sábado, 1 de junho de 2024

A questão monárquica de Ricardo Reis

Ricardo Reis

Por G.Ã.P.

1. Narrativa: questões formais

Antes de entrar no assunto propriamente dito, cabe a nós realizar alguns apontamentos sobre a narrativa do romance “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de José Saramago. Isso se justifica porque é praticamente impossível passar indiferente ao estilo narrativo único das obras de Saramago. Sem se aprofundar muito, no entanto, no aspecto puramente formal, percebe-se de imediato uma ruptura de cunho sintático com a diacrítica, principalmente, no que diz respeito à construção de períodos muito longos das orações, que obriga o leitor a se deter em cada vírgula, em cada ponto final, sem o que perderia toda a compreensão do texto e o efeito vertiginoso provocado pela leitura dos parágrafos. Nenhuma palavra, nenhuma sinalização é por acaso ou é desperdiçada. Outro recurso muito interessante é a introdução do diálogo dos personagens dentro destes longos períodos apenas marcando o início da fala com uma letra maiúscula, dispensando, portanto, as formas tradicionais de discurso direto e indireto e do uso do travessão para distinguir os personagens. Assim, o diálogo dos personagens parece se destacar do texto qual relevo na planície, isto é, sem apresentar ruptura no desenvolvimento da escrita. Muitas vezes, este diálogo se confunde com a própria descrição do narrador, que parece, tal como um personagem, presenciar as cenas descritas por ele mesmo; como se o narrador ora se apresentasse como um dos personagens, ora como um anônimo que vivencia a trama do livro. Isto cria um efeito de familiaridade muito grande entre o narrador e coisa narrada, que se percebe através da estruturação sintática, e que implode com a noção de tempo passado e presente. Outro dado que vale a pena ressaltar é a ausência de pontos de exclamação e interrogação, os quais estão subtendidos a partir da construção da fala dos personagens e do contexto. Além destes aspectos apontados, caberia alguma observação também com relação à disposição dos capítulos, que não recebem título ou numeração. Esse desenvolvimento estilístico da narrativa produz, paradoxalmente, uma atmosfera misteriosa e, às vezes, irremediavelmente sarcástica, que emerge da própria complexidade da criação literária. Quanto ao narrador, como já se afirmou, ele próprio um personagem, às vezes, oculto, às vezes, presente; é um narrador onisciente. Porém, não é um narrador neutro, mas, engajado. Este estilo literário inovador e, muitas vezes, difícil, caracteriza inexoravelmente a obra de Saramago. Tal estilo poderia ser definido como uma polifonia de múltiplas vozes apreendidas pelo autor que transcreve tudo aquilo que ouve num fluxo narrativo indeterminado. Todas estas características narrativas da obra de Saramago estão presentes no romance “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, porém, chama atenção, aqui, a quantidade de citações de autores e obras consagradas da literatura universal, denotando imenso eruditismo do autor.

Resumo

Em fins de 1935, Ricardo Reis retorna a Portugal depois de uma estada de 17 anos no Brasil. Em Lisboa, hospeda-se no Hotel Bragança, onde trava relações com hóspedes, em particular, a jovem Marcenda, e funcionários do hotel, inclusive, a camareira Lídia, com quem mantém um caso amoroso. Paralelamente, Ricardo Reis é vigiado pela polícia política (PVDE/PIDE).  A certa altura, Ricardo Reis reencontra Fernando Pessoa como um fantasma. O encontro entre os dois dá ensejo para uma reflexão sobre muitos aspectos políticos envolvendo Portugal, tanto em relação a questões internas como internacionais. A partir disso, Saramago desenvolve um romance histórico e, ao mesmo tempo, fantástico, no qual transparece como pano de fundo uma contundente crítica política e social do contexto de Portugal da época salazarista.

Ricardo Reis e Fernando Pessoa: monarquistas?

O personagem Ricardo Reis, heterônimo do poeta Fernando Pessoa, retorna a Portugal por ocasião do falecimento de seu autor, Fernando Pessoa. “Houve ainda uma outra razão para este meu regresso, essa mais egoísta, é que em Novembro rebentou no Brasil uma revolução, muitas mortes, muita gente presa, temi que a situação viesse a piorar, estava indeciso, parto, não parto, mas depois chegou o telegrama, aí decidi-me, pronunciei-me, como disse o outro”. Trata-se do levante revolucionário, em solo brasileiro, ocorrido no ano de 1935, denominado Intentona Comunista.  Essa explicação é dada pelo próprio Ricardo Reis a Fernando Pessoa quando de seu primeiro encontro no Hotel de Bragança. Evidentemente, não o Fernando Pessoa de carne e osso e, sim, o fantasma de Fernando Pessoa (“É uma impressão estranha, esta de me olhar num espelho e não me ver nele”). Neste estranho encontro, Fernando Pessoa parece consentir com a última explicação de Ricardo Reis: “Você, Reis, tem sina de andar a fugir das revoluções, em mil novecentos e dezanove foi para o Brasil por causa de uma que falhou, agora foge do Brasil por causa de outra que, provavelmente, falhou também”. Fernando Pessoa se refere ao conturbado período das primeiras décadas do século XX por que passava Portugal e que levou, em 1908, ao regicídio do rei D. Carlos, atentado cometido pela organização revolucionária Carbonária, além da instauração da República Portuguesa, em 1910. No ano de 1919, entretanto, ocorre uma contrarrevolução monarquista que redundou em fracasso: “Parti para o Brasil em mil novecentos e dezanove, no ano em que se restaurou a monarquia no Norte” (Ricardo Reis). Tal pretexto, em se tratando de Ricardo Reis, é bastante concernente, já que na biografia deste heterônimo Fernando Pessoa o descreve como médico e monarquista. Sobre a Intentona Comunista, Fernando Pessoa teria se interado do episódio pelos jornais e indaga: “Lembro-me de ler, nos meus últimos dias, umas notícias sobre essa revolução, foi uma coisa de bolchevistas, creio”. Aqui então se trava um interessante diálogo entre os dois personagens na qual a Intentona Comunista serve de mote para Fernando Pessoa introduz en passant a situação política em Portugal:

