terça-feira, 1 de agosto de 2023

"Eu versos eu" - (Parte 15) - Antologia

Antologia poética

71.

Embaixo de uma árvore

Chove

 

72.

Considerações sobre o amor

Eu amo você

Contraditoriamente

Não amo

Portanto

Eu amo você

Prova irrefutável do meu amor

Por você

Não amo

 

Eu amo você

Porque odeio mais que tudo

Odeio você

Sou seu inimigo

Odeio você

Quero você infeliz

Sem mim

Quero você infeliz

Eu amo você

Eu amo você

Eu amo você

Eu amo você

 

Ah! Como eu amo você

Perdão! Perdão, meu amor

Desculpa o meu amor

 

Quero você feliz

Longe de mim

Bem longe, bem longe, bem longe

Quero você feliz

 

73.

Eu amo seus cabelos

Amo seus olhos

Eu amo sua boca

Eu sonho seus beijos

Eu amo sua pele

Amo sua orelha

Eu amo seu corpo

Eu sonho seus amores

Eu amo seus seios

Amo seus cotovelos

Eu amo seu rosto

Amo os joelhos seus

Eu amo suas pernas

Eu sonho seus abraços

Eu amo por inteiro

 

74.

Fiz trinta

Com tristeza

Reclamo

Adeus vinte anos

 

75.

Que saudade

Quero voltar

No tempo

 

76.

Se lagrimas

Fossem tinta negra

Um pingo, outro pingo

Manchas que espirram

Na folha branca de papel

Diriam toda verdade

Para sempre

Mas lagrimas são lágrimas

Evaporam e secam

Desapareçam

Para sempre

Tinta marca

Tinta escreve

Escreve estes versos

Fica e permanece

Para sempre

Palavras no tempo

Não dizem metade

Do que as lágrimas

Que se foram

 

77.

Se não me dissessem

Não acreditaria

Como pode o chão

Tão sólido pesado

Flutuar no vácuo

 

Para mim, o mundo

Não é mais do que vejo

Tão simplório sou

Às vezes

Para mim, tudo

É amor

 

Será que vou mesmo esquecer

Seus olhos

Olhar

De bichinho de pelúcia

Nunca

 

Por que vim ao mundo

Se não tenho você

Não seria melhor ser nada

Sem tempo sem espaço

Sem corpo, sem existência

Sem vida

Com você

Mas existo, e amo

Condenado a viver toda minha vida

Sem você

Não seria melhor não existir

Se não tenho você

Não conhecer

A maravilha do mundo

 

Não teria sido melhor morrer

Sem nunca ter nascido

 

Da janela do meu quarto

Eu vejo as estrelas

A cidade no horizonte

E você, onde está

Eu estou aqui tão sozinho sempre

Seria melhor

 

Não existir

Sem ser

Sem ver

Não sentir

 

Ah, noite! Ah! noite

Era eu tão ignorante

E tão feliz

Será que algum dia vou esquecer

Já que estou condenado a ser sempre

 

78.

Oi sol

Já se vai

A noite me espera

Beijo tristemente

A melodia

Do dia

Que acaba

 

79.

Aprendi uma coisa

Para que haja amizade

É preciso algo em comum

Para que haja amor

É preciso apenas algo em comum

A diferença

 

80.

Se é para ser só seu amigo

Então vai embora

Se é para ser só seu amigo

Então me esqueça

Se é para ser só seu amigo

Sou muito inimigo

Se é para ser só seu amigo

Sou muito infeliz

terça-feira, 4 de julho de 2023

"Eu versos eu" - (Parte 14) - Antologia

 

Antologia poética

61.

Oi chuva

Hoje a noite faz frio

Chuva, faça-me um favor

Cante uma canção de ninar

Obrigado

Boa noite

 

62.

A que ponto cheguei

Humilhado pelo amor

Fui seu servo mais fiel

Entreguei-lhe minha vida

Sacrifiquei-me em seu nome

Beijei o chicote, derramei meu sangue

Fiz do amor o meu verdugo

Beijei seus pés implorando punição

Idolatrei o sofrimento

Sorri da minha desonra

Desgraça e loucura

Invoquei a tristeza

Deleite-me com minhas lágrimas

Descansei numa cama de pregos

E me extasiei com pontas afiadas

Perfurando minha pele

Perdi toda minha juventude

Atrás de uma miragem, o amor

Perdi tudo

Amei de verdade

Quase morri

Abracei com o calor de meu corpo

Uma estátua gélida

Marmórea

Mas, hoje

Eu me libertei

 

63.

Certa pessoa

Entrou em minha casa

Varreu a sala

Limpou o banheiro

Regou as plantas

Lavou a louça

Arrumou a cama

Limpou o vidro da janela

Enfim, mal pude expressar

Minha gratidão

Mas a generosidade

Tem um preço

Às vezes, caro demais

 

64.

Eu amo você

E este amor

É resistência

À minha solidão

Eu amo você

E este amor

É feitiço

Do meu coração

Eu amo você

E este amor

É essência

Da minha vida

Eu amo você

E este amor

É perdido

É minha ferida

Para sempre

Para sempre

Volta

Por favor

Volta

Estou esperando

Sempre, sempre

Sempre esperando

 

65.

Cheguei tão cansado

Tão magoado

Tão desesperado

Nesta noite

Não há estrelas

Nem há Lua

Não há nuvens

Não há céu

Não há nada

Apenas eu

Só eu

Eu

Só eu

Tão desesperado

Tão magoado

Tão triste

Nesta noite

Sem estrelas

Sem Lua

Sem nuvens

Sem céu

Sem nada

Eu

Apenas eu

Para onde vou

Eu

 

66.

Não sei ganhar dinheiro

Também não sei amar

 

67.

Eu não penso com meu pensamento

Eu penso com meu sentimento

Não consigo ser racional

E calcular cada lance da minha vida

Como um jogo de xadrez

Impetuosamente, derrubo as peças

Jogo no chão

Atiro-as longe

Meu mundo é caos

Girando, girando

Rodamoinho devastador

Sou um fundamentalista fanático

Um louco aprisionado dentro de mim

Saudade, soledade

Ciúme, zelo

Crime

Às vezes alguém me diz

Você é inteligente, tem capacidade

Eu respondo: não quero nada disso

Quero andar sob o sol e sentir o vento

Quero ser feliz

E quero amar

Porque na verdade sou infeliz

Algo que descobri muito cedo e finjo esquecer

 

68.

A vida passa tão depressa

Que nunca deixamos

De ser criança

 

69.

Amor maior amor

Nunca houve

Maior que o meu

Tortura, dor

Amor, sou seu

Amor maior amor

Nunca houve

Maior que o meu

Veneno, que mata

Amor, sou eu

Sou nada

Sem você

Sou acaso

Sem sentido

Me diz o que é vida

Pois morrer eu sei

Suplico, imploro

Diga-me, diga-me

É fantasia, eu sei

O mundo não existe

Porque a vida

Não pode ser tão triste


70.

A vida é sem querer

Viver é tudo querer

 

De repente, eu

Me vi, aqui

 

Sem nada entender

 

Se não é

Eu sou

Se de fato

De mim

Nada sobrou

Pois, se é

De fato

Assim

Não sou

 

Resoluto

Sou

Absoluto


sexta-feira, 2 de junho de 2023

"Eu versos eu" - (Parte 13) - Antologia

 

Antologia poética

51.

Noite adentro, de madrugada

Batem na porta

Batem no meu peito

Quem será a esta hora

Você de novo

Por que me acorda

Outra vez

Mal acabara de pegar no sono

Por quê, coração

Logo, logo o sol vai pintar o céu

Com sua tinta amarela azul

Eu preciso desesperadamente dormir

 

52.

Deus, misericórdia, olhe por mim

Proteja-me, em meu caminho

 

53.

Uma onda de otimismo

Me arrebata

Sou lançado ao fundo do mar

Afogado

Vem uma onda de tristeza

Me arrasta

Sou lançado à margem

Sem vontade de viver

Espero uma onda de felicidade

 

54.

Meus olhos dissimulam

Diante do espelho

Meu olhar vazio

Voltado o mundo

Dentro de mim

 

55.

O amor é tudo

Se houvesse algo maior

Seria o amor

 

56.

Me deixe em paz, sanguessuga maldita

Não me aterrorize com seu zumbido infernal

Vai embora para sua casa à beira do córrego

Socorro, eu preciso dormir, suma daqui

 

57.

A prova ontológica de que meu amor perfeito existe

 

Meu amor é perfeito

Logo, meu amor existe

Se não existisse

Não seria perfeito

 

Conclusão, meu amor perfeito existe

 

Em algum lugar, existe

Só falta encontrar

 

58.

Quando eu tinha por certo

Que o amor não existia mais

Eis que sua poderosa presença

Se fez sentir em sua ausência

 

O que há comigo

Obcessão doentia

Que não tem cura

 

Amo, amo e amo

 

59.

Tomo muito cuidado

Para não pisar em formigas

E outros artrópodes

Que encontro por estes chãos

Quando vejo, por exemplo

Um tatuzinho, uma minhoca, uma joaninha

Caminhando no meio do caminho sozinhos

Pego um palitinho e uma folhinha

E retiro o pequeno ser

Do meio do perigo

 

Ontem senti imensa compaixão

Por um caroço de mamão

Solitário, em cima da mesa

 

Amor, me embriaga de amor

O amor está em mim

E eu estou em tudo

 

60.

