no final, após um sinuoso transcurso dialético, simboliza uma conciliação dos extremos numa dada situação sui generis, característica da modernização na America Latina. Assim, o romantismo, com sua reação ao capitalismo e sua busca pelas origens autênticas, imaculadas pelo mercado e nacionais, poderia representar, de certa forma, os interesses conservadores das oligarquias; e o realismo, inversamente, os interesses progressistas da insipiente burguesia nacional. Porém, ao contrário do que ocorreu nos países onde ocorreram revoluções burguesas, na América Latina, oligarquia e burguesia tecem alianças, tanto no plano político como econômico, à revelia e independentemente da vontade popular. Dito de outro modo, a construção dos estados nacionais nas ex-colônias ibéricas não contou com a participação do povo. O conflito interno à classe dominante se resolve num acordo de cavalheiros e o conceito de nação é formulado de cima para baixo, excluindo as camadas sociais inferiores.


É neste cenário que se desenrola o romance de Blest Gana. Martín Rivas, o herói do romance de título homônimo, é um jovem provinciano e pobre que, de posse de uma carta de seu falecido pai, vai para a cidade grande a procura de Don Dámaso Ensina, homem que enriqueceu, inclusive, graças à especulação dos negócios paternos de Rivas. Há aqui, sem dúvida nenhuma, uma relação clientelística, caracterizada pela troca de favor, típica das relações hierárquicas aristocráticas pré-burguesas. A pobreza de Martín Rivas, em grande causada por D. Dámaso, é, assim, ilustrativa. No início do romance, o personagem, que se veste com roupas puídas e mal ajambradas, é construído de tal forma tão degradante, que chega a ser preso por causa de uma briga com vendedores de sapato. Esta passagem é emblemática da situação de penúria de Rivas e merece uma transcrição:



El zapatero se levantó, en efecto, y arremetió al joven con furia. Una riña de pugilato se trabó entonces entre ambos, con gran alegría de los otros, que aplaudían y animaban, elogiando com imparcialidad los golpes que cada cual asestaba con felicidad a su adversario.


(...)


En vano quiso Martín explicarle el origen de lo acaecido, el policial nada oía, y siguió llamando con su pito hasta que se presentó un cabo seguido de otro soldado. Con éstos, su elocuencia fracasó Del mismo modo. El cabo oyó impasible la relación que se le hacía, y sólo contestó con la frase sacramental del cuerpo de seguridad urbana:


—Páselos pa entro.


Ante tan uniforme modo de discutir, Rivas conoció que era mejor resignarse, y se dejó conducir con su adversario hasta el cuartel de policía. (Martín Rivas, p.21).


Mas, com o passar do tempo, graças a sua firmeza de caráter e competência, assume os negócios de D. Dámaso, auferindo grandes lucros para este, até se tornar sócio capitalista de seu benfeitor, conquistando ainda o coração da filha do patriarca, a bela Leonor. A ascensão social do personagem, bem como o casamento, é a reconciliação dos dois paradigmas antagônicos assinalados acima. Representa a conciliação dos setores mais arcaicos das sociedades latino-americanas e os ideais liberais da burguesia ascendente, alavancada pelo dinheiro.       


Para corroborar nossa análise, seria interessante discorrer sobre o conceito de mediação de René Girard (2009). Este autor observa que em grandes obras literárias os personagens muitas vezes são motivados por relações triangulares, isto é, sujeito – modelo (ou mediação) – objeto. D. Quixote é impulsionado pelo modelo de cavalaria encarnado na figura de Amadis e toda a trama do romance se desenrola sob a mediação configurada entre o sujeito e objeto. “A linha reta está presente no desejo de Dom Quixote, porém ela não é o essencial. Acima desta linha, há o mediador que se irradia ao mesmo tempo em direção ao objeto. A metáfora espacial que expressa essa tripla relação é obviamente o triangulo. O objeto muda a cada aventura, mas o triangulo permanece. A bacia de barbear ou as marionetes de Mestre Pedro substituem os moinhos de vento. Amadis, em contrapartida, está sempre presente” (GIRARD, 2009, p. 26).


