segunda-feira, 15 de julho de 2019

Conversa Afiadíssima e gênero textual

Até bem pouco tempo atrás, a internet era uma fonte bem pouco confiável de conhecimento e informação. Todavia, a imprensa convencional não oferecia alternativa satisfatória, dada a parcialidade dos órgãos de imprensa, dominados pelos monopólios de mídia. Na verdade, tais órgãos atuam sempre politicamente, visando mobilizar a opinião pública em geral na defesa dos interesses particulares – nunca expressos – das oligarquias representadas por estas grandes empresas.

Foto do Paulo Henrique Amorim

Ao conhecer o blog Conversa Afiada, percebi que havia ocorrido uma drástica mudança no conteúdo veiculado pela internet: um surpreendente e repentino salto de qualidade. O Conversa Afiada me levou a conhecer outros blogs, todos excelentes, como o Tijolaço, o Viomundo, entre outros, não necessariamente jornalísticos, mas relacionados à literatura, música, ciência etc. E a leitura assídua desses blogs me incentivou a fazer o Verso, Prosa & Rock’n’Roll. Não é à toa que Fernando Brito chamou Paulo Henrique Amorim de patrono da blogosfera.

A crítica do PH, o célebre e ansioso blogueiro, à imprensa merece uma reflexão, dentro da teoria da enunciação, pois o jornalismo se configura como um dos diversos gêneros discursivos. A teoria da crítica textual pressupõe a noção chave de “gênero”, abordado tanto por Mikhail Bakhtin como Luiz Antônio Marcuschi. Evidentemente, a importância do conceito ultrapassa o âmbito literário, pois, segundo Bakhtin, “entende-se por gênero não no sentido formalista, mas como zona e campo da percepção de valores e da representação do mundo” (BAKHTIN, p. 418). Portanto, o gênero é uma produção específica de comunicação, anterior ao diálogo e condicionada política, histórica e socialmente. Sendo produto de cultura, os gêneros são variados e abertos a inovações ou transformações, na mesma proporção em que se intensificam as relações dinâmicas e a complexidade social. Neste sentido, uma ou cada esfera específica produz um discurso com características próprias, o que implica as condições de uso e do contexto das diversas atividades humanas em jogo. A cristalização de um gênero discursivo se realiza a partir de enunciados concretos da prática em questão, supondo um estilo comum a uma determinada esfera e a estabilidade dos códigos da linguagem envolvidos. Por óbvio, um gênero não existe por si mesmo. As relações sociais pelas quais um gênero é produzido são bastante determinantes no processo de sua formação, muito embora estas também sejam condicionadas pelo gênero produzido.

Da inter-relação entre língua e práticas sociais é construído objetos do discurso que são ativados ou desativados ao longo do texto. Os discursos expressam uma intenção que nem sempre se mostra como tal e muitas vezes dissimula o próprio discurso. É exatamente o ponto fulcral do “gênero jornalístico”, cuja crítica é interditada por interesses ocultos dos atores envolvidos. Ora, o “gênero jornalístico” de modo algum busca criar uma representação linguística da realidade, ainda que se venda jornal sob a áurea da imparcialidade e objetividade. O jornalista é um funcionário, empregado por uma empresa, a quem deve satisfações; caso contrário, sua contratação seria inviabilizada ou a demissão seu destino mais provável. A relação patrão-empregado implica em coações avassaladoras e implícitas das quais acabam por marcar o “gênero jornalístico” de modo inescapável. Assim, não é fácil para o leitor filtrar na matéria a informação da manipulação social, haja vista a suposta isenção e neutralidade das quais se pretende o “gênero jornalístico”.

Em contrapartida, os blogs ofereceram um discurso jornalístico mais honesto, já que não escondem suas posições políticas. Por isso, a noção de fake news é equivocada. Afinal, boatos são usados como arma política desde Roma, senão, em tempos ainda mais antigos, antediluvianos. Além disso, como distinguir fake news de edições completamente tendenciosas feitas pela grande mídia? Somente os tolos ou hipócritas acreditam nessa bobagem. Cabe ao leitor uma atitude ativa diante da notícia, procurando sempre perscrutar os fatos, não se contentado com as aparências, e, daí, tirar suas próprias conclusões através do juízo bem formado (e informado).

Hoje, a internet e os blogs, como o Conversa Afiada, oferecem instrumentos para uma pesquisa inteligente perante os fatos, sem cair na alienação.

Bibliografia

MARCUSCHI, L. A. “Análise da conversação”. São Paulo: Editora Ática, 1999.

MARCUSCHI, L. A. “Gêneros textuais: definição e funcionalidade”. In: DIONÍSIO, A. P.; MACHADO, A. R.; BEZERRA, M. A. (Org.). Gêneros textuais e ensino. 4. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.

