terça-feira, 20 de novembro de 2018

Jimi Hendrix, o black power do rock

No dia da Consciência Negra, em busca das origens do rock, com vocês: o maior guitarrista de todos os tempos, Jimi Hendrix!!!


Nascido em Seattle, no ano de 1942, Johnny Allen Hendrix, ou, simplesmente, Jimi Hendrix, cresceu em uma família desestruturada, marcada pelo alcoolismo e por disputas pela guarda das crianças. Nada que abalasse o talento musical extraordinário de Jimi, ainda latente. Na escola, o menino costumava carregar uma vassoura que fingia tocar como se fosse uma guitarra. Certo dia, quando ajudava seu pai a limpar a garagem de um vizinho, Jimi encontrou um ukulele de uma corda só e pôde, enfim, aposentar a vassoura. De posse do novo instrumento, o futuro exímio guitarrista aprende a tocar de ouvido "Hound Dog", de Elvis Presley. Era um sinal promissor!


Em 1958, o ukulele foi substituído por um violão do qual o adolescente não se separava. Passava horas a fio aprendendo a tocar músicas que ouvia no rádio. Como a família de Hendrix não podia pagar a mensalidade de uma escola de música, Jimi nunca aprendeu teoria musical. Por isso, vivia importunando músicos de blues, para que estes, apesar de alguma relutância, o ensinassem as suas técnicas musicais.

Expulso de sua primeira banda, por ser, digamos assim, “muito exibido”, Jimi aos 19 anos é convocado pelo exército e serve como paraquedista. Nada que o fizesse perder sua paixão pela música. Apesar de suas obrigações na caserna, ele continuou a tocar em clubes, tendo como parceiro o baixista Billy Cox, com quem mais tarde, em 1969, formaria a famosa Band of Gypsys.


Dispensado do exército, Hendrix continuou a trabalhar exclusivamente como músico para vários grupos de soul e RnB, dentre eles, Sam Cooke e Isley Brothers. Pulando de show em show, Jimi Hendrix deixou os Isley Brothers e, em 1965, entrou para a banda de Little Richard. No entanto, a incompatibilidade de Richard com Hendrix logo se revelaria na implicância daquele com o figurino e o estilo musical do guitarrista, que foi demitido logo depois de sua primeira aparição na TV, quando fazia parte da banda de apoio no show de Buddy and Stacey:

Jimi Hendrix se muda então para Nova York e dá sequência à sua carreira solo. Numa de suas apresentações, Linda Keith, namorada de Keith Richard, ficou hipnotizada diante da estranha técnica do guitarrista e o recomendou a vários empresários do meio artístico. Nisso, o ex-baixista do The Animals, Chas Chandler, ficou tão impressionado com as incríveis habilidades virtuosísticas de Hendrix, que o convenceu a se mudar para Londres e formar uma banda com ele. Em setembro de 1966, a Jimi Hendrix Experience foi formada assim que o baterista de jazz Mitch Mitchell e o guitarrista e baixista Noel Redding foram recrutados por Chandler. O grupo grava um cover da música Hey Joe, de Billy Roberts, e Jimi Hendrix é lançado ao cume do estrelato do rock’n’roll.

Uma das curiosidades pouco conhecida a respeito do grande guitarrista era o fato de que, apesar de canhoto, Hendix também tocava violão para destros. De fato, Hendrix era ambidestro e podia tocar tanto com a mão esquerda como com a direita – ele tocava com a mão direita quando era jovem, porque seu pai associava instrumentistas canhotos a músicos do diabo.

Em meados dos anos 60, Jimi Hendrix passou a tocar com uma Fender Stratocaster, invertendo o instrumento para adaptá-lo a um canhoto, o que lhe possibilitou alcançar um tom não convencional devido à tonalidade invertida dos captadores e do maior controle sobre os botões de volume e do whammy bar (alavanca).

Ao adotar técnicas como hammer ons, heavy vibrato e slur licks, Jimi Hendrix criou um estilo novo e emotivo, que raramente se ouvia antes dele, fusão de seu amor precoce pelo soul e blues, além do rock moderno e estilos psicodélicos, transitando de forma fluente por todos esses gêneros.

A característica musical mais notável de Hendrix, no entanto, era a extrema liberdade e criatividade de suas experimentações sonoras, dentro e fora do palco. Por exemplo, ele usou um oitavo pedal de duplicação, desenhado por amigo Roger Meyer, durante a gravação do solo da música Purple Haze e, ao ouvir Eric Clapton e Frank Zappa, Hendrix também experimentou o pedal wah-wah, sendo pioneiro no efeito de uma ferramenta musical que poucos conseguiram reproduzir.

Por meio dessas experimentações sem fim, Hendrix dominou o ruído do feedback dos amplificadores, incorporando-o a suas músicas. Em Machine Gun, um épico musical de 12 minutos, Hendrix reproduz o feedback para simular sons de jatos, bombas e rifles M16, utilizados pelos EUA na Guerra do Vietnã, criando um dos hinos pacifistas mais eloquentes da geração hippie engajada no flower power.


Mas a grande atração de Jimi Hendrix sempre foi a sua incrível familiaridade com o instrumento. Tocava guitarra entre as pernas, por trás da cabeça ou até mesmo com os dentes – um pesadelo para os dentistas que o atendiam após os shows. Numa dessas apresentações, o célebre Eric Clapton – considerado um dos maiores guitarrista de todos os tempos – teria saído do palco incrédulo quando o então desconhecido e novato guitarrista o atropelou com a música Killing Floor.

Assim, a medida que a fama de Hendrix aumentava, mais o guitarrista extrapolava suas performances, muitas vezes quebrando sua guitarra ou os amplificadores do palco. Sua atuação mais icônica se deu no festival de Monterey, em 1967, quando, diante de uma plateia boquiaberta, Hendrix ateou fogo em sua guitarra e depois a fez em pedaços.

Em 18 de agosto de 1969, o lendário guitarrista subiu no palco do inesquecível festival de Woodstock e tocou ininterruptamente por quase duas horas - uma das mais longas atuações de sua carreira. A marcante apresentação não deveu apenas pelo hino dos EUA distorcido nas cordas do indomável Hendrix. O guitarrista fechou o show com um longo medley que incluiu a performance de Star Spangled Banner, que se tornaria emblemática nos anos 60.

