Antes de adentrarmos a selva escura e luminosa de As Bacantes, a última e talvez mais enigmática tragédia de Eurípides, é preciso deixar de lado qualquer expectativa de consolo ou de lição moral bem comportada, pois esta peça não é um drama sobre deuses benfazejos ou heróis redimidos, mas uma experiência ritual que nos arrasta para o coração pulsante do sagrado em sua forma mais ambígua e aterradora; nela, o próprio Dioniso desce à cena não como uma alegoria poética, mas como uma força viva e incontrolável que exige reconhecimento e cobra com violência desmedida a insolência dos que o negam, e o que se desenrola diante de nossos olhos é ao mesmo tempo um êxtase libertador e um pesadelo de sangue, uma celebração da vida instintiva e um testemunho da crueldade divina, e é precisamente nessa tensão irresolvida que reside a genialidade de Eurípides, que, nos estertores de sua carreira, parece ter compreendido que a verdadeira tragédia não está em escolher entre a razão e a loucura, mas em reconhecer que ambas habitam o mesmo solo humano e que a repressão de uma é a semente da explosão da outra.
Ao longo do texto que se segue, convido você a percorrer comigo os caminhos tortuosos do monte Citéron, a ouvir o coro das bacantes e a sentir o terror de Penteu diante do estrangeiro de cabelos longos e olhos insondáveis, porque As Bacantes não é uma peça para ser compreendida com o intelecto, mas vivida com o corpo, e sua mensagem, se é que há uma, só pode ser capturada na experiência estética e emocional, na vertigem diante do abismo que se abre quando o mundo ordenado da polis se choca com a força telúrica do delírio e da metamorfose. Encenada postumamente em 405 antes da era cristã, provavelmente sob a direção de seu filho ou de um colaborador próximo, As Bacantes chega até nós como uma das obras mais enigmáticas, perturbadoras e profundamente religiosas de todo o teatro grego, e sua força reside justamente na ambivalência radical com que o dramaturgo aborda a natureza do divino, os limites da razão humana e a vingança implacável de um deus que exige reconhecimento sob pena de aniquilamento.
Se em Medeia tínhamos a fúria de uma mulher que se faz justiça com as próprias mãos e em As Troianas o luto passivo das vítimas da guerra, aqui somos confrontados com o próprio deus em cena, Dioniso, que desce do Olimpo sob a forma de um jovem andrógino e estrangeiro para reivindicar sua divindade em Tebas, a cidade que o renegou. Essa presença cênica do sobrenatural, que Eurípides raramente utilizava de modo tão direto, confere à peça uma atmosfera de ritual e possessão que a distingue de todas as suas outras tragédias, pois o coro, composto por bacantes vindas da Ásia, não é apenas um elemento decorativo, mas a própria encarnação do delírio dionisíaco, entoando hinos de êxtase e louvor enquanto a trama se desenrola num crescendo de ironia trágica que culmina no despedaçamento de Penteu, o jovem rei de Tebas, por sua própria mãe, Ágave, num ato de violência tão atroz que a mente humana recua diante dele. No entanto, essa carnificina é apresentada como obra divina, como castigo merecido para quem ousou negar a natureza instintiva e irracional que habita todo ser humano, e essa tensão entre a aparente crueldade do deus e a necessidade de seu culto é o que torna As Bacantes um texto inesgotável, pois Eurípides não toma partido nem condena nem absolve, ele simplesmente mostra o que acontece quando uma civilização reprime com demasiada violência as forças telúricas que a constituem, e o faz com uma lucidez que antecipa Freud e Nietzsche, a psicanálise e a filosofia da vida, revelando que o recalque do instinto não leva à virtude, mas ao delírio e à explosão incontida.
A peça se abre com Dioniso, filho de Zeus e da mortal Sêmele, apresentando-se diante do palácio de Tebas, a cidade que assistiu à destruição de sua mãe e que agora, sob o governo de Penteu, recusa-se a reconhecer sua linhagem divina. O deus, com uma calma que mais assusta do que tranquiliza, anuncia sua vingança: as mulheres de Tebas, enlouquecidas por seu poder, abandonaram seus lares e teares para correr as montanhas, vestidas com peles de cervo, empunhando tirso e dançando em êxtase sob a luz da lua. Essa imagem das bacantes, que o coro descreve com uma poesia hipnótica, é ao mesmo tempo libertadora e aterradora, porque elas não são mais esposas nem mães, mas criaturas selvagens que transcenderam as fronteiras da polis e das convenções sociais, e nesse transe coletivo reside o perigo que Penteu, com sua racionalidade estreita e seu autoritarismo juvenil, não consegue compreender.