O vértice mediador em D. Quixote é fácil perceber: o modelo é transcendental e inatingível. Girard denomina este triangulo de mediação externa. Há, porém, um outro tipo de mediação, mais sutil e complexa, que o referido autor chama de mediação interna, que pode ser definida por Girard da seguinte maneira:



“O impulso em direção ao objeto é no fundo impulso na direção do mediador, na metáfora interna, esse impulso é quebrado pelo próprio mediador já que este mediador deseja, ou talvez possua esse objeto. O discípulo, fascinado por seu modelo, vê forçosamente, no obstáculo mecânico que este último lhe impõe, a prova de uma vontade perversa para com ele. Longe de se declarar vassalo fiel, esse discípulo não pensa senão em repudiar os laços da mediação. Esses laços, no entanto, estão mais sólidos do que nunca pois a hostilidade aparente do mediador, longe de lhe diminuir o prestígio, não faz senão aumentá-lo. O sujeito está persuadido de que seu modelo se julga demasiadamente superior a ele para aceitá-lo como discípulo. Então, o sujeito experimenta por esse modelo um sentimento dilacerante formado pela união dos dois contrários que são a mais submissa veneração e o mais intenso rancor. Eis aí o sentimento que chamamos ódio. (Ibidem, p. 34).


De fato, em Martín Rivas, o personagem principal é movido pelo amor de Leonor – que o ama em segredo – contudo, para conquistar sua amada, a ascensão social lhe aparece como condição sine qua non. Isto é, para que seu desejo se concretize, é necessário antes a interposição do pré-requisito fetichista (econômico). O personagem não está altura de sua amada, porque é pobre. O modelo do “homem rico” é o mediador entre o sujeito e o objeto. Já no caso de Leonor é exatamente o amor romântico que surge como obstáculo, pois seu amado é um jovem pobre. Ambas as mediações são internas, pois os personagens se amam de verdade, e, por isso, possuem seu objeto, pelo menos de modo pressuposto, mas tal posse é, ao mesmo tempo, inatingível. Fato que faz da obsessiva mediação um impeditivo, obstruindo a relação direta entre os polos do desejo. O que daí resulta em frustração, rancor e ódio reprimido e inconfessável.


Desse triângulo, que poderíamos dizer estrutural, desdobra-se um triângulo aparente entre personagens. Num primeiro plano, aparece o triângulo de Leonor-Martín-Eldemira; e, num segundo plano, o de Rafael-Matilde-Agustín. 


Tal relação reificada, em que o dinheiro centraliza as circunstâncias pessoais da trama narrativa, é tipicamente moderna. Em Eugênia Grandet, a relações amorosas escondem um jogo de interesses que têm por fundo interesses materiais, ou melhor, financeiros. Os pretendentes da filha de Felix Grandet, Eugênia, cobiçam a herança de Felix, que, por sua vez, também calcula para tirar proveito da situação. Porém, Eugênia se apaixona por seu primo Charles que também lhe jura amor, mas, falido, decide abandoná-la e se aventurar pelo mundo atrás de fortuna até contrair casamento com outra mulher. Eugênia herda a riqueza do pai e recebe uma carta de Charles relatando seus insucessos. Eugenia lhe envia dinheiro – que de certa forma é, ao mesmo tempo, um modo de humilhá-lo e uma admoestação moral à sua cobiça cega – e passa a negociar um casamento com o senhor Cruchot.


No romance Senhora de José de Alencar tal determinante econômico é tão poderoso que os sentimentos são comercializados como qualquer mercadoria. “Para começar, vejamos o desenrolar da história. – Aurélia, moça muito pobre e virtuosa, ama Seixas, rapaz modesto e muito fraco. Seixas pede-a em casamento, mas depois desmancha, em favor de outra que tem um dote. Aurélia herda de repente. Teria perdoado a Seixas a inconstância, mas não lhe perdoa o motivo pecuniário. Sem dizer quem é, manda oferecer ao antigo noivo um casamento no escuro, com dote grande, mas contra recibo. O rapaz, que está endividado, aceita. É onde começa propriamente o enredo principal. Para humilhar o amado e vingar-se, mas também para pô-lo em brios e finalmente por sadismo – de tudo isso há um pouco – Aurélia passa a tratar o marido recém-comprado como uma propriedade: reduz o casamento de conveniência a seu aspecto mercantil, cujas implicações por suprema ofensa vão comandar a trama. A tal ponto, que as quatro etapas da história são chamadas “O preço”, “Quitação”, “Posse”, “Resgate”. Como indica este rigorismo na condução do conflito, enredo e figura são de linhagem balzaquiana” (SCHWARZ, 2007, p. 52).


