quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Faustino: O Novo Rei da Bola

A ilustração apresenta uma cena dramática em estilo de pintura a óleo com textura visível de pinceladas:  Mefistófeles (à esquerda): Uma figura de olhar austero e enigmático envergando uma túnica e capuz vermelhos. Ele segura uma longa capa vermelha que se estende suavemente pelo chão. O Jogador (à direita): Um jogador de futebol de cabelo escuro, sem tatuagens nos braços, em pleno salto no ar. Ele veste uma camisa branca com listras horizontais laranjas, calção azul e meias brancas. Com a mão direita erguida, ele controla uma bola de futebol clássica branca. Cenário e Atmosfera: A cena se passa em um campo de futebol sob uma iluminação suave e dramática, com um fundo abstrato em tons quentes e terrosos que realça o tom clássico e misterioso da composição.

por Denise Silveira

Drama em duas partes

PRIMEIRA PARTE – O NEGÓCIO E O CONTRATO

CENA I

Um quarto de hotel de luxo, em uma capital europeia. A janela panorâmica revela o estádio iluminado, ainda ecoando os últimos resquícios de uma torcida frustrada. É noite de eliminação da Tangolândia nas quartas de final da Copa do Mundo. FAUSTINO SALVADOR BELIMBROGLIO, 34 anos, está sentado à beira da cama. Veste um terno caro, mas a gravata está frouxa. Segura uma taça de vinho, mas não bebe. Seus olhos estão fixos em uma chuteira de ouro emoldurada na parede — prêmio de artilheiro do Campeonato do Mundial de Interclube, repetido cinco vezes. Ao lado, uma foto sua, jovem, com o troféu da Copa de Continental. Faustino segura uma bola acima do ombra e lhe dirige algumas palavras: 

FAUSTINO (em monólogo, voz rouca e arrastada)

Eterna promessa! Eu não sou mais do que uma eterna promessa. ¡Ah, pelota, pelota, pelota... pelota mía, eres tan desagradecida!!! Eu seria o dono do mundo se eu tivesse você aos meus pés... Presidentes, xeiques, déspotas, tiranos, todos! se curvariam em sinal de reverência diante de mim. E eu os olharia de cima para baixo, desprezando-os; pois seria eu mais poderoso, porque teria o amor das multidões. Mas olha eu aqui, sozinho. Abandonado, fracassado e... desprezado. Está tudo tão escuro... Já é tarde...   

Meia-noite. O silêncio do hotel é mais ensurdecedor que os cem mil gritos de ódio e decepção que ouvi há duas horas. Lá embaixo, o gramado ainda respira e transpira. Respingos de suor e lágrimas. E eu... eu ainda estou ali, Faustino. Meu corpo está aqui, mas meu espírito corre desesperado atrás de uma bola que nunca chega. A glória me escapa pelas mãos...

Sou Faustino Salvador Belimbroglio. O Rei da Tangolândia. O Anjo da Área. O Patrão das Caneleiras. O melhor de toda a história. Seis vezes artilheiro da Liga dos Campeões da Confederação AU-AU. Três vezes melhor jogador do torneio regional — um torneio que, convenhamos, tem times de bêbados e glutões, mas que o marketing transformou em "A Liga dos Deuses". Meu rosto estampa relógios de luxo, refrigerantes, bancos digitais e cuecas. Minha voz narra comerciais. Minha marca pessoal vale mais que o PIB de pequenas nações.

E, no entanto, a cada quatro anos, a vergonha.

A Copa do Mundo. O palco do mundo. Onde os holofotes não são para os fracos, mas para os craques que se revelam em campo. E ali, Faustino, você é uma decepção. Seus dribles são previsíveis e pouco efetivos. Seu chute, um bater na trave sem fim. Sua velocidade, uma tartaruga preguiçosa. Marcam-me como se eu fosse um cone de treino. Passei com a bola na grande área contra a Chucruteburgo — e meu pé hesitou. Hesitou! Como se o diabo tivesse amarrado meus cadarços. A defesa me engoliu. O zagueiro tirou a bola de meus pés bem na hora que eu ia chutar, de maneira mais fácil do que roubar doce de uma criança. A torcida da Tangolândia, que pagou caro para me ver, que depositou todas as esperanças no meu pé direito, que sonhou com o título, que entoou cânticos de guerra, emudeceu de desapontamento.

Perdemos. Perdemos de novo. Sempre perdemos. Na minha primeira Copa, fomos eliminados pela Chucruteburgo nas quartas de final e eu só fiz um gol durante todo o torneio. Na segunda, tomamos uma goleada da mesma Chucruteburgo e não chegamos nem à semifinal. E o pior: saí zerado da Copa, sem conseguir marcar um mísero gol. Na terceira, meu saldo de gols melhorou muito, quatro, e chegamos à final. Mas a maldita seleção da Chucruteburgo levou o troféu. Na quarta, fomos eliminados ainda nas oitavas de final pela Mercípole e eu fui escorraçado pelas portas dos fundos da Copa do Mundo com apenas um gol. E o que sobra para mim? Vergonha. Humilhação! Mas a mídia dirá: "Faustino sentiu a pressão". Os técnicos dirão: "Falta entrosamento". Meu empresário dirá: "As marcas ainda o amam, ele é uma máquina de fazer dinheiro". Mas eu sei a verdade. Sou um gigante de papelão. Um colosso com pés de barro. Eu sou o maior apenas na boca dos marqueteiros, nos slogans publicitários, mas minha verdade... essa, Deus a levou embora no dia em que me dei conta de que, no fundo, eu sempre fui um peixe grande num aquário pequeno. A Tangolândia League é meu oceano. Mas a Copa... é o mundo.

E amanhã, os jornais: "De novo! De novo! De novo! Tangolândia, mais uma vez desclassificada". "Faustino, o mito que nunca foi". Minha mulher já fez as malas — está sempre grudada e viajando como o seu cabeleileiro, que não me engana não! O advogado que cuida dos meus direitos de imagem não atende as minhas chamadas. Fui abandonado!

Que resta? A aposentadoria? Ser comentarista de televisão, vestindo um terno mais caro que esse, apontando erros desse ou daquele jogador? Ser embaixador de uma marca de achocolatado? Não. Isso é a morte em vida.

Eu quero a taça. Quero o título. Quero levantar aquela deusa de ouro e ouvir o mundo inteiro calar a boca e me chamar de o melhor de todos os tempos. Quero que a história me registre não apenas como o melhor do planeta, mas como o melhor do universo. O E.T., o extraterrestre! Quero isso... custe o que custar. (Levanta-se, joga a taça de vinho contra a parede, que se estilhaça como seus sonhos.) Custe o que custar!

(Nesse instante, a luz do quarto pisca. A televisão, desligada, se acende sozinha, mostrando estática. Um cheiro forte de enxofre invade o ambiente. Das sombras atrás da cortina, uma silhueta emerge. É MEFISTÓFELES BAMBIFA. Veste um terno preto impecável, sapatos lustrados que brilham como espelhos, e uma gravata vermelha com o símbolo de um losango estilizado — o logotipo da F.R.A.U.D.E (Federação Real da Associação Universal Desportiva Esportiva). Segura uma pasta de couro de jacaré. Seu sorriso de dentes perfeitos e pontudos, seu olhar frio, calculado, incandescente.)

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CENA II

MEFISTÓFELES BAMBIFA (inclinando-se levemente, num gesto teatral)

Bravo, Faustino! Bravo! Que monólogo shakespeariano, digno de um rei destronado em meio à sua tragédia pessoal! Hamlet, Rei Lear, Ricardo II, Henrique IV? Quem sabe Otelo, o Mouro? Não, Otelo é muito nobre para você e a Tangolândia não o toleraria. Talvez, Rei João? Não, este tem sangue azul e você, sangue de barata. Macbeth! Sim,  Macbeth! Afinal, você nunca passou de um reles impostor. Mas analisemos a questão pelo aspecto dramático. (Sim, a tão malfadada "eis a questão".) A taça de vinho arremessada contra a parede... Que simbolismo! O líquido vermelho escorrendo pela superfície branca é tão... tão... tão terrivelmente belo! Que encenação! Faustino, você é realmente um grande ator!

FAUSTINO (recua, assustado, mas com um brilho de reconhecimento nos olhos)

Você! Como entrou? As portas estão trancadas com código biométrico. A segurança...

MEFISTÓFELES (ri, um som seco como papel sendo rasgado)

Segurança? Meu caro Faustino, segurança é uma ilusão para os fracos. Eu não preciso de chaves. Eu tenho uma chave mestra chamada "Interesse Comercial". Sou Mefistófeles Bambifa. Seu verdadeiro agente, embora você não saiba. Represento os interesses que vão além da cláusula de rescisão. Represento o espírito do futebol moderno. Dinheiro, marketing, apostas... Ou, como alguns preferem dizer... a alma.

FAUSTINO (desconfiado, mas hipnotizado pelo carisma do outro)

Mefistófeles... Bambifa? É uma piada? Você é algum tipo de... empresário rival?

MEFISTÓFELES (senta-se na poltrona como se fosse o dono do lugar, cruza as pernas e abre a pasta)

Digamos que sou o empresário que cuida dos contratos que realmente importam. O senhor tem contratos com a Like, a Hazizas, a Jaguar, a Red Cow, a SpaceZ... Mas todos esses são contratos de imagem. Vendem sua cara de fuinha, seu sorriso abestalhado, seu olhar vazio. Mas e o contrato da performance? O contrato assinado com sangue? Esse, meu amigo, está em aberto. E ouvi seus lamentos. Eles são... saborosos. (Passa a língua nos lábios.) Tão amargos, tão sinceros. O desespero de um homem que sabe que é um impostor, mas que quer, desesperadamente, deixar de sê-lo.

FAUSTINO (dá um passo à frente, os punhos cerrados)

Eu não sou impostor! Sou o melhor jogador do mundo, reconhecidamente pela imprensa nacional e internacional.

MEFISTÓFELES (sorri)

Jornalistas são pagos para enganar, Faustino.

FAUSTINO (retribui o sorriso, de modo sarcástico)

Esqueça os jornalistas, pois todo o mundo diz que eu sou o melhor.

MEFISTÓFELES (não se abala e olha fixamente para seu oponente)

Isso é bem fácil de explicar, chama-se maquina de propaganda. Até quem nunca assistiu uma única partida de futebol repete como um papagaio que você é o melhor. Loro currupaco, loro currupaco!

FAUSTINO (cruza os braços triunfalmente)

Tenho números! Bati todos os recordes! Sou considerado o melhor jogador de futebol de todos os tempos pelo Instituto Geral de Estatística do Futebol

MEFISTÓFELES (olha para baixo e balança a cabeça em sinal de negativo)

Cosméticos, nada mais que maquiagem. Rapaz, a estatística é a arte de mentir. Um zero à esquerda se torna dez à direita. E quanto mais zeros juntos, maior o seu valor. De fato, é divertido brincar números, podemos chegar a resultados surpreendentes! Aliás, acabo de me lembrar que a economia vai muito bem obrigado e os índices de emprego nunca foram tão bons. (À parte: Espero que entendam a ironia) 

FAUSTINO (eleva o tom da voz em tom de desafio)

Ganhei todos os campeonatos! Fui artilheiro! Ganhei cinco vezes a Bola Furada Banhada A Ouro. Fiz o gol mais bonito do milênio... Eu sou Faustino Salvador Belimbroglio, o Grande! 

MEFISTÓFELES (bate palmas lentamente)

Fantástico! Veja só, estou todo arrepiado! Mas sou obrigado a informá-lo que esses torneios são todos armados. Campeonatos que abundam como estrelas! Times que são excelência de tão ruins! Cartolas que manipulam jogos visando apenas o lucro. Gramados que mais parecem pastos. Jogadores que mais perecem bois. Bola com chip teleguiada por controle remoto! E o senhor, Faustino, é o rei disso. Mas, diga-me... quantos gols o senhor fez na última Copa do Mundo? Olhando para uma prancheta. Um. De pênalti. Lance duvidoso. Assistências? Zero. Finalizações certas no alvo? Zero vírgula nove. Meu caro, o senhor é um grandessíssimo perna de pau. Enquanto isso, seu marketing diz que você é "o melhor da história". Poupe-me de suas lamúrias, o rei Pelé tem três Copas. O senhor tem... quatro participações pífias. O anjo das pernas tortas Mané Garrincha, o divino Don Diego Armando Maradona, o Canhotinha de Ouro Gerson, Roberto Rivellino, Tostão, Jairzinho, Franz Beckenbauer, Zinédine Zidane são campões inesquecíveis. Arthur Friedenreich, El Tigre; Leônidas da Silva, o Diamante Negro; Alfredo Di Stéfano; Ferenc Puskás; Eusébio; Johan Cruijff; e o doutor Sócrates merecem menção honrosa. Mas você, meu prezado Faustino, quando o tempo passar, será apenas uma nota de rodapé. A verdade dói, não dói? Olhe para o espelho, seja sincero, porque só quem está atolado na lama deseja asas para alcançar céu com tanta fúria. Mas eu posso consertar isso. Eu posso ser o remédio para todos os seus males.

FAUSTINO (caindo de joelhos, num acesso de desespero)

Então me dê o céu! Me dê a taça! Me dê a Copa do Mundo! Faça com que, daqui a quatro anos, no estádio do país que sediar a Copa, eu seja o capitão que ergue o troféu. Faça com que meu nome esteja gravado na história ao lado dos verdadeiros gigantes. Faça a Tangolândia vencer! Eu dou o que você quiser. Minhas chuteiras, minhas medalhas, meu jatinho...

MEFISTÓFELES (inclina-se, com os olhos brilhando como duas moedas)

Eu não quero suas chuteiras. Tenho uma fábrica que as produz. Não quero seu jatinho. Tenho uma frota. Quero o que o senhor ainda teima em guardar para si, apesar de não usar. Quero sua alma, Faustino. Simples assim.

(Faustino fica pálido. O silêncio é cortado apenas pelo zumbido do ar-condicionado.)

FAUSTINO (gaguejando)

M-mas a alma... é o que me resta. O que me faz humano. O que me faz sentir vergonha, alegria...

MEFISTÓFELES (interrompe, com um tédio fingido)

Só que a vergonha, pelo visto, não fez você jogar melhor. Escrúpulos só fazem você não atravessar as linhas vermelhas que o separam da glória. E a alegria, há quanto tempo você não sente ela verdadeiramente, além dos gols contra times que mal sabem chutar? Escute, Faustino. Vou lhe dar tudo o que pediu, com uma cláusula. E mais algumas subcláusulas, porque o diabo, como bem diz o ditado, está nos detalhes.

(Tira um contrato de velino dourado da pasta. É imenso, com letras miúdas que parecem se mover.)

FAUSTINO (examina o contrato com olhos arregalados)

Eu não entendo de direito. A propósito, eu cabulava as aulas para jogar futebol. O que diz?

MEFISTÓFELES (como um vendedor de carros usados, mas com a eloquência de um diplomata)

Deixe-me resumir para o senhor, em linguagem de vestiário.

Cláusula Primeira – O Desempenho:

A partir do momento em que assinar, seu corpo será aperfeiçoado. Você terá 38 anos, mas terá o vigor de uma criança. Sua velocidade será a de um sprinter olímpico. Sua perna esquerda terá a potência de um canhão. Sua visão periférica cobrirá todo o campo. Cada chute seu, seja de onde for, terá 99,99% de chance de encontrar as redes. Contra qualquer seleção. Contra a Chucruteburgo, contra a Mercípole, contra a Sambatuba. Você marcará gols olímpicos, bicicletas, chapelinhos. Será o artilheiro da Copa com 15 gols. A Tangolândia vencerá todos os jogos de forma avassaladora. Na final, com o placar de 5 a 0, o senhor levantará a taça. A mídia vai te chamar de o "Novo Rei". As ruas vão ter seu nome. Sua mulher vai finalmente largar o cabeleireiro, e seu advogado vai ter a lição que merece. (À parte: Eu posso despachar o advogado com um estalar de dedos).

FAUSTINO (respira fundo, um sorriso ganancioso se forma)

...A alma. Mas o que vai acontecer comigo?

MEFISTÓFELES (levanta um dedo)

Calma, calma. Ainda não cheguei à parte boa para mim.

Cláusula Segunda – A Contrapartida (O Preço):

Em troca de cada gol que o senhor marcar durante a Copa, o senhor perderá uma memória afetiva de sua infância. A primeira vez que chutou uma bola no campinho de terra? Perdida. O cheiro do almoço de domingo? Apagado. A voz do seu professor ensinando você a dar um drible? Evaporada. Quando a Copa acabar, você não se lembrará de quem era antes da fama. Será um homem oco, mas um herói oco.

FAUSTINO (hesita)

Memórias? Mas isso é...

MEFISTÓFELES (prossegue, implacável)

Cláusula Terceira – A Duração:

Seu talento sobrenatural terá prazo de validade. Expirará exatamente no apito final da partida decisiva. Assim que a taça tocar suas mãos, no instante em que o capitão do time perdedor cumprimentá-lo, você sentirá suas pernas voltarem ao estado atual — ou pior. Seu joelho estourará, seu tendão de Aquiles se contrairá. Você se aposentará no dia seguinte, alegando lesão grave. Mas, para o mundo, você terá feito o impossível.

FAUSTINO (suando frio)

Aposentado... mas campeão. Eu já estarei com quase quarenta mesmo. Isso... isso ainda vale.

MEFISTÓFELES (sorri, mostrando os compridos dentes caninos)

Ah, e não é só isso.

Cláusula Quarta – A Isenção de Responsabilidade (A mais importante para mim):

Após a Copa, você nunca mais poderá jogar futebol profissionalmente em lugar algum. Nem em campeonato regional, nem em pelada de domingo com os amigos. Você será um mero embaixador do esporte. Passará o resto da vida em camarotes VIP, comentando jogos que você jamais poderá disputar, vendo outros atletas correrem, transpirarem, sentirem a grama. Será uma estátua viva. E, claro, no exato momento em que a taça for erguida, sua alma passará a ser minha propriedade intelectual. Eu poderei fazer com ela o que quiser. Posso colocá-la em uma bola de futebol usada em finais esquecidas, em uma camisa suada de um time rebaixado. Posso congelá-la na imagem do seu último pênalti.

FAUSTINO (tremendo)

Isso é... é horrível!

MEFISTÓFELES (fechando a pasta com um estalo)

Horrível? Meu caro, isso é o F.R.A.U.D.E Dirty Play Financeiro levado ao extremo! Vamos ser realistas: o senhor já vendeu sua imagem, sua privacidade, sua saúde, seu casamento, sua dignidade para o marketing. A única coisa que não vendeu foi a alma. E olha que ela não serve para nada aqui no banco de reservas da vida! Comigo, ela ao menos servirá para lhe dar o que todo jogador medíocre sonha: um dia de glória eterna. Você será imortalizado. Seu nome estará nas manchetes. Seu erro de quartas de final será esquecido. Sua lenda será contada em toda a história da Tangolândia, para sempre.

(Mefistófeles tira uma caneta-tinteiro de ouro. O tinteiro é vermelho como sangue.)

Decida-se, Faustino. O sol está quase nascendo. Em poucas horas, os jornalistas vão chamá-lo de "fracasso". Os patrocinadores vão renegociar seus contratos por um décimo do valor. Sua família vai espalhar seus podres. Ou... você pode ser o Imperador do Universo Futebolístico. A escolha é sua. Mas a história não espera. O tempo, esse árbitro implacável, já deu os três minutos de acréscimo.

FAUSTINO (olha para a janela. Lá fora, o estádio está escuro. Olha para o contrato. As letras dançam formando imagens de gols, de taças, de multidões. Ele estende a mão trêmula, pega a caneta.)

Assino. Assino a porra toda. Mas me prometa uma coisa: na final, que o gol do título seja uma bicicleta. Sempre sonhei com uma bicicleta.

MEFISTÓFELES (seus olhos ficam negros como carvão)

Prometido, Faustino. Será uma bicicleta de tirar o fôlego. A bola flutuará como uma pluma. O goleiro cairá como um saco de batatas. E você será o herói que a Tangolândia merece, mas não o herói que ela precisa — porque ele será meu.

(Faustino assina com um traço firme. No momento em que a caneta toca o papel, um relâmpago silencioso corta o céu. O contrato emite um brilho dourado e depois se torna um papel comum. Mefistófeles guarda o documento na pasta, levanta-se e caminha em direção à porta.)

FAUSTINO (em choque, olhando para as próprias mãos)

Espera! E agora? O que eu faço? Como começo?

MEFISTÓFELES (já na porta, com a mão na maçaneta, ele olha por cima do ombro com um sorriso maligno)

Comece? Meu caro, a Copa é daqui a quatro anos. Até lá, continue treinando. Continue jogando os campeonatos feitos para você. Continue sendo o jogador mediano inflado a gênio que você é. Não se preocupe. Quando a convocação sair, quando a primeira partida começar, você sentirá algo diferente. Um frio na espinha. Uma precisão nos olhos. E aí, meu caro Faustino... aí o inferno vai parecer o paraíso para os seus adversários. Não se esqueça, o papai Mefistófeles Bambifa cuida de tudo!

(Ele abre a porta. O corredor do hotel está vazio, mas um vento gelado invade o quarto, fazendo as cortinas se agitarem.)

Ah, uma última coisa. Se, por acaso, você pensar em se arrepender ou em rezar para anular o contrato, saiba que a F.R.A.U.D.E não aceita recurso de decisão de campo. E eu não aceito devolução. Nós somos corruptos, mas a justiça sempre nos dá ganho de causa. O dinheiro abre portas, irmãozinho. Aproveite a viagem. Em quatro anos, o mundo estará a seus pés. E depois... bem, depois, você estará aos meus.

(Mefistófeles sai rindo baixinho. A porta se fecha sozinha. Faustino fica sozinho, olhando para a mão que assinou. Uma lágrima escorre, mas é rapidamente substituída por um sorriso convulso de esperança e loucura.)

FAUSTINO (sussurrando para a taça de ouro emoldurada)

Tangolândia... vocês não sabem, mas o Faustino de vocês acabou de nascer de novo. Agora sou Faustino Salvador Belimbroglio, o comprado. O vendido. Mas também... o futuro campeão.

(Ele ri, uma risada histérica que ecoa pelo quarto vazio. A televisão desliga-se sozinha. A cortina para de se mexer. O silêncio volta, mas agora é um silêncio de prenúncio, de catástrofe iminente.)

FIM DA PRIMEIRA PARTE

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SEGUNDA PARTE – A COROA E O NADA

CENA I

Quatro anos depois. Estádio Nacional de Megalópolis, país-sede. Final da Copa do Mundo. Tangolândia x Chucruteburgo. O túnel que leva ao gramado está iluminado por refletores ofuscantes. FAUSTINO SALVADOR BELIMBROGLIO, agora com 38 anos, veste a camisa branca com listas rosas da seleção. Seus olhos têm um brilho metálico, estranho. Ele não transpira. Ao seu redor, os companheiros de time parecem agitados, rezando, pulando. Faustino está imóvel, como uma estátua de cera. O barulho da torcida é ensurdecedor.

FAUSTINO (em monólogo interior, sua voz ecoa como se viesse de um túnel)

Quatro anos. Quatro anos de treinos vazios, de jogos medíocres, campeonatos arranjados, mas de espera ansiosa. Eu me tornei um zumbi em campo, errando passes, perdendo gols. A mídia me chamou de ex-jogador. Perdi patrocínios. Perdi o respeito. Mas hoje... hoje eu sinto... Sinto o poder crescendo dentro de mim como uma febre. Meus dedos coçam. Minhas canelas vibram. A bola, lá no gramado, parece chamar por mim. Tudo bem que pegamos times de quinta divisão e um chaveamento mais fácil que mamão com açúcar até chegar à final. Sei que somos fregueses da seleção da Chucruteburgo. Mas eu sei que vou marcar. Eu sei que vou vencer. Mas por quê... por que não me lembro dos ternos anos de minha infância? Por que tudo está se apagando? A minha dignidade, os meus valores... Não consigo me lembrar... (Passa a mão na testa.) Não importa. Também não consigo recordar-me de como se sente quando se está arrependido ou culpado. A taça está ali. A glória está ali. Adiante, Faustino!

(Uma mão gelada toca seu ombro. MEFISTÓFELES BAMBIFA está ao seu lado, vestindo um colete de auxiliar técnico, mas com a mesma gravata vermelha de losango. Ninguém mais parece vê-lo.)

MEFISTÓFELES (sussurrando, com a voz doce como mel e afiada como caco de vidro)

Nervoso, Faustino? Não esteja. Eu cuidei de todos os detalhes, desde a fase classificatória até o último segundo do joga da final. O gramado está perfeito. As câmeras estão alinhadas. E, mais importante... os árbitros estão comigo. Você deve estar muito grato pelo excelente trabalho que eles fizeram. Anularam gols decisivos de times adversários e reverteram resultados. Escandaloso, não é? Mas se nós não estivéssemos expulsado o melhor jogador de Sambatuba, a Tangolândia teria perdido, e de lavada! Não é à toa que o quarto zagueiro é campeão de luta livre, apesar de não saber chutar uma bexiga de festa de criança. A canela dura dele mandou vários atacantes para o hospital e ele não recebeu um único cartão amarelo. Não podemos esquecer também que a seleção de rúgbi da Tangolândia foi convocada para jogar esta Copa do Mundo. Na final, você pode crer, não vai sobrar pedra sobre pedra! Vocês têm carta branca, meu caro Faustino, nada pode detê-los!

FAUSTINO (surpreso, tentando disfarçar)

Os árbitros? Sim, você colocou para apitar a final um amigo pessoal, que ainda me deve dinheiro.

MEFISTÓFELES (aponta para o centro do gramado, onde o árbitro principal, um homem de sobrenome Armand, ajusta o apito)

Veja aquele apito. É um apito mágico, banhado em minha própria saliva peçonhenta. O bandeirinha da esquerda tem um fone de ouvido invisível que obedece a minha voz. O VAR? Ah, o VAR é meu brinquedo predileto. As câmeras de vídeo mostram o que eu quero que mostrem. Por que o espanto? A tecnologia nunca foi usada para o bem da humanidade, mas para a destruição, para a guerra. No futebol, o esporte mais corrupto do mundo, não seria diferente, não é? As casas de apostas nunca ganharam tanto dinheiro como nesta Copa. As partidas são manipuladas, os times pequenos não podem vencer jamais, porque senão a banca quebra. Pois é, só os néscios acham que futebol se ganha só com chute e garra. O futebol moderno se ganha nos bastidores, nas marcações de impedimento, nos pênaltis duvidosos, nos cartões amarelos dados na hora certa, na seletividade do VAR. Agora, eu não apenas lhe dei pernas de aço; eu dei a você o décimo segundo jogador em campo: a arbitragem. O juiz é o verdadeiro camisa 10. E hoje, Faustino, você vai poder até pegar a bola com a mão no meio do campo e correr com ela até a pequena área e marcar o gol. Dane-se o que as pessoas vão dizer. Tudo é permitido. Afinal, os fins justificam os meios. Futebol é bola na rede!

FAUSTINO (engole em seco, um conflito breve transparece em seu rosto)

Mas, honestamente, isso não é justo. A Chucruteburgo é forte. Vai ficar muito na cara. E eles merecem...

MEFISTÓFELES (ri, um riso baixo e gutural)

Justiça? Você quer justiça agora, depois de vender o que não tinha? Meu caro, justiça é a ilusão dos injustiçados. Os vencedores quebram regras e escrevem as manchetes, e as manchetes não falam sobre impedimentos. Falam sobre heróis. E numa sociedade sob a égide da mediocridade, os tolos são alçados à condição de grandes gênios. Agora, vá, entre em campo. A torcida da Tangolândia precisa de um salvador. E o salvador precisa de uma ajudinha divina... quer dizer, no caso, infernal.

(Mefistófeles dá uma gargalhada assustadora e desaparece na fumaça dos sinalizadores. Faustino respira fundo e pisa no gramado. Os holofotes o cegam. O hino começa.)

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CENA II

PRIMEIRO TEMPO. O jogo está frenético. A Chucruteburgo domina a posse de bola, com toques precisos. Aos 15 minutos, o atacante chucrute KRUEGER marca um golaço de fora da área. A bola entra no ângulo. A torcida da Tangolândia silencia.

FAUSTINO (correndo em câmera lenta, vendo a bola entrar)

Não! Não pode ser! Eu tenho o poder!

(Ele olha para o árbitro Armand. Armand leva o dedo ao ouvido, como se ouvisse uma voz. Não a voz da consciência, mas a voz da perfídia. Seus olhos se arregalam. Ele corre até o bandeirinha. Eles conversam. O bandeirinha levanta a bandeira. O árbitro apita e anula o gol.)

ÁRBITRO ARMAND (com a voz robótica, amplificada pelo estádio)

Impedimento! Posição irregular! Gol anulado!

FAUSTINO (sem acreditar, vê o replay no telão, onde o atacante claramente estava em posição legal, mas a imagem é congelada exatamente no frame errado)

Mas... ele estava...

MEFISTÓFELES (aparece sentado na beira do gramado, como um gandula fantasmagórico, acenando com os dedos)

É a magia do VAR, Faustino! O frame é meu amigo. Não acredite no que os olhos veem, mas no que os olhos não veem de verdade. Tudo neste mundo é de mentira. Tudo é uma grande farsa que esconde a tragédia da história. Agora, corre para a área.

(Aos 30 minutos, Faustino recebe a bola na entrada da área. O zagueiro chucrute TURBINE faz um carrinho limpo, tirando a bola. Faustino cai, cava a falta, simula. O árbitro apita.)

ÁRBITRO ARMAND (apontando para a marca do pênalti)

Penalidade máxima! Toque faltoso!

FAUSTINO (levantando-se, vendo que Turbine não encostou nele)

Mefistófeles... o que você fez?

VOZ DE MEFISTÓFELES (vindo do chão, como se a grama falasse)

Eu apenas subi a velocidade da imagem na cabeça do juiz. No cérebro dele, o carrinho chegou três centésimos de segundo antes do que aconteceu. Não é trapaça, é... percepção alternativa, mudança de perspectiva, pura narrativa. Vamos, não a tempo a perder. A taça está a sua espera.

(Faustino bate o pênalti. A bola explode no ângulo. 1 a 0 para a Tangolândia. O estádio treme. Faustino corre para comemorar, mas, ao abrir os braços, esquece o nome do seu melhor amigo de infância. A memória se apaga como uma lâmpada que se desliga.)

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CENA III

SEGUNDO TEMPO. A Chucruteburgo está revoltada. O técnico grita ao quarto de árbitro. O bandeirinha da direita, um homem de olhos vidrados e cara de Medusa, ignora todos os protestos e ainda acerta uma bandeirada na cabeça do assistente do técnico. Aos 55 minutos, o meia-atacante chucrute LANZ é derrubado por um zagueiro tangolandês dentro da área. É pênalti claro. O árbitro Armand olha para o monitor do VAR. Mefistófeles aparece ao lado do monitor, assoprando fumaça na tela.

ÁRBITRO ARMAND (no microfone, com a voz trêmula)

Revisão completa. Decisão: não houve contato. Jogo segue.

FAUSTINO (correndo para o ataque, vê a torcida chucrute enfurecida e a própria torcida da Tangolândia cantando seu nome. Ele sente um nó no estômago.)

Isso é uma farsa. Eu sou um fantoche.

MEFISTÓFELES (sentado na trave do gol, balançando as pernas)

Fantoche? Fantoche é o que aceita fazer coisas vis, mas sempre são vencedores bem remunerados. Integridade moral é para os idealistas e românticos, que sempre acabam na sargeta. Quer devolver os pênaltis, Faustino? Foram marcados dez para você. Um recorde! Quer devolver a taça? Abandone o campo agora.. Mas aí você volta ao seu quarto de hotel, sem memória, sem título, e sem glória. Além disso, não leu as letras miúdas do contrato? A rescisão é aterrorizante. Qual é a sua escolha?

FAUSTINO (cerra os dentes e corre. Ele recebe a bola. Agora, o poder infernal flui. Ele dá um chapéu em dois zagueiros, mas o terceiro o derruba. Falta. O árbitro dá cartão amarelo para o zagueiro — segundo amarelo, expulsão. O zagueiro cai de joelhos, sem ter cometido falta grave.)

FAUSTINO (para si mesmo, enquanto o adversário é expulso)

Eu não pedi isso. Eu pedi gols. Não pedi injustiças.

MEFISTÓFELES (agora ao seu lado, segurando a bandeira de escanteio como se fosse um cetro)

Injustiça é relativa, Faustino. Para a Tangolândia, isso é justiça divina. Os torcedores vão comemorar; vão esquecer os escândalos políticos que estão a assolar o país em toda a parte. Para a Chucruteburgo, é escândalo, revolta, inveja de perdedor. Mas adivinhe quem escreve a história? Quem tem a taça. Você quer a taça ou quer ser santo do pau oco? Escolha rápido. O tempo está acabando.

(Aos 70 minutos, em uma cobrança de escanteio, Faustino sobe no alto. A bola vem. Ele cabeceia para o gol. A bola entra. Mas a câmera do VAR mostra, em um ângulo perfeito, que ele está muito à frente do último defensor. O árbitro olha o monitor. Mefistófeles toca o ombro de Armand. Armand balança a cabeça.)

ÁRBITRO ARMAND (com a voz firme, mas suando frio)

Gol... validado. Posição legal.

(O placar marca 2 a 0. Faustino comemora, mas, em meio aos gritos de comemoração, ele esquece o nome da rua onde cresceu. Sente um vazio imenso no peito. Olha para as mãos e não reconhece suas próprias veias pulsando.)

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CENA IV

MINUTOS FINAIS. A Chucruteburgo está arrasada psicologicamente. O estádio está um caldeirão. A Tangolândia pressiona. Aos 85 minutos, FAUSTINO recebe a bola na lateral da grande área. Ele olha para a meta. O goleiro chucrute, gigante, está adiantado. Lembra-se da promessa de Mefistófeles. A bicicleta.