BAKHTIN, M. “Os gêneros do discurso”. Paulo Bezerra (Organização, Tradução, Posfácio e Notas); Notas da edição russa: Seguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2016.

BAKHTIN, M., “Questões de Literatura e de Estética”. São Paulo: Editora HUCITEC & UNESP, 1988.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Variação linguística: tu ou você?

Para realizar um trabalho em linguística do ponto de vista histórico é preciso antes considerar algumas limitações. O primeiro fator limitativo – e, certamente, o mais importante – é o da indisponibilidade e imperfeição dos registros, que não permitem um alcance preciso do objeto em questão. A linguística histórica, ao se defrontar em seu arcabouço com línguas muitas vezes desaparecidas, trabalha apenas com “vestígios”, isto é, indícios incompletos, normalmente relacionados à escrita ou inferidos hipoteticamente. A questão da oralidade ou da pronúncia resta-lhe como incógnita a ser decifrada por métodos indiretos, muitas vezes não propriamente linguísticos, e que jamais lhe concedem a exatidão do fenômeno a ser estudado. Isto pode ser observado em torno do latim que, a despeito do farto material disponível e da reconstituição científica bastante exitosa no que tange a uma suposta pronúncia (aproximada), inúmeros aspectos ainda permanecem lacunares, como, por exemplo, o modo de falar no cotidiano ou a forma denominada latim vulgar, que deu origem as línguas românicas. Ou seja, o linguista histórico não dispõe de registros orais como hoje são abundantes, tais como gravadores, discos, CDs etc.; o que faz de seu trabalho um tatear no escuro. Neste sentido, quando se trata da reconstituição de línguas antigas, devemos nos contentar com aproximações, as quais, entretanto, devem guiar o nosso entendimento a respeito do assunto.


Tendo em vista o fato do idioma português ser uma língua românica, isto é, originada do latim vulgar, o que sugere uma grande transformação ao longo do tempo, diante da variação bastante acentuada entre o Português de Portugal (PP) e Português Brasileiro (PB), não só do ponto de vista da prosódia como também da gramática, é razoável conjeturar um cenário futuro não só possível como provável em que o português falado no Brasil e em Portugal serão línguas distintas – embora muito linguistas já considerem essa hipótese como atual.

Dois exemplos bastante interessantes de distinção no português falado na maior parte do Brasil é a substituição dos pronomes “tu” por “você” e “nós” por “a gente”. É interessante notar que, no latim clássico, os pronomes pessoais do caso reto (ou pronomes substantivos) comportam-se tal como no português (PP), a saber, são quase sempre omitidos, haja vista a pessoa indicada ser inferida pela desinência verbal, não havendo, por isso, necessidade de citá-la. Todavia, o pronome é um elemento gramatical relevante, com função de substituir um nome ou substantivo, e, portanto, tem seu lugar na sintaxe latina e geralmente é usado de modo mais expressivo. Economicamente, porém, bastaria dizer, em Portugal, “foste à quinta de Manuel”, para saber de que se trata de “tu” e não de “você”.

Mas, no Brasil, além de, no geral, não se omitir o pronome, quase se aboliu o uso do “tu” ou, quando ainda em vigor, não é usado conforme a norma culta (p.ex.: “tu foi” etc.) – com raríssimas exceções nos estados do Rio Grande do Sul (excetuando Porto Alegre) e do Pará, salvo engano.

Assim, no caso de tu-você e nós-a gente ocorrem, atualmente, numa coexistência, com câmbios nas intensidades de uso, algumas idiossincrasias regionais e o total declínio do uso do “tu” e do “nós” em alguns segmentos sociais.

A gramaticalização, de acordo com o princípio da estratificação, pressupõe a coexistência entre novos e antigos valores ou usos, principalmente em seus estágios iniciais. No século XVIII, havia coexistência do uso do “vossa mercê” e do “você”. Restaria saber se ocorria maior ou menor incidência do uso destas duas formas e suas variações intermediárias “vossemecê”, “vosmecê”, “vosmicê”, “vossuncê” etc., que também deviam coexistir simultaneamente, conforme região, classe social, gênero, norma culta, língua coloquial, escrita, oralidade etc. Já o princípio da persistência indica a permanência das propriedades lexicais nas formas gramaticalizadas, como no caso de você.

Estas variações linguísticas em relação aos pronomes pessoais acarretam algumas consequências, como a variação você/tu; variações nos oblíquos (ex. uso de “te” para “você” e não para “tu” etc.); desaparecimento do “vós”, “teu”, “lhe” etc.; substituição do “nós” por “a gente”; “você” indeterminado; declínio na língua falada do pronome demonstrativo “este”, etc. etc. etc.