Sim, foi coisa de bolchevistas, uns sargentos, uns soldados, mas os que não morreram foram presos, em dois ou três dias acabou-se tudo, O susto foi grande, Foi, Aqui em Portugal também tem havido umas revoluções, Chegaram-me lá as notícias, Você continua monárquico, Continuo, Sem rei, Pode-se ser monárquico e não querer um rei, É esse o seu caso, É, Boa contradição, Não é pior que outras em que tenho vivido, Querer pelo desejo o que sabe não poder querer pela vontade, Precisamente, Ainda me lembro de quem você é, É natural.

Os antecedentes que levaram a queda da monarquia em Portugal têm início na humilhante aceitação do governo português ao ultimato inglês envolvendo a questão do episódio conhecido como mapa cor-de-rosa de 1890. Questão essa que envolvia a retirada imediata de tropas portuguesas das colônias africanas Angola e Moçambique. Tal episódio vexatório, somando-se à proclamação da república no Brasil, desatando o último e tênue laço de Portugal com a ex-colônia americana, marcava a decadência da expansão ultramarina que fora cantada por Luis Vaz de Camões no século XVI.

Em 1933, Hitler chega ao poder e, em 1939, tem inicio a Segunda Guerra Mundial, quando os nazistas intentaram expandir seu império através de um projeto colonial justificado pela necessidade do espaço vital. Mas ainda estamos, no romance, nos anos 1936, início da Guerra Civil Espanhola, que levaria o general Franco ao poder e seria um balão de ensaio para a segunda guerra.

Neste contexto, é evidente que Portugal há muito perdera toda importância no cenário geopolítico que marcou o neocolonialismo do século XIX e meados do XX. Do ponto de vista do nacionalismo lusitano, um possível Império Português deveria assumir novos contornos, ainda que simbólicos.  O Império Português devia assumir novos contornos, ainda que simbólicos.

A questão da monarquia então era um tema caro aos poetas Fernando Pessoa e Ricardo Reis. Pois, embora Fernando Pessoa não se notabilize por ser um monarquista declarado, sua missão poética, que visava suplantar o até então maior poeta português, Camões, e sua obra monumental Os Lusíadas, é um “megalomaníaco” projeto monarquista.

No romance esta questão, a questão é posta por Saramago nos seguintes termos:

...haja em vista o mapa cor-de-rosa, tivesse ele vingado, como era de justiça, e hoje ninguém nos poria o pé adiante, de Angola à Contra-Costa tudo seria caminho chão e bandeira portuguesa. E foram os ingleses que nos rasteiraram, pérfida Albion, como é costume deles, duvida-se mesmo que sejam capazes doutros comportamentos, está-lhes no vício, não há povo no mundo que não tenha razões de queixa. Quando Fernando Pessoa aí vier, não há-de Ricardo Reis esquecer-se de lhe apresentar o interessante problema que é o da necessidade ou não necessidade das colônias, não do ponto de vista do Lloyd George, tão preocupado com a maneira de calar a Alemanha dando-lhe o que a outros custou tanto a ganhar, mas do seu próprio, dele, Pessoa, profético, sobre o advento do Quinto Império para que estamos fadados, e como resolverá, por um lado, a contradição, que é sua, de não precisar Portugal de colônias para aquele imperial destino, mas de sem elas se diminuir perante si mesmo e ante o mundo, material como moralmente, e, por outro lado, a hipótese de virem a ser entregues à Alemanha colônias nossas, e à Itália, como anda a propor Lloyd George, que Quinto Império será então esse, esbulhados, enganados, quem nos irá reconhecer como imperadores, se estamos feitos Senhor da Cana Verde, povo de dores, estendendo as mãos, que bastou atar frouxamente, verdadeira prisão é aceitar estar preso, as mãos humilhadas para o bodo do século, que por enquanto ainda não nos deixou morrer.

Portanto, o projeto político, inspirador de Mensagem, de Fernando Pessoa ele mesmo, é o “Quinto Império”. Este império não seria um reino material, de grande extensão geográfica, colonial, etc., mas um Império Espiritual, moral. Para tanto, Fernando Pessoa lançaria mão do sebastianismo, a espera messiânica por um D. Sebastião:

D. SEBASTIÃO

REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza

Qual a Sorte a não dá.

Não coube em mim minha certeza;

Por isso onde o areal está

Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem

Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

Todavia, este projeto é posto em dúvida por Saramago, quando lança a hipótese de que Fernando Pessoa titubearia na sua sustentação política do Quinto Império:

Talvez Fernando Pessoa lhe responda, como outras vezes, Você bem sabe que eu não tenho princípios, hoje defendo uma coisa, amanhã outra, não creio no que defendo hoje, nem amanhã terei fé no que defenderei, talvez acrescente, porventura justificando-se, Para mim deixou de haver hoje e amanhã, como é que quer que eu ainda acredite, ou espere que os outros possam acreditar, e se acreditarem, pergunto eu, saberão verdadeiramente em que acreditam, saberão, se o Quinto Império foi em mim vaguidade, como pode ter-se transformado em certeza vossa, afinal, acreditaram tão facilmente no que eu disse, e mais sou esta dúvida que nunca disfarcei, melhor teria feito afinal se me tivesse calado (...)

O mesmo se dá com Ricardo Reis.

No diálogo citado acima, entre Fernando Pessoa e Ricardo Reis, Pessoa interpela seu heterônimo: Você continua monárquico, sem rei? Contradizendo a expectativa de um monarquista autêntico, a resposta de Ricardo Reis é categórica: Pode-se ser monárquico e não querer um rei. Ricardo Reis é, talvez, o heterônimo menos politizado de Fernando Pessoa, ou melhor, aquele que submete a política a sua visão idiossincrática de mundo e altamente subjetiva. No poema “Sê Rei de Ti Próprio”, das Odes, de Ricardo Reis, esta contradição parece ser resolvida no plano do individualismo.

Sê Rei de Ti Próprio

Não tenhas nada nas mãos

Nem uma memória na alma,

Que quando te puserem

Nas mãos o óbolo último,

Ao abrirem-te as mãos

Nada te cairá.

Que trono te querem dar

Que Átropos to não tire?

Que louros que não fanem

Nos arbítrios de Minos?

Que horas que te não tornem

Da estatura da sombra

Que serás quando fores

Na noite e ao fim da estrada.

Colhe as flores mas larga-as,

Das mãos mal as olhaste.

Senta-te ao sol. Abdica

E sê rei de ti próprio.

O monarquista Ricardo Reis é um monarquista às avessas, ou ainda, um inimigo do rei, um anarquista individualista. Nota-se que até mesmo no nome do heterônimo, além da aliteração do fonema “r”, o substantivo “rei” está no plural, o que dá margem a muitas interpretações. Há alguma coisa de shakespeariano no nome deste heterônimo. O Rei Ricardo III se transforma em Ricardo Reis; não apenas um rei, mas muitos. Ora, o que caracteriza o regime monárquico é o poder político personificado em uma única pessoa, o rei ou a rainha. O poder de muitos é a chamada democracia. Mas uma democracia não comporta, teoricamente, um governo de muitos reis e, sim, de cidadãos que delegam sua participação política a representantes. Um governo de muitos reis é uma contradição e só pode ser suposto no plano da fantasia. Tal como Fernando Pessoa, o projeto político de Ricardo Reis também só se realiza na estância da espiritualidade. Ou seja, é muito mais uma crítica do que um projeto real.

Conclusão

Saramago geralmente utiliza-se de uma estratégia em seus romances em que aparentemente desvia o foco de sua visão pessoal de mundo, principalmente no que tange questões políticas, para sub-repticiamente emergi-la no contexto de sua obra. Neste sentido, o autor constrói um enredo, sobre a vida cotidiana, muitas vezes de caráter sobrenatural e aparentemente descompromissado politicamente, para trafegar na superfície de um fundo realista, de onde, no entrecruzamento destes planos, emerge uma denúncia contundente realidade social.

No romance “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, Saramago cria dois personagens que são baseados na figura real do poeta Fernando Pessoa e de seu heterônimo Ricardo Reis. Curiosamente, há um movimento de despersonalização, através da narrativa polifônica de Saramago, em que personagem e autor se misturam num incessante jogo de heteronímia. Ou seja, a autoria é totalmente alienada, ficando implícito se, no romance, o autor é um heterônimo dos personagens ou vice-versa. O grau de impessoalidade, que se desdobra em múltiplas personalidades, característica da obra pessoana, é levado ao extremo e explorado por Saramago com precisão no romance. Neste sentido, Saramago cria um ardil através da figura do fantasma de Fernando Pessoa, que bem poderia ser uma alucinação de Ricardo Reis (“Terá sido um sonho”), transformado Fernando Pessoa em heterônimo de seu heterônimo Ricardo Reis. No fundo, Saramago encarna, em sua crítica social, tanto Fernando Pessoa como Ricardo Reis, ao dar voz dissonante aos dois poetas. Tal estratégia induz uma questão: por que Saramago se serve justamente de Fernando Pessoa e Ricardo Reis para denunciar o regime fascista salazarista? Afinal, ambos acreditavam em um projeto monarquista, anacrônico e utópico. Eis a ironia de Saramago. Ao criar dois heterônimos com concepções políticas completamente distintas da do autor, Saramago passa a ter um álibi para defender, em tom de denúncia, suas convicções políticas, acima de qualquer suspeita. Daí não ser por acaso a fuga de Ricardo Reis do Brasil. A certa altura do romance, Saramago escreve: “Fernando Pessoa explicou, É o comunismo, não tarda”.

Para concluir, é por meio da ficção que Saramago demonstra todo seu engajamento político e sua percepção social. O projeto utópico de Fernando Pessoa e a indiferença de Ricardo Reis, monarquista contemplativo e diletante, converte-se, na obra de Saramago, em uma dura crítica aos estados totalitários, dentre eles Portugal, que levariam o mundo à catástrofe da segunda grande guerra.

Bibliografia

PESSOA, Fernando, “Mensagem”, Editora 7 Letras: Rio de Janeiro, 2008.

PESSOA, Fernando, “Odes de Ricardo Reis”, Coleção L&PM Pocket: São Paulo, 2006.

SARAMAGO, José, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, Editorial Caminho: Lisboa, 1985.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Análise do poema "Balada de Ouro Preto", de Cecília Meireles

 Cecília Meireles


Por G. Ã. P.

