No épico homérico que narra o retorno de Odisseu a Ítaca, encontra-se um dos episódios mais evocativos não apenas para a literatura, mas para toda a tradição do pensamento ocidental: a passagem em que o herói, advertido por Circe sobre o perigo irresistível do canto das sereias, ordena que seus marinheiros encham seus ouvidos com cera e o amarrem firmemente ao mastro da embarcação, com a condição de que, por mais que ele suplique ou grite, ninguém o solte. Assim, enquanto o navio cruza as águas letais, Ulisses (nome latino do grego Odisseu) ouve a melodia proibida e, enlouquecido de desejo, ordena que o desamarrem, mas seus homens, obedecendo à ordem anterior, apenas o prendem com mais força e remam até que o perigo fique para trás.
Essa cena, aparentemente apenas mais uma das peripécias do astuto rei de Ítaca, é resgatada por Max Horkheimer e Theodor W. Adorno no primeiro excursus de sua obra fundamental, Dialética do Esclarecimento, publicada em 1944 no exílio americano, e nela se transforma em uma alegoria profunda e perturbadora da própria condição do sujeito moderno, da razão instrumental e das origens ambivalentes do iluminismo (em alemão, Aufklärung, isto é, esclarecimento). Para os dois filósofos da Escola de Frankfurt, Ulisses não é apenas um herói antigo; ele é o protótipo do indivíduo burguês, do sujeito que, para se preservar, precisa negar a si mesmo o acesso imediato ao gozo e à natureza, subordinando seus impulsos mais profundos a uma lógica de cálculo, domínio e renúncia. O canto das sereias representa, nessa leitura, a promessa de uma experiência de plenitude que antecede a cisão entre sujeito e objeto, entre o homem e o mundo natural, aquilo que Horkheimer e Adorno chamam de "a atração do arcaico", do indiferenciado, do êxtase que dissolve as fronteiras do eu. Amarrando-se ao mastro, Ulisses encontra uma solução engenhosa que revela, no entanto, a estrutura trágica da razão esclarecida: ele quer ouvir, mas não pode sucumbir; quer experimentar o saber proibido, mas desde que isso não o destrua.
A astúcia, sua qualidade mais celebrada, é aqui a própria forma da razão que se volta contra a vida para salvá-la, mas apenas à custa de mutilá-la. O que se perde, nesse gesto, é a possibilidade de uma entrega verdadeira, de uma fusão não mediada com o belo e o terrível que as sereias entoam. Ulisses ouve, sim, mas ouve como um prisioneiro, como um homem que já não pode responder ao que escuta com o abandono do corpo e da alma; sua audição é transformada em um prazer solitário, desprovido de qualquer consequência prática, reduzido a um espetáculo interno que não altera em nada seu curso. Os marinheiros, por sua vez, com os ouvidos tapados pela cera, representam a outra face dessa dialética: eles são a força de trabalho cega, que não pode sequer ser tentada, pois sua subjetividade foi anulada a ponto de nem ao menos desejar o que está sendo perdido. Eles remam, enquanto o patrão, amarrado ao mastro, se permite o privilégio de uma fruição estéril, separada do fazer e do viver.
Essa divisão é, para Horkheimer e Adorno, o núcleo da civilização ocidental: de um lado, o indivíduo que se constitui pela renúncia e pelo autocontrole, que aprende a adiar seus prazeres e a instrumentalizar seus impulsos; de outro, a massa que obedece sem questionar, cujos sentidos foram entorpecidos para que o trabalho continue. A passagem da Odisseia antecipa, assim, o que os frankfurtianos diagnosticam como a contradição fundamental do esclarecimento: ele promete libertar o homem do medo e do mito, mas termina por instaurar novas formas de dominação, tanto sobre a natureza externa quanto sobre a natureza interna do próprio homem.
