quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

TRANSGREDIR POR TRANSGREDIR - FECALOMA - CLÁSSICOS DO PUNK BR

Fecaloma: 20 Anos de Transgredir por Transgredir



por Nicolas Clash

punk rock: Fecaloma

Há vinte anos, era lançado o álbum “Transgredir por transgredir”, da banda paulistana Fecaloma, hoje um clássico do punk rock da geração dos anos 1990. Depois do boom dos anos 80, capitaneado pelas bandas Inocentes, Ratos de Porão, Cólera e Garotos Podres, o movimento punk entrou numa fase de inatividade, pelo menos musicalmente. No início dos anos 90, não havia mais apresentações de bandas punks nos clubes e bares da cidade de São Paulo e parecia mesmo que o referido gênero musical havia se esgotado. Entretanto, as gangues continuaram circulando pelo centro e periferias da metrópole à procura de diversão. Entre uma peripécia aqui, outra ali, muitos dos garotos e garotas punks tinham bandas que ficavam restritas às “garagens” de suas casas, onde rolavam os “shows”. Este fenômeno passou despercebido por um bom tempo. Contudo, já nos vislumbres do novo século, como uma panela de pressão, do nada estourou uma nova onda de bandas punks que se espalhava por todos os cantos da cidade e tomava de assalto outra vez o cenário underground. Apareceram então os Invasores de Cérebros, Deserdados, Execradores, Filhos da Desordem, Hiccups, Colisão Social, Gritando HC, Pé Inchado, Cosmogonia, Phobia, Excluídos, Flicts, Calibre 12 e inúmeras outras que não caberiam nesta breve postagem. O surgimento desta nova geração de bandas punks foi possível graças ao baixo custo de produção do quase extinto, hoje, CD. Os primeiros lançamentos foram as coletâneas SP Punk, que chegariam a quatro volumes. Daí em diante cada banda passou, quando podia, a produzir seus próprios CDs. 


É neste contexto que “Transgredir por transgredir” é gestado. Com um estilo punk rock bem cru e simples, a la Ramones, e apresentando desafinações e erros de gravação, o Fecaloma apostava principalmente em suas letras iconoclastas, que escandalizavam até mesmo os punks mais radicais. Canções como Primeiro da Classe (“Eu vou cabular/E fazer da minha vida um recreio” – refrão), O Dever Me Chama (“Quando o trabalho/O dever me chama/Eu prefiro descansar”), Nada Vai Mudar (“Não se anule/Vote nulo/A cidadania é uma farsa/Não passe em branco/Não seja um número/Senão, nada vai mudar), João Consumo (“João Consumo era tão frio quanto seu freezer/João Consumo fazia sexo com sua televisão”), Transgredir por transgredir (Tudo é tão vazio/Eu quero um sentido pra viver:/ Transgredir por transgredir/Não tenho nada pra fazer/Vou sair e dá porrada”), entre outras, causavam polêmica e, às vezes, detratação de alguns. Algumas músicas foram espantosamente proféticas, pois, em América Latina, a letra dizia em bom portunhol, no trecho final: “Non hay nada mejor neste mundo/Do que uma guerrilha civil/Entre una democracia y ditatura/Entre otra democracia e ditadura/Y assim voy viviendo mi vida/Pois yo soy latino americano.../Hei gringos y traidores!/Façam fila no paredón/Voy mandar usted/Sabrá Dios pra onde..”). Já O que há de errado com os vermes? incorria no nonsense (“Quando os vermes entupirem as privadas/E saírem pelo seu nariz/Quando as crianças comerem lombrigas/Que parecem macarrão/Quando sua filhinha pedir de Natal/Uma tenia solium/Quando sua esposa estiver grávida/De uma minhocoçu”). A canção intitulada simplesmente É também vai por essa linha e o refrão dá bem o seu tom: "O que é? O que é? O que é? É! É! É! É! É!). A Delinquentes ou inocentes engrossa o velho tema do repertório punk em sua crítica virulenta ao establishment ("Mas se o sistema é violento delinquente/Como copo haver inocente?/Quem é que faz a violência/Delinquentes ou inocentes?). Músicas que hoje são inconfundivelmente a marca do Fecaloma.


A banda ainda lançaria mais dois CD, “Rebelião Adolescente” (2001) e “Ocupar e Resistir” (2005), sempre misturando um humor sarcástico com uma contundente crítica político social, pela perspectiva do Anarquismo. (A propósito, todos os discos estão disponíveis no Youtube, aqui, aqui e aqui, respectivamente). Em 2017, a banda retornou depois de quase dez anos parada. Nesse meio tempo, nas redes sociais e internet, sofreu ataques de fascistas e nazis, mas nada que fizesse a banda desistir de seus ideais libertários. Para fechar este texto, transcreveremos a letra mais emblemática do Fecaloma, Sertapunk, que apresenta um arranjo punk rock e hardcore à moda do sertanejo de raiz, numa tentativa paradoxal de unir o humanismo universal da Anarquia às raízes regionais do Brasil.

SERTAPUNK

Meu país começa
Nos meus olhos
E se encerra
No horizonte

Minha bandeira
É minha roupa
E todas as cores
Da terra

O hino que canto
É uma música qualquer
Que me deu vontade
De cantar...