É por essas e outras que Jimi Hendrix é considerado o melhor guitarrista de todos os tempos, fazendo de seus solos de guitarra algo comparável a uma Ilíada ou Odisseia do rock'n'roll.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Henri Lefebvre e a produção do espaço na Geografia

Vivemos em um mundo marcado pela incerteza. A quase 30 anos atrás, ante a queda do Muro de Berlim e do colapso soviético, a imprensa e a opinião pública esclarecida bradavam aos quatro ventos o fim das utopias. Não era um grito de desforra, afinal. Era, no fundo, um lamento, oculto e pessimista. Pois a experiência histórica não revelava apenas o fracasso do socialismo real (este, sim, festejado), mas o que havia de mais positivo nele: o devaneio iluminista de um futuro melhor, mais justo e igualitário. 


Um mundo, enfim, em que os seres humanos, através da razão, comandariam sua própria história. Naquela ocasião, um teórico hegeliano do capitalismo, Francis Fukuyama, não se fez por esperar e publicou o livro “O fim da história e o último homem”. Segundo o autor, a história coroava por fim o triunfo da sociedade de mercado, enquanto escopo racional da humanidade. Vã ilusão; o capitalismo não solucionou o mais grave de todos os problemas humanos, presente desde tempos antediluvianos: a fome. De fato, ao invés de universalizar o american way of life (hoje, em decadência também), sob a égide do neoliberalismo, a desigualdade e extrema concentração de riqueza vêm aumentando ano a ano. Fato incontestável: a utopia capitalista também malogrou e sucumbe na queda tendencial da taxa de lucro.

Na atual crise em que mergulhou a sociedade brasileira – reverberando uma crise mundial, – duas tendências estão em choque: o futuro e o passado.

A sociedade urbana, ainda em estado embrionário, virtualidade que não se fez presença, com sua reivindicação plena na diversidade, germina à sombra de poderosas forças conservadoras, resíduos de categorias históricas. Luta encarniçada, violenta, em um cenário no qual nenhuma contradição foi superada. Ao contrário, novas contradições emergem e juntam-se às antigas, persistentemente históricas. À escassez do “pão” (miséria, fome, doença), soma-se, agora, a escassez de espaço (devastação, poluição, aquecimento global, déficit habitacional, crise hídrica, superpopulação).

Eis a grande problemática da geografia atual e que permeia toda a questão da produção do espaço. Aliás, a geografia só voltará a ser uma ciência prestigiada se colocar em primeiro plano as considerações acima, formuladas pelo filósofo francês Henri Lefebvre.

(Jean Pires de Azevedo Gonçalves)

Veja também nossos artigos "Sete teses sobre a arte e a crítica vida cotidiana, por Henri Lefebvre" e A produção do espaço: de Henri Lefebvre à Geografia e o resumo e comentário, feito por nós, de O Nascimento da Tragédia (Nietzsche).

Muito antes de Fukuyama, em 1970, para ser mais exato, Lefebvre já havia escrito um fim da história muito mais profícuo, em termos intelectuais, e que, além disso, parece retratar o mundo atual em cores muito mais vibrantes. Trata-se de La fin de l'histoire: arguments (O fim da história, Publicações Dom Quixote: Lisboa, 1971), no qual transcrevo aqui alguns fragmentos abaixo:

*****

O FIM DA HISTÓRIA
(fragmentos)

Fim da história. Fim do sentido da história. Sentido do fim da história. Estes três temas entrelaçam-se. Aqui, o terceiro tema domina os outros.

Para os seus fundadores (Hegel e Marx), a história unia indissoluvelmente verdade e sentido. A verdade falhou. A história que comporta a verdade de todas as coisas? A história que oferecia a sua própria verdade? Tais afirmações volveram-se em interrogações e a dúvida sucedeu o questionamento. O sentido separa-se da história e vira-se contra ela. Qual era então, qual é o seu sentido? Na falta de verdade, que ela declare a sua direção. Ora, o seu sentido era o seu fim. E os fundadores sabiam-no. E o fim continha também a verdade. Mas então, se a história tem de acabar, se esse fim é ao mesmo tempo a sua verdade e o sentido, tal fim não será um fato em vias de realização ou já realizado? Nietzsche terá razão (terá por ele a razão, e não só a sua interpretação). Deste modo, a questão do sentido do fim passa ao primeiro plano. (...)

Durante muito tempo, a noção de “histórico-mundial” é admitida sem exame. Hoje essa unidade já se impõe. O histórico e o mundial já se não coincidem. O mundial ergue-se sobre as ruínas da historicidade como não histórico, pós-histórico, trans-histórico.

É difícil pensar que uma vida real, passando sob um arco do triunfo gigante, desemboque na mundialidade. Não será necessário transpor um limiar na proximidades do qual se descubra um horizonte de terrores: terror nuclear, terror estatal, terror generalizado pela violência, estranha contrapartida da pouca estranha satisfação dos consumidores? (...)

O fim da história é talvez a sua destruição violenta, a sua autodestruição. A tragédia readquire os seus valores. É o menos que se pode dizer. (...)

Sob vocábulos diversos, socialismo e comunismo, sociedade de abundância, ou ainda “era pós-industrial”, anuncia-se uma sociedade sem violência. Será ela o reino do tédio? É um grande problema. (...) No entanto, nada garante que a sociedade que se anuncia seja de repouso total. Acumula-se novas contradições, enquanto nenhuma contradição antiga está completamente resolvida. Nada prova que a nova época terá superado todos os conflitos, que as contradições ditas históricas terão desaparecido, que a dialética tornará a encontrar a historicidade no reino das sombras. A luta contra a natureza não acaba, nem a luta contra aqueles que apenas se ocupam da luta contra a natureza (sujeição e dominação técnicas, e por conseguinte devastação mortal da natureza). O trajeto que vai das particularidades às diferenças conhecidas e reconhecidas como tais não será falho de animação. A problemática urbana recorre a causas e razões de conflitos; os não-violentos, os seus imensos ajustamentos, não fazem passar à conta da historicidade caduca nem a guerrilha urbana nem a revolta dos guetos. São aspectos contraditórios da era trans-histórica. Nestas condições, que será o indivíduo digno desse nome? Aquele que resolver as contradições à sua volta, em si. Se se aborrecesse não seria digno desse nome. (...)

Na prática social pós-histórica, que se desembaraça das tendências anteriores (isto é, segundo esta perspectivação, na sociedade urbana), há descoberta e invenção de múltiplos códigos em caso de necessidade, há restituição de códigos antigos. O tempo histórico (unitário), enquanto referencial, é abandonado. Se o instante e o presente se sobrepõem ao passado, o atual diversifica-se e distancia-se. O tempo multiplica-se e dês-multiplica-se. A diversidade de mensagens (de codificações e descodificações) acentua-se, dando a impressão duma desordem sem fim. O reino da diferença começa. (...)