Introdução

O ciclo do ouro no Brasil no século XVIII só pode ser entendido a partir da decadência da produção açucareira na região nordeste, diante da concorrência estabelecida por outros centros produtores, notadamente as Antilhas, dos Holandeses, e, graças a isso, da decorrente dependência de Portugal em relação à Inglaterra, estabelecida pelo Tratado de Methuen ou, como também foi conhecido, Panos e Vinho.

Diante deste quadro, a metrópole portuguesa viu-se empobrecida de uma hora para outra e endividada e, por conseguinte, passou a estimular os colonos do Brasil à procura de metais preciosos. As sucessivas incursões dos bandeirantes pelo sertão do vasto território colonial acabaram por resultar na descoberta de outro e prata na região de Minas Gerais. Com isso, Portugal passou a uma situação contraria e pôde a Coroa novamente reequilibrar suas contas e saldar as dívidas com a Inglaterra. Paralelamente, a mineração trouxe um surto de prosperidade para a região das minas ao mesmo tempo em que dinamizava a economia de outras regiões através de um desenvolvimento de um mercado interno incipiente. Todavia, a extrema dependência pela Coroa portuguesa de metais preciosos para manter seu fausto e luxo, intensificou a vigilância e o controle sobre os colonos, gerando conflitos permanentes diante da cobrança de impostos e das famigeradas derramas. O esgotamento das minas redundou em movimentos insurrecionais, como o da Inconfidência Mineira, e também gerou o fim do pacto colonial.

Neste período, Minas Gerais viveu um intenso desenvolvimento econômico, baseado na riqueza móvel e circulante, isto é, dinheiro, e também de mobilidade social, ocasionando, no coração da colônia, um grande florescimento cultural na arquitetura, escultura, literatura e música. É neste contexto que surge o barroco brasileiro, tendo em seu expoente máximo a figura de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e uma intelectualidade sintonizada com as ideias do Iluminismo europeu, apesar da proibição pela metrópole de bibliotecas na colônia. Estas eram clandestinas e coleções de particulares, tornando-se difusores culturais da sociedade mineira.

O campo da literatura também foi bastante fecundo, com inúmeros poetas e a escola da Arcádia Mineira. Alguns poetas se destacam, como Basílio da Gama, e seu épico “O Uruguai”; frei Santa Rita Durão, com “Caramuru”; Cláudio Manuel da Costa, “Vila Rica”; e Tomás Antônio Gonzaga, com “Marília de Dirceu”. Segundo o professor Augusto Massi, em depoimento dado em sala de aula, embora a literatura árcade soasse um tanto artificial para o contexto colonial das minas, pelas suas referências clássicas bucólica e pastoral da antiguidade, na prática era uma forma de engajamento político daqueles literatos, que se posicionavam contra a dominação exercida pela metrópole. De fato, os poetas Tomas Antonio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa participaram, juntamente com Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, da Inconfidência Mineira.

Este engajamento também influenciaram outras escolas literárias no Brasil. Conforme Massi, em aula, muito embora o arcadismo seja compreendido na academia como literatura luso-colonial, os românticos, como Castro Alves, leram os árcades numa chave nacionalista, às vezes, para justificar pautas políticas como a abolição da escravatura. Ainda com Massi, na mesma linha, os Modernistas também se apropriaram do contexto histórico das cidades mineiras, transformando-o numa referência obrigatória quase ritualística da literatura brasileira.

Em o “Romanceiro da Inconfidência”, Cecília Meireles tratou do ciclo do ouro nos termos históricos descritos acima, ressaltando o movimento insurgente liderado por Tiradentes. Para o trabalho, no entanto, a sugestão para a análise será o poema “Balada de Ouro Preto”.

Aspectos gerais do poema

A estrutura formal do poema é composta de redondilhas de sete silabas poéticas e cinco sextilhas. Ao contrário de um poema histórico de viés nacionalista, a temática do poema “Balada de Ouro Preto” é bastante banal ou, melhor dizendo, refere-se a um acontecimento relativo ao cotidiano de Ouro Preto em uma determinada situação que pode ter ocorrido durante uma visita de Cecília Meireles à cidade. Assim sendo, o poema narra um encontro, diante de uma casa antiga de Ouro Preto, do Eu lírico com um homem acometido pela lepra. O leproso se dirige sorrindo para a poeta; então o Eu lírico realiza uma digressão a respeito do sorriso daquele homem que subverte completamente a superfície da realidade aparente. Aliás, em cada estrofe, o poema apresenta um jogo de oposições, entre claro-escuro, que parece repercutir a arquitetura e a escultura barroca de Aleijadinho. A referência entre o leproso e o Aleijadinho também é óbvia. O poema fecha com um desejo catártico do Eu lírico, possível apenas na fantasia imagética, para que santos da Idade Média curem o leproso, restaurando assim a harmonia daquele mundo.

Análise do poema

Para melhor entendimento, os versos do poema serão enumerados.

BALADA DE OURO PRETO

 

1 Parei a uma porta aberta

2 para mirar um ladrilho.

3 Veio de dentro o leproso

4 como quem sai de um jazigo.

5 Caminhava ao meu encontro,

6 sinistramente sorrindo.

 

7 Mas vi-lhe os braços de líquen,

8 e as duas mãos desfolhadas,

9 que cauteloso escondia

10 nos fundos bolsos das calças.

11 Chamas de um secreto inferno

12 em seu sorriso oscilavam.

 

13 Fora menos triste a lepra

14 do que o fogo do sorriso.

15 E era linda aquela casa

16 com o vestíbulo vazio;

17 e era alegre aquela porta

18 de claro azulejo antigo.