(Hard Core)

(disco completo)

01 - Dança da Chuva
02 - Nada Vai Mudar
03 - É
04 - Delinquentes ou Inocentes?
05 - Violência Sub/City
06 - João Consumo
07 - O Que Há de Errado Com os Vermes?
08 - Transgredir Por Transgredir
09 - Sertapunk
10 - Alguém me Segure
11 - O Dever Me Chama
12 - Primeiro da Classe
13 - Sem Nome
14 - Século XXI
15 - América Latina
16 - Os Últimos Espermatozoides Radioativos
17 - Marchinha de Bach

OBS.: Transgredir por transgredir está fora de catálogo e só pode ser encontrado na internet. Mais vídeos no canal do João Monti.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

QUINCAS BORBA: SCHOPENHAUER TROPICAL

Considerações sobre o Humanitismo e Schopenhauer


J. Pires de A. Gonçalves

Pode se dizer que a obra de Machado de Assis é marcada por um grande pessimismo em relação à humanidade. Machado traz à luz as pequenas violências do cotidiano que não são passíveis de punição social, senão, no máximo, de reprovação moral. Porém, ainda que reprováveis, no fim das contas, o que vale são os fins, não importando os meios empregados para alcançá-los, e aquilo que era vilania torna-se objeto de mérito. Os fins acabam por purgar as atitudes mais traiçoeiras, desleais, desonestas, dos personagens mais abjetos, movidos apenas por interesses mesquinhos, que acabam por granjear a estima social pelo êxito conquistado, assim como é o caso do casal Sofia e Cristiano Palha, no romance “Quincas Borba”. Através de uma narrativa por vezes cruel, Machado de Assis desenvolve uma trama em que heroísmo e nobreza de caráter pouco valem, mas somente aquilo que é imprescindível para obter o sucesso desejado, e que pode ser resumido na filosofia do Humanitismo. Eis o fundamental: o “filósofo” Quincas Borba imagina uma situação em que duas tribos famintas entram em guerra por uma plantação de batatas, insuficiente para alimentar as duas tribos, que precisam estar bem nutridas, para transpor a montanha e chegar a um campo onde há batatas em abundância. Quem vence a guerra fica com as batatas e sobrevive, já que a paz significa a extinção das duas tribos. No fim vigora o princípio do Humanitas, ao qual não se reduz à máxima do mais forte vence e extermina o mais fraco, e, sim, do triunfo e da conservação da vida. Daí o júbilo da vitória, hinos, aclamações e recompensas públicas, de que fala Quincas Borba. “Ao vencedor, as batatas”, grita Rubião, em um misto de loucura e desespero, depois de perder tudo. Aos vencidos, resta-lhes ódio ou compaixão. Ainda que do ponto de vista ético isto possa parecer chocante, a realidade prova todos os dias a validade do princípio Humanitas. Sem dúvida, tal visão pessimista faria de Quincas Borba um Arthur Schopenhauer dos trópicos. Porém, esta afirmação enseja muitos problemas e merece algumas considerações críticas. Neste sentido, sabendo-se que Machado de Assis era leitor de Schopenhauer, indaga-se qual é o sentido da filosofia schopenhaueriana em Machado de Assis, notadamente o Humanitismo, e qual é a sua real extensão na obra machadiana.

Schopenhauer fora do lugar

Roberto Schwarz em seu livro “Ao vencedor as batatas” sustenta que, ao mesmo tempo em que o Brasil recebia uma forte influência no plano das ideias sob os avanços do capitalismo industrial e de sua superestrutura liberal e iluminista, a sociedade brasileira estava moldada pelo modo de produção escravista e pelo latifúndio agroexportador. Na verdade, os ideais da livre concorrência e dos princípios burgueses de igualdade e liberdade jurídica brotavam justa e contraditoriamente desta realidade social e econômica escravocrata. Assim sendo, foram curiosamente os princípios das revoluções norte-americana e francesa que deram os subsídios dos matizes ideológicos da Independência do Brasil, na qual, socialmente, em nada alterou sua estrutura colonial. De certa forma, Schwarz explica uma certa inevitabilidade deste aparente dualismo, pois o latifúndio era fornecedor de matéria-prima, no caso o café, ao mercado externo, e por isso mantinha relações de dependência ao centro do sistema econômico, o que impossibilitava um isolamento completo ao universo cultural das metrópoles. No fundo, o que ligava o Brasil à Europa, e vice-versa, era o lucro. No velho mundo, a servidão estava extinta, mas sob o aparato ideológico do moderno Estado de direito e das economias liberais, o proletariado branco era submetido a mais vil exploração, para a obtenção da mais-valia pelos industriais, algo que também era repudiado pelos latifundiários brasileiros.