A história era a superação (seja por aufheben, seja por uberwinden, cambiante secundário). Loucura breve. O ser humano? (...)

Atenção, as massas agitam-se, as que estão acima das nossas cabeças, as que que nos rodeiam, as que fermentam na terra. O trans-histórico não é talvez o que esperais. (...)

Resta que o período histórico definiu um corpo de necessidades. Definição incompleta, contraditória. As necessidades sociais que só podem alargar-se na sociedade urbana continuam mal apreendidas, mal definidas, rejeitadas sem o “cultural”. Podemos todavia reter esta noção de “corpo históricos”, como resultado e resumo antropológico duma certa historicidade. O esquema dos períodos tornar-se-ia então o seguinte:

a) Período agrário: vitalidade, densa, dura e espontânea: desejo, mal definido e não diferenciado, mas forte;

b) Período industrial: mutação do desejo em necessidades classificadas e catalogadas, manipuladas, submetidas a uma prática homogeneizante em contradição com a diversidade, donde um profundo mal-estar;

c) Período urbano: restituição do desejo, reposição da realidade e da separação das necessidades (esquema economista), não aquém do individualismo (esquema naturalista), mas além, ou seja, reconhecimento da diversidade (da diferença) dos desejos na unidade do desejo. A “corporeidade” suplanta simultaneamente a ontologia e a história! (...)

Seja como for, parece impossível apresentar o período indiscriminado como um simples fim dos redemoinhos históricos, paragem do movimento, e por conseguinte das violências, entrada na estagnação sem fim. Poder-se-ia imaginar uma perpétua violência, acontecimentos sem trégua, mas sem que as mudanças se encadeassem à maneira histórica. Assim, os fenômenos urbanos: guerrilhas, imensas reuniões pacíficas etc. Não passa, porém, duma hipótese extrema, que não leva em conta certos elementos: a luta de classes levada a cabo, a intervenção do pensamento do pensamento teórico etc.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Ecologia: um equilíbrio entre consumo e sustentabilidade

Por Annina Ramona

Hoje em dia está cada vez mais difícil falar de consumo e sustentabilidade separadamente, haja vista que a população e seu nível de consumo estão aumentando, recursos naturais estão sendo usados como se fossem inesgotáveis e, em razão disso, os problemas ambientais estão crescendo.



Com os avanços na área da saúde, a taxa de mortalidade está diminuindo, principalmente, em países desenvolvidos; em contrapartida, países pobres ainda têm uma taxa de natalidade bastante alta. Isso contribui para o aumento populacional, além de outros fatores. A tecnologia se renova a cada dia e a internet, acessível cada vez mais a inúmeros usuários conectados pelas redes sociais, influenciam as pessoas a querer consumir ainda mais.

Recursos naturais são consumidos pelas indústrias visando apenas o lucro imediato, sem pensar que eles podem acabar, trazendo consequências imprevisíveis para as próximas gerações e até mesmo para as empresas envolvidas na destruição da natureza. Além disso, a extração e manipulação predatórias desses diversos recursos podem causar danos não só à natureza em nível local, mas até mesmo em escala global.

Desde a Revolução Industrial as fábricas, máquinas poluentes, produções de bens de consumo em larga escala vêm crescendo e causando prejuízos ao meio ambiente que vão se acumulando ao longo dos anos. Com o avanço da tecnologia, porém, tudo isso ganha modernização e rapidez, tornando-se mais atrativa a vida de consumo. O crescimento urbano e a busca por recursos diminuem drasticamente áreas florestais, juntamente com a atividade intensa da produção, contribuindo para o aquecimento global, um dos mais graves problemas ambientais.

Portanto, podemos observar que a população tem inúmeras necessidades, de comprar, vender, ocupar espaços etc., mas se isso não for feito de forma consciente será prejudicial ao Planeta.  Apesar de muitos não terem total consciência disso e outros mesmo preferirem ignorar, felizmente a visão de que a Terra precisa de cuidados está aumentando. É necessário agora encontrar um equilíbrio entre consumo e preservação do meio ambiente, e para isso precisamos da conscientização e colaboração de todos.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Roger Waters e as eleições no Brasil

Em sua turnê pelo Brasil, o ex-integrante do Pink Floyd Roger Waters causou polêmica no estádio do Palmeiras Allianz Parque ao chamar de neofascista o candidato à presidência Jair Bolsonaro, primeiro colocado no 1º. turno das eleições.

Um telão atrás do palco exibiu a frase em inglês Resist Neo-Fascism (“Resista ao neofascismo”), subscrita por uma lista de nomes de políticos suspeitos de envolvimento com práticas fascistas, dentre estes, o de Bolsonaro.



A multidão de mais de 40.000 fãs ficou dividida, enquanto alguns aplaudiam, outros vaiavam.

Logo em seguida, o telão mostrou as palavras de ordem “#Ele não”, lançada pelo movimento de mulheres contra Bolsonaro uma semana antes das eleições.

Ao que parece, Waters atendeu aos fãs que passaram meses em suas redes sociais pedindo que o ex-Pink Floyd incluísse em sua lista o nome de Bolsonaro.

A lista também inclui o presidente Donald Trump, o ex-líder ucraniano Nigel Farage e o primeiro-ministro húngaro Viktor Orban, entre outros. Bolsonaro é o único latino-americano da lista.

Depois da grande repercussão do show, vários eleitores de Bolsonaro colocaram à venda ingressos das próximas apresentações programadas pela turnê de Waters, enquanto comentários, prós e contras, inundaram a página do cantor no Facebook.

“Roger Waters, apenas cante sua música. Não meta o nariz onde você não é chamado", dizia um comentário. "Quando estiver em um outro país, não fale em política, você não sabe nada o que acontece no Brasil."

Outro respondeu: “Roger, que importa perder um fã que nunca prestou atenção em suas letras e seus valores? Bolsonaro é contra tudo aquilo que você e o Pink Floyd sempre acreditaram. É hora de lutar contra a xenofobia, o racismo, o sexismo, a homofobia e o autoritarismo. Valeu!”


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Arturo Toscanini, o maestro carioca

Por A. M. L.

Nascido na comuna de Parma, norte da Itália, no dia 25 de março de 1867, filho de um pobre alfaiate, Arturo Toscanini entrou aos nove anos para o conservatório de Parma, onde os companheiros não tardaram em tratá-lo como um verdadeiro gênio e passaram a segui-lo com entusiasmo até mesmo num ato de indisciplina, quando Arturo organizou uma banda clandestina fora do programa escolar, resultando na punição dele e de todos os seus colegas. Mais tarde, já músico profissional, Arturo pulou de orquestra em orquestra, tocando violoncelo em teatros e óperas, até que uma noite do ano de 1886, pouco tempo depois de completar 19 anos de idade, foi repentinamente arremessado aos píncaros da fama: passou-se isto no Rio de Janeiro.