O rei, neto de Cadmo e herdeiro de uma linhagem que já testemunhou o poder dos deuses, insiste em tratar Dioniso como um charlatão, um feiticeiro oriental que veio corromper as mulheres com sua música e seu vinho, e o diálogo entre os dois personagens é um confronto de mundos incompatíveis, porque Penteu fala a linguagem da lei, da ordem militar e da razão instrumental, enquanto Dioniso responde com paradoxos, com a promessa de prazer e com a ameaça velada de que a dor será tão maior quanto mais violenta for a resistência. Esta incomunicabilidade trágica, que lembra o embate entre Creonte e Antígona, mas com uma dimensão metafísica que a torna mais absoluta, é o motor da ação, pois cada tentativa de Penteu de prender o deus ou seus seguidores resulta em humilhação e fracasso, como na célebre cena em que o palácio treme e as correntes se rompem, e Dioniso, que se deixara aprisionar voluntariamente, ri da ingenuidade do rei que imagina poder conter o sagrado com grilhões de ferro.
O ponto de virada da peça ocorre quando Dioniso, assumindo o controle da situação, convence Penteu, com uma habilidade retórica demoníaca, a disfarçar-se de mulher para espiar as bacantes no monte Citéron, e essa proposta, que o rei aceita com uma curiosidade mórbida que revela seu próprio fascínio reprimido pelo que ele condena, é o momento de maior ironia trágica de todo o teatro euripidiano. Penteu, que passou a vida inteira combatendo a efeminação e a desordem, agora se veste com a túnica e a peruca das mênades, e nessa transvestimenta grotesca ele se torna o que mais odiava, expondo a fragilidade de sua identidade masculina e a profunda ambiguidade de seu desejo. Dioniso, guiando-o pelo caminho que leva à morte, age como um psicopompo perverso que conduz a vítima ao altar do sacrifício, e quando as bacantes, enlouquecidas pela presença do deus, confundem o rei com um leão montês e o atacam com as mãos nuas, é a própria Ágave, sua mãe, quem o agarra pelos cabelos e o despedaça, arrancando-lhe os braços e a cabeça num frenesi que ela crê ser uma caçada gloriosa. A cena, que Eurípides não mostra em palco, mas narra com uma precisão horrorosa através de um mensageiro, é o ápice da tragédia, porque nela a natureza se inverte completamente: a mãe mata o filho, a civilização é devorada pela barbárie, a ordem é substituída pelo caos, e tudo isso acontece sob o olhar impassível do deus que, uma vez satisfeita sua vingança, revela-se em sua forma verdadeira, com todo o esplendor e toda a terrível indiferença que caracteriza os imortais.
Quando Ágave retorna ao palácio, ainda possuída, carregando a cabeça de Penteu como um troféu de caça, e começa a exibir sua presa para o pai Cadmo, o reconhecimento gradual da verdade é uma das passagens mais dolorosas da literatura ocidental, pois a loucura se dissipa lentamente, e a mãe, ao perceber que o rosto que segura é o do próprio filho, desaba num grito que não encontra palavras. Nesse momento, Eurípides atinge uma profundidade psicológica que poucos dramaturgos conseguiram igualar, porque a dor de Ágave não é apenas a dor de quem matou, mas a dor de quem descobriu que a liberdade que julgava ter alcançado nas montanhas era, na verdade, a mais cruel das servidões, e que seu êxtase era apenas o instrumento de uma justiça divina que não se importa com o sofrimento humano. Cadmo, o velho fundador de Tebas, que já vira seus netos morrerem e sua cidade em ruínas, profere então um lamento que resume toda a teodicéia da peça, pois ele reconhece que Dioniso é de fato um deus, mas não um deus benevolente, e que a punição, embora merecida segundo a lógica do Olimpo, ultrapassa em muito qualquer falta cometida.