 

19 Ó santos da Idade Média,

20 descei por esta ladeira,

21 parai a esta porta suave,

22 que de azul toda se enfeita,

23 tocai estes braços fluídos

24 que vão sendo rosa e areia,

 

25 tornai-os firmes e pulcros,

26 com mãos lisas, dedos novos,

27 para que este homem não fite

28 ninguém mais com os mesmos olhos,

29 e seja outro o seu sorriso

30 per soecula soeculorum.

O poema começa com o Eu lírico narrando um momento em que para diante da porta aberta de uma casa para admirar um ladrilho ali dentro (versos 1 e 2). O título do poema, mencionando a cidade de Ouro Preto e o elemento “ladrilho” nos permitem inferir o estilo da casa em questão. Trata-se de uma casa de estilo colonial, antiga e decorada com ladrilhos portugueses, remetendo, portanto, a arquitetura típica da cidade de Ouro Preto. Em seguida (versos 3 e 4), descreve a aparição de um leproso, saindo de dentro da casa, “como quem sai de um jazigo” (verso 4). A relação entre a casa antiga e jazigo é evidente e sugere um tempo passado, morto e enterrado, do qual a cidade de Ouro Preto não parece ter saído. O leproso reforça ainda mais esta ideia, de um ser semivivo, fantasmático, que saí de sua tumba. Ao mesmo tempo, o leproso é um elemento perturbador, causando uma ruptura entre a beleza do ladrilho e a sua aparição sinistra. Esta é a primeira oposição do poema, um ladrilho bonito e um homem com uma doença que deforma a pele.

Neste cenário, um tanto sublime e tenebroso, o leproso, sorrindo de modo sinistro, vai de encontra ao Eu lírico (versos 5 e 6). O fato do leproso sorrir também implica uma contradição, já que o homem apresenta uma doença grave, o que deveria acarretar tristeza. Mas esta contradição se resolve no advérbio “sinistramente” (verso 6). O sorriso, portanto, não é um sorriso descontraído, mas um sorriso que esconde sua verdadeira intenção. Na estrofe seguinte, o Eu lírico descreve, talvez estarrecido, os braços, de “líquen”, e as mãos “desfolhadas” do leproso (versos 7 e 8). O que enfatiza a metáfora inicial de tempo passado, mas também a figura do leproso, que, como dissemos, assemelha-se a um ser não humano. Aqui, no entanto, a analogia indica algo de vegetal na aparência do homem, ou ainda a putrefação ocasionada pela ação do tempo. Sem dúvida, o leproso representa muito bem um habitante deste mundo que se perdeu no tempo. Porém, o leproso esconde as mãos, sugerindo que Cecília Meireles pode realmente ter presenciado uma cena tal como é descrito no poema quando de sua visita a Ouro Preto (versos 9 e 10). Todavia, dentro da lógica do poema, este gesto indica também uma certa vergonha manifestada pelo doente, pela qual reconstituiria a sua condição humana. E aí novamente um elemento perturbador no desenvolvimento do poema. Novamente, a referência ao sorriso sinistro do leproso, que, segundo o Eu lírico, oscilava “chamas de um secreto inferno” (versos 11 e 12). Tal metáfora remete ao ser fantasmático da primeira estrofe, que sai das trevas infernais da antiga Ouro Preto. Portanto, há um quê de maldade do leproso que transparece no seu sorriso. Ora, o leproso que há pouco demonstrava humanidade quando escondia a mão, ainda assim, mantém o sorriso sinistro. O sorriso ao invés de expressar uma boa recepção a um recém-chegado, expressa um conteúdo oculto, malevolente.

Na terceira estrofe, uma constatação surpreendente e terrível, por parte do Eu lírico; diz ele: “Fora menos triste a lepra do que o fogo do sorriso” (versos 13 e 14). De certa forma, o Eu lírico não sente tanta compaixão pela situação infeliz do doente e se deixa perturbar mais pelo sorriso malévolo daquele homem. Apesar da maldade expressa no sorriso, a situação do homem acometido pela lepra é extremamente penosa. O homem, diante da doença, que o transformou em ser meio vegetal, meio fantasmático, só pode dar ao mundo aquilo que a lepra o permite. E a seguir, outra oposição. O Eu lírico passa a descrever a casa que, sem o leproso (“com o vestíbulo vazio”), é linda e alegre (versos 15, 16, 17 e 18), com azulejos que também reforçam a ideia de tempo parado, que não passou, reforçando o cenário já esboçado acima. Ora, o cenário é alegre e belo, mas o morador é feio, dissimulado e odioso.

Na quarta estrofe, o Eu lírico invoca os santos da Idade Média, clamando para que apareçam em Ouro Preto. Esta invocação é no mínimo curiosa, em se tratando da formação católica de Cecília Meireles. Ao que parece, a poeta se refere aos reis taumaturgos que teriam o poder de curar escrófulas, enfermidade que apresenta um sintoma de inchaço de cor preta na pele. Fenômeno histórico que se iniciou no século XII, na França, e depois se estendeu para a Inglaterra, a taumaturgia consistia no poder de cura através do toque das mãos do rei. Estes santos reis que curam os doentes com o toque são imaginados transpostos, no poema, para a paisagem montanhosa da cidade (verso 19 e 20). Mais uma referência às características físicas da cidade de Ouro Preto, a ladeiras. Nos versos 21 e 22, o Eu lírico não se cansa em descrever a beleza da casa; desta vez nos informa a cor da porta: azul. O azul pode ser uma alusão ao céu e a uma atmosfera sagrada emanada pelas igrejas da cidade. Neste ambiente sacro, os santos da Idade Média poderiam realizar milagres, assim com Jesus Cristo sarava os leprosos.

Em seguida, nos versos 23 e 24, o toque milagroso dos santos no leproso e a transformação desejada dos “braços fluídos”, fantasmagóricos, líquen e desfolhado, em “rosa e areia”, até se tornarem firmes e belos (verso 25), “com mãos lisas, dedos novos” (verso 26). A cura do físico é ao mesmo tempo uma purificação do espírito do leproso, que passaria a não odiar mais (versos 27 e 28) com seu sorriso maligno. Então o sorriso do leproso ao invés de transmitir um sentimento negativo passaria a ser um sorriso alegre, tal como a casa, por toda eternidade (versos 29 e 30).

Conclusão

O poema tem como mote o sorriso do leproso que acaba por centralizar o ambiente da cidade de Ouro Preto e a dinâmica do poema. O sorriso, que é irônico e transmite uma certa maldade oculta, parece contaminar toda a harmonia de um mundo que parou no tempo. Mas, contraditoriamente, o sorriso não é um elemento exógeno do lugar, mas sua consequência necessária e inerente. Diante disso, a solução desta antinomia só pode vir do mundo sobrenatural e mítico da Idade Média, portanto, do passado, algo que parece associar este poema moderno ao romantismo e sua dualidade entre o sublime e o grotesco. Tal estrutura simbólica viria de encontro com o estilo arquitetônico da cidade e das obras de Aleijadinho. O próprio leproso pode ser uma referência indireta ao Aleijadinho, sua reencarnação. De certa forma, ao restabelecer a saúde de Aleijadinho através de seu avatar poético, o poema visa o reconhecimento da obra-prima do mestre Aleijadinho.

Referências

BLOCH, Marc. “Os reis taumaturgos: o caráter sobrenatural do poder régio, França e Inglaterra”. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

MEIRELES, Cecilia. “Balada de Ouro Preto”, in: Retrato Natural, RJ, Livros de Portugal, 1949.

 


segunda-feira, 1 de abril de 2024

"Eu versos eu" - (Última parte) - Antologia

 Antologia poética

131.

Absolutamente tudo,

Eu.

Puro nada absoluto,

Sou.

 

132.

O coração fala, pelo olhar

Mas os olhos são mudos

 

Que idioma fala o coração?

Uma língua sem palavras

Sem gramática, sem regras

 

O coração vê, ao beijar

A boca, que é cega

 

Que enxerga o coração?

Uma verdade verdadeira

Imediatamente, revelada

 

O coração escuta, ao tocar

O peito, um surdo palpitar

 

Que ouve o coração?

Um abraço, um gemido, o amor

Pulsar, pulsar, pulsar

 

O coração sente, ao sonhar

A alma, intocáveis infinitos

 

Que sente o coração?

Um suspiro, um desejo

Amar, amar, amar

 

133.

Não sou poeta

Jamais poderia ser... poeta

 

“Ser Poeta”

 

O que faço

É verso errado

Mais escrito com o coração

Do que cérebro e mão

Confissão, grito

Sem interlocução

Sem audição

 

Solidão...

 

Escritos

Sentidos

Somente sentido

Infinitos...

Em todas as direções

 

Lidos

Fingidos

Engano verídico

Relido...

 

Refletidos, em mim

Espelho-imagem

Sem forma sem eu

Estranho, desconhecido

Estrangeiro

Diante de mim

 

Só...

 

Só eu, vazio, sem poesia


134.