Na noite de 30 de junho, poucas horas antes da primeira apresentação de Ainda, a companhia de ópera italiana, de visita à capital do Brasil império, coagira o maestro brasileiro "Leopoldo Miguez" brasileiro Leopoldo Miguez a pedir demissão. O público, transbordante de patriotismo ofendido, vaiou consecutivamente os dois maestros italianos que lhe queriam empurrar goela abaixo, forçando-os a descer do estrado. Alguém se lembrou então do jovem violoncelista, que também era assistente e mestre de coral e que, durante a viagem, tinha se encarregado de ensaiar os cantores, dando provas de conhecer meia dúzia de regras sobre a técnica operística.

Arturo foi incentivado pelos músicos a assumir a regência da orquestra. "Todos sabiam da minha excelente memória", disse ele depois, "porque os cantores tomavam as lições comigo e eu tocava piano sem nunca olhar a partitura".

Ao ver surgir no tablado um maestro teen, a plateia ficou silenciosa. Empunhando a batuta, para dar o sinal de abertura, e quase sem reparar no que fazia, Arturo fechou a partitura que tinha no pedestal, diante de si. O público ficou boquiaberto. Aquele primeiro ato decorreu brilhantemente e Arturo era um herói popular. Um triunfo! Durante essa temporada, no Rio de Janeiro, regeu mais de 18 apresentações – todas de memória.

“Este maestro sem barba é um prodígio que transmite o fogo artístico e sagrado de sua batuta, com a paixão de um genuíno artista!”, resenhava um jornal da época.

Durante as seis semanas que se seguiram a turnê, o biógrafo Harvey Sachs escreveu que Arturo conduziu a orquestra em 12 óperas e 26 apresentações, todas de memória! Mesmo assim, ninguém lhe ofereceu um único aumento e tampouco passou pela cabeça do jovem maestro pedir por um.

Nascia o maestro carioca, Arturo Toscanini.

sábado, 15 de setembro de 2018

Meus dilemas - Excluídos - Clássicos do punk BR


Se eu tivesse de escolher dez das melhores músicas do punk nacional, desde sua origem até os dias atuais, isto é, as Top 10, não hesitaria em “Jogos de azar”, da banda paulistana Excluídos. As demais eu deixo para responder em uma outra ocasião, qualquer dia destes. De fato, os Excluídos é uma das bandas mais originais da cena punk brasileira, o que significa dizer que eles não se parecem com nenhuma outra banda, a não ser com eles próprios. Por isso, ao ouvi-los, não espere clichês ou fórmulas fáceis.


A proposta dos Excluídos é fazer punk rock de qualidade e, acima de tudo, com muita personalidade. Para mim, talvez, o que melhor define a banda é a extrema paixão com que seus integrantes fazem aquilo que mais gostam: punk rock! Mas, antes de ir direto ao ponto, caberia aqui falar um pouco sobre o show dos Excluídos, que é um capítulo à parte. No palco, Ronaldo (vocal e guitarra), André (guitarra), Caio (baixo) e Raphael (baterista), todos com uma gota de lágrima negra pintada no lado esquerdo do rosto, marca registrada da banda, encarnam completamente aquilo que poderíamos chamar de “presença de palco”. Amplificadores ligados, pulinhos ensaiados, primeiros acordes e parece que alguém ligou o playback atrás das cortinas. Mas não, os caras realmente arrepiam ao vivo. No auge do show, o som dos instrumentos é interrompido por eles e, diante do silêncio, o público levanta os braços e bate palma espontânea e sincronicamente acompanhado apenas pela marcação do bumbo da bateria. Emocionante! Até hoje só vi os Excluídos provocarem esse tipo de reação nos fãs enlouquecidos. Mas o show não pode parar e os Excluídos são bastante generosos com o seu público. Então, na sequência, já emendam um riff e o que vem depois é pura energia, contagiando freneticamente até os mais tímidos.


Realmente, os Excluídos são excelentes músicos e nada tenho a dizer a mais a esse respeito. Os vocais, no entanto, são um caso único entre as bandas punks e merecem uma pequena menção. Ronaldo é um cantor de primeira linha e consegue com extrema facilidade modular sua voz em belas coloraturas que podem ir de um falsete muito agudo até um grave ao modo de um Elvis Presley. E isso sem perder a afinação! O coro também não fica atrás, com polifonias perfeitas que se alternam em refrões que não saem da nossa cabeça.



Acontece que não estou aqui para falar da banda e, sim, de seu CD Meus Dilemas. Sem dúvida, os Excluídos levam muito a sério esse tal de punk rock. Meus Dilemas é a prova disso, a começar pela produção da capa, que é, com todas as letras, de extremo bom gosto. Tão bonito que até poderia servir de enfeite na sala de estar. Todo feito em papelão, com um suporte de acrílico interno, para segurar o disco, o CD é todo decorado com fotos da banda em preto e branco. Mas o charme mesmo é o nome da banda escrito em letras douradas – além de outras inscrições, como título, créditos, logotipo etc. (Ah, os caras me deram a honra de colocar um pequeno texto que eu escrevi num guardanapo, a mais ou menos uns quinze anos atrás, no fundo da capa. Valeu!). O encarte segue o mesmo nível da capa, com todas as letras e informações técnicas, e em formato de livrinho. O disco conta também com um pôster estampado com uma foto da banda a la Ramones e letras em inglês no verso.


Ou seja, é um baita presente para os fãs!

Em se tratando de uma banda, porém, o invólucro não é o principal e, sim, o conteúdo: as músicas!