No Brasil, portanto, apesar das contradições evidentes, a sociedade absorvia a atmosfera cultural europeia e as reproduzia. Segundo Schwarz, a chave para entender esta absorção estava numa classe intermediária aparentemente residual. Em suas palavras:

“Para descrevê-la é preciso retomar o país como todo. Esquematizando, pode-se dizer que a colonização produziu, com base no monopólio da terra, três classes de população: o latifundiário, o escravo e o “homem livre”, na verdade dependente. Entre os primeiros dois a relação é clara, é a multidão dos terceiros que nos interessa. Nem proprietários nem proletários, seu acesso à vida social e a seus bens depende materialmente do favor, indireto ou direto, de um grande. O agregado é a sua caricatura. O favor é, portanto, o mecanismo através do qual se reproduz uma das grandes classes da sociedade, envolvendo também outra, a dos que não têm. Nota-se ainda que entre estas duas classes é que irá acontecer a vida ideológica, regida, em consequência por este mesmo mecanismo” (SCHWARZ, 2000a, p. 16).

É num contexto de modernização conservadora que o favor penetrará em todos os setores da sociedade, até mesmo determinando aquelas instituições que deveriam ser pautadas pela isenção e racionalidade, como a burocracia e a justiça, naquilo se convencionou também chamar de clientelismo. Por detrás dos ideais do mérito e da moral do trabalho vigoravam o compadrio, as relações pessoais, de amizade e parentesco, os conchavos políticos etc., e que de certa forma ainda permeiam as instituições brasileiras até os dias atuais. No Brasil, o moderno está intrinsecamente misturado com o arcaico; mas não só isso: justamente as concepções modernas é que legitimam seu fundamento arcaico.

“Adotadas as ideias e razões europeias, elas podiam servir e muitas vezes serviram de justificação, nominalmente “objetiva”, para o momento de arbítrio que é da natureza do favor. Sem prejuízo de existir, o antagonismo se desfaz em fumaça e os incompatíveis saem de mãos dadas. Esta recomposição é capital” (Idem, p. 18).

Evidentemente, a literatura brasileira vai refletir a realidade social do país e, tal como ocorreu com os ideais liberais burgueses, importar modelos literários europeus, muito embora toda a trama narrativa continue a girar em torno do favor. Machado de Assis será mestre em denunciar, sem alarde e muito sutilmente, através da ironia, este descompasso, com narrativas que em si mesmas desmancham o verniz racional forasteiro e que trazem à tona, das recônditas profundezas do cotidiano provinciano, todas as relações sociais movidas pela lógica do favor.

Schopenhauer versus Quincas Borba

Como se sabe, Machado de Assis era leitor, dentre muitos outros filósofos, de Arthur Schopenhauer. O filósofo pessimista é inclusive citado por Machado de Assis numa crônica intitulada “O autor de si mesmo: Numa crônica de jornal, a tese schopenhaueriana da metafísica do amor é ilustrada por um caso policial”, que fora publicada no periódico “Gazeta de Notícias” no ano de 1895. Nesta crônica, o próprio Schopenhauer aparece, hipoteticamente, em pessoa na cidade de Porto Alegre! Segundo Rosa Maria Dias:

“Tal como Schopenhauer, Machado pôs em cena o grande drama da existência humana. Sistematizou no ‘Autor de si mesmo’ sua visão pessimista da vida. Os seres humanos estão condenados à infelicidade, não só porque são títeres de uma força inconsciente e instintiva, mas porque a estrutura inata do afeto impede de maneira inerente a aquisição da felicidade” (DIAS, 2005, p 392).

A filosofia schopenhaueriana nasce da crítica devastadora de Schopenhauer ao seu mestre Immanuel Kant. Em Kant, é bem conhecida a cisão entre coisa-em-si, metafísica não acessível ao conhecimento, e fenômeno, objeto constituído pelo sujeito a partir da experiência e das condições subjetivas do conhecimento. Da filosofia de Kant, Schopenhauer, ao contrário de seus contemporâneos, preservou a coisa-em-si, identificando-a como vontade, princípio uno, eterno e universal. Quanto aos fenômenos, para Schopenhauer, são apenas representações subjetivas e individuais da vontade no tempo e espaço. Ou seja, o que de fato é real, único e imutável é a vontade; enquanto o fenômeno não é mais que aparência da vontade ou, nos termos do filósofo, seu Véu de Maia (véu das ilusões).

A vontade, que não tem nenhum fim determinado, é perceptível em todas as coisas como querer-viver. O querer-viver submete tudo a uma servidão infinita, que, no entanto, aparece como ilusória vontade individual. Todas as coisas na natureza estão em uma luta voraz e perpétua para subsistir e suprir necessidades relativas à existência. Luta-se numa guerra de todos contra todos, por riqueza e honra, comida, paz, em suma, por felicidade. Mas a felicidade é também ilusão, pois um desejo sempre ou traz sofrimento, caso não seja realizado, ou saciedade e tédio, quando alcança seu fim. No fim das contas, todos os caminhos conduzem ao sofrimento, que se intensifica ainda mais com a consciência. Vivemos e sofremos sem saber por quê, e, no entanto, continuamos a querer, a desejar e, consequentemente, sofrer, tal qual uma roda a girar eternamente.

Feitas estas breves considerações sobre a filosofia de Schopenhauer, tracemos algumas comparações entre o Humanitismo de Quincas Borba e alguns fragmentos de “O mundo como vontade e representação”, obra capital de Schopenhauer, à maneira de um diálogo socrático:

QUINCAS BORBA: Bem, irás entendendo aos poucos a minha filosofia; no dia em que a houveres penetrado inteiramente, ah! nesse dia terás o maior prazer da vida, porque não há vinho que embriague como a verdade. Crê-me, o Humanitismo é o remate das coisas; e eu, que o formulei, sou o maior homem do mundo. Olha, vês como o meu bom Quincas Borba está olhando para mim? Não é ele, é Humanitas...

