Quando Viet Thanh Nguyen conquistou o Prêmio Pulitzer com O Simpatizante, ele ofereceu uma visão devastadora da Guerra do Vietnã e do exílio nos Estados Unidos. Em sua sequência, O Comprometido (The Committed), o autor eleva a aposta. Deixando para trás o sol da Califórnia pela neblina intelectual de Paris, o narrador — ainda sem nome, ainda de "duas mentes" — mergulha em uma odisseia que mistura existencialismo francês, gângsteres vietnamitas e a herança traumática do colonialismo. Este não é apenas um livro sobre crime; é um tratado filosófico sobre o que significa ser um "homem de ideias" em um mundo que prefere a força bruta.
Introdução: Da Espionagem ao Engajamento Filosófico
O Comprometido começa no início dos anos 1980, com o protagonista e seu "irmão de sangue", Bon, chegando a Paris como refugiados. Após os eventos traumáticos do primeiro livro, o narrador está em busca de um novo propósito. No entanto, em vez de encontrar a liberdade na "Cidade Luz", ele se vê preso entre as contradições do passado colonial francês e as duras realidades da sobrevivência econômica.
O título é uma referência direta ao conceito sartreano de engagement (engajamento ou comprometimento). Enquanto no primeiro volume o herói era um "simpatizante" — alguém que observa e se infiltra —, aqui ele é forçado a se comprometer com uma realidade onde a linha entre a libertação e a criminalidade é tênue. O livro é uma exploração feroz de como os colonizados tentam se reconstruir no coração do império que os subjugou.
Paris: A Capital do Colonialismo e das Contradições
Diferente da visão romântica de Paris, Viet Thanh Nguyen apresenta a cidade como um campo de batalha cultural e racial.
O Submundo e o Tráfico
Para sobreviver, o narrador e Bon envolvem-se com uma gangue de vietnamitas locais, passando a vender drogas para a elite intelectual e boêmia de Paris.
A Droga como Metáfora: O tráfico de haxixe torna-se uma forma de reparação histórica distorcida. O narrador vê o vício dos franceses como uma ironia poética contra o passado colonial.
Conflitos de Gangues: A obra utiliza a violência das gangues para ilustrar as divisões dentro da própria diáspora vietnamita, onde traumas de guerra se transformam em disputas territoriais.
A Elite Intelectual e o Racismo Velado
O protagonista frequenta jantares na margem esquerda do Sena, onde discute filosofia com políticos e intelectuais franceses. É nesses diálogos que O Comprometido brilha ao expor o racismo benevolente e a arrogância cultural da França. O narrador percebe que, para os franceses, ele será sempre um "oriental" exótico, independentemente de quão bem ele cite Fanon ou Sartre.
Temas Centrais: Identidade, Niilismo e Libertação
Nguyen utiliza a jornada do narrador para dissecar as estruturas de poder que regem o mundo moderno.
O Peso do Niilismo
Após ser torturado e passar por campos de reeducação, o narrador chega a Paris com uma crise de identidade profunda. Ele se define frequentemente como "nada", abraçando um niilismo que é, ao mesmo tempo, sua proteção e sua prisão. A busca pelo "nada" é uma resposta ao "tudo" ideológico que quase o destruiu no Vietnã.
Feminismo e Colonização
Um dos aspectos mais inovadores de O Comprometido é a introdução de uma forte perspectiva feminista. O autor explora como o patriarcado e o colonialismo andam de mãos dadas.
A Reconstrução do Eu: O narrador começa a entender que sua própria visão de mundo era limitada por uma masculinidade tóxica herdada tanto da tradição quanto da guerra.
As Personagens Femininas: Figuras como a "Mãe" e as mulheres que ele encontra em Paris desafiam sua lógica, forçando-o a confrontar o papel da mulher na revolução e na sociedade.
Estilo Literário: Uma Mistura de Gêneros
Viet Thanh Nguyen desafia as convenções literárias ao fundir diferentes estilos em uma única narrativa coesa.
Thriller de Crime: Há perseguições, tiroteios e a tensão constante do submundo parisiense.
Sátira Social: O autor ridiculariza as pretensões da esquerda francesa e a hipocrisia das políticas de imigração.
Ensaio Filosófico: Longas passagens exploram os conceitos de Frantz Fanon sobre a violência necessária e as contradições da liberdade.
A linguagem é ágil, sarcástica e profundamente inteligente. Nguyen não tem medo de interromper uma cena de ação para uma digressão sobre a natureza do capitalismo ou da colonização, criando uma experiência de leitura que é intelectualmente estimulante e emocionalmente exaustiva.
Perguntas Frequentes sobre O Comprometido
1. É necessário ler "O Simpatizante" antes de "O Comprometido"?
Embora O Comprometido forneça contexto suficiente para ser lido de forma independente, a experiência é muito mais rica se você conhecer a história de origem do narrador e sua relação com Bon e Man apresentada no primeiro livro.
2. O livro é tão político quanto o primeiro?
Sim, talvez até mais. Enquanto o primeiro focava na política da Guerra Fria e do exílio, O Comprometido foca na política da descolonização mental e na crítica ao capitalismo europeu.
3. Qual o papel da França na narrativa?
A França é retratada como o "pai colonizador". O livro explora a relação de amor e ódio que o narrador tem com a cultura francesa — ele ama a filosofia e a língua, mas despreza a hipocrisia imperialista do Estado francês.
Conclusão: O Compromisso com a Verdade Incômoda
O Comprometido é uma sequência rara que consegue expandir o universo do original sem repetir suas fórmulas. Viet Thanh Nguyen confirma seu lugar como um dos cronistas mais importantes da nossa era ao dar voz a um personagem que recusa respostas simples. O narrador termina a obra não como um herói, mas como um homem que aceita suas contradições.
Para o leitor, o livro deixa um desafio: o de reconhecer as estruturas invisíveis de poder que moldam nossa própria identidade. É uma obra essencial para quem busca entender as cicatrizes do colonialismo e a eterna busca humana por um lugar onde possamos ser, finalmente, nós mesmos, sem máscaras ou ideologias impostas.
(*) Notas sobre a ilustração:
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