Claro, com toda essa produção, os caras não iam nos decepcionar. As 13 canções são excelentes, diversão garantida para quem gosta e para quem não gosta de punk rock! Então o melhor a fazer é ouvir Meus Dilemas e não dizer mais nada! Mas sou o dono do blog e tenho o compromisso comigo mesmo e com os seus leitores de informar. Então, vamos à resenha! “Antes do céu desabar” é o abre alas dos disco e é inconfundivelmente Excluídos. A letra é bastante sombria e versa sobre o estilo de vida calcado num consumo cego e que põe em xeque o futuro da humanidade: “Antes que o céu venha a desabar/E a natureza anunciar/Que o vento leva a esperança/Enquanto o medo toma lugar”. A canção "Novo início" é mais uma das músicas do disco que quando a gente menos se dá conta está assobiando ou cantando o refrão: "Mas não me deixe acordar/E o pesadelo voltar/Fazendo o mundo girar/Pra fora do lugar". “Minha vida é cheia de som e fúria” é realmente BE-LÍS-SI-MA e de imediato me lembrou Macbeth, do grande bardo inglês (talvez, o autor que eu mais li; sim, li Shakespeare, mas pouco vi suas peças, porque no Brasil... arghhh!!!...). No refrão eles cantam: “E você sempre reluz/Mesmo sem nada a mostrar/O seu vazio seduz/Mas prefiro a vida cheia de som e fúria”. A canção “Coma” é uma metáfora bem interessante para se lançar uma crítica à apatia de nossa sociedade e talvez explique o estado comatoso por que passamos: “A revolução me chama/A revolução em coma”. A faixa sétima, “O show não pode parar”, bem que poderia nomear o CD, porque bem representa o espírito da banda resumido nestes versos: “Quando tudo me puxar para baixo/Respiro e grito mais alto/(...) Viver não é crime/Eu digo que o show não pode parar”. “Precipício” dá arrepios e somos compelidos a cantar o refrão: “Não, não, não, não, não/Será hora de pular?/ Não, não, não, não, não/Ou dar um passo atrás?/A quem eu devo culpar?”. Em “Um dia ideal”, os arranjos instrumentais, em particular, o solo de guitarra, é bastante empolgante e a letra sugere uma recomendação salutar para o dia que amanhece: “Hoje eu acordei vendo o sol raiar/No ar que eu respirei, havia algo a mais/Era um dia comum qualquer, mais parecia mais/Foi o instante que eu enxerguei a chance de mudar”. E para finalizar os meus destaques, não tem como não comentar a canção que fecha e que dá indiretamente o título ao CD, que é “O som da minha vida”. Numa bonita canção, os Excluídos trazem as angústias e os dilemas de se viver um grande amor. Na letra, eles cantam: “Eu não posso pensar em viver sem você/Você me faz pensar nos meus dilemas”.

Ronaldo, André, Caio e Raphael

Repetindo, Meus Dilemas é um baita presente para todas as ocasiões! O que está esperando para ouvir os Excluídos?!!!

PS.: Em longa conversa com o Ronaldo por telefone, tive um insight e classifiquei estética e nietzschianamente as músicas dos Excluídos como apolíneas. Então, quando veremos um show dos Excluídos com o dionisíaco Fecaloma? Que fique registrado!


sábado, 1 de setembro de 2018

No Meio do Caminho - análise - Carlos Drummond de Andrade

No Meio do Caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(Carlos Drummond de Andrade)


Por Jean Pires de Azevedo Gonçalves

Por que nos encantamos tanto com o poema “No meio do caminho” de Carlos Drummond de Andrade? Afinal, uma pedra no meio do caminho é algo tão banal que sequer deveríamos dar atenção, não é.

Primeiro, porque há algo de cômico em um poema dedicado a uma pedra. Segundo, porque, por trás da aparente superficialidade temática do poema, deve haver algum sentido universal que, sem sabermos, nos toca profundamente. Daí o seu encanto.

De fato, uma pedra no caminho de alguma forma nos paralisa; pois, não deveríamos esperar encontrar nada no percurso que pudesse perturbar nossa jornada, onde o transito deveria fluir (livremente).

Uma pedra no meio do caminho, portanto, é algo que está na ordem do imprevisível. E a nossa vida é cheia de imprevistos.

Ao ler o poema de Drummond é exatamente esta a sensação que temos: uma inquietação diante de uma interrupção não prevista.

Caminho, em sua definição mais elementar, pressupõe um percurso que interliga um lugar de saída e outro de chegada. Pressupõe também o ato de caminhar e chegar a um destino. Qualquer obstrução no meio do caminho implica um transtorno, um abalo, uma desordem, em nossas expectativas, enfim, implica uma demora.

Mas Drummond não nos esclarece em nada como é o caminho – se é de terra, asfalto, pedra, se é uma trilha, uma estrada, longo, curto etc. – nem como é a pedra – se é pequena, média, ou grande, etc.

Estes elementos centrais do poema são totalmente imprecisos. A única exatidão possível, que podemos ter, é o “meio”. Nada sabemos como é a pedra ou o caminho, mas temos uma certeza, o meio: uma medida que pode ser estabelecida, inclusive, numericamente.

Justamente quando julgávamos deter desta certeza, o meio, eis que essa noção também nos escapa, pois não sabemos se o meio está entre o ponto de partida e o de chegada ou se está entre as margens do caminho.

Meio pode ser também um modo de falar, e não uma medida exata, um ponto equidistante entre polos extremos.

Perante tanta indefinição, o poema nos aparece como um enigma.

Aquela simples pedra no meio do caminho de repente se revela bem mais complexa do parecia à primeira vista.

Por isso, o poema tem sido comumente interpretado como uma metáfora para os obstáculos que surgem na vida de todos nós. Embora haja alguma verdade nessa interpretação, nenhum elemento no poema sugere que ela é correta. Ademais, eu, particularmente, não posso acreditar numa interpretação tão extemporânea e fácil, em se tratando de um dos poemas mais emblemáticos da antologia brasileira. Se a vida é cheia de obstáculos, então qual é o seu sentido no poema?

Diante disso, tentarei trazer aqui uma análise e interpretação alternativa, sem, no entanto, prescindir totalmente dessa que é a solução mais fácil.

Realmente, o poema tem uma aparente simplicidade e é por ela que devemos começar.

A princípio, poderíamos reduzir o poema a duas únicas frases:

“No meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas”.

Surpreendentemente, não há nada de poético nessa passagem.

Há sem dúvida uma certa irreverência no poema de Drummond. Não são os grandes temas, heroico, trágico, sublime ou estético, que são retratados pelo poeta, mas um acontecimento inesquecível, a saber, uma pedra no meio do caminho!

Drummond parece estar zombando de nós.

Até mesmo na escolha do léxico, como em “retinas tão fatigadas”, há um certo gracejo. Pois para que complicar se ele poderia ter escrito a expressão muito mais natural “vistas cansadas”?

Enquanto quebramos a cabeça tentando entender o que Drummond pretendia com este poema e lhe conferir uma interpretação, digamos assim, mais edificante, o poeta parece estar rindo às nossas costas.

Mas, por outro lado, para além do tom de galhofa, Drummond lança mão de uma estratégia bastante interessante. Não é o sentido literal que dá força ao poema, mas a sua forma, que potencializa a carga poética e o eleva a um nível de riqueza de significados que nos retira da mesmice dos chavões e clichês poéticos para nos lançar a um nível de percepção incomum.

