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domingo, 12 de abril de 2026

Quem me Dera ser Onda: Sátira, Infância e a Sobrevivência em Luanda

A ilustração inspirada em Quem Me Dera Ser Onda, de Manuel Rui, representa de forma vívida e bem-humorada o cotidiano urbano de Luanda, marcado por criatividade, improviso e crítica social.  No centro da cena, destaca-se um porco em uma varanda de prédio — uma situação inusitada que remete diretamente ao enredo da obra. O animal, com desenhos no corpo e o nome “Zeca e Rui”, simboliza tanto o afeto das crianças quanto o absurdo da realidade retratada. Ao lado, dois meninos cuidam do porco com alegria, alimentando-o, o que revela a relação afetiva e lúdica entre eles.  A placa “Edifício Ondas do Mar” e a referência a Luanda situam a cena em um espaço urbano popular. Ao fundo, o mar com suas ondas reforça o título da obra, evocando liberdade e desejo — uma metáfora central da narrativa.  Nas ruas abaixo, a vida segue movimentada: vendedores ambulantes, crianças brincando, pessoas circulando e uma “candongueiro” (transporte coletivo típico) passando. Esse conjunto de elementos constrói um retrato dinâmico da cidade, com forte senso de comunidade.  A ilustração capta o tom satírico da obra, mostrando como, em meio a dificuldades, surgem soluções improváveis e criativas, revelando as contradições sociais e o espírito resiliente do povo angolano.

Publicada em 1982, a novela Quem me Dera ser Onda, do escritor angolano Manuel Rui, é uma das peças mais brilhantes e mordazes da literatura africana pós-independência. Através de uma narrativa que equilibra o humor satírico e a crítica social profunda, o autor utiliza a presença inusitada de um porco em um apartamento de um edifício moderno em Luanda para dissecar as contradições da nova pequena-burguesia angolana e o choque entre a vida urbana e as necessidades de subsistência.

Neste artigo, exploraremos as camadas de significado desta obra icônica, a importância do olhar infantil na desconstrução da burocracia e como Manuel Rui imortalizou uma fase crucial da história de Angola através de uma escrita vibrante e irreverente.

O Enredo: Um Porco no Sétimo Andar

A trama de Quem me Dera ser Onda gira em torno de uma família que vive em um prédio de apartamentos em Luanda. O pai, Diogo, traz para casa um porco com o intuito de engordá-lo para o consumo da família, uma prática comum em tempos de escassez alimentar. O problema reside no fato de que o animal é mantido na varanda do apartamento, gerando uma série de conflitos com os vizinhos, especialmente com o zelador do prédio, o "camarada Faustino".

O Conflito entre o Público e o Privado

A presença do animal subverte a lógica da vida em condomínio. Manuel Rui utiliza essa situação absurda para evidenciar:

  • A Escassez no Pós-Independência: O porco representa a segurança alimentar em um período de crise econômica.

  • A Burocracia Revolucionária: O zelo excessivo pelas normas e a linguagem oficialista da época são satirizados através das figuras que tentam, a todo custo, remover o animal.

  • A Ruralidade Urbana: O contraste entre o edifício moderno (símbolo de progresso) e a criação de animais (prática rural) expõe as fraturas de uma urbanização acelerada e forçada.

O Olhar Infantil: Zeca e Rui contra a "Operação Carne"

Enquanto os adultos veem o porco como alimento ou como um problema administrativo, as crianças da história, Zeca e Rui, desenvolvem uma relação afetiva com o animal. Eles o batizam e o tratam como um animal de estimação, criando um impasse moral e emocional na família.

A Pureza como Crítica Social

O título da obra, Quem me Dera ser Onda, provém de um poema escrito por uma das crianças. O desejo de "ser onda" simboliza o anseio por liberdade total, sem as amarras das fronteiras, das paredes do apartamento ou das regras impostas pelos adultos.

  1. A Humanização do Animal: Ao dar nome ao porco, as crianças retiram dele o status de "objeto de consumo", desafiando a autoridade paterna.

  2. A Resistência Criativa: Os meninos utilizam a astúcia para esconder o porco e retardar o abate, representando uma forma de resistência à crueza da realidade adulta.

A Sátira Política e a Linguagem de Manuel Rui

Manuel Rui é mestre em utilizar a linguagem para fins cômicos e políticos. Em Quem me Dera ser Onda, ele ironiza o uso excessivo de termos como "camarada", "estruturas" e "orientações", que permeavam o discurso oficial da Angola da década de 80.