Mal havia chegado na festa e um conhecido, o Carlão, gritou o meu nome: “João! João!” Fui ao seu encontro e o cumprimentei em meio a uma roda de cinco rapazes. “João, me disse, eu quero te apresentar um grande poeta, o poeta Luizinho, um grande poeta, um poeta de mão cheia, um poeta e tanto, um Álvares de Azevedo do antropoceno, um Gonçalves Dias da globalização. Este sim é um poeta com “p” maiúsculo. Este sim! Você tem que ler os poemas do poeta Luisinho; você precisa ler os poemas do poeta Luizinho!” O poeta Luisinho era um homem negro, de estatura muito baixa, magro, roupa social, uma lata de cerveja na mão. Recebia os elogios de meu cicerone da literatura com um leve sorriso de soslaio que sinalizava um não sei quê de arrogância ou falsa modéstia. Acenei para ele que apenas me respondeu com um abaixar de cabeça. Ao se recompor, o poeta manteve a mesma expressão de antes. Então, após uma troca de cordialidades com o pessoal do grupo, que eu não conhecia, o Carlão se afastou a pretexto de cumprimentar alguém que ele, provavelmente, não via havia muito tempo, tamanho seu entusiasmo e a pressa com que desapareceu, me deixando a sós com os cinco desconhecidos. Luizinho, o célebre poeta, não se abalou com a saída de Carlão e permaneceu com o meio sorriso no rosto. Os outros não sabiam o que fazer da minha presença. Embaraçado, procurei uma desculpa e me retirei dizendo que logo voltaria. A festa estava lotada, uma algazarra de vozes femininas e masculinas que pronunciavam palavras incompreensíveis em um turbilhão de conversas emaranhadas por um caos sintático sem sentido. Eu andava por entre a multidão a procura de diversão ou, melhor, da felicidade nos beijos da tão sonhada mulher amada que eu esperava conhecer naquela patuscada, quando me deparei, à distância, com o poeta Luisinho, num canto, sozinho, envolto por uma aura de silêncio, segurando a lata de cerveja, o sorriso pela metade. Passava um camarada que reconheci da roda de amigos e eu disse: “Ninguém se importa com o poeta Luizinho”. Ele apenas olhou, sorriu e continuou o seu caminho. Eu segui o meu, atrás do amor da minha vida, que eu encontraria se a sorte me favorecesse naquela noite animada. O tempo passava e eu já sentia os efeitos do álcool que minava pouco a pouco minha timidez. Subitamente, cantava alto, gritava feliz e tudo me parecia maravilhoso. Mas... lá estava outra vez o solitário poeta Luizinho, bem na minha frente. A mesma lata de cerveja, o mesmo sorriso em um lado da face. Só que desta vez não era o mesmo sorriso de superioridade que esboçava na véspera, mas o de um palhaço triste e abandonado atrás das cortinas, na coxia, ao longe do picadeiro. Ah, o poeta Luisinho, ninguém liga para o poeta Luizinho – pensei. Segui em frente alucinado, absorto em divagações: Será que um dia vão publicar as poesias do poeta Luisinho? Excelsa obra nascitura das letras no altar das inspiradoras Musas! Não, ele é pobre, nunca viajou para Paris, não tem padrinho, não tem pistolão. Ó poeta Luizinho, não és senão patinho feio, desprezado por todos, nunca conhecerás a glória dos graciosos cisnes que navegam no lago do parque. E só agora me dou conta, o Luisinho do poeta Luizinho é com “z” ou com “s”? Até aqui tenho misturado alhos com bugalhos. Mas vejam como são as coisas deste mundo; um pequeno fonema e um problema homérico. Ser ou não ser... Tomemos a questão com mais rigor: Luiz tem som de “s”; Luisinho tem som de “z”; pelo sim, pelo não: Luis-zinho. Um hífen e tudo está resolvido: eis uma bela capa, digna de um poeta, a do poeta Luis-zinho! Desgraçadamente, a insigne antologia é apenas um capricho da minha imaginação, pois, que diferença faz, afinal, nunca vão publicar o poeta Luizinho. Que seja com “s” ou com “z”, dane-se... Nunca vão publicá-lo. Quantos Camões em potência! Quantos Camões em aparência! Quantos em ato? Quantos de fato? Não, não, senhoras e senhores, o poeta Luizinho nunca se sentará com ar de importância atrás de uma mesa diante de uma fila de fãs ávidos por tirar uma selfie com seu ídolo sorridente numa sessão de autógrafos! Sejamos realistas. E de repente a multidão se abriu diante de mim como um mar vermelho, desvelando no centro pouco iluminado a figura desajeitada do poeta Luisinho, segurando a lata de cerveja, sorrindo de través, desesperado; quer revelar ao mundo toda a sutiliza de sua sensibilidade; sonha em abrir as largas asas e alçar voo sobre universos oceânicos para alcançar altitudes telúricas e pousar no majestoso panteão dos deuses da poesia! Então me dei conta que só existia ele na festa, que era a única alma viva, de carne e osso, já que a multidão de pessoas não passava de sombras voláteis, fugidias, impalpáveis, que evanesciam quando me defrontava com a minha própria solidão. Gritei: Onde estão todos? Não há ninguém aqui! Se soubessem o quanto deve ser caro para o poeta Luizinho seus rasurados cadernos de poesia; o quanto se agarra a eles de maneira sovina como um náufrago se aferra a um pedaço de madeira enquanto afunda num pântano escuro e abissal? Para depois dizer tristemente para mim mesmo: De que adianta? Ninguém dá bola para o poeta Luisinho! Dei uma gargalhada e avancei furiosamente sedento a procura de qualquer substância transcendental que me elevasse às sublimes dimensões inauditas das utopias. A madrugada avançava, e eu já me arrastava, cambaleando, melancólico, terrivelmente derrotado. Sem conseguir dar mais um passo, tropecei; despenquei no infinito. De bruços com o rosto colado no chão, consegui virar meu corpo. Diante de mim, o misterioso céu noturno estrelado. Lindo. Um milhão de estrelas. Perfeição. Olhem: um milhão de estrelas! Onde estão todos? Venham ver! Cadê o poeta Luizinho? Eu preciso ler as poesias do poeta Luisinho! Cadê o poeta Luizinho? Ainda me sobrava um resto de força. Levantei-me e o procurei. Numa clareira vazia, tal qual um palco de piso carcomido, encontrei uma lata de cerveja vazia caída no chão. Ali estava o poeta Luisinho. Ah, o poeta Luizinho! Passado alguns meses, encontrei o meu amigo Carlão. Então, perguntei, e o poeta Luisinho? Ele me olhou com um ar interrogativo e respondeu: Que poeta Luizinho?

 

 

sexta-feira, 1 de março de 2024

"Eu versos eu" - (Parte 20) - Antologia

 Antologia poética

121.

Sou tão sentimental

Encontrei uma nova paixão

Se nós namorarmos

Que dure para todo sempre

O nosso amor, pois

 

Sou errante

Estou perdido

Preciso de um lar

Um novo amor

 

Se o amor

Não existe

O que existe

Então

 

Um novo amor

Um novo sofrer

 

122.

Há pessoas que tem sorte

A maior glória na vida de alguém

É encontrar quem ame

Ame de verdade

 

123.

Se eu a beijar

É certo que vou

Me desapontar

Porque o beijo

Que sonho

Não é deste mundo

Melhor então não beijar

E se eu a tocar

Será um sacrilégio

 

Se eu quero amar

Melhor não amar

A vida cotidiana

É antítese do amor

Melhor nunca amar

Para sempre amar

 

124.