Neste sentido, apesar do modernismo, avesso a convenções da tradição literária, o aspecto formal de “No meio do caminho” é tão complexo quanto o de um soneto, e merece uma atenção especial.

Portanto, é a forma do poema, ou seu invólucro, que nos dará as pistas para uma análise dos significados possíveis do poema.

Assim sendo, a análise será dividida em quatro etapas. A primeira consiste numa apresentação convencional dos elementos formais do poema. A segunda, numa experimentação e manipulação dos versos do poema, tal como barro nas mãos do oleiro. A terceira, numa análise semântica. A quarta, numa síntese dos elementos analíticos como um todo. E, enfim, a conclusão. 

1º ETAPA

Título:

“No meio do caminho” – Anuncia um acontecimento: a pedra.

Duas estrofes:

(Quarteto)
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

(Sextilha)
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Versos (10):

1. No meio do caminho tinha uma pedra
2. tinha uma pedra no meio do caminho
3. tinha uma pedra
4. no meio do caminho tinha uma pedra.

5. Nunca me esquecerei desse acontecimento
6. na vida de minhas retinas tão fatigadas.
7. Nunca me esquecerei que no meio do caminho
8. tinha uma pedra
9. tinha uma pedra no meio do caminho
10. no meio do caminho tinha uma pedra.

Sílabas poética:

No-meio-do-ca-mi-nho-ti-nha u-ma pe-dra (10)
ti-nha u-ma-pe-dra-no-meio-do-ca-mi-nho (10)
ti-nha u-ma-pe-dra (4)
no-meio-do-ca-mi-nho-ti-nha u-ma pe-dra. (10)

Nun-ca-me es-que-ce-rei-des-se a-com-te-ci-men-to (12)
na-vi-da-de-mi-nhas-re-ti-nas-tão-fa-ti-ga-das. (13)
Nun-ca-me es-que-ce-rei-que-no-meio-do-ca-mi-nho (12)
ti-nha u-ma-pe-dra (4)
ti-nha u-ma-pe-dra-no-meio-do-ca-mi-nho (10)
no-meio-do-ca-mi-nho-ti-nha u-ma pe-dra. (10)

Sílabas tônicas:

No MEIo do caMInho TInha Uma PEdra
TInha Uma PEdra no MEIo do caMInho
TInha Uma PEdra
no MEIo do caMInho TInha Uma PEdra.

NUNca me esqueceREI DESse aconteciMENto
na VIda de MInhas reTInas TÃO fatiGAdas.
NUNca me esqueceREI que no MEIo do caMInho
TInha Uma PEdra
TInha Uma PEdra no MEIo do caMInho
no MEIo do caMInho TInha Uma PEdra.

Destaque para aliteração nos fonemas "m" e "nh" (nasais), nas sílabas tônicas mei- e mi- e nas átonas -nho e -nha, e o fonema "p" (plosiva), na sílaba tônica pe-

E para a ocorrência de aliteração da vogal fechada "i" em mi-, ti-, vi-, mi-, ti- e -ti- e para a vogal aberta "é" em pe-

Que dão ideia de movimento e interrupção (pedra)

Rimas:

ABAA
No meio do caminho tinha uma pedra (A)
tinha uma pedra no meio do caminho (B)
tinha uma pedra (A)
no meio do caminho tinha uma pedra. (A)

B-BABA
Nunca me esquecerei desse acontecimento (B)
na vida de minhas retinas tão fatigadas. (verso branco)
Nunca me esquecerei que no meio do caminho (B)
tinha uma pedra (A)
tinha uma pedra no meio do caminho (B)
no meio do caminho tinha uma pedra. (A)

2º. ETAPA

Nesta segunda etapa, o poema será dividido em três momentos:

a) Momento da objetividade: no meio do caminho tinha uma pedra.

b) Momento da subjetividade: Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas.

c) Momento da objetividade e da subjetividade: poema inteiro.

a) Momento da objetividade

A primeira coisa que se nota neste momento é a repetição exaustiva do verso no meio do caminho tinha uma pedra, que se desdobra através de inversões numa estrutura cíclica ou espiral.

Assim, como um rocambole, é possível desenrolar estes versos da seguinte forma:

(1ª. estrofe) No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra.

(2º. Estrofe) ...no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra.

(1ª. e 2º. Estrofes) No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra (...) no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra.


No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra (...) no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra.


(vermelho – azul – verde – preto – verde – azul – vermelho)

Nota-se aqui, apenas de passagem, que “tinha uma pedra” (em preto) está bem no meio de um continuum que pode e sugere não ter fim. Ao mesmo tempo, é possível inferir a estrutura circular da Mandala.

Se, agora, tomássemos os três elementos principais (meio, caminho e pedra), deste primeiro momento, e pontuássemos como se fossem tons musicais, dentro de um campo harmônico, estabelecendo uma alternância de arpejos, ascendente (grave para o agudo) e descendente (agudo para o grave), teríamos a seguinte sucessão rítmica:

No meio˅ do caminho˄ tinha uma pedra˅ tinha uma pedra˅
no meio˅ do caminho˄ tinha uma pedra˅ no meio˅
do caminho˄ tinha uma pedra˅. (...)
no meio˅ do caminho˄ tinha uma pedra˅ tinha uma pedra˅
no meio˅ do caminho˄ no meio˅ do caminho˄ tinha uma pedra˅.

˅˄˅˅ ˅˄˅˅ ˄˅
˅˄˅˅ ˅˄˅˄˅

˅˄˅˅ ˅˄˅˅ ˄˅ ˅˄˅˅ ˅˄˅˄˅

Nota-se um padrão rítmico em três momentos (azul) e um desvio em dois outros momentos (preto). O padrão ˄˅ está também no meio de uma sucessão de oito tons, padronizada, e de outra de nove tons, de ritmos diferentes.

Se computássemos a ocorrência em que aparecem os três termos no poema, o resultado será:

Meio = 6
Pedra = 7 (cabalístico)
Caminho = 6

Meio, pedra, caminho = 19

1 + 9 = 10 (coincide com dez versos)

Pedra = 7 = 3 + 1 + 3

Nota-se o número 1 no meio.

b) Momento da subjetividade

Neste momento, há também repetição de “nunca me esquecerei” e um momento central:

Nunca me esquecerei
desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei...

