A questão da identidade não é uma indagação trivial como a princípio poderia parecer. Costumamos nos identificar com muitas coisas, mas nem todas elas definem o que de fato somos nós. Por outro lado, a identidade tem a ver, a princípio, com uma reflexão acerca do que é o ser e nos remete ao campo da filosofia, ontologia e metafísica. Porém, não é bem assim. O conceito de identidade não é algo relegado somente às ideias abstratas, vazias e restritas ao pensamento filosófico, pois, na prática, a ideologia, a cultura, a religião, os signos etc. são fontes de real reconhecimento e autorreconhecimento não apenas no plano da subjetividade, mas, fundamentalmente, na realidade social. Segundo o sociólogo Bernardo Sorj, “A identidade social se constrói em torno da identificação com crenças, símbolos e praticas que delimitam, que criam fronteiras, contendo a tendência à ‘mistura’, seja dos indivíduos a se confundir uns com outros, seja dos grupos a se integrarem. A partir das identidades é possível construir ‘memórias’ e narrativas de si mesmo e do grupo” (SORJ, 2004).
Para que haja identidade social, portanto, é preciso que haja uma troca que supõe alteridade. Os indivíduos em sociedade acumulam uma série de elementos simbólicos ou concretos que são fatores de identificação não só para si mesmos como para os outros. Mas a identidade nem sempre é uma escolha individual, pois todo ser humano subexiste em um mundo pronto e acabado, sob um determinado contexto histórico e geográfico, e apropria-se voluntária ou involuntariamente do patrimônio cultural, político e econômico que lhe é imanente. Por exemplo, as pessoas que nascem em um país não podem simplesmente renegarem à sua condição nacional, pois, além da subjetividade inerente à identidade que isso implica, fatores objetivos, no que tange a uma jurisdição burocrática e estatal, não podem ser simplesmente prescindidos pela simples vontade individual, pelo menos até que o indivíduo alcance uma maioridade civil e que possa requisitar a um país estrangeiro uma outra nacionalidade a um país conforme regras pré-estabelecidas. Portanto, a identidade nacional é relativamente dissociada da vontade individual e mesmo quando desfeita pode acarretar um estigma duradouro.
Mas nem sempre o sentimento nacional foi o principal constitutivo da identidade coletiva ou individual. Nas sociedades tradicionais, anteriores à modernidade e ao surgimento do Estado-nação, a religião era a principal fonte de autorreconhecimento e reconhecimento dos indivíduos e não dava margens para a escolha individual. No caso do judaísmo, ser judeu implicava o pertencimento a uma comunidade religiosa fechada, chefiada por um rabino e regulada pelas leis judaicas (Halachá), em conformidade com os textos sagrados. “O judaísmo, até os tempos modernos, como todas as religiões, construiu sua identidade numa série de crenças, mitos, endogamia, ritos e praticas sustentadas na separação entre o puro e o impuro, entre o profano e o sagrado, entre sua versão particular como povo escolhido (pois para todas as religiões, os que nela acreditam são os escolhidos (‘fora da igreja não há salvação’) e os outros povos” (Bernardo Sorj).
Com a Revolução Francesa, as guerras napoleônicas e o advento do Estado moderno, secular e regido por uma legislação, os judeus puderam se emancipar de suas comunidades, abandonar o gueto e a autoridade rabínica, e se integrar na sociedade maior como cidadãos nacionais, adotando a língua vernácula do país onde residiam, os hábitos, a cultura, profissão etc. “Os tempos modernos explodiram as bases do judaísmo rabínico. A grande maioria dos judeus abraçou os valores da modernidade. As oportunidades abertas pela igualdade perante a lei e de participação em todas as áreas da vida social, representou para os judeus, um grupo que tinha sido oprimido durante 5 séculos, uma chance única de reconhecimento, de dignificação e mobilidade social” (Bernardo Sorj). Ora, nesse contexto, a religião sob os novos pressupostos da modernidade perdeu seu lugar privilegiado de doadora do sentido de identidade e a premissa liberal da igualdade legal, independente de raça, cor, origem, sexo, idade, credo, ensejou novas oportunidades de afiliação e pertencimento que transcendiam os vínculos hegemônicos e heterônimos advindos da religião.
Assim, com a consolidação dos valores democráticos garantiu-se a todos os indivíduos um grau de autonomia até então desconhecidos no mundo ocidental. “Nos tempos modernos a relação se inverte, exigindo que cada indivíduo considere sua identidade como um ato volitivo, isto é, uma escolha moral autônoma, levando a que ela seja vivida como uma escolha pessoal” (Bernado Sorj). É neste sentido que um dos maiores nomes da literatura da Polônia, o poeta Julian Tuwim, pôde reivindicar para si, em um manifesto intitulado “Nós, judeus poloneses”, tanto uma identidade nacional polonesa como étnico-religiosa judaica. Neste sentido, Tuwim afirma ser polonês porque nasceu e cresceu na Polônia e assim o deseja ser: “Um polonês – também porque a bétula e o salgueiro estão mais próximos do meu coração do que as palmeiras e as árvores cítricas, e Mickiewicz e Chopin, mais caros que Shakespeare e Beethoven” (Julian Tuwim). O que significa dizer que os laços que o prendem à nacionalidade polonesa não são apenas jurídicos-políticos, em virtude da contingência do nascimento, mas, fundamentalmente, afetivos – no caso de Tuwim, em particular, a língua polonesa.