Eu não sou meus versos

Meus versos são apenas restos

São cacos, fragmentos de mim

Meus versos são átomos

Luzes tristes na escuridão

Lembranças voláteis

Representação grosseira

Eu sou maior que meus versos

Como são magníficas

As impressões sem versos que eu tenho do universo

 

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Aline, a esposa de Renoir, contra a indústria da moda

 

Pierre-Auguste Renoir

Pierre-Auguste Renoir nasceu pobre, no ano de 1841, em Limoges, na França. Aos 13 anos de idade, o garoto já manifestava um talento artístico para o desenho e a pintura, o que fez com que seus pais os tirassem da escola e o empregassem como aprendiz de ilustrador numa fábrica de louças.

Mais tarde, o rapaz arrumou outro emprego e passou a ganhar a vida pintando leques, persianas e imagens de santos. Enquanto trabalhava, economizava dinheiro para se matricular em uma escola de arte, objetivo alcançado quando completou 21 anos.

Embora Renoir demonstrasse um desprezo pelos cânones e outras tolices acadêmicas, aprendeu com seus professores os princípios básicos da arte que seriam utilizados, por ele, como um “trampolim” para dar asas a seu gênio e assim pintar de uma maneira extremamente original que o eternizaria.

Inspirado por um intenso sentimento lírico, o pintor preferia trabalhar ao ar livre, onde as cores eram mais ricas e livres de convenções. Indiferente às tendências de época, menosprezava as cores da moda. Em vez disso, demonstrava grande apreço por cores brilhantes, incandescentes, profundas e naturais. Renoir criou um estilo próprio, marcado por cores fortes, texturas e linhas harmônicas, que, juntamente com a obra de outros artistas, ficaria conhecido como impressionismo.

Tendo encontrado sua identidade estética, Renoir se tornou um talentoso artista. Todavia, sua vida de pintor pobre pouco se alterara. Mas sua sorte começaria a mudar quando recebeu uma encomenda de Madame Charpentier, esposa de um dos mais ricos editores de Paris e famosa por suas recepções no salão de sua casa. Os 1.750 francos que ganhou para pintar quatro retratos da família Charpentier foram uma quantia excepcional para a época, o que tirou Renoir do sufoco.

O quadro Madame Charpentier e suas filhas, exposto no luxuoso salão, foi visto por gente de fortuna e renome, como Guy de Maupassant, Emile Zola, Gustave Flaubert e Stéphane Mallarmé, gabaritando a obra para a grande exposição anual do Salão de Paris.

Então, outras encomendas começaram a pipocar. Tais trabalhos permitiam a Renoir pagar suas contas, enquanto pintava quadros que o tornariam célebre. Após três anos, Renoir ganhou o suficiente para melhorar de vida e, finalmente, realizar seu sonho de se casar com sua amada Aline Victorine Charigot, uma costureira, vinte anos mais nova do que ele, que já posara de modelo para algumas de suas pinturas, como na obra Le Déjeuner des canotiers, de 1881 (ela é a mulher da esquerda brincando com o cachorro).

Pierre-Auguste Renoir

Aline nasceu em 23 de maio de 1859, no seio de uma família de agricultores. Quando ainda era bebê, seu pai partiu para a América e sua mãe se mudou, deixando Aline aos cuidados de uma tia e um tio. A menina amava as artes, tocava piano e decorava seu quarto com pinturas de artistas famosos. Aos 15 anos de idade, no entanto, foi ao encontro da mãe em Montmartre, Paris, onde conseguiu arrumar um trabalhou de costureira.

Aos 20, Aline conheceu o quarentão Renoir. Casa-se com ele e dá à luz a três filhos, que seriam retratados pelo pintor em muitas cenas da vida familiar.

A biógrafa de Renoir, Barbara White, descreve a aparência da mulher de La Baigneuse Blonde, de 1881, como “rotunda”. Aline fora a modelo, que Renoir, influenciado pela pintura renascentista (particularmente os afrescos de Rafael), deu cores e formas na tela.

É provável que as formas robustas da jovem tenham inspirado o artista em seu ideal feminino: corpulenta, sadia, seios e cintura grandes – símbolo de saúde e fertilidade para Renoir.

Aline Victorine Charigot é uma prova que a beleza não cabe em um único padrão estético ditado pela tirânica indústria da moda.

Seja feliz do jeito que você é. Se não fizer mal aos outros, vai em frente! O gênio de Renoir agradece.