A obra Péricles, Príncipe de Tiro, de William Shakespeare, marca o início da fascinante fase de transição do Bardo em direção aos chamados "romances tardios" ou comédias trágicas. Escrita em colaboração com o dramaturgo George Wilkins por volta de 1607 e 1608, é uma das peças mais singulares do repertório shakespeariano. Distante da estrutura concentrada de tragédias como Hamlet ou Macbeth, a obra acompanha uma trajetória marcada por viagens, naufrágios, separações, mortes aparentes, reconhecimento e reencontro. Seu movimento narrativo atravessa diferentes lugares e períodos de tempo, fazendo da própria passagem dos anos um dos elementos fundamentais da história.
Baseada em uma tradição narrativa muito mais antiga, especialmente nas aventuras de Apolônio de Tiro, Péricles combina romance, conto de aventuras, drama familiar e elementos próximos à literatura de peregrinação. O resultado é uma peça em que o sofrimento não conduz necessariamente à destruição. Ao contrário de muitas tragédias, a adversidade pode ser seguida pela restauração dos vínculos perdidos. A obra, portanto, interessa não apenas pela sucessão extraordinária de acontecimentos, mas também pela maneira como Shakespeare explora a fragilidade da existência e a possibilidade de reconstrução.
Embora tenha enfrentado oscilações de popularidade ao longo dos séculos, Péricles foi um sucesso estrondoso em sua época de estreia. Com uma narrativa que se assemelha aos antigos contos de fadas e às lendas medievais, a peça explora a resiliência do espírito humano diante das vicissitudes da sorte e da providência divina.
1. A Estrutura Épica de Péricles, Príncipe de Tiro, de William Shakespeare
Ao contrário das tragédias urbanas ou dos dramas de corte tradicionais, Péricles adota uma estrutura itinerante e episódica. A trama é guiada por um narrador especial: o poeta medieval John Gower, que surge no palco para conectar os diferentes atos e locais da história.
A estrutura narrativa de Péricles
A peça começa de maneira particularmente sombria. Péricles, príncipe de Tiro, descobre um segredo terrível relacionado ao rei Antíoco e à filha deste. A descoberta coloca sua própria vida em perigo e o obriga a fugir. A partir daí, a narrativa abandona uma trajetória linear e passa a acompanhar o protagonista por diferentes reinos e mares.
Uma história construída como viagem
A viagem é o princípio organizador de Péricles. O protagonista está constantemente em movimento, e cada deslocamento produz uma nova transformação em sua vida. Entre os principais episódios estão:
- a fuga de Tiro;
- a participação em um torneio em Pentápolis;
- o casamento com Thaisa;
- o nascimento da filha, Marina;
- o naufrágio durante uma viagem;
- a separação entre pai, mãe e filha;
- a passagem dos anos;
- o reencontro da família.
Essa estrutura episódica aproxima a peça de narrativas de aventuras e romances antigos. Em vez de concentrar a ação em um único conflito, Shakespeare constrói uma sucessão de provações que testam a resistência de seus personagens.
Péricles e a experiência da adversidade
Péricles não é apresentado como um herói conquistador no sentido tradicional. Sua trajetória é sobretudo uma experiência de perda e sobrevivência. Ele precisa abandonar sua terra, enfrentar perigos no mar, perder pessoas que ama e suportar a crença de que sua família foi destruída.
A água desempenha, nesse percurso, uma função simbólica especialmente importante. O mar separa pessoas, destrói certezas e conduz personagens para destinos inesperados. Ao mesmo tempo, é por meio das viagens marítimas que a narrativa consegue aproximar novamente aqueles que haviam sido separados.
O Enigma Mortal de Antioquia
A jornada do jovem Péricles começa na cidade de Antioquia. Em busca de uma esposa, o príncipe resolve decifrar o enigma proposto pelo Rei Antíoco para obter a mão de sua filha:
O Desafio: Quem solucionasse o enigma casaria com a princesa; quem falhasse seria executado.
A Revelação: Péricles decifra a charada e descobre um segredo terrível: o caso de incesto entre o rei e a própria filha.
A Fuga: Consciente de que Antíoco o mataria para proteger o segredo, Péricles foge de Antioquia, dando início a uma longa peregrinação pelo Mediterrâneo.
Naufrágios e o Amor em Pentápole
Durante suas viagens, tempestades violentas destroem a frota de Péricles. Lançado às costas de Pentápole como o único sobrevivente de um naufrágio, o príncipe é acolhido por pescadores e participa de um torneio de cavaleiros organizado pelo Rei Simonides.
Graças à sua nobreza e habilidade, Péricles vence a competição e ganha o coração da virtuosa princesa Tarsa (Thaisa). Os dois se casam em um clima de festa e esperança, mas o destino logo reserva novas provações.
[ A Trajetória de Péricles ]│┌───────────────────────┴───────────────────────┐▼ ▼[ O Desafio e a Fuga ] [ As Provações no Mar ]Enigma em Antioquia Naufrágio em PentápoleDescoberta do Incesto Casamento com Tarsa (Thaisa)│ │└───────────────────────┬───────────────────────┘▼[ A Perda e a Redenção Final ]Morte Presumida de Tarsa e MarinaReencontro e Intervenção de Diana
2. O Calvário de Marina e a Restauração da Família
A segunda metade de Péricles, Príncipe de Tiro, foca na dor da separação familiar e na jornada da nova geração.