SCHOPENHAUER: Portanto, enquanto reconhecemos neste animal a sua ideia, é totalmente indiferente e sem significado o termos diante de nós agora este animal, ou seus ancestral de um milênio, que o local seja este ou num país distante, que se apresente desta ou daquela maneira, posição ou ação, que finalmente seja este ou aquele indivíduo de sua espécie: isto tudo não existe e refere-se somente ao fenômeno: unicamente a ideia do animal possui verdadeira e é objeto de conhecimento real. (p. 24).

QUINCAS BORBA: Humanitas é o principio. Há nas coisas todas certa substância recôndita e idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível, — ou, para usar a linguagem do grande Camões:

Uma verdade que nas coisas anda,
Que mora no visíbil e invisíbil.

Pois essa sustância ou verdade, esse princípio indestrutível é que é Humanitas. Assim lhe chamo, porque resume o universo, e o universo é o homem. Vais entendendo?

SCHOPENHAUER: Ele recolhe portanto a natureza em si mesmo, a senti-la somente como um acidente de seu próprio ser. Neste sentido Byron diz:

Are not the mountains, waves and skies, a part
Of me and of my soul, as I of them?[1]

Mas como poderia quem isto sentisse considerar-se a si mesmo, em contraste com a imperecível natureza, como absolutamente perecível? (p. 32)

A vontade é o em-si da ideia, esta objetivando perfeitamente aquela; ela também é o em-si da coisa individual e do indivíduo que conhece esta; estes objetivando imperfeitamente aquela. Como vontade, fora da representação e de todas as suas formas, ela é uma e a mesma, no objeto contemplado, e no indivíduo que, elevando-se por esta contemplação, se torna consciente de si como puro sujeito, estes dois por isto são em si diferenciáveis, pois em si são a vontade que se conheci a si mesma, e é somente do modo pelo qual este conhecimento se lhe constitui, i.e., somente no fenômeno, graças à sua forma, o princípio da razão, multiplicidade e diversidade. Tampouco eu, sem objeto, sem representação, sou sujeito que conhece, mas tão somente simples vontade cega; tampouco sem mim, como sujeito do conhecimento, a coisa conhecida é objeto, mas tão somente simples vontade, ímpeto cego. Esta vontade é em si, i.e., fora da representação, idêntica a minha própria; somente no mundo como representação, cuja forma é sempre pelo sujeito e objeto, nos separamos como individuo conhecido e conhecedor. Suprindo o conhecedor, o mundo como representação, nada resta além de simples vontade, ímpeto cego. (p.32).

QUINCAS BORBA: Não há morte. O encontro de ditas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum.

SCHOPENHAUER: Unicamente a vontade é: ela, a coisa-em-si, ela, a fonte daqueles fenômenos. (p. 33).

QUINCAS BORBA: Não há exterminado. Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias.

SCHOPENHAUER: Nas variadas formações da vida humana e na incessante transformação dos acontecimentos, ele considerará o durável e essencial somente a ideia, em que o querer-viver possui sua mais perfeita objetividade, e mostra suas diversas faces nas propriedades, paixões, enganos e preferência da espécie humana, no egoísmo, ódio, amor, temor, audácia, leviandade, estupidez, esperteza, humor, gênio etc., que, se reunindo e combinando em configurações mil (indivíduos), apresentam continuadamente a grande e a pequena comédia da história do mundo, sendo indiferente se seu móvel é constituído por nozes ou coroas. (p. 34).

QUINCAS BORBA: Bolha não tem opinião. Aparentemente, há nada mais contristador que uma dessas terríveis pestes que devastam um ponto do globo? E, todavia, esse suposto mal é um benefício, não só porque elimina os organismos fracos, incapazes de resistência, como porque dá lugar à observação, à descoberta da droga curativa. A higiene é filha de podridões seculares; devemo-la a milhões de corrompidos e infectos. Nada se perde, tudo é ganho. Repito. as bolhas ficam na água. Vês este livro? É Dom Quixote. Se eu destruir o meu exemplar, não elimino a obra, que continua eterna nos exemplares subsistentes e nas edições posteriores. Eterna e bela, belamente eterna, como este mundo divino e supradivino.

SCHOPENHAUER: Todo querer se origina da necessidade, portanto, da carência, do sofrimento. A satisfação lhe põe um termo, ma para cada desejo satisfeito, dez permanecem irrealizados. Além disso, o desejo é duradouro, as exigências se prolongam ao infinito; a satisfação é curta e de medida escassa. (p. 46)

Contrariamente, por outro lado, todo fenômeno de uma ideia, já que como tal é assumida na forma do princípio da razão, ou do principium individuationis, deve-se apresentar na matéria como qualidade da mesma. Nesta medida, portanto, a matéria é o elo entre a ideia e o principium individuationis, que é forma do conhecimento do indivíduo, ou o princípio de razão. (p. 63)

A designação de diálogo socrático não é por acaso, muito embora a semelhança entre as duas concepções filosóficas sugerisse uma afinidade de princípios. Na verdade, ainda que unidas pela solidariedade de suas teses, Machado de Assis subverte a filosofia da vontade não para provar o contrário, mas para aprofundar sua visão pessimista, numa tensão que só pode ser resolvida pela ironia.

