quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Fragmento 96 de Safo de Lesbos: A Luz da Memória

A ilustração apresentada retrata uma antiga taça de cerâmica decorada no estilo de figura vermelha e preta da Grécia antiga, inspirada no célebre Fragmento 96 de Safo de Lesbos sobre a mulher que partiu para a Lídia. Abaixo encontram-se detalhados os principais elementos artísticos e iconográficos da composição:  Estilo e Formato Cerâmico: A peça exibe o acabamento em tom de terracota e preto característico da olaria clássica, apresentando pequenas falhas e fissuras simuladas que conferem um aspeto arqueológico autêntico. A Cena Central: À esquerda, uma figura feminina sentada numa cadeira elegante contempla o horizonte com um gesto nostálgico, enquanto à direita uma segunda mulher em pé segura uma bolsa de viagem ou fardinho, evocando a partida para terras distantes. Inscrição em Grego Antigo: Na zona superior do tondo da taça, encontram-se inscritos versos fragmentados em letras maiúsculas gregas (Ω ΑΤΘΙ, ΔΗ ΜΕΝ ΑΛΙΣ... ΛΥΔΙΑΣ ΓΥΝΗ...), rememorando a saudade e a lembrança de Átidis e da mulher que se ausentou para a Lídia. Legendas Identificativas: Na margem inferior da base interna, lê-se a identificação académica da obra: "ΣΑΠΦΩΣ ΜΕΛΗ ΦΡ. 96" (Poemas de Safo, Fr. 96) e "ΓΥΝΗ ΠΡΟΣ ΛΥΔΙΑΝ" (Mulher para a Lídia).

O Fragmento 96 de Safo de Lesbos é uma obra-prima que transforma a dor da separação em um hino à beleza e à lembrança. Dirigido a uma mulher que partiu para a longínqua Lídia, possivelmente para contrair matrimônio, o poema não se limita a um simples lamento pela ausência física. Em vez disso, a poeta constrói uma atmosfera etérea onde a recordação atua como uma força mágica, capaz de transcender fronteiras geográficas e trazer a imagem da amada de volta ao coração de quem ficou.

A abertura da composição é marcada por uma das mais deslumbrantes comparações cósmicas da literatura ocidental. Safo evoca a imagem da lua que, ao atingir seu ápice de brilho na noite, ofusca o fulgor de todas as estrelas ao seu redor. Essa metáfora celestial serve para elevar a mulher ausente a um patamar de perfeição inatingível, sugerindo que, mesmo a distância da Lídia, a sua graça e o seu esplendor continuam a eclipsar a beleza de todas as outras mulheres que habitam aquela terra estrangeira.
Nesse contexto, a memória surge não como um fardo melancólico, mas como um refúgio sagrado e um instrumento de reencontro. Ao rememorar os passos delicados e a presença radiante da companheira, a voz lírica experimenta uma sensação complexa, onde a ternura do afeto se entrelaça com a pontada aguda da saudade. É a consciência de que a beleza da mulher amada é tão vasta e poderosa que a sua simples recordação é suficiente para despertar o coração e preencher o vazio deixado pela partida.
A delicadeza dos versos é amplificada pelo uso magistral de imagens retiradas da natureza, que conferem ao poema uma textura sensorial riquíssima. A beleza da mulher que partiu é comparada ao orvalho que repousa sobre as rosas, ao desabrochar suave das violetas e à delicadeza das flores de açafrão. Esses elementos botânicos não apenas ilustram a suavidade e a frescura da amada, mas também conectam a sua essência aos ciclos naturais, sugerindo que o seu encanto é tão orgânico e vital quanto a própria terra.
Para além da estética, o poema revela a profundidade dos laços afetivos e da admiração mútua que caracterizavam o círculo de mulheres na antiga Lesbos. A voz poética não expressa ciúme ou ressentimento pela partida da amada, mas sim uma celebração genuína de sua nova jornada, temperada pela nostalgia íntima de quem conhece a verdadeira magnitude daquele espírito. A obra, portanto, transcende a experiência pessoal para tocar na universalidade do amor que não possui, mas que honra e preserva a luz do outro.
Em suma, o Fragmento 96 de Safo notabiliza-se como uma expressão sem igual do poder que a arte é capaz ao lidar com sensações provocadas pela distância e o tempo. Ao tecer a ausência com fios de luz lunar e fragrâncias florais, a poeta nos ensina que a verdadeira beleza jamais se perde, pois continua a brilhar intensamente no santuário da memória. Ler e reler esses versos é redescobrir que a poesia é o veículo supremo para manter vivos os afetos que o mundo insiste em mitigar.
*****
O texto apresenta o original grego (reconstruído com base na edição de referência de E.-M. Voigt, que preenche as lacunas dos papiros) seguido de uma tradução poética para o português, acompanhada de breves notas filológicas para enriquecer a compreensão.

