segunda-feira, 1 de junho de 2026

Anatomia do Instante: Uma Leitura Crítica de "A uma passante"

A imagem apresentada é uma representação visual que captura a atmosfera melancólica e o cenário urbano do poema "A uma passante" (À une passante), de Charles Baudelaire.  A ilustração retrata uma movimentada rua de Paris no século XIX, recriada em um estilo cinematográfico em preto e branco que reforça a sensação de nostalgia e drama. No centro da composição, destaca-se a figura da "passante": uma mulher elegante, vestida com um longo traje de luto escuro e um véu transparente sobre o chapéu. Ela caminha com altivez e graça pela rua de paralelepípedos, segurando discretamente a barra de sua saia.  Ao redor dela, a cena ferve com o movimento característico da modernidade urbana descrita por Baudelaire:  A Multidão: Homens vestindo sobretudos e chapéus de coco ou cartolas caminham em direções opostas, simbolizando a agitação e o anonimato da metrópole. O posicionamento das pessoas cria um efeito de "borrão" ao redor da mulher, fazendo com que ela seja o único ponto focal de nitidez e atenção absoluta, tal como o impacto sofrido pelo flâneur (o eu lírico do poema) ao avistá-la.  O Cenário Histórico: Ao fundo, as imponentes fachadas dos edifícios parisienses, os postes de iluminação a gás acesos e a silhueta do Arco do Triunfo transportam o observador diretamente para a Paris reformada do século XIX. Uma carruagem puxada por cavalos avança pela via, acentuando a profundidade da cena.  A iluminação suave e difusa, somada ao forte contraste do preto e branco, traduz visualmente o tema central do poema: o choque do encontro fortuito, a beleza efêmera que surge em meio ao caos da multidão e a dor do desencontro instantâneo na cidade grande.

por J.M.P. 

A uma passante

1. A rua em torno era um frenético alarido.

2. Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,

3. Uma mulher passou, com sua mão suntuosa

4. Erguendo e sacudindo a barra do vestido.


5. Pernas de estátua, era-lhes a imagem nobre e fina.

6. Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia

7. No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,

8. A doçura que envolve e o prazer que assassina.


9. Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade

10. Cujos olhos me fazem nascer outra vez,

11. Não sei mais hei de te ver senão na eternidade?


12. Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!

13. Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,

14. Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

Introdução

Antes de entrarmos propriamente na análise do clássico poema, A uma passante, de Charles Baudelaire, convém-nos tecer algumas considerações sobre alguns aspectos gerais do conceito de tempo tal como ministrado durante a disciplina em tela. Evidentemente, não teremos a pretensão de esgotar todo o assunto discutido em sala de aula, não apenas por falta de espaço, mas por não ser este o propósito da análise pretendida.

Porém, alguma regressão, abordando alguns eixos temáticos em relação ao tempo, faz-se necessário, pois Baudelaire é considerado um marco na literatura e nas artes em geral, pois, em certo sentido, é comumente considerado o “inventor” da Modernidade.

A primeira noção de tempo discutida parte de sua forma mais elementar, empírica, isto é, o tempo percebido, concreto, identificado pela mudança das coisas e da passagem dos dias, das estações do ano, de certas regularidades naturais, como a migração de animais etc., portanto, o tempo cíclico, do eterno retorno, que Mircea Eliade (1992) denomina de “regeneração do tempo”. 

Não é preciso dizer que essa concepção de tempo circular é característica de sociedades primitivas: grupos nômades, caçadores, ou sedentários, agrários, que estão em contato direto com as manifestações múltiplas e regulares da natureza, e que, por isso, estão totalmente subordinadas ao ciclo natural, o qual é um fator imprescindível de sua sobrevivência. Neste sentido, toda a economia regida pelos ritmos da natureza, seja ela coletora, agrária ou pastoral, baseada na colheita e no plantio, no remanejo do solo etc., assim como suas manifestações na vida política, social. cultural, simbólica, religiosa, ritualística, interpessoal etc. predominou por um longo período em quase toda a história da humanidade. 