A título de curiosidade, façamos uma comparação da conjugação do verbo amar em latim, PP, PB (oral) e inglês.

Latim
Amo (ego)
Amas (tu)
Amat (se)
Amamus (nos)
Amatis (nos)
Amant (illos, illas)

PP
Eu amo
Tu amas
Ele/Ela ama
Nós amamos
Vós amais
Eles amam

PB
Eu amo
Você (Tu) ama
Ele/Ela ama
A gente ama
Vocês amam (ama)
Eles/Elas amam

Inglês
I love
You love
He/She/It loves
We love
You love
They love

Nota: Com o tempo, a omissão do pronome pessoal, subentendido na desinência verbal, como no Latim e no Português-Português, não será mais possível em Português-Brasileiro, o que o tornará muito semelhante à língua inglesa. 

segunda-feira, 17 de junho de 2019

O movimento anarcopunk - Punk & Anarquia

Uma crescente onda popular se interessou pelo anarquismo no Reino Unido durante a década de 1970, após o nascimento do movimento punk na Inglaterra (Nota 1), em particular, artistas influenciados pelos Situationistas (Nota 2), como Jamie Reid, designer do Sex Pistols e ilustrador de suas capas, como a do célebre álbum "Anarchy in the UK". Todavia, enquanto a cena punk no início utilizava-se de imagens e símbolos anarquistas, como o “A” dentro do círculo, principalmente, para chocar, zombar ou, na melhor das hipóteses, expressar um desejo de liberdade hedonista e individual, bandas como Crass e Poison Girls levaram a sério o ideal do anarquismo e podem ser hoje consideradas as primeiras bandas anarcopunk.

Capa do livro

A partir deles, o conceito e a estética anarcopunk foram rapidamente reproduzidos por bandas como Flux of Pink Indians, Subhumans, Chumbawamba e Conflict. Essas bandas anarcopunks da primeira leva eram musicalmente muito variadas, mas geralmente possuíam algumas coisas em comum: uma disposição para experimentação, que muitas vezes saía dos limites do punk e hardcore convencionais; uma concepção de si mesmas como coletivos musicais; e, enfim, representavam uma radicalização da cultura punk, pela qual, dentre outras coisas, pautas como direitos animais ou igualdade de gênero compunham seu repertório de reivindicações.

Com o avanço dos anos 80, dois novos estilos punk evoluíram no movimento anarcopunk: o d-beat e o crust punk. O d-beat era um modo muito rápido e brutal de tocar música punk e foi criado por bandas como Discharge e Varukers. Já o crust misturava o anarcopunk com o heavy metal e teve como representantes bandas como Antisect, Sacrilege e Amebix. Um pouco mais tarde, também nos anos 80, o grindcore se desenvolveu também do anarcopunk e assemelhava-se ao crust, só que ainda mais pesado em termos musicais. Bandas como Napalm Death e Extreme Noise Terror foram expoentes do grindcore. Paralelamente ao desenvolvimento desses subgêneros, muitas outras bandas da cena punk e hardcore acabaram por adotar a ideologia anarcopunk, tais como MDC e Reagan Youth.


Simultaneamente, o anarcopunk começou a absorver elementos característicos dos mochileiros, da era neo-hippie, assim como a cena de ocupações políticas. Consequentemente, elementos de música folclórica, country, rap, música tradicional irlandesa e jazz começaram a ser incorporados por diversos artistas anarcopunks, tais como Annie Anxiety e The Ex. No final da década de 1980, a emergente cultura rave também influenciou o anarcopunk, com a cena de som itinerante, como o Spiral Tribe e o Bedlam Sound System. Outro desdobramento relacionado ao anarcopunk foi a cena britânica mochileiro/crusty, com as bandas Back To The Planet e Radical Dance Faction, que tocava punk reggae/dance-tinged.

Nos anos 2000, o anarcopunk se tornou ainda mais diversificado musicalmente do que fora até então. Além dos mencionados subgêneros, outras manifestações criativas podem ser lembradas, como os irreverentes Bus Station Loonies, os punks do Propagandhi, além do new wave de Honey Bane e bandas de folk punk como Blackbird Raum. Já outras bandas anarcopunk incorporam o rock indie, como foi o caso do Nation of Ulysses, do Blyth Power e do The International (International) Noise Conspiracy. Bandas como Axiom, Destroy e Disrupt fundiram os sons grindcore e crust punk. Também o hardcore eletrônico muitas vezes assume uma postura anarquista em suas letras, como, por exemplo, os pioneiros do gênero Atari Teenage Riot. O hardcore eletrônico mistura vocais punk (e às vezes rap) com elementos de muitos gêneros diferentes, principalmente techno hardcore, thrash metal e noise music.

Ética punk: DIY

Muitas bandas anarcopunk ostentam a ética do do-it-yourself, isto é, faça você mesmo. Um slogan muito popular dos anarcopunks da gringa foi "DIY e não EMI", que simbolizava uma rejeição às grandes gravadoras. Muitas bandas anarcopunk foram lançadas por gravadoras independentes, como a Crass Records e a Resistance Productions, entre 1980 e 1994. Alguns artistas anarcopunk divulgaram seus sons, como era de praxe na cultura punk, através das antigas fitas cassetes. Desta forma, contornou-se as formas tradicionais de gravação e distribuição com gravações sendo amplamente disponibilizadas em troca de fitas virgens e o envio pelo correio. Aos poucos, o movimento anarcopunk foi constituindo sua própria rede de informação, através de fanzines ou zines punks, divulgando notícias, ideias e os trampos da cena. Essas são produções de bricolage, distribuídas gratuitamente. Os zines eram impressos em fotocopiadoras ou máquinas duplicadoras e distribuídos de mão em mão nos shows de punk, em livrarias alternativas ou pelo correio.

Capa de CD

No Brasil

O anarcopunk surgiu no Brasil em São Paulo no ano de 1991, mudando o paradigma da cena punk, como relata Jean Fecaloma, “FECALOMA: 30 ANOS DE PUNK ROCK - ENTREVISTA”, e se espalhou rapidamente por todo Brasil. Muito ativos no meio libertário, a banda de maior destaque foram os Execradores.

Nota 1: Observa-se, no entanto, que os norte-americanos Ramones inventaram o punk rock.

Nota 2: Os Situacionistas foram um movimento surgido na França e que influenciou a insurreição de Maio de 68. Seu maior expoente é Guy Debord, autor do livro Sociedade do Espetáculo.

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sábado, 1 de junho de 2019

Variação linguística e neologismo

A linguagem é um sistema de comunicação inerente ao ser humano. Todo ser humano, a princípio, possui condições naturais de comunicação. Mas a linguagem não é apenas um aspecto da constituição natural humana, ela é também produto da cultura, portanto, um fenômeno social e histórico. Neste sentido, os indivíduos que vivem em sociedade, de uma maneira geral, têm competência linguística, isto é, através da fala, são capazes de compreender e serem compreendidos por seus interlocutores.


Todavia, a fala não é uma unidade homogênea. A linguagem pode se manifestar em diferentes níveis que vão desde a diversidade de idiomas até variações linguísticas dentro de um mesmo idioma. Assim sendo, a linguagem pode se revelar como um sistema abstrato de regras, não só gramatical como também semântico e fonológico, de modo extremamente variado e irredutível a uma normatização definitiva.

Dentro de um mesmo idioma, por exemplo, variações linguísticas podem ocorrer em diferentes regiões de um mesmo território nacional ou ainda no âmbito do próprio cotidiano, refletidos pela diferença de gênero, de idade, classe social, ou ainda numa escala espacial relativamente pequena e demarcada pela distinção metropolitana entre centro-periferia etc.

Ou seja, a natureza plástica da linguagem é múltipla e está em constante transformação. Diante disso, desenvolveu-se, geográfica e historicamente, em distintas culturas, uma língua padrão, cristalizada, também chamada de “norma culta”, geralmente advinda dos hábitos linguísticos praticados por grupos sociais dominantes ou socioculturais privilegiados, que, por seu prestígio, foi imposta aos demais grupos sociais como modelo uniforme, único e geral.

O domínio da “norma culta” está no nível da performance e não se confunde com a competência linguística que, como se afirmou acima, diz respeito à capacidade de se comunicar de qualquer ser humano. O uso “correto” de uma língua por uma dita “elite” poder gerar exclusão e preconceito linguístico diante das demais variações linguísticas relacionadas a grupos sociais marginalizados.

Desnecessário entrar em pormenores aqui sobre o quanto a língua padrão é artificial e não acompanha a dinâmica de uma realidade tão heterogênea e contraditória como são as sociedades humanas.

A linguagem coloquial, deste modo, se aproxima muito mais da natureza móvel da língua e está aberta a todo tipo de criações, que vão, com o tempo, configurando-a tanto do ponto de vista fonológico como da sintaxe e da morfologia. Em termos morfológicos, estas mudanças podem ser verificadas através de processos de formação de palavras ou de criação neológica.

Sem dúvida, a criação de neologismo é um fenômeno muito mais comum do que pode parecer num primeiro momento. Contudo, esta criação não é aleatória e independente de paradigmas linguísticos de uma determinada língua. Portanto, o processo de formação de neologismo pode ser compreendido e caracterizado sob uma perspectiva científica nos termos da linguística.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Riot Grrrl: a revolução das meninas

Riot Grrrl é um movimento formado principalmente por mulheres brancas identificadas com a cultura punk-feminista e anarquista. [Falaremos em outro artigo do problema da não identificação dos punks e anarquistas com a questão do negro]. Este grupo surgiu em Washington, EUA, no início dos anos 90. O termo Riot Grrrl provavelmente remete as integrantes da banda feminista punk Bratmobile, Allison Wolfe e Molly Neuman, que cunharam a expressão “girl riot”, ou seja, garotas amotinadas. O uso de “grrrl”, ao invés de “girl”, foi um recurso utilizado pelo movimento para desassociar a conotação passiva da palavra “girl”, bem como para mostrar a raiva que o movimento inspirava através de uma onomatopeia que referenciava a uma espécie de rugido ou rosnado. Devido às raízes punks das mulheres fundadoras do movimento e do protesto violento de suas reivindicações, o movimento Riot Grrrl apareceu sob uma perspectiva nova, muito mais radical do que outros grupos feministas.

Garota riot grrrl nervosa

Assim, o movimento Riot Grrrl encorajou as garotas a se envolverem cada vez mais na cena punk até então dominada pelos homens. Na década de 1970, as mulheres geralmente só eram consideradas “punk” pelo fato de serem “as namoradinhas” de algum figurão do movimento. Por isso, as meninas atuavam na cena enquanto meras coadjuvantes. Com o advento do “hardcore punk”, no início dos anos 80, a hegemonia masculina se consolidou ainda mais e a pouca influência das mulheres desapareceu de todo.

Todavia, elas não aceitaram esse papel secundário e começaram a criar suas próprias revistas, fanzines ou “zines”, para compartilhar suas ideias, contagiando outras meninas a se levantarem contra o status quo masculino do punk. A crescente conscientização levou à criação de sucessivas reuniões do movimento Riot Grrrl, que tomaram vulto nacional e, depois, espalhando-se para todo o mundo.
 Mídia

A mídia descobriu o movimento Riot Grrrl através de zines e das bandas. A grande repercussão na imprensa, no entanto, causou confusão na opinião pública. Os tabloides começaram a noticiar o movimento como uma “subcultura perigosa de jovens feministas extremamente revoltadas”. O tom dessas reportagens levou a uma associação da Riot Grrrl com uma gangue de garotas muito violentas, que aterrorizavam os homens através de um discurso de ódio de gênero. Essas acusações falsas da imprensa levaram a opinião pública a questionar a legitimidade do movimento Riot Grrrl e o tipo de cultura que estava fomentando no meio feminino juvenil. Assim, inúmeras pessoas ficaram preocupadas com o movimento Riot Grrrl e acreditaram que de fato as meninas envolvidas promoviam mensagens negativas e perturbadoras da ordem social vigente. Claro, a mídia de massa contribuiu intensamente para sugestionar ideias ameaçadoras em torno do movimento, instigando através de informações falsas o medo na sociedade.

Neste sentido, juntamente com o aumento da popularidade das Riot Grrrls vieram também as críticas da grande imprensa. Uma revista de música inglesa, a Melody Maker, declarou: “A melhor coisa que qualquer Riot Grrrl poderia fazer é ir para casa e ler um pouco, evidentemente, não um mísero fanzine sujo”. Essa foi apenas uma das muitas críticas que o movimento teve que enfrentar. Kim France, editor fundador da Lucky, escreveu em 1993: “Elas não fazem outra coisa senão rabiscar “vagabunda” e “estupradores” nas costas antes dos shows, escrever fanzines com títulos como “Garotas Delinquentes”, além de odiar toda liberdade de expressão”. As fundadoras da Riot Grrrl responderam ao conteúdo destas matérias jornalísticas com várias entrevistas, esclarecendo o ideário do movimento e explicando a importância de criar uma conscientização para as mulheres sobre assuntos como machismo e sexismo, que nunca eram discutidos na mídia convencional. Neste sentido, a banda Bikini Kill costumava repassar o microfone para as garotas que iam aos shows para que estas pudessem compartilhar suas histórias de abuso sexual e violência contra a mulher.

Além das críticas preconceituosas que a Riot Grrrl sofreram no início, os repórteres sempre colocavam em dúvida a reputação das meninas do movimento. Um exemplo rasteiro deste tipo de difamação foi a publicação de uma matéria no Washington Post sobre a banda Bikini Kill. Este importante jornal, de grande circulação nos EUA, veiculou em suas páginas uma história mentirosa a respeito da vocalista da banda, Kathleen Hanna, afirmando que ela era estuprada por seu pai durante a infância.
Mulher trabalhando com uma foice

Música

A música foi a base do movimento, que reunia as militantes num ideal comum. Uma variedade de bandas femininas surgiu e, através da música, expressavam seu ódio ao patriarcado e mesmo ao racismo. Muitas letras tocavam abertamente em temas que eram considerados tabus para o mainstream, como estupro, incesto e transtornos alimentares. Através dessas canções, as meninas percebiam como seus problemas pessoais se encaixavam em questões políticas mais amplas. Por causa dos laços de solidariedade firmados através da música e dos zines, muitas garotas tomaram coragem e passaram a escrever cartas às bandas Riot Grrrl, afirmando como as letras afetavam decisivamente suas vidas, tais como distúrbios alimentares, relações heterossexuais e homossexuais e o padrão de como a sociedade julga uma mulher dita “perfeita”.


quinta-feira, 2 de maio de 2019

Transitividade verbal pela abordagem funcionalista


O presente texto discute a transitividade dos verbos – notadamente os verbos transitivos diretos – tanto do ponto de vista semântico como de sua organização estrutural na oração (sintaxe) e, sob este contexto, suas implicações na sala de aula, tendo por pressuposto e fundamento teórico a linguística cognitivo-funcional. Para isso, foram analisados quarto narrativas faladas e escritas extraídas do Corpus Discurso & Gramática: a língua falada e escrita na cidade de Natal (FURTADO DA CUNHA, 1998).

É importante salientar que a linguística cognitivo-funcional além de se deter sobre gêneros do discurso abrange também a questão da pragmática dos discursos, portanto, do uso de que se faz da língua, principalmente, ao nível da fala, que é muito distinta da norma prescritiva convencionada pela gramática tradicional e centrada na escrita. Isto quer dizer que a fala é muito mais “anárquica” e distante do modelo prototípico estabelecido, como, por exemplo, no caso dos verbos transitivos diretos, estruturado em sujeito + verbo + objeto direto.

Para a abordagem funcionalista, o gênero discursivo em questão depende do contexto discursivo-pragmático, isto é, de sua funcionalidade no discurso em diferentes ocasiões, situações e ambientes, nível cultural dos falantes etc., pela qual se infere positiva ou negativamente a transitividade de um verbo.

Na gramática tradicional a transitividade é uma propriedade de um verbo e daí os elementos da oração coocorrem. Já para a linguística funcional, especificamente a de matriz norte-americana, de autores como Givón, Bybee, Hopper, Thompson e Chafe, a transitividade é uma propriedade contínua de toda a oração, ou seja, das várias relações entre o verbo e seus argumentos que especificam sua transferência conforme suas particularidades em toda oração. Disso resulta que dez parâmetros sintáticos podem ser inferidos: quantidade dos participantes; cinese; aspecto (perfectivo ou não perfectivo); pontualidade do verbo; intencionalidade; agentividade do sujeito; polaridade (afirmativa ou negativa); modalidade da oração (modo realis ou irrealis); ao afetamento; e a individuação do objeto.

Tendo-se em vista esses parâmetros, os autores do artigo retomam a questão anteriormente sugerida, das relações sintático-semânticas da oração, e desdobram os aspectos sintático e semântico da transitividade. Neste sentido, do ponto de vista sintático, a transitividade apresenta dois argumentos do verbo: o sujeito (S), que é o agente de uma determinada ação, e o objeto direto (OD), que é paciente, ou seja, afetado pela ação do sujeito. Semanticamente, a transitividade prototípica é definida pelas propriedades do agente, do paciente e do verbo na oração. Deste modo, a transitividade exige um argumento que completa o verbo caracterizando-a. Caso contrário, quando o verbo carrega um sentido autossuficiente, ocorre o evento intransitivo.

Tal definição prototípica é posta em cheque na manifestação discursiva quando elementos pragmáticos, não expressos no discurso, alteram significativamente a estrutura sintática e semântica da transitividade.

Na oração, o verbo (predicativo) é tomado como elemento fundamental e pode ser acompanhado de um elemento nominal. Assim, os verbos podem assumir um caráter prototípico quando realizam ações de um agente ou fugir do padrão quando o sujeito não cumpre o papel de agente.

Após este aprofundamento teórico da função semântica e sintática do evento transitivo, os autores analisam variações em alguns dados quantitativos de ocorrência da estrutura argumental dos verbos transitivos, levando-se em conta a) os verbos transitivos acompanhados de objeto direto nominal ou oracional, b) o objeto direto implícito no texto e c) os verbos de ação-processo acompanhados de objeto indireto ou direto. Dos resultados obtidos, os autores comprovam que nem sempre há uma correspondência entre estrutura argumental semântica e sintática, observando-se também uma maior maleabilidade na valência dos elementos distintos de uma oração que podem aumentar ou diminuir de status conforme os motivos discursivo-pragmáticos e/ou cognitivos.

Através dos dados também se efetuou uma classificação dos verbos em quatro categorias – ação, processo, ação-processo e estado – e verificou, quantitativamente, a maior ou menor ocorrência das respectivas ocorrências.

Importa salientar aqui que, tanto na fala como na escrita, nos verbos, de uso mais frequente, no caso daqueles de ação-processo, não houve um afastamento do ponto de vista semântico tampouco sintático da estrutura transitiva prototípica. O mesmo evento não ocorreu em relação às categorias de verbos de ação, de processo e de estado, que se desviaram da estrutura transitiva prototípica S + V + OD.

Segundo os funcionalistas, isso se explica porque o padrão gramatical pode também ser explicado pela estrutura discursiva. Neste caso, “os verbos são armazenados no léxico com molduras (frames) que determinam quais argumentos são obrigatórios ou opcionais”. Ou seja, as estruturas mais convencionais fornecem molduras que serão alicerces de outras construções por onde o falante escolhe os elementos que serão maximizados ou rebaixados.

Em seguida, os autores formulam uma proposta didática para o ensino fundamental e médio e analisam pormenorizadamente uma narrativa recontada nos termos conceituais expostos acima, visando tornar o ensino de gramática mais compreensível.

Em suma, os estudos da Linguística Cognitivo-Funcional têm demonstrado que a língua natural é muita mais organizada num fluxo continuun do que numa estrutura rígida de fronteiras bem demarcadas. Tal contribuição pode ser muito relevante para o aprendizado no ensino médio da gramática da língua portuguesa e de suas idiossincrasias do português brasileiro (PB).

FURTADO DA CUNHA, M. A. & BISPO, E. B. Relações sintático-semânticas da oração. In: Roza Palomanes; Angela Marina Bravin. (Org.). Práticas de ensino do português. 1ed.São Paulo: Contexto, 2012.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Punk no Brasil - Revista-Poster Som 3 (memória)

Lá pelos idos de 1989, eu mal entrava na adolescência e, fascinado com Surfin’ Bird, na versão dos Ramones (a versão original dos Trashmen também é muito massa), me tornei punk.

Acontece que eu vivia um grande drama, pois não sabia nada sobre punk. As músicas que eu conhecia eram as que tocavam na 89 FM e 97 FM (estação de rádio aliás muito mais bacana que a autointitulada Rádio Rock). O que rolava na programação era o basicão: Ramones, The Clash (Should I stay or should I go), Pistols (God save the queen), Dead Kennedys (Kill the Poor e Holiday in Cambodia), Garotos Podres (Anarquia Oi!), Inocentes (Pânico SP e Ele disse não) e Titãs (várias do disco “punk” Cabeça dinossauro).


Ávido por conhecer mais sobre as bandas punks, a perspectiva não era muito boa. Na época, não existia internet e o material especializado era muito escasso. De vez em quando, o programa Realce (Clip Trip) da TV Gazeta, Clip-tlip da Globo ou Programa Livre da TV Cultura rolava um especial punk. Porém, nada muito variado do arroz com feijão Pistols e Clash.

Tinha que dar sorte de alguém emprestar uma fita cassete com uma coletânea de músicas de bandas que jamais algum dia você saberia qual eram (estou brincando, dez anos depois, com o advento da internet, o nome e as bandas todas foram enfim descobertos). Então você pegava a fita cassete, colocava no seu três-em-um (vitrola, rádio e toca-fitas) e gravava uma cópia para você e outra para passar pra frente. Essa era rede social daqueles tempos: solidariedade.

Certa vez, eu estava andando pela avenida Paulista e vi pendurado num plástico em uma banca de jornal uma revista com uma foto bem grande de um mina moicano. Perguntei quanto custava para o jornaleiro. Sorte, o preço cabia no meu bolso. Voltaria para casa, pegaria minhas economias juntadas com muito esforço (vendendo passe de ônibus que sobrava por “descer por trás”) e no dia seguinte voltaria para comprar.

Mal consegui dormir à noite, tamanha a ansiedade. “E se alguém comprar e amanhã a revista não tiver mais lá?” No dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi ir para a banca! Para o meu alívio a revista ainda estava no mesmo lugar do dia de ontem. Nunca paguei algo com tanta justeza. Guardei a revista na mochila como um tesouro precioso e fui pra escola.

Não via a hora de chegar em casa e ler a revista, mas as horas passavam devagar. Bateu o sinal então: hora da saída! Cheguei em casa rapidamente e tirei a revista do invólucro de plástico que a revestia. Para minha surpresa a revista era um pôster. Isso, a princípio, me deixou um pouco frustrado, mas depois eu gostei. Havia muitas ilustrações e fotos de punks da gringa. Puxa, que visual legal eles tinham, moicanos coloridos e roupas rasgadas. Eu mostrava orgulhoso a revista para os meus amigos. Só eu tinha uma revista como aquela e a cambada fazia fila pra ver.


A revista é uma publicação da editora Som 3, mas não consta data (talvez 1982 ou 3). O texto é de autoria de Marília Emília Kubrusly e traz um apanhado do movimento punk no mundo e no Brasil. Como era de consenso nos anos 80, Marília atribui a origem do punk à Inglaterra e não aos Estados Unidos. Se naquela época alguém insinuasse que o punk surgira nos EUA era capaz de apanhar. Sim, algumas bandas ianques foram precursoras do punk, assim como David Bowie também o foi na Inglaterra. O que é muito diferente de inventar o punk. Punk, punk mesmo, punk de verdade, é e sempre foi inglês.

Isso porque para o punk dos anos 80 a música era apenas um acessório. O que era importante, era a “ideologia”. Música punk tinha que ser de protesto e quanto mais tosco mais punk. Marília acerta porque o movimento punk é um conjunto de atributos, constituído por um visual característico – cabelos moicanos e espetados e coloridos, jaquetas, roupas rasgadas e coturnos, por uma posição criticamente apocalíptica em relação à guerra fria e ao futuro, pela música punk e, obviamente, pela ideologia anarquista (ainda que pouca gente conhecia bem a teoria do anarquismo). Enfim, atributo essencial: todos deviam ser contra o sistema e bradar o voto nulo.

Ora, o movimento punk nasce nos bairros operários ingleses, como bem descreve Marília, e não nos bairros de classe média dos playboyzinhos norte-americanos que só queriam saber de cheirar cola. Marília até chega a exclamar com surpresa que a onda punk, depois de contagiar o mundo todo, chega, enfim, com atraso na terra do Tio Sam – tida como o lugar antipunk por excelência.

Não resta a menor dúvida, a Meca do punk é a ilha Britânica e, gostemos ou não, não será uma chinfrim MTV que vai roubar os louros da rainha.

Quando Marília escreve, por sua vez, sobre o punk brasileiro, intitula a seção com o sugestivo Punk Tupiniquim. Abre com uma declaração de Clemente, da banda Os Inocentes: Nós estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira. Para pintar de negro a asa da graúna, atrasar o trem das onze, pisar nas flores do Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer.

Do mesmo modo que o punk inglês, Marília se refere a “erupção” do punk brasileiro restrita às “áreas mais pobres das regiões urbanas” da cidade de São Paulo já no final da década de 1970.

São Paulo é pintada como uma cidade industrial poluída, cheia de “contrastes sociais”, sem praia sem mar, ou seja, um terreno propício para o surgimento do punk. Reporta sobre o Tuca, teatro da PUC, que abriu espaço para shows punks, e o SESC Pompeia, que realizou, em 1982, “o 1º. Encontro Punk” (ela não menciona, mas é o festival O Começo do Fim do Mundo), quando do lançamento de O Que É Punk, do escritor Antonio Bivar. Menciona também “a loja e produtora de discos independentes Punk Rock, que ficava no centro da cidade (ponto de concentração da maioria dos punks, que trabalham em escritórios como office-boys ou recepcionistas)”. Como não poderia deixar de se referir, trata do primeiro disco punk do Brasil, o Grito Suburbano, com participação dos grupos Inocentes, Olho Seco e Coléra, e também da bolacha do Lixomania, de mesmo nome. Cita então as bandas daquela época: Cólera, Skisitas, Mercenárias, Ratos de Porão, Estado de Coma, Desequilíbrio, Negligentes, Guerrilha Urbana, Ira, Hino Mortal, Neuróticos, Dose Brutal, Fogo Cruzado, Desertores, Psycose.

A partir disso, descreve como o punk se espalhou a partir de São Paulo para o resto do país. A autora relembra então o 1º. Festival Punk antológico no Circo Voador em 1983 e menciona as bandas cariocas Coquetel Molotov, Eutanásia, Descarga Suburbana, Desespero.


Conclui o texto nos seguintes termos: “O movimento punk está aí, mais vivo que nunca e com força total. Inútil tentar sufocá-lo ou pasteurizá-lo. Não vai ser tão fácil transformar o punk em marca de sabonete, como fizeram com o movimento hippie, porque essa turma não está pra brincadeira e seu lema não é paz e amor. Pelo contrario, estão a fim de enfrentar a batalha das ruas. Afinal, ‘garoto do subúrbio/garoto do subúrbio/você não pode desistir de viver’ (‘Garotos do Subúrbio’, dos Inocentes)”.

Mais de 40 anos depois e o punk continua na ativa, como podemos conferir com esse grande som Camaradas! da banda Fecaloma.


Êira Punk!!!

Trecho do texto publicado na Revista-poster Punk: Rock de Combate, Som Três/Editora 3: São Paulo, não consta ano, provavelmente entre 1983/1985.