“No delírio de Brás Cubas e na teoria do Humanitismo, fica evidente a visão do processo histórico que norteia a narrativa machadiana: a existência humana presa no imutável fogo do desejo, caos de aflição, dissimuladas atrás de motivos falsamente nobres, mas que nada mais são do que vontade cega, egoísta. No entanto, ao incorporar o pessimismo de Schopenhauer, Machado de Assis se apropria dos conteúdos filosóficos e os retrabalha no interior do universo ficcional: como observou Benedito Nunes [“Machado de Assis e a filosofia”], ri da filosofia, a recondiciona e a submete a um tratamento crivado pelo humor” (FIGUEIREDO, 2008, p. 87).

CONCLUSÃO

Como se pode perceber, há um tom jocoso no Humanitismo de Quincas Borba que não é senão uma paródia da filosofia de Schopenhauer. Para definir o conceito de Humanitas, a “vontade” do Humanitismo, Quincas Borba simplesmente estabelece o princípio de que “Humanitas tem fome e Humanitas (e isto importa, antes de tudo) Humanitas precisa comer” e lá se vai toda metafísica schopenhauriana por água abaixo. Aliás, tal princípio é diretamente extraído do olhar do cão Quincas Borba que é a verdadeira fonte da filosofia propugnada pelo seu dono de mesmo nome. Em seguida, Machado de Assis escreve, nas palavras de Quincas Borba a Rubião, que “Humanitas é o princípio. Mas não, não digo nada, tu não és capaz de entender isto, meu caro Rubião; falemos de outra coisa”, satirizando, com isso, claramente o esforço dos filósofos em criar complexas e obscuras teorias para, no fundo, não dizerem mais do que obviedades ou apenas absurdos. No Humanitismo, de Quincas Borba, a filosofia desce das nuvens dos seus áureos conceitos para as situações mais baixas, estapafúrdias, trágicas ou mesmo ridículas do cotidiano. Para Machado de Assis, a vida é tão sem sentido, tão absurda em si mesma, que não cabe o discurso sério da filosofia para tocar o seu âmago (se é que isto importa), mas o humor corrosivo que não se quer mostrar como humor apesar de estar presente o tempo todo. Neste cenário desolador, Machado de Assis só pode zombar dos filósofos. “Crê-me, o Humanitismo é o remate das coisas; e eu, que o formulei, sou o maior homem do mundo”, poderia ter dito Schopenhauer quando de sua visita imaginária a Porto Alegre. Na verdade, Machado de Assis faz uma piada à qual nem ele próprio pode escapar.

“Não creias nos professores de filosofia, nem na peste de Hegel...”

BIBLIOGRAFIA

DIAS, Rosa Maria. “O autor de si mesmo: Machado de Assis leitor de Schopenhauer”. In: Revista Kriterion. Belo Horizonte: Departamento de Filosofia da UFMG, nº 112, 2005.

FIGUEIREDO, Vera Lúcia Follain. “A morte em Memórias póstumas de Brás Cubas” in: Crônicas da antiga corte: Literatura e memória em Machado de Assis (Org.: Marli Fantini), Belo Horizonte, Editora UFMG, 2008.

SCHOPENHAUER, Arthur. “O mundo como vontade e representação”, in: Os Pensadores, São Paulo: Nova Cultura, 1999.

SCHWARZ, Roberto. “Ao vencedor as batatas”, São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2000a (5ª. edição).

SCHWARZ, Roberto. “Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis”, São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2000b (4ª. edição).




[1] Não são as montanhas, ondas e nuvens, como uma parte/De mim e de minha alma, como eu para eles?

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sábado, 2 de dezembro de 2017

JOSÉ SARAMAGO - "OS DO SUL CONTRA OS DO NORTE"


Estão agora dois grupos de trabalhadores frente a frente, dez passos cortados os separam. Dizem os do norte, Há leis, fomos contratados e queremos trabalhar. Dizem os do sul, Sujeitam se a ganhar menos, vêm aqui fazer-nos mal, voltem para a vossa terra, ratinhos. Dizem os do norte, Na nossa terra não há trabalho, tudo é pedra e tojo, somos beirões, não nos chamem ratinhos, que é ofensa. Dizem os do sul, São ratinhos, são ratos, vêm aqui para roer o nosso pão. Dizem os do norte, Temos fome. Dizem os do sul, Também nós, mas não queremos sujeitar-nos a esta miséria, se aceitarem trabalhar por esse jornal, ficamos nós sem ganhar. Dizem os do norte, A culpa é vossa, não sejais soberbos, aceitai o que o patrão oferece, antes menos que coisa nenhuma, e haverá trabalho para todos, porque sois poucos e nós vimos ajudar. Dizem os do sul, É um engano, querem enganar-nos a todos, nós não temos que consentir neste salário, juntem-se a nós e o patrão terá de pagar melhor jorna a toda a gente. Dizem os do norte, Cada um sabe de si e Deus de todos, não queremos alianças, viemos de longe, não podemos ficar aqui em guerras com o patrão, queremos trabalhar. Dizem os do sul, Aqui não trabalham. Dizem os do norte, Trabalhamos. Dizem os do sul, Esta terra é nossa. Dizem os do norte, Mas não a querem fabricar. Dizem os do sul, Por este salário, não. Dizem os do norte, Nós aceitamos o salário. Diz o feitor, Pronto, temos conversado, arredem lá para trás e deixem os homens pegar ao trabalho. Dizem os do sul, Não enregam. Diz o feitor, Enregam, que mando eu, ou chamo a guarda. Dizem os do sul, Antes que a guarda chegue, correrá aqui sangue. Diz o feitor, Se a guarda vier, ainda mais sangue correrá, depois não se queixem. Dizem os do sul, Irmãos, deem ouvidos ao que dizemos, juntem-se a nós, por alma de quem lá têm. Dizem os do norte, Já foi dito, queremos trabalhar.

