Dentre todas as biografias escritas pelo historiador grego na obra Vidas Paralelas, a trajetória de Cícero destaca-se como um dos relatos mais vibrantes sobre o poder da palavra e a fragilidade das instituições. Plutarco não apenas registra datas e batalhas; ele mergulha na psique do maior orador de Roma, revelando as contradições de um homem que, armado apenas com sua eloquência, tentou salvar uma República que já desmoronava sob o peso de ambições militares.
Neste artigo, analisaremos a perspectiva de Plutarco sobre Marco Túlio Cícero, examinando como o autor equilibra a exaltação de seu gênio intelectual com as críticas à sua vaidade e hesitação política.
O Estilo Biográfico de Plutarco e o Paralelo com Demóstenes
Plutarco tinha um objetivo ético ao escrever suas biografias: ele buscava no caráter dos indivíduos exemplos de virtudes e vícios. Para ele, o estudo da vida de Cícero era inseparável do estudo de seu equivalente grego, Demóstenes.
A Missão de Plutarco
O autor deixa claro que seu interesse não é a história factual pura, mas o ethos (caráter). No caso de Cícero, Plutarco foca em:
O "Homo Novus": Como um homem sem linhagem nobre chegou ao topo do poder em Roma.
A Oratória como Arma: O uso da fala para suplantar o poder das espadas.
O Conflito Interno: O embaraço entre o amor pela filosofia e a sede de glória pública.
A Ascensão do Orador: Do Estudo ao Consulado
Plutarco narra com detalhes a juventude de Cícero, destacando sua sede insaciável por conhecimento. Ele descreve como o jovem romano viajou para a Grécia e Rodes para aperfeiçoar sua voz e gestual, transformando uma constituição física frágil em um instrumento de persuasão poderosa.
A Luta Contra a Corrupção: O Caso Verres
Um dos momentos cruciais na biografia escrita por Plutarco é o processo contra Caio Verres. Ao defender os sicilianos contra o governador corrupto, Cícero não apenas ganhou fama, mas estabeleceu-se como o maior advogado de seu tempo. Plutarco usa esse episódio para ilustrar a integridade de Cícero — uma virtude que o biógrafo contrastaria mais tarde com as decisões políticas pragmáticas do orador.
O Ápice: O Consulado e a Conjuração de Catilina
O ano de 63 a.C. representa o triunfo de Cícero. Plutarco dedica uma parte significativa do texto à repressão da conspiração de Catilina. Através das famosas Catilinárias, Cícero salvou Roma de uma revolta interna, um feito que lhe rendeu o título de "Pai da Pátria". Entretanto, Plutarco observa que este sucesso foi o início de sua ruína, pois alimentou uma vaidade que se tornou insuportável para seus contemporâneos.
O Crepúsculo da República e o Conflito com os Triúnviros
A biografia escrita por Plutarco torna-se mais sombria à medida que a República Romana entra em colapso. O autor detalha a difícil relação de Cícero com as grandes figuras da época: Júlio César, Pompeu e, posteriormente, Marco Antônio.
A Hesitação nas Guerras Civis
Plutarco critica a indecisão de Cícero durante o conflito entre César e Pompeu. O orador, dividido entre sua lealdade à constituição republicana e seu medo da violência, acabou por não satisfazer nenhum dos lados. Segundo Plutarco, Cícero era "por natureza, propenso à hesitação e à falta de coragem física", embora sua coragem intelectual fosse inquestionável.
O Embate Final: As Filípicas contra Marco Antônio
Após o assassinato de César, Cícero emergiu novamente como o líder moral de Roma. Plutarco descreve as Filípicas como o último esforço heroico de um homem velho para restaurar a liberdade. No entanto, o surgimento do Segundo Triunvirato (Otávio, Marco Antônio e Lépido) selou seu destino.
A Morte de Cícero: O Sacrifício do Filósofo
O capítulo final da obra de Plutarco sobre Cícero é um dos mais emocionantes da literatura clássica. O autor descreve a fuga desesperada do orador e sua aceitação digna da morte.
O Assassinato: Ao ser alcançado pelos centuriões de Marco Antônio, Cícero ordenou que seus escravos parassem a liteira e estendeu o pescoço para os carrascos.
O Simbolismo Macabro: A mando de Antônio, as mãos e a língua de Cícero foram cortadas e pregadas na Tribuna das Rostras, o local onde ele costumava proferir seus discursos. Plutarco nota a ironia trágica de que as mesmas mãos que escreveram contra a tirania foram exibidas como troféus por ela.
Perguntas Comuns sobre Cícero, de Plutarco
1. Por que Plutarco escolheu comparar Cícero com Demóstenes? Ambos foram os maiores oradores de suas respectivas nações e ambos viveram em tempos de transição política violenta, lutando para preservar a liberdade contra o poder autocrático (Filipe da Macedônia no caso de Demóstenes, e os triúnviros no caso de Cícero).
2. Plutarco é considerado uma fonte histórica confiável sobre Cícero? Embora Plutarco escreva centenas de anos após os eventos, ele teve acesso a fontes e memórias hoje perdidas, incluindo as próprias cartas de Cícero. Sua obra é fundamental para entender a recepção da imagem de Cícero na antiguidade tardia.
3. Qual a principal crítica de Plutarco a Cícero? A vaidade. Plutarco frequentemente menciona que Cícero não conseguia deixar de se gabar de suas conquistas, o que gerava inveja e ódio entre seus pares, contribuindo para seu isolamento político.
Conclusão: A Imortalidade através da Obra
Em sua biografia, Plutarco conclui que, embora Cícero tenha falhado em salvar a República, ele triunfou sobre o tempo. Através de seus escritos filosóficos e discursos, ele moldou o pensamento ocidental por milênios. A narrativa de Plutarco serve como um lembrete de que o caráter humano é feito de luzes e sombras: a mesma língua que salvou Roma da conspiração foi a que causou a morte de seu dono.
Ler a vida de Cícero pelos olhos de Plutarco é entender que a política é efêmera, mas a busca pela virtude e pela excelência intelectual é o que realmente define um homem para a posteridade.
(*) Notas sobre a ilustração:
A ilustração representa Cícero em pleno exercício de sua oratória, no coração da Roma Antiga. Ele aparece em posição elevada, vestindo uma toga branca com faixa púrpura — símbolo de autoridade e status —, com o braço estendido em gesto firme, típico de um discurso persuasivo diante do público.
Ao seu redor, vê-se uma multidão de cidadãos romanos atentos, alguns com expressões de admiração, outros de preocupação ou debate, o que sugere um momento político tenso. A diversidade de reações indica que Cícero está tratando de um tema controverso ou decisivo para a República.
O cenário arquitetônico reforça a grandiosidade de Roma: templos com colunas clássicas, estátuas e edifícios monumentais, incluindo uma estrutura ao fundo com a inscrição “Senatus Populusque Romanus” (o Senado e o Povo Romano), símbolo máximo da vida política romana. Guardas e figuras togadas próximas a Cícero indicam a presença de autoridades e o ambiente institucional do Fórum.
A composição enfatiza o papel de Cícero como grande orador e defensor da República, destacando a importância da palavra e do debate público na política romana.
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