O mar como força do destino
Em Péricles, o oceano parece representar uma dimensão da existência que escapa ao controle humano. Os personagens fazem planos, mas tempestades, naufrágios e circunstâncias inesperadas alteram continuamente seus destinos.
Essa característica confere à peça uma atmosfera quase lendária. O protagonista não controla inteiramente sua trajetória. Ele precisa aprender a atravessar acontecimentos que não pode evitar, aguardando a possibilidade de que a situação se transforme.
A Escuridão no Mar e o Nascimento de Marina
Quando Tarsa fica grávida, o casal decide retornar a Tiro. Uma tempestade avassaladora atinge o navio em alto-mar, e Tarsa dá à luz uma menina, chamada Marina justamente por ter nascido no oceano. Acreditando que Tarsa faleceu durante o parto, os marinheiros exigem que seu corpo seja lançado ao mar dentro de um caixão selado para acalmar a fúria das águas.
Entregue ao mar, o caixão de Tarsa flutua até a costa de Éfeso, onde o sábio médico Cerimon consegue reanimá-la. Acreditando ter perdido o marido e a filha, Tarsa torna-se uma sacerdotisa no Templo de Diana.
A Virtude Inabalável de Marina
Marina ocupa posição central. Ela nasce em circunstâncias dramáticas e é separada dos pais ainda muito jovem. Sua trajetória constitui uma espécie de segundo eixo narrativo da obra.
Péricles deixa a pequena Marina sob os cuidados dos governantes de Tarso, Cleon e Dionyza. Anos mais tarde, enciumada pela beleza de Marina se sobrepor à de sua própria filha, Dionyza encomenda o assassinato da jovem. Entretanto, Marina sobrevive e desenvolve uma personalidade marcada pela inteligência, pela dignidade e pela capacidade de resistir às circunstâncias adversas.
Antes que seja morta, Marina é capturada por piratas e vendida a um bordel na cidade de Mitilene. No entanto, sua pureza, eloquência e virtude são tão extraordinárias que ela consegue converter todos os clientes do local à moralidade, tornando-se uma figura respeitada e educadora na cidade.
A força da palavra
Marina não depende da força física para enfrentar aqueles que tentam destruí-la. Sua principal arma é a linguagem. Em momentos decisivos, ela consegue transformar situações de violência por meio da conversa, da memória e da capacidade de despertar a consciência dos outros.
Esse aspecto é particularmente significativo em uma peça que trata tantas vezes da impotência humana diante das circunstâncias. Marina demonstra que a palavra também pode produzir transformação. Seu discurso não é mero ornamento literário: ele interfere diretamente no curso dos acontecimentos.
3. Thaisa e o tema da morte aparente
Thaisa, esposa de Péricles, participa de um dos episódios mais característicos da peça. Durante uma tempestade, ela aparentemente morre após dar à luz Marina. Péricles, acreditando ter perdido a esposa, ordena que seu corpo seja lançado ao mar.
Entretanto, a morte de Thaisa não é definitiva. Ela é levada a Éfeso e posteriormente se torna sacerdotisa no templo de Diana.
A utilização da morte aparente é fundamental para a arquitetura dramática de Péricles. O público acompanha uma história em que aquilo que parece definitivo pode ser apenas uma interrupção. Pessoas consideradas mortas continuam vivas; relações aparentemente destruídas podem ser reconstruídas; identidades podem permanecer ocultas até o momento do reconhecimento.
4. Reconhecimento e reencontro
O reconhecimento é talvez o mecanismo dramático mais importante da parte final da peça. Depois de anos de sofrimento, Péricles encontra Marina sem inicialmente compreender quem ela é. A revelação de sua identidade provoca uma transformação emocional profunda no protagonista.
O reencontro entre pai e filha é acompanhado pela recuperação da esperança. Posteriormente, Péricles também reencontra Thaisa, completando a restauração da família.
A memória contra o esquecimento
A memória possui uma função decisiva nesse processo. Péricles vive durante muito tempo sob o peso da perda, enquanto Marina precisa reconstruir sua identidade a partir de fragmentos de sua origem.
O reconhecimento funciona, assim, como uma recuperação da história pessoal. Os personagens não apenas descobrem quem são uns para os outros; recuperam também partes de suas próprias vidas que pareciam definitivamente perdidas.
5. O papel de Gower
Um dos elementos mais incomuns da peça é a presença de Gower, personagem que funciona como narrador e intermediário entre os diferentes episódios. Ele apresenta acontecimentos, resume passagens temporais e ajuda a estabelecer uma continuidade entre partes da história que poderiam parecer desconectadas.
Um narrador entre palco e público
Gower possui uma função quase épica. Em vez de deixar que tudo seja dramatizado diretamente, ele pode contar ao público acontecimentos que ocorreram fora de cena ou durante longos intervalos de tempo.