Então o primeiro do norte avançou para o trigo com a foice, e o primeiro do sul deitou-lhe a mão ao braço, empurraram-se sem agilidade, rijos, rudes, brutos, fome contra fome, miséria sobre miséria, pão que tanto nos custas. Veio a guarda e separou a briga, bateu para um lado só, empurrou à sabrada os do sul, amalhou-os como animais. Diz o sargento, Quer que os leve todos presos. Diz o feitor, Não vale a pena, são uns desgraçados, segure-os aí um pedaço, até desanimarem. Diz o sargento, Mas há ali um ratinho com a cabeça rachada, houve agressão, a lei é a lei. Diz o feitor, Não vale a pena, meu sargento, sangue de bestas, tanto faz de norte como de sul, é o mijo do patrão. Diz o sargento, Por falar em patrão, estou precisado de um bocado de lenha. Diz o feitor, Lá lhe irá uma carrada. Diz o sargento, E umas poucas telhas. Diz o feitor, Não será por causa disso que dormirá ao relento. Diz o sargento, A vida está cara. Diz o feitor, Mando-lhe uns chouriços.

Os ratinhos já avançaram pela seara dentro. Caem as espigas louras sobre a terra morena, que beleza, cheira a corpo que não se lavou nem sabe quando, e ao longe vem passando e parou um tílburi. Diz o feitor, É o patrão. Diz o sargento, Agradeça por mim, e sempre às ordens. Diz o feitor, Tenha-me olho nesses malandros. Diz o sargento, Vá sem receio, com eles sei eu lidar. Dizem uns do sul, Deitamos fogo à seara. Dizem outros, Seria uma dó de alma. Dizem todos, Não há dó para estas almas.


(Trecho de “Levantado do chão: romance”)

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA É ROCK’N’ROLL

Por P. Lewis e J. Monti

Se você achou estranho o título deste post, então saiba que rock’n’roll e consciência negra tem tudo a ver. E com isso, não queremos nos referir apenas ao maior guitarrista de todos os tempos, Jimi Hendrix, mas ao próprio nascimento do rock’n’roll.

O rock surgiu de uma mistura do country, música regional tocada por brancos, e do blues, que ecoava nos guetos habitados por negros norte-americanos. O que faz das raízes do rock diretamente associadas à influência da cultura e da música negra.

No entanto, quando pensamos em rock‘n’roll, a maioria de nós pensa no "Rei do Rock" Elvis Presley. Nada poderia ser mais equivocado e sem base histórica.

"O blues teve um filho ilegítimo e nós o chamamos de rock’n’roll", nos diz Little Richard, um dos inventores do gênero. O "nós", a que se refere, não é um “nós” genérico, mas os pioneiros negros do rock’n’roll, como ele próprio, além de Ike Turner, Bo Diddley, Chuck Brry etc. "Não havia ninguém tocando blues naquela época, prossegue Little Richard, só pessoas negras - como eu, Fats Domino, Chuck Berry, entre outros. Aí, garotas e garotos brancos começaram a prestar mais atenção neste tipo de música, e então eles queriam alguém como eles para tocar como nós. E assim surgiu Elvis Presley ".

Mas, se tantos nomes podem estar associados ao pioneirismo do rock'n'roll, um dentre todos eles merece realmente o título de honra de inventor do rock'n'roll. E esse nome é Sister Rosetta Tharpe, uma guitarrista autodidata que misturava perfeitamente música gospel, blues e country music, tocando em plenas décadas de 30 e 40 o bom e velho rock'n'roll.


"Sister Rosetta Tharpe impactou grandemente artistas como Elvis Presley," diz Gayle Wald, professor da Universidade de George Washington, autor de “Shout, Sister, Shout !: The Untold Story of Rock and Roll Rollblazer Sister Rosetta Tharpe”(algo como Grite, Sister, Grite!: Sister Rosetta Tharpe, a história não contada do rock’n’roll). "Quando vemos Elvis no início da carreira, acho que devíamos imaginar ele imitando Rosetta Tharpe. Não é uma imagem na qual estamos acostumados a pensar na história do rock‘n’roll. Nunca pensamos numa mulher, ainda mais negra, por trás do homem branco”.

