sábado, 2 de abril de 2016

MONTE CASTELO, CAMÕES E CARTAS SOBRE O AMOR


Jean Pires de Azevedo Gonçalves


Alguns aficionados em literatura, digamos assim, “puristas”, detestam a canção “Monte Castelo” da Legião Urbana, composição de Renato Russo, por que teria, segundo eles, “destruído” o soneto de Luis Vaz de Camões e, por isso, seria um exemplo de mau gosto. A razão de tal argumento diz respeito às questões formais classicistas do soneto, isto é, versos decassílabos heroicos, arranjados em dois quartetos e dois tercetos, que foram sem mais nem menos adulteradas por enxertos dos não menos belos versículos de São Paulo, numa mixórdia que, de uma vez só, passa por cima das distâncias históricas e literárias que separam as duas obras. Não penso assim. Entretanto, se admitirmos, como eles – o que não o fazemos –, que algumas questões da forma de arte não podem ser contaminadas de modo promíscuo por valores estéticos de gêneros diversos, pelo menos a canção Monte Castelo teve o mérito de popularizar a mais bela poesia de amor já composta por um escritor, em todos os tempos. (Na minha opinião, nem Shakespeare escreveu versos de amor tão sublimes, que beiram mesmo a perfeição, como estes que saíram da pena do poeta português). Além disso, as cartas de São Paulo sobre o amor também são magníficas e de maneira alguma não dignificam ou rebaixam o soneto camoniano, ao contrário. Renato Russo pegou o suprassumo da poética que de melhor expressa esta “coisa” tão diáfana chamada amor, região deveras inacessível à palavra, onde as línguas cessam e o silêncio fala, e, através da música pop, deu ao povo, que cantou Camões e São Paulo, ao mesmo tempo. Aliás, diga-se de passagem, poesia não é algo exclusivo a um clubinho de aficionados ou do crítico literário, esse ser, nos dizeres de Nietzsche, exigente e oco. A poesia é do povo, como o céu é do Condor.


Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

1 Coríntios 13

1. Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.

2. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.

3. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.

4. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se envaidece.

5. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;

6. Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;

7. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

8. O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;

9. Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;

10. Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.

11. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.

12. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.

13. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.

Monte Castelo

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria


É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece

O amor é o fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria

É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder

É um estar-se preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É um ter com quem nos mata a lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor

Estou acordado e todos dormem
Todos dormem, todos dormem
Agora vejo em parte
Mas então veremos face a face

É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria


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