terça-feira, 24 de março de 2026

O Comprometido de Viet Thanh Nguyen: Labirintos de Ideologia e Crime na Paris dos Anos 80

A ilustração inspirada em O Comprometido, de Viet Thanh Nguyen, constrói uma composição densa e simbólica que reflete os conflitos ideológicos, identitários e existenciais do protagonista — continuidade direta de O Simpatizante.  No centro, duas figuras masculinas dominam a cena. À esquerda, um homem mais jovem segura correntes e chaves, sugerindo seu papel ambíguo como agente infiltrado — alguém simultaneamente preso e portador de segredos. Atrás dele, símbolos como a foice e o martelo remetem ao comunismo, enquanto a inscrição “ideologia e falso amor” aponta para a crítica às ilusões políticas e afetivas que permeiam sua trajetória.  À direita, um homem mais velho aparece envolto em correntes, com expressão dura e marcada. Ele parece representar o futuro, a consciência culpada ou mesmo o desdobramento psicológico do protagonista. As correntes, aqui, simbolizam não apenas aprisionamento físico, mas também o peso moral, a memória e as contradições internas.  Entre os dois, ergue-se uma arquitetura sombria de estilo europeu, evocando catedrais góticas — uma referência direta ao cenário francês onde se passa grande parte da narrativa. Faixas com a inscrição “colonialismo francês” reforçam o pano de fundo histórico, lembrando que a experiência do protagonista está profundamente ligada às heranças do imperialismo e à diáspora vietnamita.  À direita da composição, surgem outros elementos simbólicos: uma mulher elegante, associada ao desejo e à tentação; um livro em chamas com a inscrição “existencialismo sartreano”, aludindo à influência de Jean-Paul Sartre e às questões de liberdade, culpa e responsabilidade; e máscaras sobrepostas, que representam a fragmentação da identidade e o constante jogo de papéis vivido pelo protagonista.  Na parte inferior, a inscrição “crime e sobrevivência” acompanha a figura de um homem em fuga, sugerindo o mundo clandestino e violento em que ele está inserido. Já “a luta pela identidade” reforça o tema central da obra: a dificuldade de pertencer, de conciliar origens culturais e de definir quem se é em meio a sistemas opressivos e contraditórios.  Elementos decorativos, como mapas, objetos cotidianos e vinhas que se entrelaçam por toda a imagem, conectam os diferentes planos narrativos e simbólicos, criando a sensação de que tudo está interligado — passado e presente, política e intimidade, Oriente e Ocidente.  Assim, a ilustração funciona como um mosaico visual da obra de Viet Thanh Nguyen: uma narrativa marcada por espionagem, deslocamento cultural, crítica ao colonialismo e uma profunda investigação da consciência humana, onde identidade e ideologia se entrelaçam de forma inseparável.

Quando Viet Thanh Nguyen conquistou o Prêmio Pulitzer com O Simpatizante, ele ofereceu uma visão devastadora da Guerra do Vietnã e do exílio nos Estados Unidos. Em sua sequência, O Comprometido (The Committed), o autor eleva a aposta. Deixando para trás o sol da Califórnia pela neblina intelectual de Paris, o narrador — ainda sem nome, ainda de "duas mentes" — mergulha em uma odisseia que mistura existencialismo francês, gângsteres vietnamitas e a herança traumática do colonialismo. Este não é apenas um livro sobre crime; é um tratado filosófico sobre o que significa ser um "homem de ideias" em um mundo que prefere a força bruta.

Introdução: Da Espionagem ao Engajamento Filosófico

O Comprometido começa no início dos anos 1980, com o protagonista e seu "irmão de sangue", Bon, chegando a Paris como refugiados. Após os eventos traumáticos do primeiro livro, o narrador está em busca de um novo propósito. No entanto, em vez de encontrar a liberdade na "Cidade Luz", ele se vê preso entre as contradições do passado colonial francês e as duras realidades da sobrevivência econômica.