Isso permite que Péricles atravesse décadas sem precisar representar cada etapa da vida de seus personagens. A narrativa adquire, desse modo, uma dimensão de crônica ou lenda.
6. Temas Centrais na Obra de Shakespeare
A riqueza filosófica e poética de Péricles, Príncipe de Tiro, de William Shakespeare, reflete-se na forma como o autor retrata o sofrimento e a graça.
A Roda da Fortuna e a Providência: Os personagens são constantemente jogados pelo mar — um símbolo vivo da incerteza da vida humana. Apenas a paciência e a integridade garantem a sobrevivência moral.
A Virtude como Escudo: Tanto Péricles quanto Marina enfrentam ambientes de profunda corrupção (o incesto de Antioquia e a imoralidade do bordel em Mitilene), mas sua pureza interna permanece inatingível.
A Música das Esferas e o Milagre: Quando Péricles, cético e consumido pela dor, reencontra a filha e a esposa através da intervenção da deusa Diana, ele escuta uma "música celestial". O momento simboliza a harmonia restaurada após o caos.
7. Shakespeare e a tradição do romance
Péricles pertence a uma tradição literária muito anterior ao teatro elisabetano. A história de Apolônio de Tiro circulava em diferentes versões desde a Antiguidade e a Idade Média. Shakespeare aproveita esse material e o transforma em drama, incorporando convenções narrativas que não são predominantes em suas tragédias mais conhecidas.
Por isso, a peça apresenta características que podem parecer estranhas quando comparadas com Rei Lear, Otelo ou Macbeth. Há grandes saltos temporais, acontecimentos extraordinários, coincidências, personagens que desaparecem e reaparecem e uma forte presença do acaso.
Esses elementos não constituem necessariamente falhas de construção. Eles fazem parte da lógica do romance de aventuras, gênero no qual a separação e o reencontro são componentes fundamentais.
8. Entre tragédia e esperança
Apesar da quantidade de mortes, ameaças e separações, Péricles não se encaminha para o pessimismo absoluto. Seu movimento é diferente daquele das grandes tragédias de Shakespeare. O sofrimento existe, mas não representa necessariamente o último estágio da existência.
A peça apresenta uma visão na qual o tempo pode alterar radicalmente aquilo que parece irreversível. A perda pode ser seguida pela descoberta; o isolamento pode terminar em reencontro; o desespero pode dar lugar à recuperação dos laços familiares.
Isso não significa que o sofrimento seja simplesmente apagado. Péricles envelhece carregando suas perdas, e os acontecimentos deixam marcas profundas nos personagens. A restauração final possui valor justamente porque acontece depois de uma longa experiência de dor.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Péricles foi escrito integralmente por William Shakespeare?
A crítica literária moderna concorda que a peça é uma obra colaborativa. Os dois primeiros atos foram escritos predominantemente por George Wilkins (um dramaturgo e romancista da época), enquanto os atos III, IV e V apresentam a linguagem inconfundível, poética e madura de William Shakespeare.
Por que a peça não foi incluída no First Folio de 1623?
A ausência de Péricles na primeira coletânea das obras de Shakespeare (o First Folio) provavelmente deveu-se a problemas de direitos autorais ou ao fato de ser uma autoria compartilhada. No entanto, a peça foi publicada em edições Quarto individuais durante a vida de Shakespeare, confirmando seu enorme sucesso de público.
Quem é John Gower na peça?
John Gower foi um poeta inglês do século XIV, contemporâneo de Geoffrey Chaucer, que escreveu o poema Confessio Amantis — uma das principais fontes históricas usadas por Shakespeare e Wilkins para criar o enredo de Péricles. Colocá-lo como o chorus/narrador no palco foi uma homenagem à fonte original da história.
Conclusão
Através de uma vibrante tapeçaria de viagens, tempestades e milagres, Péricles, Príncipe de Tiro, de William Shakespeare, permanece como um tributo à esperança e ao poder da restauração. Ao provar que a virtude e a paciência podem triunfar mesmo contra o mar mais revoltoso, a obra estabelece-se como um dos testemunhos mais comoventes da genialidade do Bardo no teatro ocidental.
(*) Notas sobre a ilustração:
A imagem mostra uma cena teatral da peça "Péricles, Príncipe de Tiro" (Pericles, Prince of Tyre), obra dramática atribuída a William Shakespeare e George Wilkins.
Elementos de Destaque na Cena
Personagem Principal: No centro do palco, o ator interpreta Péricles, vestindo trajes nobres de estilo elizabetano/renascentista — túnica ornamentada com bordados dourados, capa escura decorada e um chapéu com pena
. Ele segura um pergaminho enrolado e tem uma espada embainhada na cintura . Cenário do Navio: O cenário reproduz o convés de uma embarcação de madeira, completo com mastro, cordagens, amuradas e tripulantes ao fundo
. Iluminação e Clima: O fundo traz tons frios e azulados que simulam o mar aberto sob um céu tempestuoso
. Essa ambientação reflete um dos temas centrais da peça: as viagens marítimas, tempestades e naufrágios que marcam a jornada de Péricles pelo Mediterrâneo.

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