Quando falamos de ambição literária, poucos nomes se comparam ao de Jules Romains. Sua obra monumental, Os Homens de Boa Vontade (Les Hommes de bonne volonté), publicada entre 1932 e 1946, é um dos projetos mais vastos da história da ficção mundial. Composta por 27 volumes, a série não busca apenas contar a história de um indivíduo, mas capturar a pulsação de uma civilização inteira em um dos períodos mais conturbados da humanidade.
Neste artigo, vamos mergulhar no universo de Romains para entender por que esta obra é considerada o ápice do "unanimismo" e como ela consegue retratar a sociedade francesa e europeia entre 1908 e 1933.
O Conceito Fundamental: O Unanimismo
Para compreender Os Homens de Boa Vontade, é essencial conhecer a filosofia por trás da escrita de Jules Romains: o Unanimismo.
O Indivíduo e o Coletivo
Diferente dos romances tradicionais do século XIX que focavam na jornada heróica de um único protagonista, o unanimismo foca na vida dos grupos. Romains acreditava que a alma de uma cidade, de uma rua ou de uma multidão era tão real e importante quanto a alma de um indivíduo.
A Consciência Coletiva: A obra explora como os pensamentos e ações individuais se fundem para formar movimentos sociais e históricos.
O Retrato de Paris: A capital francesa é, em muitos aspectos, o personagem principal dos primeiros volumes, pulsando com uma energia própria que conecta desconhecidos.
Estrutura e Trama: Uma Rede de Vidas Cruzadas
A série Os Homens de Boa Vontade começa em 6 de outubro de 1908 e termina às vésperas da ascensão do nazismo e da Segunda Guerra Mundial. A narrativa utiliza uma técnica de "fatias de vida" que se entrelaçam de forma magistral.
Protagonistas e Antagonistas
Embora existam centenas de personagens, dois estudantes da École Normale Supérieure servem como os fios condutores da trama:
Pierre Jallez: O poeta, sensível, reflexivo e focado na busca interior e estética.
Jean Jerphanion: O político, idealista, preocupado com as reformas sociais e o futuro da nação.
Através do diálogo entre esses dois amigos, Romains discute filosofia, política e o destino da Europa. No entanto, a obra também dá voz a assassinos, aristocratas, operários, políticos reais (como Briand) e figuras históricas, criando um panorama total da experiência humana.
A Técnica da Simultaneidade
Uma das inovações de Os Homens de Boa Vontade é a forma como o autor descreve eventos ocorrendo ao mesmo tempo em diferentes partes de Paris ou do mundo. Essa técnica cinematográfica reforça a ideia de que todos os seres humanos estão conectados por fios invisíveis de causalidade e emoção.
Temas Centrais: A Busca pela Paz e o Horror da Guerra
O título da obra já indica sua intenção moral. Os "homens de boa vontade" são aqueles que, independentemente de sua classe social, buscam impedir o caos e a destruição.
O Trauma da Primeira Guerra Mundial
Os volumes centrais da saga, especialmente Verdun, são considerados alguns dos relatos mais realistas e devastadores sobre a guerra nas trincheiras. Romains descreve não apenas a estratégia militar, mas o impacto psicológico na massa de soldados. A guerra é vista como o fracasso máximo da "boa vontade" coletiva.
A Decadência e a Esperança
A série atravessa os "Anos Loucos" da década de 1920, mostrando a fragilidade das democracias e o crescimento do extremismo. Existe uma melancolia constante: a sensação de que, apesar dos esforços dos indivíduos, as grandes correntes da história são difíceis de desviar.
A Importância Histórica e Literária
Os Homens de Boa Vontade é frequentemente comparada a Em Busca do Tempo Perdido de Proust ou Os Thibault de Roger Martin du Gard, mas sua escala é única.
Documento Sociológico: A obra funciona como uma enciclopédia da vida francesa no início do século XX.
Inovação Formal: Antecipou técnicas de colagem narrativa e realismo social que seriam exploradas por autores posteriores.
Filosofia Política: É uma defesa do humanismo e da solidariedade em um mundo que estava se tornando cada vez mais fragmentado e violento.
Perguntas Frequentes sobre Os Homens de Boa Vontade
É necessário ler todos os 27 volumes para entender a história? Embora a experiência completa seja recomendada, os volumes são organizados em ciclos. Muitos leitores focam nos volumes iniciais (que estabelecem o universo) ou no ciclo da guerra (Verdun), que possui força narrativa independente.
Por que a obra não é tão lida hoje em dia quanto a de Proust? A vastidão da obra pode ser intimidante. Além disso, o foco de Romains na coletividade e na política muitas vezes exige um conhecimento do contexto histórico francês que pode ser um desafio para o leitor contemporâneo casual. No entanto, para estudiosos do romance moderno, ela permanece indispensável.
O que define um "homem de boa vontade" para Jules Romains? Para o autor, não é alguém perfeito, mas alguém que mantém a clareza mental e a intenção de agir em favor da civilização e da razão, mesmo quando cercado pelo absurdo.
Conclusão: O Legado de uma Catedral Literária
Ao concluir Os Homens de Boa Vontade, Jules Romains deixou um monumento à perseverança humana. Sua obra nos lembra que a história não é feita apenas de grandes datas, mas de milhões de pequenas vontades, medos e sonhos que se cruzam diariamente nas ruas de nossas cidades.
Revisitar os textos de Romains hoje é um exercício necessário de humanismo. Em um mundo novamente marcado pela polarização e pelo isolamento, a mensagem unanimista da interconexão de todos os seres humanos ressoa com uma urgência renovada.
(*) Notas sobre a ilustração:
A ilustração de Os Homens de Boa Vontade, de Jules Romains, funciona como uma síntese visual do vasto projeto literário do autor, que buscou retratar a vida coletiva francesa nas primeiras décadas do século XX. A composição em forma de painel narrativo, com cenas circulares interligadas, reflete diretamente o princípio do unanimismo: a ideia de que os indivíduos só podem ser plenamente compreendidos dentro do movimento social que os envolve.
No centro da imagem, a Torre Eiffel se ergue ao pôr do sol, símbolo de Paris e da modernidade. Ao seu redor, uma multidão ocupa a avenida: trabalhadores, burgueses, soldados, mulheres e homens em trânsito constante. Esse fluxo humano sugere a cidade como organismo vivo, onde trajetórias individuais se cruzam sem cessar. A figura de um homem caminhando decidido no primeiro plano reforça a ideia de movimento histórico e de ação coletiva.
Essa justaposição de cenas privadas e públicas traduz a ambição monumental do ciclo romanesco de Romains: narrar não apenas indivíduos isolados, mas a consciência coletiva de uma época. Cada personagem parece secundário quando visto sozinho, mas essencial quando integrado ao conjunto.
O estilo da ilustração — próximo dos cartazes e gravuras do início do século XX — reforça o caráter histórico e documental da obra, enquanto a moldura ornamental sugere ordem e totalidade, como se o romance fosse um grande mosaico social.
Assim, a imagem não ilustra um episódio específico, mas o próprio espírito de Os Homens de Boa Vontade: a vida moderna como uma rede de relações humanas, marcada pela esperança, pela contradição, pela solidariedade e pela tragédia, em que a história se constrói a partir da soma das vontades individuais em permanente interação.
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