Outro exemplo que poderíamos citar é romance romântico Amor de Perdição, do escritor português Camilo Castelo Branco, que, inclusive, guarda um paralelo com Martín Rivas, no seguinte aspecto. Também neste romance há dois triângulos amorosos entre os personagens Simão-Teresa-Baltasar e Teresa-Simão-Mariana. Teresa e Simão, oriundos de famílias burguesas, se amam, mas por motivo de uma rivalidade familiar, o pai da moça, Tadeu de Albuquerque, tem planos para que sua filha se case com seu sobrinho fidalgo, Baltasar Coutinho. Diante da recusa de Teresa e do fato da mesma declarar seu amor por Simão, seu pai decide mandá-la para um convento. Após algumas peripécias, Simão mata Baltasar e é condenado ao degredo. Eis que surge o amor incondicional de Mariana, filha de um ferreiro, que lhe presta dedicação integral, mesmo sabendo que Simão ama Teresa (paralelo com Martín e Edelmira). Nota-se, entretanto, que o amor de Teresa e Simão só não foi viabilizado, numa eventual fuga, porque faltava o elemento monetário, descrito de forma exemplar nesta passagem:


E ficou pensando na sua espinhosa situação. Deviam de ocorrer-lhe ideias aflitivas que os romancistas raras vezes atribuem aos seus heróis. Nos romances todas as crises se explicam, menos a crise ignóbil da falta de dinheiro. Entendem os novelistas que a matéria é baixa e plebéia. O estilo vai de má vontade para coisas rasas. Balzac fala muito em dinheiro; mas dinheiro a milhões. Não conheço, nos cinquenta livros que tenho dele, um galã num entre ato da sua tragédia a cismar no modo de arranjar uma quantia com que um usurário lhe lança, desde a casa do juiz de paz a todas as esquinas, donde o assaltam o capital e o juro de oitenta por cento. Disto é que os mestres em romances se escapam sempre. Bem sabem eles que o interesse do leitor se gela a passo igual que o herói se encolhe nas proporções destes heroizinhos de botequim, de quem o leitor dinheiroso foge por instinto, e o outro foge também, porque não tem que fazer com ele. A coisa é vilmente prosaica, de todo o meu coração o confesso. Não é bonito deixar a gente vulgarizar-se o seu herói a ponto de pensar na falta de dinheiro, um momento depois que escreveu à mulher estremecida uma carta como aquela de Simão Botelho. Quem a lesse, diria que o rapaz tinha postadas, em diferentes estações das estradas do país, carroças e folgadas parelhas de mulas para transportarem a Paris, a Veneza, ou ao Japão a bela fugitiva! A estradas, naquele tempo, deviam ser boas para isso, mas não tenho a certeza de que houvesse estradas para o Japão. Agora creio que há, porque me dizem que há tudo.


Pois eu já lhes fiz saber, leitores, pela boca de mestre João, que o filho do corregedor não tinha dinheiro. Agora lhes digo que era em dinheiro que ele cismava, quando Mariana lhe trouxe o caldo rejeitado.


A meu ver, deviam atribulá-lo estes pensamentos:


Como pagaria a hospitalidade de João da Cruz?


Com que agradeceria os desvelos de Mariana?


Se Teresa fugisse, com que recurso proveria à subsistência de ambos?


Ora, Simão Botelho saíra de Coimbra com a sua mesada, que não era grande, e quase lha absorvera o aluguel da cavalgadura, e a gorjeta generosa que dera ao arreeiro, a quem devia o conhecimento do prestante ferrador.


As relíquias desse dinheiro dera-as ele à portadora da carta naquele dia. Má


situação! (CASTELO BRANCO, 2006, pp. 76 e 77).


ANÁLISE


Em Martín Rivas há dois planos sobrepostos. Em destaque, o enredo amoroso entre os personagens citados. Como pano de fundo, aparece o cenário político que se dá num embate entre conservadores e liberais. Também aqui, há uma questão de gênero. Pois o referido embate manifesta-se em reuniões familiares e são protagonizados por pelo casal D. Fidel e Doña Francisca. Embora Francisca seja lúcida e inteligente, seu marido, que não goza das mesmas qualidades, repreende-a a todo momento nos debates sobre as conjunturas políticas, com a justificativa de que mulher não entende de política. Estes dois planos vão coincidir com o episódio histórico do levante liberal em 5 de novembro de 1851. A revolução liberal é o clímax do romance é onde os nós serão desatados, sejam eles políticos (público), sejam sentimentais (privado).


