domingo, 15 de setembro de 2019

Punk, ecologia e os direitos dos animais

Os incêndios criminosos na Amazônia, objetivando transformar a floresta em pasto, sob as vistas grossas de um governou que chegou a cogitar em extinguir o ministério do meio ambiente, acenderam o alerta vermelho do problema do meio ambiente em todo mundo acerca da parcela de responsabilidade a que cada um de nós está sujeito. Afinal, aquecimento global, poluição, uso irrestrito de agrotóxicos etc. colocam o destino da humanidade à beira de precipício sem volta. Por isso, ecologia não é uma opção, mas uma via de mão única: a vida no planeta depende da preservação da natureza.
Símbolo da anarquia e vegetarianismo

Neste cenário sombrio, que se avizinha assustadoramente, um futuro devastado e poluído, os punks deram um passo à frente nas antigas pautas do anarquismo quando, sem abandoná-las, reivindicaram a libertação ou os diretos dos animais como propostas fundamentais.

De fato, os anarquistas tradicionais da revolução social raramente ultrapassavam os objetivos teórico e prático da expropriação e do controle, imputados à classe trabalhadora, das unidades de produção, fábrica etc. Ainda que no ideário anarquista as questões do indivíduo, como o livre-arbítrio e a liberdade de pensamento, nunca foram suprimidas do conjunto de seu programa revolucionário, os anarquistas sempre procuraram mirar sua artilharia nas mazelas sociais causadas pelo sistema capitalista.
Pássaro voando com uma bomba

Porém, ao radicalizarem a crítica do capitalismo, os anarquistas rastrearam toda uma cadeia de exploração que ia muito além da exploração do proletariado. De fato, a ganância pelo lucro também significava a exploração dos animais e da natureza. Muito embora estas questões atinadas pelos anarquistas despertassem alguma crítica e ações pontuais, só foram realmente pautadas após Maio de 68.

Neste sentido, o bem-estar dos animais e a preservação do meio ambiente mobilizaram tendências políticas de esquerda que ficavam fora da órbita do politiburo.

Nos anos 70, em virtude da crise do petróleo e do desastre nuclear, o debate transcendeu os círculos restritos de ambientalistas e ganhou atenção da opinião pública. Mas, com o tempo, ativistas políticos, hippies e até mesmo anarquistas foram sendo absorvidos principalmente pelos partidos trabalhista ou verde, acabando por rejeitarem suas posições iniciais ou tornando-se moderados. O radicalismo retornariam tempos depois, com o movimento punk.

O punk, no geral, não seguiu os passos do anarquismo tradicional, isto é, um movimento social saído das lutas da classe trabalhadora, mas, embora produto da indústria cultural, ao adotar o ideal anarquista quase que por acaso, e identificando-se com as camadas populares e pobres, transformou uma tendência musical em contracultura, passando a contestar o “sistema” e preconizar um novo estilo de vida: transgressor, coletivo, alternativo e auto-gestionário, tendo por base o lema “Do-It-Yourself” (faça você mesmo).

Casal punk

Desde o final da década de 70, o movimento punk levou muitos jovens a formar bandas e a compor “músicas de protesto”, incentivando-os a um ativismo político radical, visível nas manifestações e passeatas de rua. Na cena europeia, os punks passaram também a ocupar imóveis abandonados e a promover concertos organizados para apoiar questões sociais e também ambientais.

Ecologia, energia nuclear, sexismo, corporações multinacionais, exploração do trabalho, poluição, anticaçada, antivivissecção, vegetarianismo e libertação ou direitos dos animais foram apenas algumas das novas questões sociopolíticas que as bandas punks incluíam em seu repertório.

Neste sentido, punk e veganismo ou “direitos dos animais” sempre estiveram intrinsecamente ligados. Isso fica claro nas letras e slogans das bandas punks; pelo conteúdo editorial dos zines; pelos diversos shows beneficentes e lançamentos de discos em defesa dos direitos dos animais e do próprio veganismo. Isso não quer dizer, todavia, que todos os punks são veganos ou que todos os veganos são punks - mas que essa conexão não pode ser ignorada e é parte integrante da cultura punk.