Quanto à identidade judaica, Tuwim evoca razões muito mais traumáticas: o Holocausto. Vimos que, em tese, as inúmeras particularidades não podem constituir motivo de segregação ou discriminação no Estado democrático. Entretanto, a emancipação e a assimilação do judeu nos marcos do Estado nacional encontraram inúmeros obstáculos, notadamente, o antissemitismo. “A história do século XX mostrou que o judeu “cosmopolita”, se bem trouxe contribuições sem precedentes para a História da cultura ocidental, não foi recebido de portas abertas pelos seus concidadãos europeus. A emancipação, que garantiu aos judeus a igualdade de direitos políticos e civis sobre a base de valores universais, rapidamente cedeu às ideias nacionalistas, e o ideal do homem universal foi substituído pelo do patriota. Imediatamente, acusações de dupla lealdade dos judeus foram seguidas por perseguições, pogroms e fuzilamentos massivos, culminando com o extermínio de seis milhões de judeus pelos nazistas” (Topel, p. 46). Assim sendo, ainda que um judeu abdicasse de toda sua identidade ou herança cultural judaica, o antissemitismo, tal como Sartre argumenta em seu livro A questão judaica, ainda será taxativo em defini-lo como judeu.
Para mim, o manifesto de Tuwim apresenta um tom de desabafo e subentende que o judeu polonês é muito mais digno de se dizer polonês do um próprio polonês que aderiu ao fascismo e atuou como colaboracionista dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Afinal, as tropas nazistas invadiram a Polônia no dia 1o. de setembro de 1939, subjugando e dominando todo o país. Portanto, é bastante comovente como Tuwim elenca uma série de elementos judaicos que deviam trazer orgulho à nacionalidade polonesa e não ingratidão. Por exemplo: “Sobre as braçadeiras que você usou no gueto, a estrela de Davi foi pintada. Acredito em uma futura Polônia em que essa estrela de suas braçadeiras se torne a mais alta ordem concedida aos mais corajosos entre oficiais e soldados poloneses”. Não foram os poloneses “da terra” (eslavos) que foram martirizados e tiveram seu sangue derramado em solo polonês pelo invasor estrangeiro, mas os judeus poloneses, que resistiram bravamente no gueto de Varsóvia e, lamentavelmente, foram exterminados aos milhões nos campos de concentração. Numa das passagens mais bonitas do texto, Tuwim compara o martírio de Cristo com o sacrifício destes judeus desprezados pelos poloneses: “Nós, que dois mil anos atrás demos à humanidade um Filho do Homem massacrado pelo Império Romano, e essa morte inocente foi suficiente para torná-lo Deus. Que religião surgirá de milhões de mortes, torturas, degradações e braços esticados na última agonia do desespero?” (Julian Tuwim).
O texto de Tuwim me lembrou o final do filme de Roman Polanski “O pianista”, no qual o personagem principal, o pianista e judeu polonês Wladyslaw Szpilman, consegue sobreviver as atrocidades da dominação nazista e quando as tropas alemães batem em retirada, Szpilman, trajado com um casaco de um oficial alemão, ao avistar um casal andando tranquilamente pela rua coberta de neve, corre para abraçá-los, mas a mulher grita: “Alemão! Alemão!” Então a resistência vai em sua direção e atira contra ele. Szpilman se refugia em uma casa e grita: “Não atirem, eu sou polonês! Por favor, eu sou polonês!” Os soldados param de atirar e um deles exclama: “É, ele é polonês!” Um outro pergunta: “Por que o casaco?” Ao que Szpilman retruca: “Porque eu estou com frio”.
Bibliografia
POLANSKI, R., O pianista. Filme, 2002.
SARTRE, J.P., A questão judaica. Editora Ática: São Paulo, 1995.
SORJ, B., Identidade e identidades Judaicas. Rio de Janeiro, 2004.
TOPEL, M. F., O patriotismo à espreita e a loucura da perseguição: algumas reflexões sobre “Nós, os judeus poloneses” de Julian Tuwim. Revista Digital do NIEJ | Ano 3 | N.5
TUWIM, J., Nós, judeus poloneses.
(*) Notas sobre a ilustração:
A ilustração retrata Julian Tuwim em posição central e frontal, posicionado no epicentro de uma paisagem devastada por destroços de guerra.
Estilo Artístico: Inspirada na técnica expressionista do retrato de referência (obras de Stanisław Ignacy Witkiewicz - Witkacy), a imagem utiliza traços marcantes a giz de cera e pastel sobre papel envelhecido, com hachuras expressivas, contornos escuros e uma aura radiante iluminando o poeta.
Composição e Sujeito: Tuwim veste um terno escuro tradicional e olha diretamente para o espectador com expressão solene e reflexiva. Ele segura um livro antigo com caneta em uma das mãos e um chaveiro de ferro na outra, evocando a memória, a escrita e o pertencimento perdido.
Cenário de fundo: Ao seu redor estendem-se ruínas de edifícios bombardeados, concreto partido, fumaça e vigas retorcidas. O chão está coberto de escombros misturados a pequenos pertences pessoais abandonados, sem o uso de palavras ou textos explícitos.
Atmosfera: A iluminação contrasta os tons sóbrios e sombrios da destruição histórica com o brilho dramático e expressivo emanado ao redor do poeta, simbolizando a busca pela liberdade individual e pela identidade diante da ruína do mundo ao redor.
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