O que interessa aqui, porém, é o primeiro plano, que articula estas contradições conduzindo-as a um desfecho conciliatório.


Como já foi dito repetidas vezes aqui, a questão financeira compreendida como um impedimento para o êxito das relações amorosas de pessoas de classes diferentes é colocada como grau de verdade pelo personagem principal Martín. O diálogo com seu amigo, Rafael San Luis, deixa isso bem claro:


—Porque lo peor que puede suceder a un joven pobre como usted es el enamorarse de una niña rica. Adiós estudios, porvenir, esperanzas exclamó San Luis, empinando con febril entusiasmo un vaso de vino—. Usted me pidió consejos ayer; pues bien, ahí tiene usted uno, y es de los más cuerdos. El amor, para un joven estudiante, debe ser como la manzana del paraíso: fruto vedado. Si usted quiere ser algo, Martín, y le digo esto porque usted parece dotado de la noble ambición que forma los hombres distinguidos, rodee su corazón de una capa de indiferencia tan impenetrable como una roca.


—No pienso enamorarme —contestó Martín—, y tengo para ello muy poderosas razones: entre ellas, la que usted acaba de apuntar. (Martín Rivas, p.36).


Nesta outra passagem e circunstância, na casa de D. Dámaso, uma conversa entre este, seu filho Agustín e Leonor, a opinião acima é endossada por pai e filho:


En casa de don Dámaso habló Martín de su nuevo amigo, a quien Agustín había nombrado.


—Ese mocito es muy intrigante dijo don Dámaso, y busca niña con buena dote.


—Pero, papá —replicó Leonor—, es necesario no ser injusto; yo tengo mejor idea de San Luis.


—Es un parvenido —dijo Agustín—, papá tiene razón. A la época donde estamos, todos quieren plata.


—Y hacen bien, cuando hay pobres que la merecen más que muchos ricos exclamó Leonor.


Para D. Dámaso e Agustín o que está por trás do amor de Rafael por Matilde é o interesse material pura e simplesmente. Leonor replica e acredita na pureza dos sentimentos que Rafael nutre por sua prima. Ironicamente, o próprio Rafael, como já ficou explícito na citação anterior, compartilha da opinião de D. Dámaso e Agustín, sendo taxativo na impossibilidade da realização de uma paixão entre um rapaz pobre e uma moça rica. Já Martín Rivas, que ama Leonor, longe de lutar contra as convenções sociais, compactua com a opinião masculina, aceita-a e resignando-se a um conformismo estoico.


—¡Cuidado, Martín!, no olvides mi consejo. El amor, para un estudiante pobre, debe ser como lamanzana del paraíso: si lo pruebas, te perderás.  (p. 40).


(...)


—Es verdad —dijo Martín.


—Por eso te decía que tu mal no es irreparable, puesto que no eres amado; todavía puedes olvidar.


—¡Olvidar cuando el amor principia no es fácil! —exclamó Rivas —prefiero sufrir.


—Trata de amar a otra, entonces.


—No podría. Además, mi pobreza me cierra las puertas de la sociedad o a lo menos me enajena su consideración


—Fue lo que me sucedió —dijo Rafael. (...) (pp. 72 e 73).


Isso é expresso sem meias palavras por Martín a Leonor, sua amada, quando esta o questiona acerca de seus sentimentos. Para Martín, o amor é apenas um complicador, gerador de sofrimento, e, por isso, melhor seria renunciar a seus encantos, que, como sempre, estão condicionados à materialidade.

  
—¿Está usted enamorado?


Martín no pudo ocultar la sorpresa que semejante pregunta le causaba, ni tampoco el deseo irresistible que le arrastró a manifestar a Leonor que en el pecho de un pobre y oscuro joven de província podía alentar un corazón digno de los elegantes que siempre la habían rodeado.


—Una persona en mi posición —dijo— no tiene derecho a estarlo; pero sí puede creer en el amor como en una esperanza que le dé fuerza para la lucha a que la suerte le destina.