(Faremos uma matéria especial de Rosetta Tharpe para ser publicada em breve neste blog).


Outro dos inventores do rock’n’roll, Lloyd Price, também nega a Elvis a paternidade do rock. "Esta é a história da mídia, não a história real. A revista Rolling Stone foi fundada só em 1967, então, como ela pode dizer que o rock’n’roll foi inventado em 1954? O fato é que o Fats Domino vendeu mais discos do que Elvis entre 1953 e 1956. Eu amo Elvis, mas é falso dizer que ele inventou qualquer coisa".


Mas isso não significa que Elvis roubou os holofotes dos artistas negros do rock. " ElvisPresley sempre reconheceu sua dívida com artistas afro-americanos", escreveu o jornalista Noah Berlatsky. "E os estudiosos até argumentam que, ao tocar música multi-racial para um público multi-racial, Elvis ajudou a apontar o caminho na luta contra a segregação".

Portanto, o rock ajudou a quebrar preconceitos e os negros, antes marginalizados na sociedade racista norte-americana, ocuparam lugar de protagonista. O rock quebrou paradigmas e por isso tem tudo a ver com o Dia da Consciência Negra.

Para encerrar este post, fiquemos com “A Liberdade É Negra”, da banda brasileira Fecaloma.


Vivemos numa democracia racial
A lei diz que o branco é meu igual
A estatística diz que sou a maioria
A ideologia diz que sou a minoria
A mídia diz que no Brasil não há preconceito
Não há luta de classes, tudo é perfeito
Mas a televisão não é meu espelho
A televisão não é meu espelho
O galã da novela não é negro
Mas parece gringa aquela modelo
Na revista de bacana só lourinho na capa
Sorrisos indignos sem vergonha na Caras

Na política, não sou eu que estou lá
Na universidade não me deixaram entrar
Na rua ou no shopping, seguem meus passos
A polícia espreita tudo que eu faço
E a história esconde que fomos sequestrados
Por uma elite de brancos civilizados
Que a custa do nosso trabalho enriqueceu
Nos expulsou da festa e a maior fatia do bolo comeu

Negro, negro é lindo mas se tenta ser alguém
Acusam-lhe de racista e não pode ser ninguém
Negro, ponha-se no seu lugar
E o seu lugar é a liberdade, lutar por identidade
Negro, negro é lindo mas se tenta ser alguém
Acusam-lhe de fascista e não pode ser ninguém
Mas você, você tem raça
E eu também, também sou negro
E me chamo, me chamo Liberdade

E ninguém vai descolorir
Porque eu sou livre

Livre! Livre! Livre! Livre!

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

COMO USAR O DITO CUJO SEM ERRAR


Hoje em dia, quase nenhum falante de português-brasileiro usa mais o pronome relativo “cujo”. Ultimamente, entre nós, o “que” se tornou uma espécie de tapa-buracos para tudo, tanto na modalidade oral, como também na escrita. Porém, nem sempre o “que” resolve toda a parada e seu uso exagerado não é recomendável, pelo menos estilisticamente. Em certos contextos, prova de redação ou concurso público, a norma culta faz-se necessário e é bom estar preparado para usar bem o “dito cujo”.

No blog Verso, Prosa & Rock’n’Roll, ensinaremos a usar o “dito cujo” de uma maneira que você não vai errar mais.

1. Começamos pela origem do tal “cujo”, que vem do latim cuius e era usado pelos romanos do mesmo modo como usamos o nosso “cujo”.

Aliás, cada um faz o que bem entender com o “cujo”, desde que faça direito, para não se arrepender depois.

2. O “dito cujo” pertence a classe de palavras dos pronomes.

a) O pronome é palavra que substitui ou modifica um nome. Exemplo:

- A cachorrinha comeu toda a ração.
- Ela comeu toda a ração.

Os pronomes podem ser pessoais, possessivos, demonstrativos etc.

b) O “dito cujo”, assim como o “que”, é um pronome relativo.

Relativo é de relação, ou seja, relaciona ou substitui um termo já expresso, chamado antecedente, na oração.

?????????????

Calma! Chegaremos lá...

Vejamos como o relativo funciona com o abusado “que”.

- Entrou na sala o homem de chapéu que eu vi no dia de ontem.

O “que” se refere ao/ ou repete o termo antecedente “o homem de chapéu”:

- Entrou na sala o homem de chapéu. Eu vi o homem de chapéu ontem.

Portanto, o uso do pronome relativo é uma estratégia inteligente para construir frases sem precisar repetir o mesmo termo.

ATENÇÃO! O “CUJO” NÃO É SINÔNIMO DE “QUE”!!!

- O político que eu não votei foi preso.
- O político cujo eu não votei foi preso. [O político cujo político eu não votei...].

Apesar da minha sincera intenção, a frase está ERRADA, e deu no que deu.

NUNCA FALE OU ESCREVA DA FORMA ACIMA!!!

Também é ERRADO: cujo qual, cujo que etc.

c) A função do “cujo” na oração é de genitivo, isto é, indica ideia de posse, e sempre relaciona dois substantivos diferentes, o termo antecedente e o termo consequente. O termo antecedente, que vem antes do “cujo”, é sempre o possuidor, e o consequente, a coisa possuída.