No entanto, a literatura recorrente trata o punk de forma simplista. A maioria dos livros segue narrativas óbvias e consagradas pela mídia conservadora e o mainstream, ao considerar o punk apenas como um movimento musical surgido no final da década de 1970, focando somente nas bandas bem-sucedidas comercialmente.

Há muita verdade na alusão ao punk como um produto da indústria fonográfica e relacionado a uma moda juvenil, de retórica anti-hippie e de jaqueta de couro; mas limitá-lo somente a esses aspectos gerais é não compreender a semente maldita do punk, sempre preste a germinar e que, de fato, fora de controle, se volta, como um Frankstein furioso, contra seu criador.

manifestante chutando escudo de um policial

Assim, neste pacote crítico de temas bastante diversificados, a libertação e os direitos dos animais, além da conservação do meio ambiente, ganharam destaque na cena punk. Notadamente, o movimento anarco-punk, que foi o primeiro a incluir na sua lista de compromissos políticos o veganismo e a libertação e os direitos dos animais, a partir de, pelo menos, 1979. Neste contexto, os zines exerceram uma função imprescindível ao informar e divulgar estas opiniões e ideais políticos.

A politização através do punk envolve, portanto, conscientização e atitude. Desde o surgimento do anarco-punk, no final da década de 1970 e no início da década de 1980, muitas bandas passaram a divulgar informações e imagens dos horrores e dos abusos e exploração envolvendo animais; em contrapartida, resistiam através de uma dieta vegetariana, isto é, uma alimentação eticamente libertária como base do estilo de vida punk.

Em 1983, a banda londrina Conflict lançou a contundente “Meat Means Murder”, faixa do EP "To a Nation of Animal Lovers", pela qual critica o consumo de carne e a exploração animal.

Mas, evidentemente, o discurso punk não se restringe a questões dos animais e do meio ambiente isoladamente sem o respaldo do ideário anarquista. Pois, ao dirigir a crítica ao cerne da economia capitalista, o desperdício de recursos naturais, a insalubridade das grandes aglomerações humanas causada pela poluição e o desmatamento, o desequilíbrio ecológico e a libertação e direitos dos animais não poderiam ficar de fora desse escopo, já que, embora as letras das músicas punks exerçam mais influente do que os textos anarquistas, desde Kropotkin ou Élisée Reclus, o anarquismo sempre demonstrou preocupação com os animais não humanos e a natureza.

Assim, os direitos dos animais estão inseridos numa crítica abrangente contra a opressão, combinando o veganismo com crítica econômica, os quais podem, sim, remontar aos ideais anarquistas, o que faz do punk muito mais do que uma porta aberta para a luta por um mundo melhor e mais justo, mas esse mesmo mundo.


domingo, 1 de setembro de 2019

Mayombe, entre o tribalismo e o nacionalismo

Por J.P.A.G.

Sob o contexto histórico da descolonização da África durante o século XX, em meio à dura rotina de um pequeno grupo de guerrilheiros engajados na luta pela libertação de Angola, suscitam conflitos entre os personagens que, embrenhados e isolados na floresta do Mayombe, se veem na singular circunstância de se confrontarem com suas diferenças e identidade que, na verdade, refletem características e especificidades do próprio continente africano. Ao desenrolar a trama do romance, o livro Mayombe, do escritor angolano Pepetela, pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, aborda um dos temas mais caros da independência de Angola – e, por óbvio, dos demais países africanos –, a saber, a questão antagônica do tribalismo e da construção de uma identidade nacional. Merecem alguns destaques:


a) O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) seguiu os moldes de um típico movimento de guerrilha de inspiração cubana e socialista na luta de independência de Angola contra o colonizador português. No livro, um grupo de guerrilheiros se instala numa selva na região norte do país, Mayombe. Pelo fato dos guerrilheiros provirem de diversas etnias, as contradições são inevitáveis e refletem a composição multicultural da sociedade angolana, ao mesmo tempo em que perante a necessidade da construção de uma identidade unitária nacional torna-se um empecilho. Neste sentido, o projeto nacional do MPLA devia apagar as diferenças culturais em prol de uma unidade comum, haja vista que a dominação do império português se lograva da velha máxima romana divide et impera (dividir para reinar). No romance, a questão do tribalismo é uma constante e é, no geral, um fator desagregador, uma “fraqueza”. Portanto, há o ideal de destribalização como oposição ao jugo europeu que, a princípio, superou o problema de suas minorias nacionais. Porém, é justamente o tribalismo que vai minando a própria unidade do grupo e os conflitos vão surgindo. Portanto, a libertação da Angola só poderia ser feita se os diversos grupos étnicos fossem suprimidos em torno de um mesmo objetivo, a construção do Estado nacional.

b) A resposta a essa pergunta tem relação com o que foi dito acima. A narrativa de muitos personagens, polifônica, foi o recurso para dar voz aos diferentes pontos de vistas que estão em conflito sem o privilégio de uma verdade. De certa forma, a polifonia retrata as diferenças e semelhanças dos personagens que estão envoltos na questão do tribalismo. A unidade nacional almejada passa por diversas interpretações que muitas vezes são contraditórias. Diante disso, como construir uma identidade comum e a do outro, o colonizador europeu, a quem se quer libertar, se os próprios dominados não se reconhecem como iguais? Assim, a superação das diferenças tradicionais significa que as múltiplas vozes devem descobrir-se diferentes do português na identidade angolana e assim emancipa-se do domínio colonial.

c) Homem novo é o homem que surgirá como superação do estado colonial na Angola pós-independência, um homem educado, culto, um arquétipo do homem no ideal de igualdade preconizado pelo socialismo; nas palavras de Sem Medo: “é um homem novo que está a nascer, contra tudo e contra todos, um homem livre de baixezas e preconceitos”. O homem novo na Angola independente significa a superação da tradição enraizada no tribalismo, que divide, desorganiza e gera xenofobia, a luta de todos contra todos, isto é, significa a ruptura com o passado subjugado. No projeto de futuro angolano não cabe a herança colonial permeada por distinções tribais que permitiram que invasores ocupassem a nação, explorando as riquezas e a mão de obra. O homem novo, portanto, é o homem to futuro, livre e dono do seu destino.

d) A região do Mayombe é uma região no norte de Angola dominada por uma mata muito fechada onde o grupo de guerrilheiros instala a sua base e que, guardadas as proporções, seria um equivalente, à guerrilha do Araguaia, no Amazonas. Nenhum dos guerrilheiros tinha familiaridade com o local, muitos, aliás, provinham de áreas urbanas. O Mayombe é impenetrável e insólito, não se restringindo à apenas geografia propriamente dita, pois representa um grau de significados que transcendem o espaço físico. Tal é o grau de estranhamento com o local que o próprio personagem Sem Medo chega a formular uma metáfora bastante apropriada quando compara o grupo de guerrilheiros a náufragos numa ilha chamada o Mayombe. Além disso, o Mayombe aparece como uma entidade sobrenatural, divina, o deus-Mayombe, detentor do destino trágico de seus devotos. É o espaço da alteridade por excelência, onde os personagens são obrigados a abandonar seu próprio “eu”, o que significa esquecer a sua história, o seu passado. O Mayombe é precondição para o surgimento do homem novo. 

e) Teoria é filho de uma mãe negra e um “comerciante português”, e daí o uso do “inconciliável”. Inconciliável porque, por um lado, ele é filho de um branco, que, de alguma forma, representa o colonizador, e, por outro, de uma mulher negra, representação do colonizado. Ou seja, o professor Teoria vive na pele o maniqueísmo do bem contra o mal, já que no mundo há pouco espaço para os “outros”. Curiosamente, teoria reconhece esta contradição como aquilo que o move, “o seu motor”, tal qual um movimento dialético, em que os termos contraditórios se superam. Porém, num universo em que todos devem abandonar as singularidades de sua identidade e se constituir no futuro como um novo homem, Teoria não apenas carrega no âmago do seu ser o seu passado, mas também se vê obrigado a escondê-lo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Antifa e o movimento punk

O movimento Antifa pode ser descrito em termos gerais como um grupo articulado em torno de uma ideologia radical de esquerda e da prática de autodefesa, baseada na ação direta, contra grupos de extrema direita, racistas, machistas, fascistas, nazistas e neonazistas. É, portanto, uma tendência específica, dentro do movimento antifascista histórico mais amplo, estruturado numa organização horizontal e congregando-se, sob um objetivo comum, a várias bandeiras da esquerda, como o comunismo, o anarquismo, o socialismo, o antirracismo, o feminismo etc.

Símbolo antifa

Os progenitores do movimento Antifa foram grupos de esquerda alemães e italianos que, após a Primeira Guerra Mundial, se uniram para combater as gangues protofascistas. Sua origem, portanto, remonta às décadas de 1920 e 30, quando a luta contra o fascismo surgiu como uma necessidade urgente e real, diante dos ataques dos Camisas Negras, de Mussolini, e da SA, de Hitler. Na Itália, eles se reuniam sob a insígnia do Arditi del Popolo ("Ousados ​​do Povo"), enquanto na Alemanha de Weimar do Antifaschistische Aktion, de onde Antifa.



Na Alemanha, durante a ascensão e era hitlerista, os operários das principais cidades foram os que mostraram a maior capacidade de resiliência ao assédio nazista. Estes grupos, oriundos dos locais de trabalho e de conjuntos habitacionais, eram geralmente chamados de "Antifaschistische Ausschüsse", "Antifaschistische Kommittees" ou "Antifaschistische Aktion" - "Antifa". No ano de 1932, eles usaram o slogan – Antifa – enquanto orientação estratégica de frente única, numa tentativa de estabelecer aliança entre os trabalhadores comunistas e os social-democratas.

Conferência Antifaschistische Aktion em 1932
Conferência Antifaschistische Aktion em 1932.

Depois de Auschwitz e Treblinka, os antifascistas se comprometeram a lutar até a morte, caso fosse necessário, contra grupos neonazistas que, porventura, dessem as caras.

Parte do objetivo da Antifa é constituir uma continuidade histórica de resistência à violência no tocante à extrema-direita e fomentar uma organização de autodefesa coletiva diante da ameaça fascista.

No final dos anos setenta, a cena punk e hardcore tornou-se palco do confronto aberto entre movimentos de esquerda, notadamente anarquistas, e grupos neonazistas. Na Holanda e Alemanha, squaters ou ocupas (grupos que ocupam imóveis) conhecidos como Autonomen foram pioneiros no método Black Bloc: mascarados de roupas negras que são a linha de frente nas manifestações populares.

Reunião com manifestantes antifa

Mas nem sempre as coisas foram tão simples assim na cena underground. Às vezes, skinheads nazistas ocasionalmente invadiam shows de bandas como Black Flag, Minutemen, Fugazi, entre outras, pisoteavam em seus fãs e, por fim, faziam a saudação característica a Hitler. Além disso, muitos punks ostentavam a suástica para chocar e provocar, tais como Sid Vicious e Siouxsie Sioux, embora não fossem de fato neonazistas.

Em 1980, gangs punks passaram a praticar uma violência gratuita que mais lembrava os fascistas do que aqueles que deviam combatê-los, o que motivou Jello Biafra, do Dead Kennedys, a dizer: "Alguns deles não parecem estar lá para curtir o show; eles parecem estar lá mais para brigar e bater nas pessoas, de uma maneira realmente frívola". Em resposta, no ano de 1981, os Dead Kennedys lançaram um clássico do hardcore: "Nazi Punks Fuck Off".

Atualmente, grupos de imigrantes, feministas, riot grrrl, punks e skinheads (de esquerda, como red skin e sharp) mobilizam-se em diferentes momentos e lugares para defender e lutar em nome da Antifa.

Símbolo skinheads antifas


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Terra plana versus Terra globo: confronto final

Como todos devem saber, a concepção da terra plana, há muito ultrapassada, voltou à tona nos debates da internet.


Segundo reportagem “7% dos brasileiros afirmam que a Terra é plana: Crença também é maior entre os mais jovens e cristãos e cresce com as redes sociais”, publicada pela Folha de São Paulo, em 14/07/2019, revelou que pelo menos 11 milhões de brasileiros acreditam que a Terra é plana, conforme resultados de pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha.

"A crença de que a Terra é plana se revelou inversamente proporcional à escolaridade. Enquanto 10% das pessoas que deixaram a escola após o ensino fundamental defendem o chamado terraplanismo, essa parcela diminui entre os que estudaram até concluir o ensino médio (6%) ou superior (3%)", detalha a reportagem.

"No Brasil é difícil detectar quando o terraplanismo surgiu. Um fator que pode ter contribuído, na esteira da influência de terraplanistas dos EUA, é o alcance de grupos organizados em redes sociais", continua a matéria.

Mas, afinal, a terra é plana ou redonda?

Para tentar responder essa pergunta, vamos analisar algumas imagens e, no final do artigo, vocês é que vão tirar as suas próprias conclusões.

Todo o argumento dos defensores da terra plana está fundamentado nessa ilustração, já que eles não acreditam nas fotos de satélites, da estação espacial, viagem à lua etc. Para eles essas imagens são montagens ou alteradas no photoshop.
Ilustração comparativa: terra plana e terra globo

Portanto, tudo o argumento consiste em negar a curvatura da terra através da observação de objetos situados sobre a superfície do mar a uma longa distância. Na terra plana, esses objetos seriam vistos independentemente de suas distâncias. Já na terra globo, em um dado momento e distância, esses objetos desapareceriam, graças à curvatura da terra, como se estivessem descendo uma rampa.

terra plana
No item “a”, terra plana, seria possível a um observador munido de um telescópio visualizar, supondo um supertelescópio, desses que a gente vê os planetas, uma sequência de bandeirinhas que, em teoria, seriam visíveis até a “borda” da terra. Por mais longe que a bandeirinha se encontrasse, ela seria visível integralmente, desde a base de sua haste até o pano retangular, no topo.

terra globo
No item “b”, terra globo, o raio de visão do observador, em linha reta, perderia o foco das bandeirinhas, que seguiriam uma trajetória curva. A bandeirinha começaria a sumir lentamente pela base até desaparecer completamente pelo topo.

Um navio navegando em direção ao horizonte, na terra plana, seria visível até diminuir de tamanho e, pouco a pouco, se tornar um pontinho e, enfim, sumir. Com um telescópio, se focássemos na direção de sua trajetória, seria possível observar o navio outra vez, como se ele estivesse muito perto de nós novamente.

Ilustração comparativa com um navio: terra plana e terra globo

Na terra redonda, por causa da tal curvatura, o navio, a uma certa altura, começaria a desaparecer pelo casco até sobrar só a parte de cima e, então, desaparecer completamente. De nada adiantaria apontar o telescópio para a direção em que ele se foi, pois só veríamos o horizonte do mar.


Observem como este navio de pirata se deslocaria na terra plana, à esquerda, e na terra globo, à direita.



A observação tem confirmado o modelo da direita, isto é, terra globo. Mas seria possível objetar porque objetos que ultrapassaram a linha do horizonte, como aviões, torres de farol sinalizador ou prédios situados numa ilha distante, não aparecem inclinados.

O problema é que não é tão simples assim, simplesmente, porque não conseguimos enxergar a olho nu um objeto do tamanho de um navio descer a curvatura da terra.

Quando, por exemplo, subimos no último andar do Terraço Itália, de 165 m de altura, e olhamos para baixo, vemos pessoas do tamanho de formiguinhas.


Realmente, somo muito pequenos, seres microscópicos mesmos, em comparação com as medidas do planeta Terra.


Na verdade, a experiência do navio só poderia ser realizada com o uso de um telescópio e o resultado seria este:

Telescópio
Ilustração comparativa com um navio: terra plana e terra globo

Portanto, é preciso considerar as dimensões do planeta Terra, que são gigantescas, e compará-las com o tamanho médio de um ser humano. Os números são estes:

Área da superfície da Terra: 510.100.000 km2 ou 510.100.000.000 m2

Circunferência da Terra: 40.075 km ou 40.075.000m

Tamanho médio de um ser humano: 1,70 – 1,80 de altura

Para se ter uma ideia do que isso representa em termos de escala, tomemos hipoteticamente o tamanho de uma pulga tornando-o equivalente em proporção a de uma pessoa de 2m de altura e, em seguida, comparemos a de outros animais e coisas e depois com os valores acima:

Uma pulga: 0,02m ou 2mm - ser humano: 170mm


Ou seja, em termos proporcionais, para uma pulga um ser humano seria mais alto do que o edifício Terraço Itália.

Outros valores convertidos em milímetros para efeitos de comparação:

Elefante: 700mm – Baleia azul: 3500mm – Prédio mais alto do mundo: 82800mm – Pista de cooper do Ibirapuera: 400000mm

Agora tomemos o estádio do Maracanã com seus 150 mil m2 convertidos em mm2: 150.000.000.000. Multipliquemos por 3 estádios do Maracanã. O resultado é 450.000.000.000 mm2. Juntemos à sede do Flamengo de 73 mil m2 ou 73.000.000.000 mm2. Coloquemos uma pulga no meio disso tudo.

Surpreso? Se você encontrar a pulga, ganha R$ 1000000,00!!!

Isso é mais ou menos o tamanho da Terra em relação a um ser humano.

Tendo em vista estes parâmetros, para se ter uma compreensão mais concreta de como um navio “desaparece” atrás do horizonte, devemos incluir outro fator: o ângulo e o grau da circunferência da Terra.

O ponto amarelo marca 1 grau
O sinal amarelo à esquerda marca 1 grau. 
Arredondando a circunferência da Terra para 40.000km e dividindo por 360 graus, um grau corresponde à distância de 111 km ou 111000 m.

O ponto amarelo marca 1 grau
Repare no intervalo de 1 grau, parece uma reta.

Para termos uma noção dessa grandeza, podemos estabelecer relações de distância entre cidades e a média do tempo estimado de viagem entre uma cidade e a outra.

Um grau corresponde a 111 km.
São Paulo – Jundiaí – 47 km (em linha reta), 55 km (rodovia) e 44 minutos de viagem.

São Paulo – Santos – 57 km (em linha reta), 76 km (rodovia) e 57 minutos de viagem.

São Paulo – campinas – 82 km (em linha reta), 96 km (rodovia) e 1h22min.

São Paulo – São José – 86 km (em linha reta), 99 km (rodovia) e 1h11min.

São Paulo – Sorocaba 100,6 km (rodovia) e 1h30min.

Para o observador ao nível do mar a curvatura da terra coincide com a linha do horizonte.


Através de uma Calculadora de horizonte e curvatura da Terra, podemos inferir a distância da linha do horizonte e a altura de objetos que seguem para além do horizonte através de um observador de 1,7 m de altura ao nível do mar. (Os números abaixo desconsideram o índice de refração e são sempre referentes a perspectiva de 1,7 m de altura).

Observador – linha do horizonte 4654,18 metros.

Para este observador, se um surfista moicano de 2 metros de altura ultrapassar 1 km além da linha do horizonte, este surfista continua sendo perfeitamente visível.

A partir de 10 km, o surfista seria visível da cintura para cima.

Depois de 12 km, o surfista seria totalmente encoberto restando apenas seu cabelo moicano.

A curvatura da terra permite que vemos o topo da ilha.
Uma ilha de 44 m de altura a uma distância de 28 km seria perceptível apenas a partir de seu topo de 1,20 m. Se consideramos a refração esse número poderia ser aumentado, pois a curva da luz aumenta o objeto, e mesmo a uma distância de 34 km o topo da ilha poderia ser avistado.


Um navio de cruzeiro pode alcançar 72 metros de altura.

O navio não ultrapassou a linha do horizonte
Para um navio de cruzeiro desaparecer completamente atrás do horizonte, ele teria de navegar mais de 37 km da costa, ou seja, quase a distância São Paulo-Jundiaí, e ainda assim sobraria a pontinha da chaminé. Considerando que a velocidade média de um cruzeiro é de 24 e os 26 nós (cerca de 48 km/h), o navio levaria quase uma hora para “sumir” atrás do horizonte.

Representação de um navio atrás da linha do horizonte.
Para um prédio ser visível a 111 km, o que corresponde a um ângulo de 1 grau, ele teria que ter uma altura superior a 887,5 metros.

Transcorrido 1 grau, a curvatura desceu 970 m de altura a linha do horizonte.
A inclinação desse prédio seria de apenas 1 grau, quase imperceptível. Nota-se que a inclinação atual da Torre de Pisa é de 3,99 graus.


O que significa que, para se observar um objeto atrás da linha do horizonte no mar com a mesma inclinação da Torre de Pisa, este deveria ter uma altura de mais de 4 km e estar a uma distância de mais de 400 km do observador, ou seja, mais longe que a distância que separa as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, que é de 358 km. 

Para concluir temos a seguinte relação:

Observador: 1,7 m – 0,04 graus – linha do horizonte: 4654 m.

0,48 graus – 55 km – 198,9 m abaixo da linha do horizonte.

1 grau – 111 km – 877,5 m abaixo da linha do horizonte.

O grande problema dos terraplanistas é que eles não provam nada, apenas lançam objeções aos fatos consolidados que demonstram que a Terra é um globo, numa tentativa de distorcer a realidade, confundir e convencer os incautos e crédulos aos seus propósitos (muitas vezes financeiros).


Devido às determinações referentes a direitos autorais, este blog utiliza imagens licenciadas ou autorizadas e não utiliza mais imagens de terceiros. Assista no YouTube o vídeo “Como os Barcos Desaparecem no Horizonte” para ver um navio descer a curvatura da Terra.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Conversa Afiadíssima e gênero textual

Até bem pouco tempo atrás, a internet era uma fonte bem pouco confiável de conhecimento e informação. Todavia, a imprensa convencional não oferecia alternativa satisfatória, dada a parcialidade dos órgãos de imprensa, dominados pelos monopólios de mídia. Na verdade, tais órgãos atuam sempre politicamente, visando mobilizar a opinião pública em geral na defesa dos interesses particulares – nunca expressos – das oligarquias representadas por estas grandes empresas.

Foto do Paulo Henrique Amorim

Ao conhecer o blog Conversa Afiada, percebi que havia ocorrido uma drástica mudança no conteúdo veiculado pela internet: um surpreendente e repentino salto de qualidade. O Conversa Afiada me levou a conhecer outros blogs, todos excelentes, como o Tijolaço, o Viomundo, entre outros, não necessariamente jornalísticos, mas relacionados à literatura, música, ciência etc. E a leitura assídua desses blogs me incentivou a fazer o Verso, Prosa & Rock’n’Roll. Não é à toa que Fernando Brito chamou Paulo Henrique Amorim de patrono da blogosfera.

A crítica do PH, o célebre e ansioso blogueiro, à imprensa merece uma reflexão, dentro da teoria da enunciação, pois o jornalismo se configura como um dos diversos gêneros discursivos. A teoria da crítica textual pressupõe a noção chave de “gênero”, abordado tanto por Mikhail Bakhtin como Luiz Antônio Marcuschi. Evidentemente, a importância do conceito ultrapassa o âmbito literário, pois, segundo Bakhtin, “entende-se por gênero não no sentido formalista, mas como zona e campo da percepção de valores e da representação do mundo” (BAKHTIN, p. 418). Portanto, o gênero é uma produção específica de comunicação, anterior ao diálogo e condicionada política, histórica e socialmente. Sendo produto de cultura, os gêneros são variados e abertos a inovações ou transformações, na mesma proporção em que se intensificam as relações dinâmicas e a complexidade social. Neste sentido, uma ou cada esfera específica produz um discurso com características próprias, o que implica as condições de uso e do contexto das diversas atividades humanas em jogo. A cristalização de um gênero discursivo se realiza a partir de enunciados concretos da prática em questão, supondo um estilo comum a uma determinada esfera e a estabilidade dos códigos da linguagem envolvidos. Por óbvio, um gênero não existe por si mesmo. As relações sociais pelas quais um gênero é produzido são bastante determinantes no processo de sua formação, muito embora estas também sejam condicionadas pelo gênero produzido.

Da inter-relação entre língua e práticas sociais é construído objetos do discurso que são ativados ou desativados ao longo do texto. Os discursos expressam uma intenção que nem sempre se mostra como tal e muitas vezes dissimula o próprio discurso. É exatamente o ponto fulcral do “gênero jornalístico”, cuja crítica é interditada por interesses ocultos dos atores envolvidos. Ora, o “gênero jornalístico” de modo algum busca criar uma representação linguística da realidade, ainda que se venda jornal sob a áurea da imparcialidade e objetividade. O jornalista é um funcionário, empregado por uma empresa, a quem deve satisfações; caso contrário, sua contratação seria inviabilizada ou a demissão seu destino mais provável. A relação patrão-empregado implica em coações avassaladoras e implícitas das quais acabam por marcar o “gênero jornalístico” de modo inescapável. Assim, não é fácil para o leitor filtrar na matéria a informação da manipulação social, haja vista a suposta isenção e neutralidade das quais se pretende o “gênero jornalístico”.

Em contrapartida, os blogs ofereceram um discurso jornalístico mais honesto, já que não escondem suas posições políticas. Por isso, a noção de fake news é equivocada. Afinal, boatos são usados como arma política desde Roma, senão, em tempos ainda mais antigos, antediluvianos. Além disso, como distinguir fake news de edições completamente tendenciosas feitas pela grande mídia? Somente os tolos ou hipócritas acreditam nessa bobagem. Cabe ao leitor uma atitude ativa diante da notícia, procurando sempre perscrutar os fatos, não se contentado com as aparências, e, daí, tirar suas próprias conclusões através do juízo bem formado (e informado).

Hoje, a internet e os blogs, como o Conversa Afiada, oferecem instrumentos para uma pesquisa inteligente perante os fatos, sem cair na alienação.

Bibliografia

MARCUSCHI, L. A. “Análise da conversação”. São Paulo: Editora Ática, 1999.

MARCUSCHI, L. A. “Gêneros textuais: definição e funcionalidade”. In: DIONÍSIO, A. P.; MACHADO, A. R.; BEZERRA, M. A. (Org.). Gêneros textuais e ensino. 4. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.

BAKHTIN, M. “Os gêneros do discurso”. Paulo Bezerra (Organização, Tradução, Posfácio e Notas); Notas da edição russa: Seguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2016.

BAKHTIN, M., “Questões de Literatura e de Estética”. São Paulo: Editora HUCITEC & UNESP, 1988.