(...)


—¿De dónde nace entonces la fe que usted acaba de manifestar? Usted dice que cree en el amor.


—Mi fe se funda en mi propio corazón; hay algo que me dice con frecuencia que no está formado para latir únicamente por el curso regular de la sangre; que la vida tiene un lado menos material que las especulaciones con que todos buscan el dinero; que en los paseos, en el teatro, en las tertulias, el alma del joven va buscando otro placer que el de mirar, que el de oír o que el de conversaciones más o menos insípidas.


—Y ese placer, ese algo desconocido lo llama usted amor. ¿No es así?


—Y creo que el que desconoce su existencia— replicó Martín con cierto orgullo—, o ha nacido con una organización incompleta, o es más feliz que los demás. (p. 81).


(...)


Las últimas palabras de Leonor le dejaron aterrado y decían bien claro que a sus ojos ni el corazón ni la inteligencia podían tener valor ninguno si no iban a acompañados por la riqueza o un distinguido nacimiento. (p.83).


Num diálogo entre Leonor e sua prima Matilde, esta suspeita que Leonor está apaixonada por Martín e argumenta que pobreza não significa nada quando duas pessoas se amam; ela própria, Matilde, é apaixonada por Rafael, que não goza de uma situação financeira muito melhor do que Martín.


—¡Ah! ¿Estás enamorada?


En la viveza con que esta pregunta fue hecha por Matilde veíase que por un momento la mujer vencía a la amante, la curiosidad al placer de hablar de su amor.


Leonor contestó con igual viveza, pero poniéndose colorada:


—¡Yo! no, hijita.


—Mientes.


—¿Por qué?


—No eres ahora, Leonor, lo que eras antes. ¿Cuándo estabas nunca pensativa como ahora te veo muchas veces? Dime, no seas reservada. Mira que yo a veces soy adivina. ¿Cuál de los dos, Clemente o Emilio?


Leonor no contestó más que avanzando ligeramente el labio inferior con magnífico desdén.


Matilde nombró, entonces, a muchos de los elegantes de la capital, y obtuvo la misma contestación. Por fin añadió en tono de exclamación:


—¿Será Martín?


—¡Oh! ¡Qué locura!


Las mejillas de Leonor se encendieron con vivísimo encarnado.


—¿Y por qué no? —repuso Matilde—: Martín es interesante.


—¿Te parece? —preguntó Leonor, fingiendo la más absoluta indiferencia.


—Yo lo encuentro así, y ¿qué tiene que sea pobre? (p. 233).


Numa conversa, desta vez entre Leonor, seu irmão Agustín e Martín, o embate de gênero é ainda mais reforçado. Agustín insinua que há bons pretendentes para a irmã, isto é, ricos, que estão interessados nela. Leonor, porém, é enfática: “¡Qué me importan los ricos!” Perante esta exclamação, Agustín questiona: “¿Preferirías algún pobre, hermanita?” A esta pergunta, ela deixa entender que sim. Então o irmão retruca: “Não compreende o nosso tempo”. Leonor responde: “Hay muchas cosas que pueden valer más que la riqueza”. Ao ser inquerido, Rivas afirma que a riqueza é não só uma necessidade mas um pressuposto do amor: “Cuando un hombre, por ejemplo, considera la riqueza como un medio para llegar hasta la que ama”. Esta mercantilização dos sentimentos e a reificação das relações humanas, principalmente, envolvendo sexo feminino, tratado como mero objeto ou mercadoria, é veementemente contestado por Leonor: “Pobre idea tiene usted de la mujeres, Martín”.


—Los franceses —añadió Agustín— dicen: l'amour fait rage et l'argent fait mariage; pero aquí el amor hace de los dos: rage et mariage.


—Creo que ahora es la niña más feliz de Santiago —repuso Leonor.


—¿Por qué no la imitas, hermanita? —dijo Agustín—; tú puedes ser tan feliz como ella cuando quieras, ¿no tienes dos elegantes enamorados?


Martín fijó en la niña una mirada profunda y palideció.


—¿Dos no más? —preguntó riéndose, Leonor.


Con estas palabras, la palidez de Martín cambió de repente en vivo encarnado.