Ulisses é o herói da autopreservação, mas sua vitória sobre as sereias é uma vitória pírrica, pois o que ele preserva é um eu empobrecido, um sujeito que já não pode mais ser inteiramente humano porque abriu mão de sua capacidade de se perder no outro, no diferente, no não-idêntico. O mastro a que está amarrado é a própria racionalidade instrumental, rígida, vertical, que o mantém separado das águas - o elemento úmido, fluido, materno e mortal -, assim como a cera nos ouvidos dos marinheiros é a ignorância funcional que permite a reprodução do sistema. E, no entanto, há algo de ainda mais sombrio nessa alegoria: as sereias, criaturas que não matam com violência, mas com o excesso de prazer, cantam um saber que nenhuma palavra pode transmitir, um conhecimento que é pura experiência sensível e, portanto, inassimilável pela lógica da utilidade. Ao ouvi-las sem se entregar, Ulisses as transforma em objeto de sua curiosidade controlada; ele as ouve como quem ouve uma sinfonia em um concerto, sentado e imóvel, sem que essa audição afete em nada sua trajetória. É a atitude estética do burguês: contemplar o abismo desde uma plataforma segura.
Mas o que se perde, insistem Horkheimer e Adorno, é a própria verdade do canto, pois ele só pode ser vivido na aniquilação do sujeito, naquilo que os gregos chamavam de "mania", um furor divino que dissolve as fronteiras do eu e o funde com o mundo. O fato de Ulisses ter de ser amarrado para sobreviver mostra que a racionalidade esclarecida não pode, por si mesma, resistir ao impulso de retorno à natureza; ela precisa de um dispositivo coercitivo externo, de uma violência que o próprio sujeito exerce sobre si mesmo, internalizando a dominação. A amarra é a lei, o contrato social, a moral da renúncia que funda a civilização. Mas essa lei, paradoxalmente, é aquilo que simultaneamente protege e aprisiona: sem ela, Ulisses seria devorado pela sereia; com ela, ele se torna um morto-vivo, um homem que ouviu o inaudível e teve de se negar a resposta.
A Dialética do Esclarecimento vai além da simples crítica ao mito ou à razão, propondo que mito e esclarecimento não são opostos, mas estão entrelaçados desde o início. O próprio Ulisses é uma figura mítica que já encarna o racionalismo astucioso; sua viagem é uma sucessão de episódios em que ele precisa enganar forças naturais e sobrenaturais usando a inteligência, o cálculo, a capacidade de diferir a satisfação imediata. As sereias são, portanto, o momento em que a natureza se oferece como sedução, e o herói responde com uma técnica de autodomínio que prenuncia a ciência e a tecnologia modernas. Não por acaso, Horkheimer e Adorno veem na Odisseia a primeira narrativa do indivíduo burguês: um homem que, ao contrário dos heróis arcaicos entregues ao destino, afirma sua identidade contra o mito, mas paga o preço de se tornar ele mesmo um mito - o mito da subjetividade isolada, autossuficiente, que calcula friamente seus riscos e prazeres.
A cena do mastro e das sereias também antecipa outra dialética crucial, a do trabalho e do ócio, do fazer e do fruir. Os marinheiros remam, produzem o movimento que leva o navio adiante; seu esforço é pura utilidade. Ulisses, amarrado, é o intelectual, o artista, o filósofo que se permite escutar o proibido, mas apenas enquanto o trabalho dos outros garante sua sobrevivência. Essa divisão do trabalho sensorial e corporal é, para os autores, a matriz de todas as divisões posteriores entre espírito e matéria, teoria e prática, alta cultura e cultura popular.
O canto das sereias, que poderia ser a experiência da totalidade, da união indiferenciada entre o homem e o cosmos, é reduzido a um estímulo estético domesticado, a um ornamento que não perturba a ordem do navio. E assim, o esclarecimento, que se propunha a dissipar os medos ancestrais e a permitir que o homem se tornasse senhor de sua própria vida, termina por produzir um mundo em que a única experiência permitida é aquela que não ameaça o status quo, em que o desejo é simultaneamente evocado e neutralizado, em que a promessa de felicidade é mostrada como uma imagem distante, inalcançável, e portanto segura.
