O Fragmento 105A de Safo é uma das imagens mais duradouras da poesia lírica grega: a maçã doce que amadurece no galho mais alto, esquecida pelos colhedores — não por descuido, mas porque jamais poderiam alcançá-la. Em poucos versos, a poeta de Lesbos condensa uma reflexão sobre o desejo, a maturidade e a beleza que se preserva precisamente por sua inacessibilidade. A maçã não é um objeto qualquer; é o centro de uma cena mínima que se desdobra em múltiplos sentidos.
A tradução mais difundida do fragmento, feita por Guilherme Gontijo Flores, restitui a cadência da imagem: “como a doce maçã que enrubesce no galho mais alto / no alto do alto / e que o colhedor de maçãs esquecia – / não esquecia, mas nunca seria capaz de alcançá-la”. O advérbio “não” corrige a aparente negligência dos colhedores: a maçã não foi ignorada; foi desejada e, ainda assim, permaneceu fora de alcance. A correção é decisiva, pois desloca a ênfase da indiferença para a impossibilidade.
A crítica costuma ler esse fragmento como uma canção nupcial, um hymenaios, em que a maçã funciona como metáfora da noiva. A doçura, a firmeza e as sementes da fruta aludem à fertilidade, à corporeidade feminina e à temperança esperada na esposa; a maçã que enrubesce no alto do galho condensa, assim, a maturidade sexual e a desejabilidade da jovem que chega ao casamento. A imagem não celebra uma beleza abstrata, mas um corpo pronto para o vínculo — e, ao mesmo tempo, resguardado.
Há, contudo, uma tensão irônica nessa leitura. Se a maçã é a noiva, ela é uma noiva inacessível, suspensa “no alto do alto” de um galho que os colhedores não podem atingir. A sintaxe do fragmento termina em um verbo de alcance — epikesthai — que fica como que suspenso no ar, sem completude gramatical ou erótica. A maçã permanece no galho, e o desejo permanece no intervalo entre o olhar e o gesto.
Essa suspensão tem um nome antigo: pothos, o desejo que não se resolve em posse. A maçã de Safo não é colhida porque o colhedor não a esqueceu, mas porque o próprio ato de colher exigiria uma altura que nenhuma escada alcança. O fragmento encena, assim, uma economia erótica em que o valor do objeto desejado cresce na exata medida de sua distância. A fruta não está escondida: está exposta, vermelha, visível — e justamente por isso mais inatingível.
Não é fortuito que a maçã seja um fruto caro a Afrodite. Em cultos antigos, a fruta estava associada à deusa da beleza e da sedução, e moedas romanas chegavam a representar uma Aphrodite Meleia, a Afrodite da maçã. Ao escolher esse fruto, Safo inscreve a imagem no campo semântico do amor erótico e da beleza que atrai sem se entregar. A maçã não é apenas uma metáfora agrícola: é um emblema afrodítico, carregado de uma ambiguidade entre promessa e recusa.
Se o Fragmento 105A pode ser lido como elogio da virgindade imaculada ou como retrato de uma noiva que já passou do auge da juventude, o que permanece intacto é a força da maçã como figura do que não se deixa possuir. A fruta esquecida — ou melhor, jamais alcançada — condensa uma intuição que atravessa a lírica grega: o desejo não se consuma na posse, mas na contemplação do que se mantém à distância. A maçã de Safo segue brilhando no alto do galho, menos como prêmio a ser colhido do que como imagem de uma beleza que só é plenamente ela mesma enquanto permanece suspensa.
(*) O Fragmento 105A de Safo chegou até nós por citação indireta e, por isso, não possui um texto único e definitivo. Apresento abaixo o original grego, uma transliteração e três traduções em português, cada uma com um recorte tradutório distinto.
Texto grego (segundo a edição Voigt)
οἶον τὸ γλυκύμαλον ἐρεύθεται ἄκρῳ ἐπ’ ὄσδῳ,
ἄκρον ἐπ’ ἀκροτάτῳ, λελάθοντο δὲ μαλοδρόπηες,
οὐ μὰν ἐκλελάθοντ’, ἀλλ’ οὐκ ἐδύναντ’ ἐπίκεσθαι.
Transliteração
oion to glykymalon ereuthetai akrōi ep’ osdōi,
akron ep’ akrotatōi, lelathonto de malodropēes,
ou man eklelathont’, all’ ouk edynant’ epikesthai.
Traduções em português
1. Tradução de Guilherme Gontijo Flores (a mais difundida em antologias brasileiras):
como a doce maçã que enrubesce no galho mais alto
no alto do alto
e que o colhedor de maçãs esquecia –
não esquecia, mas nunca seria capaz de alcançá-la
2. Tradução de Antônio Guedes (recorte mais conciso e poético):
Como a doce maçã, alta e rubra no ramo,
no mais alto ramo — esquecida pelos colhedores.
Não, não esquecida: inalcançada.
3. Tradução literal (para fins de comparação):
Tal como a doce maçã enrubesce no alto do galho,
no topo do mais alto, e os colhedores de maçãs a esqueceram —
não, não a esqueceram, mas não podiam alcançá-la.
Nota sobre a tradução
O verbo final, epikesthai (“alcançar”, “atingir”), fica suspenso no fim do fragmento, sem complemento explícito. É essa suspensão gramatical que a maioria dos tradutores procura preservar: a maçã não é esquecida, mas inalcançável — e o desejo permanece nesse intervalo entre o olhar e o gesto.
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(****) Notas sobre a ilustração:
A imagem apresenta uma composição de estilo histórico e arqueológico que evoca a Antiguidade Clássica:
O Fragmento Central: No centro da imagem, destaca-se um pedaço de papiro antigo com bordas rasgadas e desgastadas pelo tempo, exibindo um texto escrito em carateres do alfabeto grego clássico.
Etiqueta Explicativa: Logo abaixo do papiro, encontra-se um pequeno cartão de exibição museológica com o texto: "FRAGMENTO 105A DE SAFO".
Elemento Simbólico e Poético: O Fragmento 105a de Safo é um dos seus poemas mais famosos, conhecido pela metáfora da "maçã doce que amadurece no topo do ramo mais alto", esquecida ou inalcançável para os colhedores.
Objetos do Cenário: O papiro repousa sobre uma mesa de madeira rústica, ao lado de uma lâmpada de azeite em cerâmica antiga (à esquerda) e de um pergaminho enrolado com haste de madeira (à direita).
Fundo e Atmosfera: O plano de fundo desfocado sugere uma paisagem mediterrânica da Grécia Antiga, com oliveiras banhadas pela luz do sol e as ruínas de um templo clássico em colunas de pedra.