Para facilitar o “dito cujo”, este relativo sempre substitui as palavras dono de, dona de, donos de, donas de; dele, dela, deles, delas; que tem, que tinha etc., subtendidas na oração.

- O homem cujo carro vermelho...
- O homem dono do carro vermelho...
- O homem do carro vermelho... (O carro vermelho é dele, do homem)
- O homem que tem o carro vermelho...

d) O “dito cujo” flexiona em gênero (masculino e feminino) e número (singular e plural):

- cujo, cuja, cujos e cujas.

Sendo assim, dispensa o artigo depois dele.

ERRADO: cujo o, cuja a, cujos os e cujas as. (NUNCA FAÇA ISSO!!!)

ERRADO: à cuja – pois não cabe a crase, já que o artigo feminino já está flexionado no cuj-a.

e) O “dito cujo” sempre concorda com o substantivo consequente.

- A moça cujo livro comprei...
- A moça cuja roupa comprei...

f) Finalmente, o uso do “dito cujo” deve respeitar a regência verbal, o que faz com que pode ou não haver preposição antes dele.

A regência é tema que tem a ver com a transitividade dos verbos.

Os verbos transitivos diretos são aqueles que necessitam de um objeto direto para completar o seu sentido, isto é, dispensam uma preposição entre o verbo e o objeto:

- Eu amo você = Eu amo o quê? Eu amo quem? Você.

Os verbos transitivos indiretos são aqueles que necessitam de um objeto indireto para completar o seu sentido, isto é, há preposição entre o verbo e o objeto:

- Eu preciso de você = Eu preciso de quê? Eu preciso de quem? De você.

Mas não se preocupe com isso, no dia a dia, quase sempre acertamos a regência verbal, pois ninguém diz, por exemplo, “eu acredito você”, mas “eu acredito em você”, etc.


Observação: Não confundir os artigos a, o, as, os com preposições.
Mas se você ainda está achando tudo isso um pouco complicado, os exemplos abaixo vão dissipar todas as suas dúvidas.

Lembre-se, pintou uma dúvida, preste bem atenção na lógica da estrutura das frases tal como nós analisamos a seguir e depois tente repetir a mesma operação. Vai dar certo!

A
Verbo “saber”, no caso transitivo direto:
Gosto muito deste compositor cujas músicas sei todas.
Gosto muito deste compositor. As músicas dele, eu sei todas.
Gosto muito deste compositor. Eu sei todas as músicas dele.
Gosto muito deste compositor. Eu sei as músicas dele.

B
 Verbo “saber”, no caso transitivo indireto: 
O jornal de cujas notícias eu já sabia muito antes acabou falindo.
O jornal acabou falindo. As notícias dele, eu já sabia de muito antes.
O jornal acabou falindo. Eu já sabia das notícias dele muito antes. (de + as)

C
Qual será o animal cujo nome a autora não quis escrever?
Qual será o animal? O nome dele [do animal] a autora não quis escrever.
Qual será o animal? A autora não quis escrever o nome dele.

D
No colégio tive muitos amigos, de cujos nomes nem me lembro mais.
No colégio tive muitos amigos. Dos nomes deles, nem me lembro mais. 
No colégio tive muitos amigos. Nem me lembro dos nomes deles. (d+os = dos) 

E
O homem, cuja inteligência é superior, vai destruir o planeta.
O homem vai destruir o planeta. A inteligência dele é superior.
O homem vai destruir o planeta. É superior a inteligência dele.

F
Era ela a mulher cuja beleza admirávamos.
Era ela a mulher. A beleza dela nós admirávamos.
Era ela a mulher. Nós admirávamos a beleza dela.

G
A planta a cujos benefícios ele recorrera era medicinal.
A planta era medicinal. Aos benefícios dela, ele recorrera.
A planta era medicinal. Ele recorrera aos benefícios dela.
A planta era medicinal. Ele recorrera a [cuj] os benefícios dela.

H
É esta a casa de praia cujas chaves ontem lhe entreguei.
É esta a casa de praia. As chaves dela ontem lhe entreguei.
É esta a casa de praia. Ontem lhe entreguei as chaves dela.

I
Conheço o juiz sob cuja proteção ficou a pobre criança.
Conheço o juiz. Sob a proteção dele ficou a pobre criança. 
Conheço o juiz. A pobre criança ficou sob a proteção dele.

J
Trata-se de um clube a cujos sócios me incluo há anos.
Trata-se de um clube. Aos sócios deles, eu me incluo há anos.
Trata-se de um clube. Eu me incluo aos sócios deles.

K
É a torre de cujo mirante se avista o mar.
É a torre. Do mirante dela se avista o mar.
É a torre. Avista-se o mar do mirante dela.

L
Aquela é a empresa a cuja diretora me refiro.
Aquela é a empresa. À diretora dela, me refiro.
Aquela é a empresa. Eu me refiro à diretora dela. (Crase)

M
Esta é a funcionaria com cujas ideias todos concordam.
Esta é a funcionaria. Com as ideias delas, todos concordam.
Esta é a funcionaria. Todos concordam com as ideias dela.