Nota-se, também de passagem, que “desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas” está no meio das duas ocorrências de “nunca me esquecerei”.

c) Momento da objetividade e da subjetividade

Intercalando-se os dois momentos se obtêm esta estrutura:

Objetividade – Subjetividade - Objetividade

1. No meio do caminho tinha uma pedra
2. tinha uma pedra no meio do caminho
3. tinha uma pedra
4. no meio do caminho tinha uma pedra.

5. Nunca me esquecerei
(meio) desse acontecimento 6. na vida de minhas retinas tão fatigadas.
7. Nunca me esquecerei
(...)
...no meio do caminho
8. tinha uma pedra
9. tinha uma pedra no meio do caminho
10. no meio do caminho tinha uma pedra.

Ou ainda:

1. No meio do caminho tinha uma pedra
2. tinha uma pedra no meio do caminho
3. tinha uma pedra
4. no meio do caminho tinha uma pedra.

Meio: Eu lírico poético (Sujetividade)

1. ...no meio do caminho
2. tinha uma pedra
3. tinha uma pedra no meio do caminho
4. no meio do caminho tinha uma pedra.

É possível ainda pensarmos num verso oculto ou três estrofes possíveis em busca da simetria:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Tinha uma pedra (verso oculto)
(meio) Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Assim:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Tinha uma pedra (Eu lírico) no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(Três estrofes)
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
(meio) na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que

no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

O que nos pode sugerir na divisão irregular entre duas estrofes (quarteto e sextilha) uma pausa, ou melhor, um momento de silêncio, antecipando o momento da subjetividade.

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
(SILÊNCIO)
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Para finalizar, a pedra no meio do caminho não é vista pelo poeta como um fato corriqueiro, da vida cotidiana, mas como um “acontecimento” inesquecível e de dimensões extraordinárias. Este acontecimento inesquecível e extraordinário, a pedra no meio do caminho, aparece na vida das retinas fatigadas do poeta. O que podemos supor, de um lado, que tudo não passou de ilusão ou devaneio poético. Ou, por outro, de que há um grau de impessoalidade enorme ao se transferir impressões subjetivas da sensação visual para um órgão da anatomia humana, como se este fosse um objeto (retina) separado e “estranho” ao próprio sujeito, justamente no momento de maior subjetividade do poema.

3ª. ETAPA

É interessante destacar a escolha lexical pelo poeta, que não é fortuita.

Em “no meio do caminho tinha uma pedra”, Drummond se utiliza do termo coloquial “tinha” para se referir que existia (ou havia) uma pedra no meio do caminho.

Em sentido oposto, no sexto verso, o poeta se vale de uma palavra mais rebuscada, dentro da norma culta, “fatigadas”, ao invés do usual cansadas.

Também é interessante notar o desvio na expressão “minhas retinas”, ao invés de “minhas vistas”, caracterizando-se um caso de sinédoque, quando se toma a parte pelo todo.

“Retina” (do latim retina, “rede”) é a membrana interna do globo ocular onde, como numa máquina fotográfica, os sinais visuais são captados invertidos (“de ponta-cabeça”), antes de serem decodificados pelo cérebro.

Além disso, é possível pensar em duas figuras de pensamento no verso “na vida de minhas retinas tão fatigadas”. Hipérbole – quando se aumenta ou diminui a realidade das coisas (retina ao invés de olhos) – e prosopopeia – quando se dá voz a animais ou vida a objetos inanimados (vida das retinas fatigadas). Ora, a vida não está nas retinas, que não é independente do todo, e, sim, no organismo inteiro.

4ª. ETAPA

"Tudo que era sólido desmancha no ar" (Karl Marx)

Ao analisarmos e estabelecermos relações entre as etapas acima, percebemos no poema sempre uma frustração na busca pela simetria ou harmonia, interrompida por lapsos, desvios ou dissonâncias. Assim, o título, que, por meio de uma presença, anuncia uma ausência; duas estrofes irregulares (quarteto e sextilha ao invés de duas quintilhas); versos com sílabas em numeração par (4, 10 e 12) e um verso, o sexto, em numeração ímpar (13 sílabas); rimas que não são senão repetição de palavras (pedra-pedra; caminho-caminho), uma má rima (-nho/-nto) e um verso branco; um verso quebrado, “tinha uma pedra”, no meio de um continuum que segue um padrão alternado; o deslocamento e contraste semântico da maneira usual de falar ou escrever, entre a norma culta e a coloquial; o mundo invertido na percepção do poeta que se aliena de si mesmo em seu próprio corpo, o qual lhe aparece como outro; a realidade objetiva posta em xeque pela subjetividade; etc.

Neste sentido, parece haver sempre no poema um jogo de oposições, no qual oscila, num vai e vem incessante e repetitivo, deixando-se sempre alguma sobra ou coisa fora de lugar:

- ausência-presença
- concreto-abstrato
- microcosmo-macrocosmo
- reta-círculo
- cheio-vazio
- fluidez-obstrução
- imprecisão-exatidão
- certeza-incerteza
- previsível-imprevisível
- pequeno-grande
- infinito-finito
- comum-extraordinário
- par-ímpar
- exterior-interior
- igual-diferente
- harmonia-dissonância
- objetividade-subjetividade
- sujeito-objeto
- norma culta (padrão)-linguagem coloquial
Etc.

Este jogo de oposição nos dá conta de que estamos diante de uma realidade altamente fluida, movediça, em constante transformação, o que parece estar de acordo com o que vimos mais acima: nada podemos saber ao certo neste mundo difuso, só temos uma única certeza: o meio. O resto está fora de lugar.

O problema é que não sabemos onde é exatamente o meio. O que nos remete à questão colocada por Nicolau de Cusa, na Idade Média, e retomada por Blaise Pascal, sobre o centro do Universo (infinito) estar em toda a parte e a circunferência em nenhuma.

Assim, o meio é uma presença tão indefinida quanto aquilo que está em seu lugar. O meio é, rigorosamente, uma ausência, está em todo lugar e, ao mesmo tempo, em nenhum.

No poema, a ausência do meio é o meio pelo qual se manifesta a verdadeira presença: a pedra.

A nossa análise, entretanto, demonstrou a pedra e o Eu lírico poético ambos situados bem no centro ou no meio do poema. Objetivamente, a pedra; subjetivamente, o Eu lírico. Conclui-se daí que o Eu lírico e a pedra coincidem no meio, o que nos remete a uma identificação entre ambos, pelo menos em relação à posição.

Geometricamente, o Eu lírico é a pedra (refletida na retina) e vice-versa – já que dois corpos, segundo as leis da física, não ocupam o mesmo lugar no espaço.