Fragmento 96 (Edição Voigt)

Texto original em grego (dialeto eólico):
]Σαρδ . 
..
πόλ]λακι τυίδε̣ 
�
ὠσπ . 
.......
σε θέᾳ σ’ ἰκέλαν ἀρι-
 γνώτᾳ, σᾳ δὲ μάλιστ’ ἔχαιρε μόλπᾳ.
νῦν δὲ Λῦδαισιν ἐμπρέπεται γυναί-
 κεσσιν ὤς ποτ’ ἀελίω
 δύντος ἀ βροδοδάκτυλος σελάννα
 πάντα περρέχοισ’ ἄστρα· φάος δ’ ἐπί-
 σχει θάλασσαν ἐπ’ ἀλμύραν
 ἴσως καὶ πολυανθέμοις ἀρούραις·
ἀ δ’ ἐέρσα κάλα κέχυται τεθά-
 λαισι δὲ βρόδα κἄπαλ’ ἄν-
 θρυσκα καὶ μελίλωτος ἀνθεμώδης·
πόλλα δὲ ζαφοίταισ’ ἀγάνας ἐπι-
 μνάσθεισ’ Ἄτθιδος ἰμέρῳ
 λέπταν ποι φρένα κ
ᾶ��ᾷ
Tradução para o português:
... de Sardes ...
 Muitas vezes, tendo aqui o teu pensamento,
 ...
 a ti, semelhante a uma deusa, ela reconhecia,
 e acima de tudo se alegrava com o teu canto.
Agora, porém, entre as mulheres da Lídia, ela se destaca
 como, quando o sol se põe,
 a lua de dedos de rosa
 supera todas as estrelas; e a sua luz
 estende-se sobre o mar salgado,
 e igualmente sobre os campos floridos.
E o belo orvalho se derrama,
 e florescem as rosas, os tenros crisântemos
 e o meliloto perfumado.
E ela, vagando por toda a parte,
 lembrando-se da terna Átis,
 sente o delicado coração corroído pelo desejo no peito.

Notas de Leitura e Contexto:

  1. A Metáfora Lunar: A imagem da "lua de dedos de rosa" (βροδοδάκτυλος σελάννα) que ofusca todas as estrelas é um dos símiles mais célebres da literatura ocidental. Safo eleva a mulher amada (ou a amiga que partiu) a uma estatura cósmica, cuja beleza e presença continuam a dominar o horizonte, mesmo à distância.
  2. A Lídia e Sardes: A Lídia era um reino rico e poderoso na Ásia Menor (atual Turquia), com capital em Sardes. Era um centro de comércio e luxo, frequentemente associado na poesia grega arcaica à opulência e ao exotismo. A partida da amada para lá sugere, muito provavelmente, um casamento arranjado com uma família nobre lídia, um destino comum para as jovens da época.
  3. Átis (Atthis): Átis é o nome de uma das companheiras mais mencionadas no círculo de Safo. O final do fragmento é deliberadamente ambíguo: pode ser a mulher na Lídia que, ao vagar pelos campos floridos, sente o coração corroído pela saudade de Átis (que ficou em Lesbos); ou pode ser a própria voz poética em Lesbos que, ao contemplar a natureza, é consumida pelo desejo ao lembrar-se de Átis. Essa ambiguidade é uma marca genial da poesia safiana, onde o "eu" e o "outro" se fundem na experiência do amor e da memória.
  4. A Natureza como Espelho: A menção ao orvalho, às rosas, aos crisântemos (ou flores silvestres) e ao meliloto não é apenas decorativa. Na poesia de Safo, a natureza reage e espelha os estados emocionais, criando uma paisagem sensorial que torna a ausência física mais palpável e, ao mesmo tempo, mais bela.

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(**) Notas sobre a ilustração:

A ilustração apresentada retrata uma antiga taça de cerâmica decorada no estilo de figura vermelha e preta da Grécia antiga, inspirada no célebre Fragmento 96 de Safo de Lesbos sobre a mulher que partiu para a Lídia.

Abaixo encontram-se detalhados os principais elementos artísticos e iconográficos da composição:

  • Estilo e Formato Cerâmico: A peça exibe o acabamento em tom de terracota e preto característico da olaria clássica, apresentando pequenas falhas e fissuras simuladas que conferem um aspeto arqueológico autêntico.

  • A Cena Central: À esquerda, uma figura feminina sentada numa cadeira elegante contempla o horizonte com um gesto nostálgico, enquanto à direita uma segunda mulher em pé segura uma bolsa de viagem ou fardinho, evocando a partida para terras distantes.

  • Inscrição em Grego Antigo: Na zona superior do tondo da taça, encontram-se inscritos versos fragmentados em letras maiúsculas gregas (Ω ΑΤΘΙ, ΔΗ ΜΕΝ ΑΛΙΣ... ΛΥΔΙΑΣ ΓΥΝΗ...), rememorando a saudade e a lembrança de Átidis e da mulher que se ausentou para a Lídia.

  • Legendas Identificativas: Na margem inferior da base interna, lê-se a identificação académica da obra: "ΣΑΠΦΩΣ ΜΕΛΗ ΦΡ. 96" (Poemas de Safo, Fr. 96) e "ΓΥΝΗ ΠΡΟΣ ΛΥΔΙΑΝ" (Mulher para a Lídia).

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