O Estilo Carnavalesco

A obra possui um tom quase carnavalesco, onde as hierarquias são invertidas. O porco, um ser considerado "sujo", torna-se o centro das atenções de um edifício de elite. A escrita é ágil, repleta de diálogos que capturam o português coloquial de Luanda (o "luandês"), conferindo à obra uma autenticidade inigualável.

A Crítica à Nova Classe Social

Através de Diogo e sua esposa, Manuel Rui critica a "nova classe" que, embora proclame ideais revolucionários, está mais preocupada com o status e com a satisfação de necessidades imediatas do que com a construção de uma sociedade equitativa. O porco na varanda é a "mancha" na imagem que eles tentam projetar de modernidade.

A Importância Histórica e Literária da Obra

Quem me Dera ser Onda não é apenas uma história engraçada; é um documento social. Ela marca o nascimento de uma literatura angolana que não tinha mais a obrigação de ser apenas "panfletária" ou de exaltação à luta de libertação. Manuel Rui introduz o direito à autocrítica e ao riso.

  • Recepção Crítica: A obra é estudada mundialmente como um exemplo clássico de sátira africana.

  • Adaptações: A história já foi adaptada para o teatro e para a televisão, provando a perenidade de seus temas.

  • Universalidade: Embora profundamente angolana, a luta entre a necessidade material e o afeto infantil, bem como a crítica à burocracia, ressoa em qualquer cultura.

Perguntas Comuns sobre Quem me Dera ser Onda

1. O livro Quem me Dera ser Onda é considerado literatura infantil? Embora seja protagonizado por crianças e possua um humor acessível, a obra é uma novela satírica destinada ao público adulto. A profundidade da crítica política e as entrelinhas sociais exigem uma maturidade de leitura para serem plenamente compreendidas.

2. O que simboliza o porco na história? O porco é um símbolo multifacetado: representa a sobrevivência física, o conflito entre as origens rurais e a vida urbana, e é o catalisador que revela a hipocrisia das figuras de autoridade.

3. Qual é o desfecho da relação entre as crianças e o animal? O final da obra é ambíguo e melancólico, contrastando com o humor do restante do livro. Ele marca o fim da inocência das crianças diante da inevitabilidade das decisões dos adultos e das carências da vida real.

Conclusão: A Onda que Ainda Quebra em Nossas Praias

Ler Quem me Dera ser Onda hoje é perceber que os dilemas apresentados por Manuel Rui permanecem atuais. A tensão entre o que a norma exige e o que a vida pede, o conflito entre gerações e a busca por espaços de liberdade dentro de estruturas rígidas são temas universais. Manuel Rui presenteou a língua portuguesa com uma obra que nos faz rir enquanto nos obriga a pensar, consolidando-se como um dos maiores artesãos da palavra em Angola.

Se você procura uma porta de entrada para a literatura angolana que seja vibrante, humana e intensamente inteligente, este livro é o seu destino.

(*) Notas sobre a ilustração:

A ilustração inspirada em Quem Me Dera Ser Onda, de Manuel Rui, representa de forma vívida e bem-humorada o cotidiano urbano de Luanda, marcado por criatividade, improviso e crítica social.

No centro da cena, destaca-se um porco em uma varanda de prédio — uma situação inusitada que remete diretamente ao enredo da obra. O animal, com desenhos no corpo e o nome “Zeca e Rui”, simboliza tanto o afeto das crianças quanto o absurdo da realidade retratada. Ao lado, dois meninos cuidam do porco com alegria, alimentando-o, o que revela a relação afetiva e lúdica entre eles.

A placa “Edifício Ondas do Mar” e a referência a Luanda situam a cena em um espaço urbano popular. Ao fundo, o mar com suas ondas reforça o título da obra, evocando liberdade e desejo — uma metáfora central da narrativa.

Nas ruas abaixo, a vida segue movimentada: vendedores ambulantes, crianças brincando, pessoas circulando e uma “candongueiro” (transporte coletivo típico) passando. Esse conjunto de elementos constrói um retrato dinâmico da cidade, com forte senso de comunidade.

A ilustração capta o tom satírico da obra, mostrando como, em meio a dificuldades, surgem soluções improváveis e criativas, revelando as contradições sociais e o espírito resiliente do povo angolano.