Entardecer

Céu azul marinho pálido

Nuvens róseas delgadas

Uma estrela

Primeira estrela

Que eu vejo

Primeiro amor

Que desejo

Se a porta bater

Ela me odeia

Se o cachorro latir

Ela me ama

Motores, buzinas

Vozes de arranha-céu

Guindastes, explosões

Motores, buzinas

Carros, caminhões

Ônibus, moto

Motores, buzinas

Freios, metais

Agudos, graves

Motores, buzinas

Como ouvir

Um cachorro latir

É mais provável

A porta bater

Mas, espere

Um latido

Sim, um cachorro latiu

Eu ouvi, juro que ouvi

Um cachorro latiu

 

Ela me ama

 

125.

Montanha russa

 

Nunca

Andei de montanha russa

Mas já me apaixonei

Vertiginosamente

Sim! amei

Vertiginosamente

E

O amor é

Subir e descer

Descer e subir

Repetir e repetir

Repetir e repetir

Sempre

 

De repente, subimos

Tão alto, tão alto, tão alto, tão alto, tão alto, subimos

No alto, felizes, mas, de repente, caímos, rápido

Rápido rápido rápido

Descemos

Em baixo

De repente, tão tristes

 

Um gesto,

Uma palavra

Mal compreendidos

Nos sonhos, das nuvens, vamos

Ao chão

Só uma fração de segundo

 

De novo

 

Outra fração de segundo

Ao céu

Bem entendidos

Um gesto, uma palavra

E vamos do chão às nuvens sorrindo

 

Ninguém pode controlar o amor

 

Ama-se vertiginosamente

 

De baixo pra cima

De cima pra baixo

 

Dando voltas

Rodopios

Looping

Girando, girando, girando

Girando,               girando

Girando, girando, girando

Damos voltas

Looping

Rodopios

 

De cabeça pra baixo

De cabeça pra cima

 

Apenas

 

Um só olhar

 

Chacoalhar

 

No céu azul

 

Chacoalhar

 

Amor, no ar

 

No céu azul

 

Voar, amar, sonhar, beijar, sem ar, beijar sem ar, beijar sem             ar

 

Dá frio na barriga

Coração fica na mão

 

E vai

 

Ora se quer morrer

 

E vem

 

Ora se quer viver

 

E vai

 

Ora não

 

E vem

 

Ora sim

 

Sim, ama-se vertiginosamente

 

Nas incertezas da certeza

Das lagrimas no sorriso

Dos Sorrisos na lágrima

Na Certeza das incertezas

 

Não, ninguém controla o amor. Ninguém

 

Apenas sorte

 

Girando, girando...

 

126.

Abro os olhos

Um novo dia

Não queria acordar

Abrir meus olhos

Para um novo dia

Mas me diga, amor

Existe algum motivo

Para eu não ser feliz

Sempre nadei

Contra a correnteza

Todas as lutas

Da minha vida

Eu perdi

Mas me diga, amor

Existe algum motivo

Para eu não ser feliz

Fiz de tudo o melhor

Dei tudo de mim

Joguei limpo

Fui leal e

No fim, traído

Mas me diga, amor

Existe algum motivo

Para eu não ser feliz

Amei de verdade

Absolutamente

De verdade. Não houve

Uma única vez, porém, que

Não fui rejeitado

Mas me diga, amor

Existe algum motivo

Para eu não ser feliz

Fecho os olhos

Mais uma noite

Quero sonhar

E abrir meus olhos

Para um novo dia

Amanhã

 

Sim, perdi todas as lutas

Mas me diga, amor

Existe algum motivo

Para eu não ser feliz

 

127.

A minha vida toda

 

Errei, errei

Errei, errei, errei

Errei

Errei, errei, errei

Errei, errei

Errei, errei, errei, errei

Errei

Errei, errei, errei, errei, errei

Errei, errei

Errei, errei, errei

Errei, errei, errei

Errei

Errei, errei, errei, errei, errei, errei, errei, errei

...

 

128.

Este ferro é doce

Este ferro é doce

A mão acaricia

Um corrimão de ferro

Este ferro é doce

Este ferro é doce

Este ferro é o Pinheiros

Que sobe a Topázio

Que desce a Rebouças

E para na Batata

Este ferro é doce

Este ferro é doce

 

Lembro-me como se fosse hoje

Cada detalhe, a cor do dia ensolarado

A voz alta e definida, os cabelos loiros

A canção surtia-me como um enigma

 

Como um ferro pode ter gosto

Como a mão pode ter paladar

 

Este ferro é doce

Este ferro é doce

 

O ferro tem olhos

Leva para casa

 

Olhar é andar sem tatear

 

Este ferro é doce

 

129.

Tem que ter amor

Senão, viver é dor

Se não tem amor

Nada tem calor

Tudo é sem sabor

Quando falta amor

Não floresce flor

Vida não tem cor

Só amor é amor

 

130.

(Brizolando)

Tem coro de jacaré

Tem rabo de jacaré

Tem boca de jacaré

Tem pança de jacaré

Tem fome de jacaré

Será que é jacaré

Acho que é acho que é

Será que é será que é

Jacaré acho que é

Como é que é

Como é que é

É jacaré é jacaré

É jacaré é jacaré

É jacaré é jacaré

É jacaré é jacaré

 

Tem focinho de jacaré

Tem olho de jacaré

Tem dente de jacaré

Tem pé de jacaré

Rasteja qual jacaré

Será que é jacaré

Acho que é acho que é

Será que é será que é

Jacaré acho que é

Como é que é

Como é que é

É jacaré é jacaré

É jacaré é jacaré

É jacaré é jacaré

É jacaré é jacaré

 

(Obs.: Não tenho partido político, sou anarquista)