Esta noção de tempo, que organizava as sociedades antigas, no entanto, foi perdendo sentido com o crescimento urbano e o desenvolvimento do capitalismo nas sociedades europeias, com o fim do feudalismo. A partir do incremento de uma economia cada vez mais abstrata, com a mobilização da força de trabalho, a qual se constituía de grandes massas de trabalhadores proletários nas cidades, devido a um enorme processo anterior de expropriação camponesa e, consequentemente, êxodo rural, a dinâmica do processo produtivo foi aos poucos moldando o ritmo temporal conforme se fazia a introdução da maquinaria empregada nas fábricas e das novas formas de organização de trabalho em série. O tempo passou a ser regulado, de acordo com George Woodcock (1944), por “símbolos mecânicos e matemáticos das horas marcadas pelo relógio”. Então, o tempo perde todo o seu caráter cíclico e transforma-se no tempo progressivo, abstrato, retilíneo e artificial da produção. 

Obviamente, a inserção desta inovadora forma de medir e perceber o tempo, que regulou todo o cotidiano e a organização social, não foi tranquila, sendo imposta paulatinamente até a sua universalização. Tais mudanças ocorridas pela nova lógica social, totalmente submetida à produção de mercadoria, do dinheiro e do capital financeiro, geraram uma homogeneização do tempo e espaço, que, segundo David Harvey (1993), conduziram a uma “crise de representação” em todos os níveis sociais, inclusive, estéticos, influenciando a cultura e a arte.

É neste contexto histórico, de implosão dos referencias mais basilares que sustentavam a vida das sociedades, notadamente, o tempo e o espaço, que Charles Baudelaire escreve sua grande obra. Na análise que se segue, tentarei demonstrar como a dimensão do tempo, em seus diferentes matizes, no âmbito da Modernidade, se articula ao poema A uma passante. 

Análise do poema A uma passante

O poema A uma passante é uma expressão das contradições vividas por Charles Baudelaire em seu tempo, o século XIX, e reproduz a forma estética tal qual o poeta compreendia a arte, a saber, como uma tensão entre o passado e o presente, a tradição e o novo, o arcaico e o moderno. Portanto, a criação artística em Baudelaire oscila entre o tempo presente do aqui agora e a eternidade, sendo esta associada muitas vezes àquilo que é da ordem do monumental (em sentido figurado e literário). Esta dupla determinação da arte em Baudelaire deverá ser explorada no poema ora analisado, como veremos, tendo em vista a questão do modo de como o tempo transcorre em suas várias e complexas figurações.

O primeiro elemento importante em A uma passante é a forma fixa do poema, um soneto, com suas quatro estrofes, sendo dois quartetos e dois tercetos, e metrificações em versos alexandrinos. Notamos, logo de saída, que, embora o poema tenha sido escrito no contexto histórico da Modernidade, Baudelaire utiliza uma forma clássica, retomada pelos renascentistas no seu afã de copiar e trazer à “luz” a outrora e esquecida cultura greco-romana. Tal escolha não é por acaso, já que o conteúdo do poema trata da fluidez típica do mundo moderno, no que diz respeito à vida cotidiana da cidade grande. O cenário urbano, portanto, como sabemos, reflete o mal-estar da solidão em meio às multidões, que habitam as metrópoles, onde tudo é transitório e fugaz.

Ainda que em A uma passante não se mencione expressamente a metrópole, ela se faz perceber (verso 1) através do barulho ensurdecedor do “alarido da rua”. Nota-se que ao não nomear a cidade diretamente, mas por meio enviesado, por sugestão de seu ruído, a realidade urbana perde sua pesada concretude visual e é reduzida a uma percepção sonora auditiva que, de certa forma, torna-a impalpável, confusa, disforme e diáfana. Podemos interpretar aqui a própria natureza da metrópole como uma substância breve e inconstante, passageira. Em seguida (verso 2), o poema anuncia a chegada de mulher alta e esguia, com trajes de luto e deixando transparecer uma “dor majestosa”. À primeira vista, a presença dessa mulher, que exterioriza tão grande sofrimento, pode parecer a única realidade estável e densa, em contraposição à natureza fluida da cidade. Todavia, o balançar com as mãos o vestido (versos 3 e 4) nos induz a pensar que ela também se revela um ser evanescente, ao qual nos faz reconhecer, enfim, como sendo a própria imagem que intitula o poema.