O que Ulisses ouve, no fundo, é a própria voz da natureza negada, o lamento de tudo o que foi sacrificado em nome da civilização: a fluidez dos corpos, a promiscuidade dos sentidos, a alegria do esquecimento de si. Mas ele a ouve sem poder mergulhar, sem poder se transformar em osso na praia das sereias, sem poder, enfim, realizar o que o canto promete. Daí a melancolia profunda que atravessa a leitura de Horkheimer e Adorno: o esclarecimento venceu seus monstros, mas ao preço de se tornar ele mesmo o mais terrível dos monstros, pois aniquilou a possibilidade de um prazer que não seja meramente compensatório, de uma arte que não seja apenas uma anestesia, de uma razão que não seja mero instrumento de dominação.
A passagem de Ulisses no mastro é, assim, uma alegoria irônica da própria filosofia crítica dos frankfurtianos: eles também ouvem o canto das sereias - o canto de uma humanidade reconciliada com a natureza, de uma sociedade sem opressão -, mas sabem que estão amarrados ao mastro da história, que não podem saltar, que apenas podem interpretar o que escutam enquanto o navio segue seu curso inexorável para o desencantamento do mundo.
Talvez a única diferença seja que, ao contrário de Ulisses, eles não suplicam para ser soltos; eles sabem que a amarra é também o que os mantém vivos para contar a história. E nesse saber, que não é resignação nem esperança, mas uma espécie de lucidez trágica, reside a força e a atualidade da Dialética do Esclarecimento: ao nos lembrar que o herói da razão é também o prisioneiro do mastro, ela nos convida a perguntar se não haveria uma outra forma de navegar, uma outra relação com as sereias que não fosse ou a surdez dos marinheiros ou a imobilidade do comandante. E enquanto não respondemos a essa pergunta, o canto continua - ouvido por alguns, ignorado por muitos, mas sempre ali, nas margens de todo progresso, como o resto reprimido que insiste em voltar.
(*) Notas sobre a ilustração:
Esta imagem ilustra uma das passagens mais célebres da Odisseia de Homero: o momento em que Ulisses e sua tripulação cruzam o território das temíveis Sereias, testando os limites da curiosidade humana e do autocontrole.
Aqui estão os elementos principais que explicam a composição e o mito:
Ulisses Amarrado ao Mastro: No centro da imagem, Ulisses aparece firmemente atado ao mastro principal do navio por grossas cordas. Sua expressão é de pura angústia e transe; ele grita desesperado para que seus homens o libertem, completamente enfeitiçado pelo canto. Esta foi a estratégia do herói: ele queria ouvir a melodia divina e proibida das criaturas, mas sabia que não resistiria a saltar ao mar se estivesse livre.
A Tripulação Imune: Ao redor do mastro, os marinheiros gregos remam com força total, focados em tirar a embarcação do perigo. Seguindo as ordens prévias de Ulisses, todos estão com os ouvidos tapados com cera de abelha. Eles não conseguem ouvir o canto das Sereias e ignoram os apelos do seu capitão para parar o navio, garantindo a sobrevivência de todos.
As Sereias Híbridas: À esquerda e à direita, as Sereias flutuam próximas ao navio. A ilustração combina com maestria duas tradições visuais: elas possuem caudas que lembram peixes (a visão folclórica moderna), mas também grandes asas de pássaro, que é a representação original e fiel à mitologia grega clássica. Elas tocam instrumentos como a lira e a flauta, usando a música e vozes hipnóticas para atrair os navegantes para a morte nos recifes.
O Mar e os Penedos: O navio navega por águas agitadas, cercado por rochas pontiagudas ao fundo. O cenário reforça o perigo físico real do local: os navios daqueles que cediam ao canto acabavam despedaçados contra esses penedos.
Nota Cultural: Este episódio imortalizou a expressão "o canto da sereia", utilizada até hoje para descrever um argumento ou tentação altamente sedutora, mas que esconde uma armadilha fatal. Ulisses foi o único homem a ouvir essa melodia e viver para contar a história.
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