O título é uma referência direta ao conceito sartreano de engagement (engajamento ou comprometimento). Enquanto no primeiro volume o herói era um "simpatizante" — alguém que observa e se infiltra —, aqui ele é forçado a se comprometer com uma realidade onde a linha entre a libertação e a criminalidade é tênue. O livro é uma exploração feroz de como os colonizados tentam se reconstruir no coração do império que os subjugou.

Paris: A Capital do Colonialismo e das Contradições

Diferente da visão romântica de Paris, Viet Thanh Nguyen apresenta a cidade como um campo de batalha cultural e racial.

O Submundo e o Tráfico

Para sobreviver, o narrador e Bon envolvem-se com uma gangue de vietnamitas locais, passando a vender drogas para a elite intelectual e boêmia de Paris.

  • A Droga como Metáfora: O tráfico de haxixe torna-se uma forma de reparação histórica distorcida. O narrador vê o vício dos franceses como uma ironia poética contra o passado colonial.

  • Conflitos de Gangues: A obra utiliza a violência das gangues para ilustrar as divisões dentro da própria diáspora vietnamita, onde traumas de guerra se transformam em disputas territoriais.

A Elite Intelectual e o Racismo Velado

O protagonista frequenta jantares na margem esquerda do Sena, onde discute filosofia com políticos e intelectuais franceses. É nesses diálogos que O Comprometido brilha ao expor o racismo benevolente e a arrogância cultural da França. O narrador percebe que, para os franceses, ele será sempre um "oriental" exótico, independentemente de quão bem ele cite Fanon ou Sartre.

Temas Centrais: Identidade, Niilismo e Libertação

Nguyen utiliza a jornada do narrador para dissecar as estruturas de poder que regem o mundo moderno.

O Peso do Niilismo

Após ser torturado e passar por campos de reeducação, o narrador chega a Paris com uma crise de identidade profunda. Ele se define frequentemente como "nada", abraçando um niilismo que é, ao mesmo tempo, sua proteção e sua prisão. A busca pelo "nada" é uma resposta ao "tudo" ideológico que quase o destruiu no Vietnã.

Feminismo e Colonização

Um dos aspectos mais inovadores de O Comprometido é a introdução de uma forte perspectiva feminista. O autor explora como o patriarcado e o colonialismo andam de mãos dadas.

  • A Reconstrução do Eu: O narrador começa a entender que sua própria visão de mundo era limitada por uma masculinidade tóxica herdada tanto da tradição quanto da guerra.

  • As Personagens Femininas: Figuras como a "Mãe" e as mulheres que ele encontra em Paris desafiam sua lógica, forçando-o a confrontar o papel da mulher na revolução e na sociedade.

Estilo Literário: Uma Mistura de Gêneros

Viet Thanh Nguyen desafia as convenções literárias ao fundir diferentes estilos em uma única narrativa coesa.

  1. Thriller de Crime: Há perseguições, tiroteios e a tensão constante do submundo parisiense.

  2. Sátira Social: O autor ridiculariza as pretensões da esquerda francesa e a hipocrisia das políticas de imigração.

  3. Ensaio Filosófico: Longas passagens exploram os conceitos de Frantz Fanon sobre a violência necessária e as contradições da liberdade.

A linguagem é ágil, sarcástica e profundamente inteligente. Nguyen não tem medo de interromper uma cena de ação para uma digressão sobre a natureza do capitalismo ou da colonização, criando uma experiência de leitura que é intelectualmente estimulante e emocionalmente exaustiva.

Perguntas Frequentes sobre O Comprometido

1. É necessário ler "O Simpatizante" antes de "O Comprometido"?

Embora O Comprometido forneça contexto suficiente para ser lido de forma independente, a experiência é muito mais rica se você conhecer a história de origem do narrador e sua relação com Bon e Man apresentada no primeiro livro.

2. O livro é tão político quanto o primeiro?

Sim, talvez até mais. Enquanto o primeiro focava na política da Guerra Fria e do exílio, O Comprometido foca na política da descolonização mental e na crítica ao capitalismo europeu.

3. Qual o papel da França na narrativa?

A França é retratada como o "pai colonizador". O livro explora a relação de amor e ódio que o narrador tem com a cultura francesa — ele ama a filosofia e a língua, mas despreza a hipocrisia imperialista do Estado francês.

Conclusão: O Compromisso com a Verdade Incômoda

O Comprometido é uma sequência rara que consegue expandir o universo do original sem repetir suas fórmulas. Viet Thanh Nguyen confirma seu lugar como um dos cronistas mais importantes da nossa era ao dar voz a um personagem que recusa respostas simples. O narrador termina a obra não como um herói, mas como um homem que aceita suas contradições.

Para o leitor, o livro deixa um desafio: o de reconhecer as estruturas invisíveis de poder que moldam nossa própria identidade. É uma obra essencial para quem busca entender as cicatrizes do colonialismo e a eterna busca humana por um lugar onde possamos ser, finalmente, nós mesmos, sem máscaras ou ideologias impostas.

(*) Notas sobre a ilustração:

A ilustração inspirada em O Comprometido, de Viet Thanh Nguyen, constrói uma composição densa e simbólica que reflete os conflitos ideológicos, identitários e existenciais do protagonista — continuidade direta de O Simpatizante.

No centro, duas figuras masculinas dominam a cena. À esquerda, um homem mais jovem segura correntes e chaves, sugerindo seu papel ambíguo como agente infiltrado — alguém simultaneamente preso e portador de segredos. Atrás dele, símbolos como a foice e o martelo remetem ao comunismo, enquanto a inscrição “ideologia e falso amor” aponta para a crítica às ilusões políticas e afetivas que permeiam sua trajetória.

À direita, um homem mais velho aparece envolto em correntes, com expressão dura e marcada. Ele parece representar o futuro, a consciência culpada ou mesmo o desdobramento psicológico do protagonista. As correntes, aqui, simbolizam não apenas aprisionamento físico, mas também o peso moral, a memória e as contradições internas.

Entre os dois, ergue-se uma arquitetura sombria de estilo europeu, evocando catedrais góticas — uma referência direta ao cenário francês onde se passa grande parte da narrativa. Faixas com a inscrição “colonialismo francês” reforçam o pano de fundo histórico, lembrando que a experiência do protagonista está profundamente ligada às heranças do imperialismo e à diáspora vietnamita.

À direita da composição, surgem outros elementos simbólicos: uma mulher elegante, associada ao desejo e à tentação; um livro em chamas com a inscrição “existencialismo sartreano”, aludindo à influência de Jean-Paul Sartre e às questões de liberdade, culpa e responsabilidade; e máscaras sobrepostas, que representam a fragmentação da identidade e o constante jogo de papéis vivido pelo protagonista.

Na parte inferior, a inscrição “crime e sobrevivência” acompanha a figura de um homem em fuga, sugerindo o mundo clandestino e violento em que ele está inserido. Já “a luta pela identidade” reforça o tema central da obra: a dificuldade de pertencer, de conciliar origens culturais e de definir quem se é em meio a sistemas opressivos e contraditórios.

Elementos decorativos, como mapas, objetos cotidianos e vinhas que se entrelaçam por toda a imagem, conectam os diferentes planos narrativos e simbólicos, criando a sensação de que tudo está interligado — passado e presente, política e intimidade, Oriente e Ocidente.

Assim, a ilustração funciona como um mosaico visual da obra de Viet Thanh Nguyen: uma narrativa marcada por espionagem, deslocamento cultural, crítica ao colonialismo e uma profunda investigação da consciência humana, onde identidade e ideologia se entrelaçam de forma inseparável.

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