A passante é, portanto, a personificação corpórea do tempo imediato, que passa e, tão logo passa, já não é mais, já não está mais aqui. Contudo, a impressão causada pela imagem da mulher no Eu lírico poético é, no entanto, bastante duradoura. Essa dualidade dissonante entre o tempo exterior e interior terá ressonâncias nas figurações poéticas que representam a tensão entre a brevidade e a eternidade, subjacente em toda a construção poética em questão.

Assim sendo, na segunda estrofe, a passante é descrita com pernas de estátua, nobre e fina (verso 5). Aqui há uma mudança abrupta na dinâmica do poema, no que tange a concepção de tempo, pois se dá um esforço para paralisar ou “materializar” a figura fina (ágil) que se desloca, ao recorrer a alusões indiretas relacionadas ao passado, como a categoria da nobreza (ou aristocracia, em detrimento da burguesia) e, quiçá, a referência às estátuas marmóreas da antiguidade clássica. Para apreender o movimento do tempo que lhe escapa na mulher que passa, o poeta busca encontrar uma alegoria no intuito de perenizar o momento presente através de um passado que é eternizado. 

Nos versos 6, 7 e 8, novamente o andamento do poema é quebrado a partir de uma inflexão em direção à subjetividade. O tempo objetivo, da cidade e da mulher, internaliza-se por meio do arrebatamento do Eu lírico, inebriado com a visão da passante. Essa introjeção é bastante visceral, pois o Eu lírico literalmente bebe nos olhos da passante uma doçura fascinante e um prazer assassino. Esse “líquido”, que está nos olhos da mulher, contém um componente estático, imóvel, celeste, isto é, a imensidão infinita do céu. Entretanto, este céu não é uma realidade inerte, plácida, mas um elemento altamente volúvel, instável e perigoso. Afinal, o céu é o berço de onde nascem ventanias (furacões), tão rápidas como devastadores. 

No início da terceira estrofe (verso 9), o Eu lírico elabora uma analogia em que compara a mulher transeunte à palavra francesa éclair, que pode ser traduzida por clarão, relâmpago, luz (como na tradução acima transcrita) etc., o que de certa forma retorna ao ritmo objetivo, vertiginoso e instantâneo do tempo da modernidade. Este “raio” é também uma fronteira que demarca o dia e a noite, nos remetendo a uma citação direta da passagem do tempo que durou apenas um dia.

Ainda no verso 9, o Eu lírico evoca a passante pela denominação de “efêmera beldade” ou, no original, beleza fugitiva, como se as próprias características físicas da mulher fossem tão passageiras quanto ela ou, diríamos nós, as pétalas das flores. No verso 10, o pronome relativo, ao recuperar a beleza efêmera, traz à tona novamente o tema do olhar que, se antes conferia um prazer fascinante e assassino, agora é capaz de ressuscitar o Eu lírico, mas não nesta vida presente. Um paradoxo. Portanto, o futuro é duvidoso e incerto, constituindo-se também numa instância longínqua e utópica, como se percebe na interrogação de que faz o Eu lírico se este ainda voltará a ver a passante na eternidade (verso 11).

Na última estrofe (verso 12), o Eu lírico intercala três interjeições – os advérbios de espaço, longe e aqui, de tempo, tarde e nunca, de intensidade, demais, e de dúvida, talvez, que nos dão uma noção de distância, de tempo perdido, com o afastamento da passante e sua partida final. Na verdade, as chances do Eu lírico rever novamente essa mulher em meio à multidão das grandes cidades são quase nulas. Na metrópole, o encontro é, ao mesmo tempo, desencontro. Todo o tempo se resume ao instante imediato, o aqui e agora. Os dois últimos versos (13 e 14) são fundamentais e cristalizam todo o problema dos tempos modernos, pois um amor verdadeiro poderia ter nascido do encontro de duas pessoas se o tempo não fosse tão fragmentado e volátil. Talvez, nas antigas comunidades campestres do eterno retorno, o Eu lírico certamente voltaria a encontrar a passante.