—Cuando digo dos —replicó Agustín—, hablo de los que más te visitan, mi toda bella; ya sabemos que puedes elegir entre los más ricos, si quieres.


—¡Qué me importan los ricos! —exclamó con desdeñoso tono Leonor.


—¿Preferirías algún pobre, hermanita?


—Quien sabe.


—No comprendes el siglo, entonces; te compadezco.


—Hay muchas cosas que pueden valer más que la riqueza —dijo la niña.


—Grave error, ma charmante; la riqueza es una gran cosa.


—¿Y usted piensa lo mismo que Agustín? —preguntó Leonor, dirigiéndose a Rivas.


—Pienso que en ciertos casos puede ser una necesidad —contestó Martín.


—¿En qué casos?


—Cuando un hombre, por ejemplo, considera la riqueza como un medio para llegar hasta la que ama.


—Pobre idea tiene usted de la mujeres, Martín —díjole la niña en tono serio, no todas se dejan fascinar por el brillo del oro.


—Sí, pero todas rafolan por el lujo —exclamó Agustín.


—Me he puesto en el caso de un hombre oscuro y que aspire muy alto —repuso Martín com resolución.


—Si ese hombre vale por sí mismo —replicó Leonor—, debe tener confianza en hallar quien le comprenda y aprecie; usted es muy desconfiado.


Estas palabras las dijo Leonor levantándose del piano y en circunstancias que Agustín se acababa de alejar.


—Desconfío —dijo Martín— porque me encuentro tan oscuro como el hombre que he puesto por ejemplo.


—Ya ve usted que para mí —le contestó la niña con voz conmovida— la riqueza no es uma recomendación, y hay muchas como yo. (pp. 237 e 238).


No triângulo amoroso, por assim dizer, Rafael se torna noivo de Matilde graças a um acordo de arrendamento de uma propriedade entre o tio deste e o pai de Matilde, D. Fidel. No entanto, o noivado não dura muito, pois Rafael teve um envolvimento com uma moça pobre, engravidando-a e abandonado ela e a seu filho. O caso vem à tona e o noivado é rompido. Num diálogo entre Agustín, Leonor e Martin sobre o rompimento de Rafael e Matilde, Leonor deixa claro a divergência entre a concepção feminina e masculina: “Nenhum homem é capaz de amar”.


—¿Y qué devendrá Rafael con esto? —preguntó el elegante, encendiendo un cigarro puro yo freciendo otro a Martín.


—Se ha ido esta mañana muy temprano a la Recoleta —dijo Rivas.


—¡Es romántico eso! Le compadezco de todo mi corazón —exclamó Agustín.


—Me dejó una carta; está desesperado —añadió Martín.


—No comprendo esa desesperación —dijo Leonor—, cuando podía distraerse con otros amores como lo ha hecho ya.


—Hermanita, hay amores y amores —repuso Agustín—, es necesario no confundir.


—¡Ah!, no sabía —replicó Leonor.


—Se puede amar por gusto y por pasión —continuó el elegante.


—Lo que veo —dijo Leonor, mirando fijamente a Rivas— es que no hay hombre capaz de amar. (p. 258).


Esta divergência é posta a exaustão. Rafael especula se Martín seria capaz de declarar o seu amor a Leonor. Aquele novamente coloca a questão de classes sociais no centro da conversa:

—Estoy seguro que aunque vivas con ella otro tiempo igual al que has pasado en la casa, nunca te atreverás a declararle tu amor.


—Si no fuese tan rica y no debiese a su padre tantas atenciones, tal vez me atrevería contesto Rivas. (p. 308).


Martín só se declara numa situação extrema, durante o levante liberal de 5 de novembro quando ele próprio toma parte ao lado dos liberais. Mas o faz por carta. Feito prisioneiro, condenado à pena capital, e, por outro lado, sabendo de que era correspondido por Leonor, a impossibilidade do amor torna-se finalmente possível. Como foi dito acima, ao citar Girard, a mediação interna permeava toda a trama e era um fato consumado. O que separava Martín e Leonor era o modelo que ambos tomavam para si como meta do desejo. Durante todo tempo, estiveram ligados por uma forte paixão sem poder, no entanto, realizá-la. No momento em que Martín parece estar perdido, as mediações se desfazem:

—Hemos sido muy locos, Martín —díjole la niña, perdiendo su mirada en el ardiente reflejo de los ojos con que él la contemplaba extasiado—. ¿No nos habíamos dicho varias veces con los ojos que nos amábamos? Ah, es muy cierto. Usted tiene siempre razón; yo he tenido la culpa. De todos los hombres que me rodeaban, usted, el de más humilde posición, me parecía el más noble y tenía miedo de confesarme a mí misma la preferencia de mi corazón; pues bien, desde ahora sabré enmendarme, porque su amor me enorgullece.