A desproporção entre o crime e o castigo é o que torna a tragédia tão angustiante, porque não há apelo possível, não há mediação, não há misericórdia, apenas a lei inflexível do divino que exige ser adorado sob pena de aniquilação. A figura de Dioniso, tal como Eurípides a concebe, é talvez a mais complexa de todo o panteão grego, porque ele não é nem o deus benfazejo das festas e do vinho, nem o deus cruel das tragédias arcaicas, mas uma síntese contraditória de ambos, que oferece ao mesmo tempo o êxtase e a loucura, a comunhão e o isolamento, a vida e a morte, e essa ambiguidade reflete a visão madura do dramaturgo sobre a religião, que ele não rejeita nem abraça ingenuamente, mas problematiza em toda a sua obscuridade, mostrando que o sagrado pode ser fonte de alegria e de terror, e que tentar domesticá-lo com a razão é tão insensato quanto entregar-se a ele sem reservas. Penteu, o herói racional, é destruído não porque seja mau, mas porque é limitado, porque acredita que sua mente pode abarcar o infinito e que sua autoridade pode controlar as forças da natureza, e sua morte é o preço pago pela hybris intelectual, pela pretensão de medir o imensurável. Ágave, por sua vez, é destruída porque sua loucura a tornou cega, mas ela é também uma vítima, e seu luto final, quando ela parte para o exílio com os restos do filho, é o testemunho de que a culpa divina recai sempre sobre os mortais, que carregam as consequências de ações que não escolheram conscientemente.
Ao longo da história da recepção, As Bacantes foram lidas como uma defesa do irracionalismo, como uma crítica ao Iluminismo avant la lettre, como uma alegoria do conflito entre a civilização ocidental e o Oriente, e até como uma profecia do fascismo. Mas todas essas leituras, embora frutíferas, correm o risco de simplificar uma obra que deliberadamente escapa a qualquer interpretação unívoca, porque Eurípides, no fim da vida, parece ter chegado à conclusão de que o mundo é regido por forças contraditórias que nenhuma filosofia pode conciliar, e que a melhor atitude diante do mistério é o reconhecimento humilde de nossa ignorância. É mesmo reconhecimento que Cadmo expressa quando aceita sua transformação em serpente e seu destino errante, aceitando a punição como parte da ordem cósmica. O coro, por fim, após o desastre, entoa um canto que não é de triunfo nem de lamento, mas de advertência, lembrando que os deuses têm caminhos tortuosos e que a sabedoria verdadeira consiste em não blasfemar contra o que não se compreende.
Esta conclusão, que ecoa o famoso fragmento de Heráclito sobre o deus que é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, é a chave para entender a peça como um todo, pois ela não nos ensina a amar Dioniso ou a temê-lo, mas a respeitar a alteridade do sagrado, a reconhecer que há dimensões da experiência humana que a razão não alcança e que a tentativa de reduzi-las a fórmulas racionais é não apenas fútil, mas perigosa, porque o reprimido sempre retorna, e quando retorna, fá-lo com a força de um rio que rompe a represa, arrastando tudo o que encontra pela frente.
As Bacantes, portanto, não é uma peça sobre o triunfo do irracionalismo, mas sobre a necessidade de integrar o irracional à vida da polis, de encontrar um equilíbrio entre o apolíneo e o dionisíaco, entre a ordem e o caos, entre a individualidade e a comunidade, e a tragédia de Penteu e Ágave é que eles não conseguiram encontrar esse equilíbrio, cada um à sua maneira, e por isso foram destruídos. Essa lição, que ressoa com força inusitada em nossa contemporaneidade marcada por fundamentalismos de todos os tipos, tanto os que negam a ciência quanto os que negam a espiritualidade, tanto os que exaltam a razão como os que exaltam a fé cega, permanece tão atual quanto no dia em que a peça foi encenada pela primeira vez. Assim, o conflito entre a necessidade de controle e a necessidade de entrega, entre a segurança da regra e o perigo da transgressão, é um conflito que habita o coração de toda cultura, de toda comunidade, de todo indivíduo.