FAUSTINO (respira fundo. O ar está congelado. Ele levanta a perna, gira o corpo, e executa um voleio de bicicleta perfeito, espetacular, impossível. A bola descreve uma parábola mágica, flutua sobre o goleiro e cai no fundo das redes.)

(O estádio explode. 3 a 0. O gol mais bonito da história das Copas. Faustino cai no chão, é soterrado pelos companheiros. Mas ele não sorri. Ele não sente nada. No momento exato em que a bola tocou a rede, ele esqueceu a última lembrança de sua infância. Esqueceu o cheiro da sua primeira chuteira de sola de borracha. Esqueceu quem ele era.)

MEFISTÓFELES (em campo, invisível a todos, bate palmas lentamente do alto do placar eletrônico, que pisca "3 a 0".)

Magnífico! Até eu fiquei emocionado! Que plástica! Que comercial para a próxima F.R.A.U.D.E.! Ah, Faustino, você está vendido. Literalmente.

(O juiz apita. Fim de jogo. Tangolândia é campeã do mundo.)

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CENA V

O PÓDIO. A grande cerimônia. Faustino Salvador Belimbroglio sobe as escadas em direção à taça de ouro. Ao redor, confetes, fogos de artifício, lágrimas da torcida. Ele está cambaleante, como um sonâmbulo. O presidente da F.R.A.U.D.E., um homem de sorriso plástico, coloca a taça em suas mãos: é Mefistófeles Bambifa.

PRESIDENTE DA F.R.A.U.D.E. (em discurso, para o mundo)

Eis o novo rei da bola! Faustino Salvador Belimbroglio! O maior de todos os tempos! O homem que levou a Tangolândia ao topo do mundo!

(Faustino ergue a taça. O mundo vê a imagem de um homem glorioso, chorando de emoção. Mas, na verdade, ele chora porque não sabe mais onde está. Não reconhece aquele estádio. Não reconhece os companheiros que o abraçam. Olha para a taça e vê o reflexo de Mefistófeles sorrindo maliciosamente.)

FAUSTINO (sussurrando, com a voz quebrada)

O que eu fiz? Quem sou eu?

MEFISTÓFELES (agora trajado como um cardeal, erguendo uma coroa de louros dourados e colocando na cabeça de Faustino diante das câmeras, que captam como um "gesto simbólico da torcida")

Você é Faustino Salvador Belimbroglio. O maior artilheiro das Copas, com 15 gols em um único campeonato. O Gênio da Bicicleta. Mas, no fundo... você é meu. Agora, vá, sorria para o mundo. O mercado precisa de você por mais 24 horas. Depois, sua aposentadoria forçada será a notícia do ano. Lesão grave, dirão. Aposentadoria precoce. Mas eu sei... e você agora sabe que não sabe mais.

(O jornalista da TV se aproxima.)

JORNALISTA (com microfone)

Faustino! Como se sente, campeão? O que essa taça representa para a sua carreira?

FAUSTINO (abre a boca para responder. Seu cérebro vasculha arquivos vazios. Ele não lembra a infância, não lembra os gols no campinho, não lembra de sua família, de seus amigos. Abre os lábios e, roboticamente, diz as palavras que o marketing programou.)

É a realização de um sonho, acho... dedico este título à minha nação... embora não consiga me lembrar o nome dela... dedico a todos que acreditaram... (A voz falha.) ...em mim...  Mas... mas... quem sou eu?

(Ele desmaia. Os médicos correm. Mas ele acorda rápido, empurrado pela mão fria de Mefistófeles.)

MEFISTÓFELES (ao pé do ouvido)

Calma, calma. Só mais um minuto de glória. Depois, você pode desmaiar. Mas antes, erga a taça mais uma vez para os fotógrafos. O contrato exige "imagens de coroação".

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CENA VI – FINAL

O VESTIÁRIO DA TANGOLÂNDIA, horas depois. A festa está lá fora. Os jogadores comemoram com espuma de champanhe. Faustino está sentado em um banco, sozinho, no canto. Suas pernas começam a tremer. A cláusula de validade expirou. Seu joelho estala. Seu tendão de Aquiles se contrai violentamente. Ele grita de dor, mas ninguém ouve por causa da música alta.

FAUSTINO (caindo do banco, segurando a perna)

Mefistófeles! Mefistófeles! Meu corpo! Minhas pernas! Está queimando!

(Mefistófeles materializa-se diante dele, agora sem disfarces, com chifres minúsculos que se projetam da testa e uma cauda que esconde sob o paletó. Ele carrega a taça dourada na mão direita.)

MEFISTÓFELES (com um sorriso sereno, quase paternal)

O prazo expirou, Faustino. O apito final soou há quatro horas. Você é o campeão mundial. E agora, você não é mais você. Sua alma está em minha posse. Suas memórias sumiram. Suas pernas são duas varas de bambu. Mas, veja! (Aponta para a TV do vestiário, que mostra Faustino erguendo a taça em loop.) Você é imortal! Eternizado em alta definição! Todos os meninos da Tangolândia e do mundo vão usar sua camisa. Todos vão se lembrar de você (mesmo que você não se lembre deles nem de ninguém).

FAUSTINO (com lágrimas de ódio e desespero, rastejando)

Mas isso é o inferno... Viver sem saber quem sou...

MEFISTÓFELES (ajoelha-se ao lado dele, passando a mão em seus cabelos suados)

Ah, Faustino, minha assinatura é um contrato, não um código penal. O árbitro caloteiro Armand está livre, seu filho tem uma bolsa de estudos na minha "fundação". O bandeirinha vai comprar uma mansão nova. O VAR está funcionando perfeita e tendenciosamente. Nada foi provado. Nada será provado. Você quer saber quem você é? Você é o rei porque o mundo precisa de reis. O mundo precisa de distração, desviar o foco dos problemas reais para o entretenimento puro e vazio. E eu preciso de almas.

(Ele estende a mão para Faustino.)

Olhe para sua consciência. Está pesada? É o peso da história, que eu limpei para você. Na verdade, não pesa nada. É tão leve. Agora, entregue-a a mim.

FAUSTINO (com um último fôlego de rebeldia, cruza os braços com força)

Não. Ela é minha. É a única coisa valiosa que tenho. Não a tire de mim. Sai daqui! Vá embora! Deixe-me em paz!

MEFISTÓFELES (solta uma gargalhada que ecoa por todo o vestiário, fazendo as garrafas de champanhe tremerem)

Minha? Meu caro, a taça é de metal dourado é toda sua... O que você quer, de verdade, é a sua memória. A sua alma que você vendeu. E essa... (estala os dedos) ...essa eu guardei para mim.

(Ele toca a testa de Faustino. Faustino sente um frio cerebral. Sua última lembrança pessoal — o momento em que seu pai o colocou no colo e disse "você vai ser craque, filho" — se desfaz como cinza ao vento. Faustino fica com a boca aberta, um olhar vazio, e pega a taça)

FAUSTINO (com voz de autômato e abraçando firmemente a taça)

...Craque?... A taça é minha!... Eu sou  campeão do mundo... Basta!

MEFISTÓFELES (ergue-se, ajeita a gravata e bate palmas.)

Que espetáculo mais grotesco e, ao mesmo tempo, melancólico. Agora, Faustino, você é o Rei da Bola. Vazio, corrupto, campeão, esquecido de si mesmo, mas amado pelo público. A mídia vai adorar a história do herói que se aposenta por lesão, que passa a vida em hospitais e eventos beneficentes. Você vai viver numa de suas mansões, assistindo aos seus próprios gols (que eu gravei em 8K), sem nunca lembrar de quem os marcou. Isso, meu caro, é a verdadeira imortalidade. Não a da alma, mas a da imagem.

(Mefistófeles caminha em direção à porta, mas para.)

Ah, e não se preocupe com os árbitros. Amanhã, o jornal "A Bola" vai dizer que a arbitragem foi "correta" e que "a Tangolândia mereceu". A F.R.A.U.D.E. vai me dar uma placa de presidente honorável. O mundo vai seguir em frente. E eu, bem... eu sempre estarei no próximo jogo, no próximo craque da próxima geração, no próximo desesperado que quer vender o que não tem para ter o que nunca terá. O mundo precisa de seus flautistas de Hamelin, para que conduzam as multidões para o abismo. Agora tenho que ir, tenho um novo show marcado. 

(Mefistófeles dá uma gargalhada metálica)

Senhoras e senhores, respeitável público, o espetáculo do mundo não pode parar!

(Ele abre a porta. A luz do corredor ofusca. Ele se vira para dar uma última olhada em Faustino, que está caído no chão, abraçado ao troféu, repetindo palavras sem sentido.)

MEFISTÓFELES (com um sorriso afiado como uma lâmina)

Tchau, Rei. E obrigado pelos memes. Você foi o melhor negócio da minha temporada.

(A porta se fecha. O vestiário fica em silêncio absoluto. As garrafas de champanhe vazias rolam pelo chão. FAUSTINO levanta a cabeça devagar. Olha para o espelho. Não reconhece o rosto. Aponta para o reflexo e vê sua imagem com a taça nos braços)

FAUSTINO (com uma voz de criança perdida)

Volte aqui! Quem é você? Por favor! Não me deixe sozinho! Onde estou? Volte aqui e diga-me quem sou eu.

(Ele tenta se levantar, mas as pernas não obedecem. Cai novamente. A última luz do vestiário se apaga. No escuro, ouvimos apenas o eco distante da torcida cantando "É campeão! É campeão!" e, sobreposto, o riso grave e metálico de Mefistófeles Bambifa.)

NARRAÇÃO EM OFF (voz de locutor esportivo, distorcida)

E o mundo tem um novo Rei da Bola! Faustino Salvador Belimbroglio! O homem que fez a Tangolândia sonhar! O homem que calou os críticos! O homem que... (a voz falha e se torna um chiado) ...vendeu tudo. Mas quem se importa com isso, quando o que importa é o apito final?

(Pausa longa. Silêncio total.)

FIM

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EPÍLOGO VISUAL

Um ano depois. Um comercial de TV. FAUSTINO, agora em uma cadeira de rodas, com olhos opacos, veste um terno. Ele segura um produto de achocolatado. O locutor diz: "O sabor do campeão!". Faustino repete mecanicamente a frase. Ao fundo, em uma sala de edição, MEFISTÓFELES BAMBIFA assiste à gravação, fumando um charuto, com os pés sobre a mesa, e diz para um assistente anônimo:

"Agora, tragam-me o próximo. Aquele garoto promissor que perdeu a final do campeonato sub-20. Ele está com os olhos brilhando de desespero. Perfeito para o nosso catálogo."

(Cai o pano.)

(*) Notas sobre a ilustração:

A ilustração apresenta uma cena dramática em estilo de pintura a óleo com textura visível de pinceladas:

  • Mefistófeles (à esquerda): Uma figura de olhar austero e enigmático envergando uma túnica e capuz vermelhos. Ele segura uma longa capa vermelha que se estende suavemente pelo chão.

  • O Jogador (à direita): Um jogador de futebol de cabelo escuro, sem tatuagens nos braços, em pleno salto no ar. Ele veste uma camisa branca com listras horizontais laranjas, calção azul e meias brancas. Com a mão direita erguida, ele controla uma bola de futebol clássica branca.

  • Cenário e Atmosfera: A cena se passa em um campo de futebol sob uma iluminação suave e dramática, com um fundo abstrato em tons quentes e terrosos que realça o tom clássico e misterioso da composição.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Ode a Afrodite, de Safo: análise e significado do poema

Esta ilustração clássica e detalhada representa visualmente a Ode a Afrodite de Safo, onde a deusa do amor atende ao pedido de socorro da poetisa. A imagem está dividida em dois mundos distintos que se conectam através da aparição divina[cite: 2].  Elemento central: A aparição de Afrodite Afrodite é o foco principal, sentada majestosamente numa carruagem dourada que voa pelos céus ao nascer do sol. Ela é retratada com uma coroa de flores, um vestido esvoaçante em tons pastéis e uma expressão benevolente. A carruagem é puxada por seis cisnes majestosos e está rodeada por um bando vibrante de pássaros mais pequenos, uma referência direta aos "pardais" que, segundo o poema, conduzem a deusa[cite: 2, 4].  O mundo terrestre e Safo Na parte inferior direita, numa varanda de mármore decorada com flores, encontra-se Safo. A poetisa está de pé, a segurar uma lira clássica e um pergaminho com o poema, olhando para o céu com devoção[cite: 2, 4]. A sua figura, vestida com trajes clássicos, serve como o ponto de ancoragem que liga o mundo mortal à divindade[cite: 2].  Cenário O fundo destaca a paisagem mediterrânica da ilha de Lesbos, com o mar azul, colinas suaves e uma acrópole ao longe. A arquitetura clássica dos templos e as oliveiras reforçam a atmosfera da Grécia Antiga[cite: 2, 4]. O pôr do sol suave emoldura a cena, criando uma atmosfera romântica e serena[cite: 2].

A Ode a Afrodite, de Safo de Lesbos, também conhecida como Hino a Afrodite, é o único poema de Safo que chegou até nós praticamente completo. Composto em versos da chamada estrofe sáfica, o poema é uma invocação à deusa do amor, na qual a poeta lhe pede auxílio para conquistar o afeto de uma pessoa amada. (Tradução do poema no final do texto)

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A Ode a Afrodite é, muito provavelmente, o poema mais celebrado e estudado de toda a poesia lírica grega arcaica. Atribuída a Safo de Lesbos, que viveu entre os séculos VII e VI a.C., esta composição chegou até nós de forma quase integral, um feito notável considerando a fragmentação que caracteriza a obra da poeta. Preservada por meio de uma citação do crítico Dionísio de Halicarnasso, que a elogiou como exemplo de escrita "polida" e "suave", e também registrada em um papiro encontrado em Oxirrinco, no Egito, a Ode a Afrodite ocupa um lugar central não apenas na obra de Safo, mas em toda a tradição da literatura ocidental. O poema se apresenta como uma prece dirigida à deusa do amor, na qual a voz poética suplica por auxílio em uma aflição amorosa, pedindo que Afrodite intervenha para tornar recíproco o sentimento por uma jovem amada.

A estrutura da Ode a Afrodite segue os moldes do hino de invocação da tradição grega, organizando-se em sete estrofes sáficas, um esquema métrico que leva o nome da própria poeta. A composição se desenrola em três movimentos distintos: uma invocação inicial, na qual a deusa é chamada com epítetos que exaltam seu poder e sua natureza multifacetada; uma narrativa central, na qual a voz poética relembra uma ocasião passada em que Afrodite já havia atendido a um chamado semelhante; e, por fim, uma súplica renovada, na qual se pede que a deusa interceda mais uma vez.

Essa arquitetura não é meramente formal: ela revela uma sofisticada consciência poética, na qual o passado e o presente se entrelaçam para construir um retrato da experiência amorosa como algo recorrente, quase cíclico, marcado por uma alternância entre a dor da rejeição e a esperança da conquista.

A invocação que abre a Ode a Afrodite é um dos momentos mais densos e belos de toda a poesia grega. A voz poética dirige-se à deusa como "Afrodite do trono multicolorido" ou "de flóreo manto furta-cor", uma imagem que evoca tanto a riqueza visual associada à divindade quanto a ideia de que seu poder se manifesta em múltiplas formas e aparências. Afrodite é chamada de "filha de Zeus" e "tecelã de ardis", epítetos que a situam no panteão olímpico ao mesmo tempo que destacam sua habilidade em tramar situações amorosas, em urdir os fios do desejo e da sedução. A súplica inicial é clara: que a deusa não domine o coração da poeta com angústia e sofrimento, mas que venha em seu auxílio. O verbo "suplico-te" instaura desde o início uma relação de dependência e confiança, na qual a voz poética reconhece sua vulnerabilidade diante das forças do amor e busca na divindade a única aliada capaz de intervir em seu favor.

Na parte central do poema, a voz poética narra um episódio anterior no qual Afrodite já havia comparecido em resposta a um chamado semelhante. A deusa, vinda do lar paterno em uma carruagem atrelada a velozes aves, surge sorrindo, com o rosto eternamente jovem, e pergunta à poeta por que sofre novamente, por que clama mais uma vez. A pergunta de Afrodite é ao mesmo tempo terna e perspicaz, pois revela que a deusa conhece bem a natureza repetitiva do desejo humano. Em seguida, a deusa faz uma promessa que se tornou célebre: "Pois se agora foge, virá em breve; se presentes nega, dará em breve; se desama agora, amará na hora mesma". Esses versos condensam uma visão do amor como um movimento pendular, no qual a rejeição de hoje pode se transformar na entrega de amanhã, e no qual a insistência e a espera são parte intrínseca da experiência amorosa.

A súplica final da Ode a Afrodite retoma o tom da invocação inicial, pedindo que a deusa venha novamente em auxílio da poeta, livrando-a das longas aflições e concedendo os afãs que anseia em seu peito. A expressão "seja aliada nesta linha de luta" é particularmente significativa, pois mobiliza uma metáfora bélica para descrever o conflito amoroso. O amor, nessa perspectiva, não é apenas uma experiência afetiva, mas uma verdadeira batalha, na qual a poeta precisa de uma aliada poderosa para vencer. Afrodite, a deusa que tece ardis e governa os desejos, é convocada como a sumakhos, a aliada de lutas, capaz de reverter a situação e fazer com que a amada retribua o sentimento. Essa imagem do amor como campo de batalha ecoa a linguagem homérica da Ilíada, demonstrando a profunda familiaridade de Safo com a tradição épica e sua habilidade em transformá-la em matéria lírica.

A Ode a Afrodite tem sido objeto de intensos debates entre estudiosos, que divergem sobre a seriedade com que a poeta teria tratado o tema. Alguns intérpretes, como Denys Page, enfatizam a presença da repetição e do humor no poema, argumentando que Safo estaria retratando a vaidade e a impermanência de sua própria paixão, adotando uma postura de distanciamento e até de ironia.

Outros, no entanto, veem na ode uma expressão genuína e comovente de vulnerabilidade, na qual a poeta se apresenta como uma suplicante diante da deusa, sem qualquer traço de desprendimento ou controle. Essa divergência interpretativa revela a riqueza e a complexidade do poema, que resiste a leituras redutoras e continua a instigar novas gerações de leitores e críticos. A Ode a Afrodite não é apenas um documento literário da antiguidade, mas um texto vivo, que dialoga com questões universais sobre o desejo, a dor da rejeição e a busca por reciprocidade.

A relevância da Ode a Afrodite para a tradição poética ocidental é imensa. Safo inaugura, com esse poema, uma voz lírica que fala em primeira pessoa sobre a experiência amorosa, transformando o amor em matéria de reflexão poética e filosófica. A influência da ode se estende de Catulo a Ezra Pound, de Petrarca a Anne Carson, demonstrando sua capacidade de atravessar séculos e culturas sem perder sua força expressiva. A deusa Afrodite, nesse poema, não é apenas uma figura mitológica distante, mas uma presença viva, que ouve, responde e intervém no drama humano.

A Ode a Afrodite é, em última análise, um testemunho do poder da poesia de transformar a dor em beleza, o desespero em arte e a súplica em canto. Ler esse poema é entrar em contato com uma das vozes mais autênticas e comoventes da antiguidade, uma voz que continua a ressoar com uma clareza surpreendente mais de dois mil e quinhentos anos depois de ter sido escrita.

Tradução integral em português, procurando preservar o sentido, o tom lírico e a estrutura do poema, sem reproduzir uma tradução moderna específica.

Ode a Afrodite

Safo de Lesbos

Imortal Afrodite, de trono ornado,
filha de Zeus, tecelã de ardis,
suplico-te: não me submetas, senhora,
às angústias e às dores do coração.

Mas vem até mim, se alguma vez, outrora,
ao ouvires minha voz de longe,
deixaste a morada de teu pai
e vieste em meu auxílio.

Atrelaste então teu carro dourado,
e os belos pardais, velozes mensageiros,
conduziram-te sobre a terra escura,
batendo as asas do céu até aqui.

E tu, ó deusa bem-aventurada,
com um sorriso em teu rosto imortal,
perguntaste por que novamente eu sofria,
por que mais uma vez te chamava.

O que desejava meu coração enlouquecido?
Quem deveria Persuadir, desta vez,
a voltar para teu amor? Quem, ó Safo,
te despreza e foge de ti?

Se agora ela foge, em breve te perseguirá;
se recusa teus presentes, logo os oferecerá;
se não te ama, em breve te amará,
mesmo que contra a própria vontade.

Vem, portanto, também agora,
liberta-me destas angústias cruéis!
Concede-me aquilo que meu coração deseja
e sê tu mesma minha aliada nesta luta.

Nota sobre a tradução: esta versão é uma tradução literária em português, baseada no texto grego tradicionalmente atribuído a Safo. O poema apresenta algumas dificuldades de interpretação, e diferentes traduções podem divergir na escolha de palavras e na reconstrução de determinados versos. A composição original é conhecida como Fragmento 1 de Safo, segundo a numeração de Lobel e Page.

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A Ética Cristã e o Segredo do Sucesso Financeiro, de Diego Roderik

Capa do livro. Em primeiro plano, um rapaz anota planilhas. No fundo, imagens que fazem referência ao poder divino. Gráficos e moedas preenchem a ilustração.

O Fim da Era de Gutenberg, de Jean Monti Pires

Capa do livro

As Travessuras das Cinco Estrelinhas de Andrômeda, de Nilza Monti Pires

A imagem mostra a capa de um livro infantil intitulada “As Travessuras das Cinco Estrelinhas de Andrômeda”, escrita por Nilza Monti Pires, cujo nome aparece no topo da capa em letras grandes e azuis.  A ilustração apresenta um céu azul vibrante, com nuances que lembram pinceladas suaves, e espirais claras que remetem a galáxias. Há também pequenas estrelinhas amarelas espalhadas pelo céu, sugerindo um cenário cósmico alegre e fantasioso.  No centro da imagem, sobre uma colina verde arredondada, aparecem cinco estrelas coloridas com expressões humanas, cada uma com personalidade própria:  Uma estrela azul com expressão feliz e bochechas rosadas.  Uma estrela vermelha com expressão triste.  Uma estrela amarela sorridente, com duas pequenas argolas no topo, lembrando “marias-chiquinhas”.  Uma estrela verde usando óculos e com ar simpático.  Uma estrela cinza com um sorriso discreto.  Todas estão alinhadas lado a lado, transmitindo sensação de amizade e diversidade emocional.  Na parte inferior da capa, em letras brancas e grandes, está o título do livro distribuído em três linhas: AS TRAVESSURAS / DAS CINCO ESTRELINHAS / DE ANDRÔMEDA.  O fundo bege claro emoldura toda a ilustração, dando destaque ao colorido central.

Kronstadt e A Terceira Revolução, de Jean Monti Pires

A imagem é a capa de um livro com design inspirado em cartazes revolucionários do início do século XX. No topo, em letras vermelhas, aparece o nome do autor: Jean Monti Pires.  A ilustração central, em tons de vermelho, sépia e preto, mostra um grupo de marinheiros e revolucionários avançando de forma determinada. O personagem principal, um marinheiro de expressão séria, está à frente segurando um rifle. Atrás dele, outros marinheiros marcham, e à esquerda há um homem de punho erguido em gesto de protesto. À direita, vê-se uma paisagem industrial com fábricas e chaminés, reforçando o ambiente de luta social e política.  Uma mulher ao fundo ergue uma grande bandeira vermelha com inscrições em russo: “Советы свободные”, que significa “Sovietes Livres”. A bandeira tremula ao vento, simbolizando mobilização revolucionária e resistência.  A parte inferior da capa apresenta um retângulo vermelho com um título estilizado usando caracteres que imitam o alfabeto cirílico. Abaixo, em português, lê-se o subtítulo:  “A luta dos marinheiros contra a hegemonia do Ocidente”  O fundo bege claro enquadra toda a composição, destacando o estilo gráfico forte e dramático da cena.

Entre a Cruz e a Espada, de Jean Monti Pires

A imagem é a capa de um livro com estética clássica, evocando pinturas do século XIX. No topo, em letras brancas e elegantes, aparece o nome do autor: Jean Monti Pires.  A cena central mostra um homem idoso, de barba longa e grisalha, vestindo roupas escuras tradicionais e segurando um cordão de contas nas mãos. Ele está em pé, no centro de um tribunal, com expressão grave e abatida, sugerindo tensão, julgamento ou reflexão profunda. Sua postura transmite dignidade misturada a sofrimento.  Ao redor, aparecem magistrados, juízes e espectadores, todos trajando roupas antigas, compatíveis com os tribunais europeus dos séculos XVII a XIX. As figuras observam atentamente, algumas com semblantes sérios, outras parecendo julgadoras. O ambiente é composto por painéis de madeira, palanques elevados e arquitetura típica de salas de julgamento históricas.  No centro superior da imagem, atrás do personagem principal, estão juízes sentados em cadeiras altas, reforçando a atmosfera de formalidade e severidade. Nas laterais, homens e mulheres compõem o público, vestidos à moda antiga, todos testemunhando o momento tenso retratado.  Na parte inferior da capa, sobre uma faixa preta, o título aparece em letras grandes e vermelhas:  ENTRE A CRUZ E A ESPADA. O conjunto visual sugere um tema histórico e dramático, envolvendo julgamentos, tensões religiosas, perseguições e conflitos ideológicos, alinhado ao título e ao foco da obra.