—No sé si soy el más digno de su amor —dijo Martín—, pero aseguro sí que soy el más amante. ¿Qué poder tenía yo para defenderme de su belleza? Me dejé vencer por ella sin preguntarme lo que podía esperar, y cuando quise combatir, me hallaba ya sin fuerzas contra la pasión que se había apoderado de mi pecho. Desde entonces nada pudo arrancarla ya del corazón: ni el sentimiento de dignidad ni la falta de esperanza ni el desdén con que usted a veces recibía mis miradas; así fue que esta mañana jugaba com placer mi vida, porque me creía despreciado por usted y veía que sólo la muerte podía extinguir mi amor. (p. 326).


Leonor e Agustín planejam a fuga de Rivas, contando com Edelmira, que amava abnegadamente Martín, e seu irmão, o ganancioso e corrupto Amador, guarda da prisão. A fuga é bem sucedida. Leonor convence seu pai a ajudar Martín e declara seu amor pelo rapaz. Diante das objeções de D. Dámaso, Leonor, enfim, cede as determinações econômicas, afirmando que Martín tem caráter e firmeza para se tornar um homem rico.


—No debías hacer esa confesión.


—¿Y por qué no? Martín, aunque pobre, tiene alma noble, elevada inteligencia; esto basta para justificarme. ¿Preferiría usted que ocultase lo que siento? ¿No son ustedes los naturales depositarios de mi confianza?


(...)


Leonor prosiguió:


—Usted sabe, papá, que Martín es un joven de esperanza: usted mismo lo ha dicho muchas veces; es también de muy buena familia no le falta, por consiguiente, más que ser rico, y estoy segura de que, con las aptitudes que usted le reconoce, nunca será pobre (...). (p. 333).


É o que se passa. O romance termina com uma carta de Martín para sua irmã, relatando os auspícios de sua história de amor.


Cinco meses de ausencia, mi querida Mercedes, parece que en vez de entibiar han aumentado el amor profundo que alimenta mi pecho. He vuelto a ver a Leonor, más bella, más amante que nunca. La orgullosa niña, que saludó con tan soberano desprecio al pobre mozo que llegaba de una provincia a solicitar el favor de su familia, tiene ahora para tu hermano tesoros de amor que le deslumbran y hacen caer de rodillas ante su mirada angelical. Son los mismos ojos cuya mirada bastaba para hacerme palidecer los que me prestan ahora sus divinos fulgores para lanzar mi alma palpitante en las indefinibles regiones de la pasión más pura y más ardiente a un mismo tiempo; es la misma frente majestuosa que se inclina ahora ante mis ojos con la poética sumisión de amorosa solicitud; los mismos rosados labios, desdeñosos antes, que ahora me sonríen y articulan los castos juramentos que afianzarán nuestra unión; es en fin, querida mía, la bella la imponente Leonor de antes, figurada por la misteriosa influencia del amor.


Conclusão


Embora há um antagonismo entre concepções representadas pelas diferenças de gênero, toda a possibilidade da realização amorosa está assentada na questão econômica. Mesmo quando Leonor ou Matilde negam sua importância, a reificação está presente e é central, ainda que de modo pressuposto. O dinheiro é nexo da trama articulando todas as contradições até uma conciliação positiva. No romance Martín Rivas, somente dentro de uma esfera bem definida – a classe dominante – há vencedores.


Bibliografia


BLEST GANA, A., “Martín Rivas” (extraído da internet).


CASTELO BRANCO, C., “Amor de perdição”, São Paulo: Martin Claret, 2006.


GIRARD, R., “Mentira romântica & verdade romântica”, São Paulo: Realizações, 2009.


LUCÁCS, G., “Ensaios sobre literatura”, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.


SCHWARZ, R. “Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro”, São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2007.


Trabalho para aula de "Romance hispânico-americano", Letras - USP