Eurípides, com sua genialidade insondável, não nos oferece uma solução para esse conflito, mas um espelho em que podemos contemplar nossa própria incompletude, nossa própria vulnerabilidade, nossa própria incapacidade de abarcar a totalidade do real. E é nesse reconhecimento da nossa finitude diante do infinito que reside, talvez, a única forma de sabedoria que nos é dada, a sabedoria de Sócrates que sabia que não sabia, mas acrescida do terror dionisíaco que Sócrates, com sua serenidade olímpica, talvez tenha recusado ver. Inversamente, Eurípides, no final de sua carreira, enfrentou de modo corajoso, compondo uma obra que é ao mesmo tempo um hino e um réquiem, um convite à dança e uma advertência fúnebre, e que permanece até hoje como o testamento de um poeta que, mais do que qualquer outro, compreendeu que a tragédia não está em escolher entre os deuses, mas em reconhecer que todos eles, mesmo os mais sombrios, têm direito ao nosso louvor e ao nosso terror.
(*) Conheça nossos títulos inéditos disponíveis na Amazon ou o nosso catálogo completo de eBooks através da aba "Nossa Livraria" na barra superior deste blog;
A Ética Cristã e o Segredo do Sucesso Financeiro, de Diego Roderik

O Fim da Era de Gutenberg, de Jean Monti Pires
As Travessuras das Cinco Estrelinhas de Andrômeda, de Nilza Monti Pires
Kronstadt e A Terceira Revolução, de Jean Monti Pires
Entre a Cruz e a Espada, de Jean Monti Pires
Ética Neopentecostal, Espírito Maquiavélico, de Jean Monti Pires
A Verdade sobre Kronstadt, de Volia Rossii
A Saga de um Andarilho pelas Estrelas, de Jean P. A. G.
A Greve dos Planetas, de Jean P. A. G.
Des-Tino, de Jean P. A. G.
Eu Versos Eu, Jean Monti
(**) Notas sobre a ilustração:
Esta descrição detalha e explica os elementos dramáticos e simbólicos que compõem uma ilustração representativa da tragédia grega "As Bacantes", de Eurípides:
Dioniso e Penteu (O Centro Dramático): No centro da orchestra, destaca-se a figura radiante do deus Dioniso, ostentando uma coroa de folhas de parreira e a pele de leopardo, segurando o tirso (o bastão sagrado envolvido em hera e coroado com uma pinha). Diante dele sobressai o jovem rei Penteu de Tebas, trajando armadura e manto real, com uma expressão de arrogância e fúria ao tentar algemar ou confrontar o deus, simbolizando a resistência humana da razão inflexível contra o poder divino e instintivo.
Agave e o Rito Frenético (À Esquerda): À esquerda do palco, Agave, a mãe de Penteu, surge tomada pelo transe místico e pela loucura dionisíaca. Em suas mãos ou ao seu lado, traços do trágico desfecho anunciam o despedaçamento do próprio filho, cega pelo delírio imposto pelo deus.
O Coro das Bacantes (Ao Fundo e nos Lados): Ao redor do espaço cênico, o Coro de mulheres tebanas e asiáticas (as mênades) dança em transe orquestrado. Vestidas com peles de animais, cabelos soltos e segurando tochas e tirsos, elas celebram o êxtase divino com movimentos expressivos e gestos de adoração desenfreada.
Tíresias e Cadmo (À Direita): À direita, o idoso adivinho cego Tíresias e o antigo rei Cadmo surgem vestindo trajes rituais e túnicas sagradas, observando a cena com temor e prudência, representando a aceitação da sabedoria tradicional perante os deuses.
A Skene e a Inscrição: O edifício do palco (skene) simula a fachada clássica do palácio real de Tebas com marcas de abalo sísmico e chamas, aludindo ao poder de Dioniso de destruir as estruturas da cidade. No friso central, encontra-se a inscrição em grego antigo: ΒΑΚΧΑΙ ΕΥΡΙΠΙΔΟΥ (As Bacantes de Eurípides).
O Cenário e a Atmosfera: Nas arquibancadas (theatron), uma plateia atenta assiste ao espetáculo sob o céu de crepúsculo. Ao fundo, as montanhas do Citerão e a Acrópole unem a força da natureza selvagem ao espaço urbano clássico.
A ilustração sintetiza o tema central da obra-prima de Eurípides: o confronto entre o controle racional e o impulso dionisíaco, mostrando a devastação inelutável daqueles que se recusam a reconhecer as forças sagradas e irracionais da natureza e da mente humana.