Ética Neopentecostal, Espírito Maquiavélico, de Jean Monti Pires

A imagem é a capa de um livro com estética inspirada em cartazes ilustrados de meados do século XX. O fundo possui um tom bege envelhecido, reforçando o visual retrô. No topo, em letras elegantes e escuras, está o nome do autor: Jean Monti Pires.  Logo abaixo, em destaque e em caixa alta, aparece o título:  ÉTICA NEOPENTECOSTAL, ESPÍRITO MAQUIAVÉLICO  No centro da composição há uma ilustração de um homem calvo, de expressão sorridente, vestindo paletó escuro. Ele está representado com duas ações simbólicas:  A mão esquerda levantada, como se estivesse em posição de discurso, pregação ou saudação.  A mão direita segurando um grande saco de dinheiro, marcado com o símbolo de cifrão.  À sua frente há um púlpito de madeira com um livro aberto, sugerindo um ambiente de pregação religiosa. Na parte inferior da imagem, várias mãos erguidas aparecem entre sombras, representando uma plateia ou congregação que observa ou interage com o personagem central.  Abaixo da ilustração, em letras grandes, está escrito:  EVANGÉLICOS CRISTÃOS:  E logo abaixo, em branco:  Quando os Fins Justificam os Meios na Busca por Riqueza, Influência e Controle Social  O conjunto transmite um visual satírico e crítico, com forte carga simbólica envolvendo religião, dinheiro e poder, alinhado ao tema da obra.

A Verdade sobre Kronstadt, de Volia Rossii

A imagem é a capa de um livro ou panfleto intitulado "A verdade sobre Kronstadt".  Aqui estão os detalhes da capa:  Título: "A verdade sobre Kronstadt" (em português).  Design: A arte é em um estilo que lembra pôsteres de propaganda ou arte gráfica soviética/revolucionária, predominantemente nas cores vermelho, preto e tons de sépia/creme.  Figura Central: É um marinheiro, provavelmente da Marinha Soviética, em pé e de frente, olhando para o alto. Ele veste o uniforme típico com o colarinho largo e tem uma fita escura (possivelmente preta ou azul marinho) enrolada em seu pescoço. Ele segura o que parece ser um mastro, bandeira enrolada ou um pedaço de pau na mão direita.  Fundo: A cena de fundo é em vermelho e preto, mostrando a silhueta de uma área urbana ou portuária com algumas torres ou edifícios. Há uma peça de artilharia ou canhão na frente do marinheiro, no lado direito inferior.  Autoria e Detalhes: Na parte inferior da imagem, há a indicação de autoria: "Volia Rossii" e "por Fecaloma punk rock".  Subtítulo/Série: A faixa inferior da capa, em vermelho sólido, contém o texto: "Verso, Prosa & Rock'n'Roll".  A imagem faz referência ao Levante de Kronstadt de 1921, que foi uma revolta de marinheiros bolcheviques contra o governo bolchevique em Petrogrado (São Petersburgo).

A Saga de um Andarilho pelas Estrelas, de Jean P. A. G.

🌌 Capa do Livro "A saga de um andarilho pelas estrelas" A capa tem um tema cósmico e solitário, dominado por tons de azul escuro, preto e dourado.  Título: "A saga de um andarilho pelas estrelas" (em destaque na parte inferior, em fonte branca).  Autor: "Jean Pires de Azevedo Gonçalves" (em destaque na parte superior, em fonte branca).  Cena Principal: A imagem mostra uma figura solitária e misteriosa, de costas, que parece ser um andarilho.  Ele veste um longo casaco ou manto escuro com capuz.  A figura está em pé no topo de uma colina ou montanha de aparência rochosa e escura.  Fundo: O céu noturno é o elemento mais proeminente e dramático.  Ele está repleto de nuvens cósmicas e nebulosas nas cores azul, roxo e dourado.  Uma grande galáxia espiral em tons de laranja e amarelo brilhante domina a parte superior do céu.  Um rastro de meteoro ou cometa aparece riscando o céu perto da galáxia.  A composição sugere uma jornada épica, exploração e o mistério do vasto universo.

A Greve dos Planetas, de Jean P. A. G.

Capa do Livro "A saga de um andarilho pelas estrelas" Esta imagem é uma capa de livro de ficção científica ou fantasia com uma atmosfera épica e cósmica.  Título: "A saga de um andarilho pelas estrelas" (em destaque na parte inferior).  Autor: "Jean Pires de Azevedo Gonçalves" (em destaque na parte superior).  Cena Principal: Uma figura solitária (o andarilho), envolta em um casaco ou manto com capuz, está de costas, no topo de uma colina ou montanha escura e rochosa.  Fundo Cósmico: O céu noturno é dramático, preenchido com:  Uma grande galáxia espiral de cor dourada/laranja no centro superior.  Nuvens e nebulosas vibrantes em tons de azul profundo, roxo e dourado.  Um rastro de meteoro ou cometa riscando o céu.

Des-Tino, de Jean P. A. G.

🎭 Descrição da Capa "Des-Tino" Título: "Des-Tino" (em letras brancas grandes, dividido em sílabas por um hífen).  Autor: "Jean Pires de Azevedo Gonçalves" (na parte superior, em letras brancas).  Subtítulos: "Dramaturgia" e "Verso, Prosa & Rock'n'Roll" (na parte inferior).  Cena da Pintura: A imagem central é uma representação de figuras humanas nuas ou parcialmente vestidas em um cenário ao ar livre (floresta/jardim).  Figura da Esquerda (Superior): Uma pessoa vestida com uma túnica vermelha e um capacete (possivelmente representando um deus ou herói da mitologia, como Marte ou Minerva/Atena) está inclinada e conversando com a figura central.  Figura Central: Uma mulher seminu está sentada ou recostada, olhando para a figura com o capacete. Ela gesticula com a mão direita para cima, com uma expressão pensativa ou de surpresa.  Figura da Esquerda (Inferior): Uma figura masculina, possivelmente um sátiro ou poeta (pelas barbas e pose), está reclinada e olhando para as figuras centrais, segurando o que parece ser uma lira ou harpa.  Figura da Direita: Outra figura feminina, nua ou com pouca roupa, está de pé na lateral direita, observando a cena.  Estilo: A arte é uma pintura de estilo clássico, com foco em figuras humanas, composição dramática e luz suave.

Eu Versos Eu, Jean Monti

Descrição da Capa "Eu versos Eu" A capa utiliza um forte esquema de cores em preto e branco para criar um efeito visual de contraste e divisão.  Título Principal: A capa é composta pelas palavras "Eu versos Eu", dispostas em três seções principais.  Autor: O nome "Jean Monti" aparece no topo, em uma faixa preta.  Design Gráfico:  Faixa Superior: Um retângulo branco com a palavra "Eu" em fonte serifada preta grande.  Faixa Central: Um quadrado dividido diagonalmente:  A metade superior esquerda é branca com a palavra "ver" (parte da palavra "versos") em preto.  A metade inferior direita é preta com a palavra "sos" (o restante da palavra "versos") em branco.  Faixa Inferior: Um retângulo branco com a palavra "Eu" novamente, em fonte serifada preta grande.  Subtítulo/Série: Na parte inferior, fora da faixa, aparece o texto "Verso, Prosa & Rock'n'Roll" em preto, sugerindo um tema ou série.  O design simétrico e a divisão em preto e branco reforçam a ideia do título, "Eu versos Eu", sugerindo um conflito, dualidade ou reflexão interna.

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(***) Notas sobre a ilustração:

Esta ilustração clássica e detalhada representa visualmente a Ode a Afrodite de Safo, onde a deusa do amor atende ao pedido de socorro da poetisa. A imagem está dividida em dois mundos distintos que se conectam através da aparição divina[cite: 2].

Elemento central: A aparição de Afrodite Afrodite é o foco principal, sentada majestosamente numa carruagem dourada que voa pelos céus ao nascer do sol. Ela é retratada com uma coroa de flores, um vestido esvoaçante em tons pastéis e uma expressão benevolente. A carruagem é puxada por seis cisnes majestosos e está rodeada por um bando vibrante de pássaros mais pequenos, uma referência direta aos "pardais" que, segundo o poema, conduzem a deusa[cite: 2, 4].

O mundo terrestre e Safo Na parte inferior direita, numa varanda de mármore decorada com flores, encontra-se Safo. A poetisa está de pé, a segurar uma lira clássica e um pergaminho com o poema, olhando para o céu com devoção[cite: 2, 4]. A sua figura, vestida com trajes clássicos, serve como o ponto de ancoragem que liga o mundo mortal à divindade[cite: 2].

Cenário O fundo destaca a paisagem mediterrânica da ilha de Lesbos, com o mar azul, colinas suaves e uma acrópole ao longe. A arquitetura clássica dos templos e as oliveiras reforçam a atmosfera da Grécia Antiga[cite: 2, 4]. O pôr do sol suave emoldura a cena, criando uma atmosfera romântica e serena[cite: 2].