Conclusão

A dimensão do tempo na Modernidade, no poema A uma passante, nos conduz a um impasse insolúvel, da própria inviabilidade da vazão das emoções humanas, que estão em dissonância com o ritmo acelerado das grandes metrópoles. Na realidade, o tempo abstrato da alienação da mercadoria e da reificação inviabiliza a dimensão profunda dos sentimentos, que necessitam criar raízes e por isso exigem cuidado, demora, atenção, como é o caso do amor. O estreito instante do encontro no mundo moderno, apesar de deixar vestígios indeléveis na subjetividade do Eu lírico, é o curto espaço do não dito, que se opõe ao leque de potencialidades inerente à própria vida. Cabe ainda mais uma problemática, pois o poema enseja a possibilidade do Eu lírico se apaixonar infinitas vezes por uma outra “passante” que lhe cruzar o caminho, e isso de modo interminável.

Referências bibliográficas

ELIADE, Mircea. O mito do eterno retorno. São Paulo: Mercuryo, 1992.

HARVEY, David. “A compreensão do espaço-tempo e a necessidade do modernismo como força cultural”, in: A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1993.

WOODCOCK, George. The tyranny of the clock. 1944.

Anexos

À une passante

Le rue assourdissante autour de moi hurlait. 

Longue, mince, en grand deuil, douleur majestucuse, 

Une femme passa, d'une main fastucuse 

Soulevant, balançant le feston et l'ourlet.


Agile et noble, avec sa jamble de statue.

Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,

Dans son ocil, ciel livide où germe l'ouragan,

La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.


Un éclair... puis la nuit! - Fugitive beauté

Dont le regard m'a fait soudanement renaître,

Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?


Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être! 

Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais, 

Ó toi que j'eusse aimée, ó toi qui le savais!


A uma passante

A rua em torno era um frenético alarido.

Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,

Uma mulher passou, com sua mão suntuosa

Erguendo e sacudindo a barra do vestido.


Pernas de estátua, era-lhes a imagem nobre e fina.

Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia

No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,

A doçura que envolve e o prazer que assassina.


Que luz... e a noite após! – Efêmera beldade

Cujos olhos me fazem nascer outra vez,

Não sei mais hei de te ver senão na eternidade?


Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!

Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,

Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

(*) Notas sobre a ilustração:

A imagem apresentada é uma representação visual que captura a atmosfera melancólica e o cenário urbano do poema "A uma passante" (À une passante), de Charles Baudelaire.

A ilustração retrata uma movimentada rua de Paris no século XIX, recriada em um estilo cinematográfico em preto e branco que reforça a sensação de nostalgia e drama. No centro da composição, destaca-se a figura da "passante": uma mulher elegante, vestida com um longo traje de luto escuro e um véu transparente sobre o chapéu. Ela caminha com altivez e graça pela rua de paralelepípedos, segurando discretamente a barra de sua saia.

Ao redor dela, a cena ferve com o movimento característico da modernidade urbana descrita por Baudelaire:

  • A Multidão: Homens vestindo sobretudos e chapéus de coco ou cartolas caminham em direções opostas, simbolizando a agitação e o anonimato da metrópole. O posicionamento das pessoas cria um efeito de "borrão" ao redor da mulher, fazendo com que ela seja o único ponto focal de nitidez e atenção absoluta, tal como o impacto sofrido pelo flâneur (o eu lírico do poema) ao avistá-la.

  • O Cenário Histórico: Ao fundo, as imponentes fachadas dos edifícios parisienses, os postes de iluminação a gás acesos e a silhueta do Arco do Triunfo transportam o observador diretamente para a Paris reformada do século XIX. Uma carruagem puxada por cavalos avança pela via, acentuando a profundidade da cena.

A iluminação suave e difusa, somada ao forte contraste do preto e branco, traduz visualmente o tema central do poema: o choque do encontro fortuito, a beleza efêmera que surge em meio ao caos da multidão e a dor do desencontro instantâneo na cidade grande.