Há, contudo, um terceiro fator complicador implícito nesse meio físico: o centro realmente subjetivo do Eu lírico identificável apenas em “nunca me esquecerei”, e que aparece entre as duas objetividades: realidade (objetiva) e retina (subjetiva). Existe uma pedra no meio do caminho e existe a imagem refletida e invertida dessa pedra no meio do caminho numa retina, de onde o Eu lírico assiste a um acontecimento, para ele, inesquecível e, daí, extraordinário.

O Eu lírico é esta tênue camada definida por uma negatividade: nunca me esquecerei.

Recurso bastante semelhante à dúvida metódica de Descartes, pela qual, por meio da redução ou negação, se descobre o cogito, isto é, ‘penso, logo existo”, no poema de Drummond, o Eu lírico é a única certeza: esquecer é desaparecer.

Altamente reflexivo, diante de uma realidade passageira, na qual se coloca uma interrogação de ordem intelectual, o Eu lírico se afirma pela memória em um mundo instável e volátil.

O que nos faz retomar a pergunta central: o que é a pedra? A pedra existe?

Tal como a pedra filosofal dos alquimistas, que podia transformar qualquer metal em ouro, a pedra de Drummond transforma um fato corriqueiro em um problema ontológico. Pois bem, a pedra é um ardil para se tocar nos problemas da existência. (Segundo Carl Gustav Jung, em Psicologia e Religião: "Não existe praticamente qualquer dúvida de que não poucos, entre aqueles que a buscavam, se convenceram de que a natureza da pedra é o si mesmo humano. (...) A pedra era um mundus minor como o próprio ser humano, ou seja, de certo modo, uma imagem interior do cosmo que, entretanto, se estende não em uma amplidão imensurável, e sim em uma profundidade imensurável, isto é, do pequeno ao infinitamente pequeno"). O infinitamente pequeno é incomensuravelmente grande, porque infinito: o ser. Damos voltas e mais voltas e não saímos do mesmo lugar: nós mesmos. 

Então, o que é a existência?

Vimos mais acima que a pedra era o imprevisto, o inesperado.

Entretanto, a pedra sempre se repete ao longo do meio do caminho, que é infinito.

Ler o poema é caminhar por esse infinito fadado a repetir imprevistos, que, afinal de contas, são bastante previsíveis.

Portanto, imprevistos sempre acontecem. Talvez, nossa única certeza objetiva: esperamos sempre o inesperado (o futuro).

Todavia, ainda temos um problema. A pedra não é apenas um imprevisto dentre milhares de outros, e, sim, um acontecimento extraordinário, que traz marcas inesquecíveis ao poeta, que, a julgar pelas retinas cansadas, é uma pessoa experiente e que já viu muitas coisas no mundo.

Ora, um acontecimento extraordinário e inesquecível não pode ser tratado como um simples imprevisto do cotidiano. Um acontecimento extraordinário é um acontecimento que raramente acontece.

O que lhe confere um caráter extraordinário à pedra é que a pedra é singularmente uma pedra.

E cada pedra que surge no caminho é tão extraordinária quanto à primeira.

A pedra é a pedra é, logicamente, a mesma e, ao mesmo tempo, outra. O um que é múltiplo.

Isso faz da pedra, a qual nunca deixou de ser uma pedra, uma outra coisa que não uma pedra.

Pedra é pedra, tautologia que na sua igualdade repete e produz o diferente (Ver nossa análise de “Autopsicografia”, de Fernando Pessoa).

Sem dúvida, um simples acontecimento é tão prenhe de significações que pode nos provocar uma meditação tão profunda sobre nós mesmos que só é compreensível, não por meio de palavras ou pela razão, mas somente pelo silêncio.

Eis o ponto central do poema. A existência é tão extraordinária que não temos respostas sobre a sua questão. Logo, é o silêncio que define a existência.

CONCLUSÃO

Apesar de o tema vulgar, ao mesmo tempo, tratado com certa eloquência, ou mesmo o tom de galhofa modernista do poema, avesso às convenções literárias tradicionais, e do qual não escapam da crítica nem o poeta nem o ofício de escritor de poesia, Drummond deixa em aberto uma liberdade infinita de interpretação no poema, contra tudo o que ensina a crítica literária.

O poema poder ser uma simples piada e nesse caso Drummond nos prega uma peça.

Podemos rir e virar a página. Mas a piada pode ficar sem graça e nos conduzir a uma reflexão mais profunda.

Heidegger indaga sobre o ser do ente pedra, ao qual o coloca imediatamente diante de uma questão de natureza muito mais radical: o que é o ser que questiona o ser do mundo? Ou melhor, o que é o dasein (ser-aí, pre-sença, ser-no-mundo, ser humano)? O filósofo da floresta negra responde: tempo.

Mas, para mim, o poeta trata das dificuldades do verdadeiro amor em se realizar e, assim, eu poderia repetir Shakespeare:

for aught that I could ever read,
Could ever hear by tale or history,
The course of true love never did run smooth;

“Em todas as histórias e romances que eu pudesse ter ouvido me contarem, a trajetória de um amor verdadeiro nunca transcorreu em caminhos suaves” (Trad.: Beatriz Viégas-Faria).

Pois bem, a pedra é o ponto de partida para o poeta falar sobre uma questão central: a existência.

É disso de que se trata. O poema fala da existência, dos ciclos da vida, das contradições (noite e dia, quente e frio, harmonia e dissonância etc.), de como algo vulgar é tão repleto de significados e remete a indagações que não podem ser respondidas nunca: o mistério da vida, o eterno retorno, as origens, o ser, o amor etc.

Na vida, nossos sonhos nunca coincidem com a realidade e, no entanto, a vida e realidade coincidem num sonho, extraordinário. Além disso, não podemos ter muitas expectativas grandiosas ou gloriosas sobre os acontecimentos da vida. O cotidiano é sempre medíocre, mesquinho, irrisório; mas há sempre beleza nele, a paixão e o amor, por exemplo. Neste sentido, o escárnio de Drummond é o mesmo de Oscar Wilde: “A vida é muito importante para ser levada a sério”. Esta é a força do poema.

A perplexidade diante do Universo, a falta de sentido da vida, a condição miserável da existência, os imprevistos do cotidiano, os obstáculos do amor etc., só fazem sentidos em nossas lembranças.

Uma pedra é apenas uma pedra e o quanto isso pode nos ensinar.

Não há de se ter grandes expectativas e buscar um sentido nas alturas de uma metafísica inalcançável em torno da existência. A vida é como uma pedra no meio do caminho, sem explicações e sem porquê, e isso é o que é de fato extraordinário e inesquecível.

Eis a sua ridícula verdade.


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Jean Pires é autor: