Existem livros que lemos para passar o tempo e existem livros que exigem uma vida inteira para serem lidos. No topo dessa pirâmide de desafios intelectuais está Finnegans Wake, o último e mais radical romance do escritor irlandês James Joyce. Publicado em 1939, após dezessete anos de uma escrita obsessiva, o livro não é apenas um texto; é uma experiência linguística que rompe com todas as convenções da narrativa ocidental.
Se em Ulysses Joyce explorou o fluxo de consciência durante um dia em Dublin, em Finnegans Wake ele mergulha nas profundezas da noite, dos sonhos e do inconsciente coletivo. O resultado é uma obra escrita em um idioma próprio — o "idioletto" joyceano — que funde dezenas de línguas e trocadilhos em uma sinfonia de significados múltiplos.
O Que é Finnegans Wake? A Noite da Linguagem
A premissa de Finnegans Wake é, ao mesmo tempo, simples e infinitamente complexa. O livro parece descrever a noite de sono de um taberneiro de Dublin chamado Humphrey Chimpden Earwicker (conhecido pela sigla HCE) e sua família. No entanto, os personagens mudam de nome, forma e época constantemente, transformando-se em figuras históricas, geográficas ou mitológicas.
A Estrutura Circular e a Teoria de Vico
Uma das características mais famosas da obra é sua estrutura cíclica. O livro começa no meio de uma frase e termina com o início dessa mesma frase, sugerindo que a história da humanidade (e do sonho) é um eterno retorno.
Joyce baseou essa estrutura na filosofia de Giambattista Vico, que dividia a história em quatro eras:
Era Teocrática: A era dos deuses e do medo religioso.
Era Heróica: A era dos heróis e da aristocracia.
Era Humana: A era da democracia e da razão.
Ricorso: Um período de caos que reconecta o fim ao início, reiniciando o ciclo.
A Linguagem do Sonho: Como Ler o "Ilegível"
A maior barreira para qualquer leitor de Finnegans Wake é a sua linguagem. Joyce utiliza o que muitos chamam de "Wakese" (Wakesês), um amálgama de cerca de 60 a 70 idiomas diferentes.
Trocadilhos Poliglotas e Palavras-Valise
O autor utiliza o conceito de "palavras-valise" (termos que combinam dois ou mais significados em um só) de forma extrema. Cada palavra em Finnegans Wake funciona como um hiperlink: ela remete a um evento histórico, uma canção popular irlandesa, um mito egípcio ou uma piada interna.
Exemplo: A palavra "bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerronntuonnthunntrovarrhounawnskawntoohoohoordenenthurnuk!", que aparece na primeira página, representa o som de um trovão, simbolizando a queda de Adão (e a queda do personagem Finnegan) e o início da civilização.
A Oralidade como Chave
Muitos especialistas afirmam que o segredo para entender o texto não é lê-lo silenciosamente, mas ouvi-lo. O ritmo, a cadência e os sotaques de Dublin ajudam a desvendar o sentido por trás da aparente confusão visual das letras. A obra é imensamente musical e deve ser apreciada como uma partitura.
Personagens e Simbolismos: HCE e ALP
Embora as identidades sejam fluidas, dois pilares sustentam a narrativa:
HCE (Here Comes Everybody)
Humphrey Chimpden Earwicker representa o princípio masculino, o pai e a figura do "eterno culpado". Ele é comparado a Adão, Napoleão, montanhas e ao próprio herói da canção que dá nome ao livro, Tim Finnegan. Sua sigla, HCE, aparece escondida em centenas de frases ao longo do texto.
ALP (Anna Livia Plurabelle)
Anna Livia é a esposa de HCE e representa o princípio feminino, a mãe e o movimento da água. Ela é a personificação do Rio Liffey, que atravessa Dublin. No final do livro, o monólogo de ALP é um dos momentos mais emocionantes e belos da literatura, descrevendo o encontro do rio (a vida) com o oceano (a morte).
Perguntas Comuns sobre Finnegans Wake
É possível entender o livro completamente?
Provavelmente não. Joyce mesmo disse que sua obra daria trabalho aos críticos por trezentos anos. O objetivo de Finnegans Wake não é ser "decifrado" como um enigma com uma única resposta, mas ser explorado como um território. Cada leitura revela novas conexões e significados.
Por que James Joyce escreveu algo tão difícil?
Joyce queria criar uma obra que refletisse a natureza do sonho, onde o tempo e o espaço não são lineares. Além disso, ele desejava elevar a língua inglesa a um estado de "universalidade", fundindo todas as culturas e mitologias em um único texto, criando uma "história de tudo e de todos".
Existem guias de leitura?
Sim. Devido à sua complexidade, o uso de guias como o A Skeleton Key to Finnegans Wake, de Joseph Campbell, é altamente recomendado para iniciantes. Esses guias ajudam a identificar as principais referências e a estrutura básica dos capítulos.
Conclusão: O Legado de um Gigante Literário
Finnegans Wake permanece como o "Everest" da literatura. Muitos tentam a subida, poucos chegam ao cume, mas a paisagem ao longo do caminho é inigualável. James Joyce desafiou a própria ideia do que um livro pode ser, provando que a linguagem é uma matéria plástica, capaz de conter o universo inteiro em um simples trocadilho.
A relevância da obra hoje reside na sua antecipação da hipertextualidade moderna. Em muitos aspectos, o livro funciona como a internet: uma rede infinita de referências cruzadas onde o leitor é livre para traçar seu próprio caminho. Ler Finnegans Wake é, acima de tudo, um ato de liberdade intelectual e um mergulho corajoso no mistério da mente humana.
(*) Notas sobre a ilustração: