Andrômaca, de Eurípides, encenada provavelmente entre 430 e 420 antes da era cristã, é uma dessas tragédias que a tradição crítica muitas vezes relegou a um segundo plano diante do fulgor de Medeia, das Troianas ou das Bacantes, mas que, justamente por isso, guarda uma potência dramática e política que merece ser redescoberta com a atenção que lhe é devida, pois se nas grandes obras o dramaturgo explorou os extremos da vingança, do luto coletivo e do delírio místico, aqui ele nos oferece um retrato mais contido, mas não menos cruel, da condição da mulher estrangeira e cativa em solo grego, da violência cotidiana que se exerce sobre os corpos femininos na esteira da guerra, e da impossibilidade de reconstruir uma vida digna quando se é reduzida a espólio e a instrumento de procriação.
Essa aparente modéstia da trama, que se desenrola na Tessália, na corte do rei Peleu, onde Andrômaca, a viúva de Heitor, agora concubina de Neoptólemo, filho de Aquiles, luta pela sobrevivência de seu filho Molosso diante das maquinações de Hermione, a esposa legítima e estéril do mesmo Neoptólemo, revela-se um microcosmo das tensões que atravessam a sociedade grega do século V, especialmente no que diz respeito ao estatuto da mulher, à legitimidade dos herdeiros, à xenofobia e à fragilidade dos laços familiares quando mediados pelo poder e pela ambição. É nesse cenário doméstico, aparentemente menor, que Eurípides constrói uma das suas personagens mais comoventes e resilientes, uma mulher que já perdeu tudo, marido, cidade, liberdade, e que, mesmo assim, encontra forças para proteger o único bem que lhe resta, o filho de sangue troiano que, nas palavras do coro, é "a última chama de Ílion", e essa metáfora do fogo que resiste ao apagar-se percorre toda a peça como um fio subterrâneo que liga Andrômaca não apenas ao passado glorioso de Troia, mas a um futuro incerto onde a memória de Heitor e a linhagem dos heróis troianos poderão, quem sabe, sobreviver através de Molosso.
Por isso a tensão entre Hermione, a grega arrogante e frígida, e Andrômaca, a bárbara cativa que ainda ousa sonhar com a dignidade, é muito mais do que um simples triângulo amoroso, é o confronto entre duas concepções de mundo, entre a lei da pólis que exclui o estrangeiro e a lei do coração que transcende fronteiras, entre a esterilidade da violência e a fertilidade da memória. É precisamente nesse embate que a peça atinge sua densidade trágica, pois Hermione, estéril e desesperada com a possibilidade de que o filho da escrava herde o trono da Fársala, não hesita em tramar a morte de Andrômaca e de Molosso, e essa trama, que conta com a cumplicidade de Menelau, pai de Hermione e rei de Esparta, transforma o palácio de Peleu num campo de batalha onde as armas são a intriga, a calúnia e o arbítrio do mais forte. Andrômaca, sozinha e sem aliados, refugia-se no altar de Tétis, a deusa-mãe de Aquiles, numa cena que ecoa as súplicas das Suplicantes de Ésquilo, mas com um desamparo muito maior, porque ela não apela à justiça dos homens, que sabe corrompida, mas à memória dos deuses, à promessa de que o sofrimento não é eterno e de que o tempo trará o reconhecimento que os vivos negam.
A chegada de Menelau, com seu discurso pretensamente jurídico e sua arrogância espartana, é um dos momentos mais afiados da peça, porque Eurípides, que jamais perdeu uma oportunidade de criticar a hipocrisia dos poderosos, mostra o rei de Esparta como um homem mesquinho, movido pelo orgulho ferido de sua filha e pela defesa intransigente da pureza da linhagem grega. O diálogo entre Menelau e Andrômaca é um duelo de argumentos onde a razão está claramente do lado da cativa, mas a força está do lado do vencedor, e essa dissociação entre o discurso e o poder, entre o que é justo e o que é imposto, atravessa toda a tragédia como um diagnóstico amargo da política ateniense contemporânea, que se ufanava de sua democracia e de seu logos, mas que na prática subjugava cidades e mulheres com a mesma violência que Menelau exerce sobre Andrômaca.
Quando Menelau ameaça matar Molosso diante dos olhos da mãe, ele não está apenas cometendo um ato de crueldade individual, está reproduzindo a lógica do exterminador que vimos em As Troianas, a lógica de que o vencido não tem direito à posteridade, e Andrômaca, que já perdeu Astíanax nas muralhas de Ílion, vê-se novamente diante da perspectiva de ver seu filho ser arrancado de seus braços. Essa repetição do trauma, esse retorno do mesmo sob nova roupagem, é o que confere à peça seu tom de desolação cíclica, porque a guerra não termina quando os exércitos se retiram, ela continua no corpo das mulheres, nos filhos que nascem da violência, nas disputas pela herança que reavivam antigas hostilidades. A defesa de Andrômaca, que ela faz com uma eloquência que nenhuma educação espartana poderia igualar, é um dos ápices da retórica euripidiana, pois ela lembra a Menelau que a verdadeira nobreza não está no sangue, mas nas ações, que Heitor, seu marido, foi um herói não porque era troiano, mas porque era justo, e que o filho que ela gerou de Neoptólemo, ainda que fruto de uma relação forçada, é também neto de Aquiles, e que matá-lo seria um crime contra a própria memória do herói aqueu. Tal argumentação, que apela à razão e ao sentimento ao mesmo tempo, expõe a fragilidade moral de Menelau, que responde com a violência pura e simples, ordenando a execução imediata de Molosso. É nesse momento que a peça poderia se converter num mero melodrama de perseguição e morte, se não fosse a intervenção salvadora de Peleu, o velho pai de Aquiles, que chega em cena para proteger a nora e o neto, e sua entrada é a inversão completa do quadro de forças, porque Peleu é o símbolo da velha ordem heroica, da Grécia anterior à guerra de Troia, onde a hospitalidade e o respeito ao estrangeiro ainda eram virtudes. Seu confronto com Menelau é um choque de gerações e de valores, pois o velho rei da Tessália, com sua autoridade moral e sua memória das antigas alianças, consegue envergonhar o espartano e fazê-lo recuar, embora não sem antes deixar claro que a paz que se restabelece é frágil e provisória, e que o ódio entre gregos e troianos, entre espartanos e tessálios, continuará a fermentar sob a superfície, pronto a irromper na primeira oportunidade.
A figura de Peleu, aliás, é um dos grandes achados de Eurípides nesta peça, porque ele não é apenas o velho sábio que resolve o conflito com sua autoridade, mas uma personagem trágica em si mesmo, que já enterrou seus amigos e seu filho, que viu sua linhagem ameaçada e que carrega o peso de uma vida inteira de glória e de perda. Sua fala sobre a velhice e a solidão é uma das passagens mais comoventes de todo o teatro grego, porque ele descreve com uma lucidez desoladora o que significa sobreviver a todos os que se amou, e essa sobrevivência, que nas Troianas era o destino de Hécuba, aqui se repete em Peleu, como se Eurípides quisesse mostrar que a tragédia não faz distinção entre gregos e bárbaros, que todos os velhos, todas as mães, todos os que perderam seus filhos compartilham a mesma dor, independente da pátria, e essa universalização do sofrimento, que atravessa toda a obra de Eurípides, é talvez o seu legado mais profundo à humanidade, porque ele nos ensina que a guerra não tem vencedores, apenas sobreviventes que carregam suas cicatrizes para o resto da vida.
No entanto, a resolução que Peleu proporciona não é definitiva, e a peça se encaminha para um desfecho que, à primeira vista, pode parecer inesperado, mas que na verdade é a confirmação da lógica trágica que rege o universo euripidiano: Neoptólemo, que estava ausente durante todo o conflito, retorna a Delfos e é assassinado por Orestes, que age movido por uma vingança que nada tem a ver com Andrômaca ou Hermione, mas que está enraizada na longa e sanguinária história da casa de Atreu.
Essa irrupção da violência externa no final da peça mostra que Andrômaca, por mais que tenha resistido e protegido seu filho, é apenas uma peça num tabuleiro maior, onde os deuses e os heróis movem os fios do destino sem se importar com as pequenas vitórias ou derrotas dos mortais; e com a morte de Neoptólemo, Hermione foge, desesperada, e Peleu, mais uma vez, enterra um ente querido.
A peça termina com a partida de Andrômaca e Molosso para o Épiro, onde o menino fundará uma nova dinastia, uma linhagem que, segundo a tradição, dará origem aos reis do Épiro, incluindo o famoso Pirro, e essa fuga final, que não é uma fuga para a liberdade, mas para um exílio menos hostil, encerra a peça com uma nota de ambivalência que é a marca registrada de Eurípides, porque Andrômaca sobrevive, mas não retorna à sua pátria, seu filho prospera, mas não como troiano, e a memória de Heitor se perpetua, mas através de um sangue mestiço que os gregos jamais reconhecerão como legítimo.
O coro, formado por mulheres da Tessália, desempenha nesta peça um papel de mediação e de compaixão que contrasta com a dureza das protagonistas, e suas canções, que celebram a beleza da natureza e ao mesmo tempo deploram a crueldade dos homens, funcionam como um contraponto lírico que alivia, por instantes, a tensão dramática, mas também como um lembrete constante de que o mundo exterior, o mundo das montanhas e dos rios, dos deuses e dos ritos, continua indiferente às pequenas intrigas do palácio. Essa indiferença da natureza, que é também a indiferença dos deuses, confere à peça um pano de fundo cósmico que a eleva acima do melodrama doméstico, transformando-a numa meditação sobre o lugar do homem no universo, sobre a fugacidade da glória e a permanência do sofrimento.
Quando o coro canta sobre a sorte de Andrômaca, lembrando que ela foi outrora rainha de Troia, nora de Príamo, esposa do maior dos heróis, e que agora é uma escrava que implora por sua vida e pela vida de seu filho, há um eco das elegias das Troianas, mas também uma nota nova, mais resignada, mais ciente de que a memória é o único refúgio contra o esquecimento, e que mesmo a mais humilde das mulheres pode guardar dentro de si a chama de uma civilização inteira; essa dimensão memorialística de Andrômaca, aliás, é o que a distingue das outras heroínas de Eurípides, porque Medeia se vinga, Hécuba se lamenta, Ágave se desespera, mas Andrômaca resiste. E sua resistência não é ativa nem passiva, é uma resistência da memória, da fidelidade a um passado que a faz continuar viva mesmo quando tudo ao redor parece conspirar para sua aniquilação, e é por isso que, quando Peleu lhe oferece proteção, ela não esquece que é troiana, não renega Heitor, não se curva à humilhação como se fosse natural, mas ergue a cabeça e afirma sua dignidade, e essa dignidade, conquistada no sofrimento e na solidão, é a verdadeira vitória da peça, porque ela não derrota Menelau nem Hermione, não recupera Troia nem o amor perdido, mas demonstra que uma mulher pode ser dona de sua própria história, mesmo quando todos os poderes do mundo se voltam contra ela.
A crítica social e política que Eurípides insere em Andrômaca é tanto mais incisiva quanto mais subterrânea, pois ele não denuncia abertamente a guerra ou a escravidão, mas mostra, através das relações entre os personagens, como a violência estrutural corrompe não apenas os vencidos, mas também os vencedores. Hermione, que parece ter todos os privilégios, é na verdade uma figura patética e desprezível, porque sua infertilidade a torna inútil aos olhos do marido, e sua obsessão por eliminar Andrômaca e Molosso revela uma alma vazia, incapaz de gerar qualquer coisa além de ódio. Tal esterilidade física e espiritual de Hermione é o contraponto perfeito à fecundidade simbólica de Andrômaca, que, mesmo cativa, é capaz de dar à luz um filho e de nutrir nele a memória de um mundo que já não existe.
Esta fecundidade, que não é apenas biológica mas também cultural, é a resposta de Eurípides ao discurso xenófobo de Menelau, que quer purificar a Grécia de toda influência estrangeira, porque o dramaturgo sabia que a grandeza de Atenas, e da própria civilização grega, não estava em sua pureza étnica, mas em sua capacidade de assimilar o outro, de aprender com a barbárie, de transformar a diversidade em riqueza. Andrômaca, ao sobreviver e ao criar seu filho em solo grego, é a prova viva de que as fronteiras entre gregos e bárbaros são porosas, de que o sangue troiano pode correr nas veias de um rei do Épiro, de que a história é feita de encontros e misturas, e não de exclusões e genocídios. Assim, Andrômaca, que começa como uma figura de luto e desamparo, termina como uma figura de esperança e continuidade, porque seu filho Molosso, embora exilado, fundará uma dinastia, e essa dinastia, embora não seja troiana, carregará em seu nome a memória de Heitor e de Troia, perpetuando, para além da morte e da destruição, a chama que Eurípides, com sua compaixão e sua inteligência, soube acender no palco de Atenas.
Por fim, ao recolher os fragmentos desta tragédia menos celebrada, somos levados a reconhecer que Andrômaca é, de todas as heroínas euripidianas, talvez a mais humana, porque sua grandeza não está na desmesura de Medeia nem no delírio de Ágave, mas na obstinação silenciosa com que enfrenta a adversidade, no amor inabalável por um filho que é ao mesmo tempo sua condenação e sua salvação, e na capacidade de encontrar, no meio da ruína, uma razão para continuar. Essa razão, que é a memória de Heitor, a promessa de um futuro para Molosso, a afirmação de que a vida vale a pena mesmo quando tudo parece perdido, é o que torna Andrômaca uma peça tão necessária nos dias de hoje, quando tantas mulheres e tantos refugiados, em todo o mundo, enfrentam a mesma violência, a mesma despossessão, o mesmo olhar desconfiado do outro.
Quando a política do ódio e da exclusão ameaça mais uma vez rasgar o tecido frágil da humanidade, Eurípides, com sua Andrômaca, nos lembra que a resistência não é sempre barulhenta, que a revolução pode ser silenciosa, que a dignidade pode habitar os gestos mais pequenos, e que, por mais que os poderosos tentem apagar a memória dos vencidos, há sempre uma voz, uma canção, uma história que insiste em ser contada, e essa voz, essa canção, essa história, é a própria essência do teatro, é a razão pela qual, mais de dois milênios depois, continuamos a ler, a encenar e a nos emocionar com Andrômaca, a cativa de Troia que se recusou a ser apenas uma vítima e que, através do amor e da memória, construiu uma vitória que nenhum exército, nenhum rei, nenhuma guerra poderá jamais destruir, porque ela não está na posse de um trono ou de uma cidade, mas na posse de si mesma, na consciência de sua própria história, na certeza de que, enquanto houver quem a lembre, Heitor não terá morrido completamente, e que, enquanto houver quem ame, a vida continuará a florescer, como a primavera que teimosamente renasce após o inverno mais cruel.
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Eu Versos Eu, Jean Monti
(**) Notas sobre a ilustração:
Esta ilustração retrata o confronto central da tragédia "Andrômaca", de Eurípides, encenada no palco de um teatro grego clássico ao ar livre.
Abaixo estão os detalhes que explicam os elementos da imagem:
Andrômaca e seu Filho Molosso (Ao Centro): Ajoelhada ao lado do altar sagrado da deusa Tétis, Andrômaca — antiga princesa de Troia, agora reduzida à condição de escrava — surge com vestes humildes e mãos atadas. Ela abraça protetoramente seu jovem filho Molosso, buscando o direito inalienável de asilo religioso para salvar a vida do pequeno.
Hermíone e Menelau (À Direita): Hermíone, a orgulhosa esposa de Neoptólemo, trajando vestes nobres e joias, aponta com fúria para Andrômaca. Ao seu lado está seu pai, o rei Menelau de Esparta, segurando um cetro régio e trajando um manto vermelho, articulando a ameaça de morte contra a cativa e seu filho por ciúme e rivalidade doméstica.
O Coro de Mulheres de Fthia (À Esquerda): À esquerda do altar, o Coro de mulheres tessálias, vestindo túnicas azuis e segurando cajados, gesticula com apreensão e empatia diante da injustiça cometida contra os suplicantes.
A Skene e a Inscrição: O prédio do palco (skene) representa o templo e o palácio em Fthia. No friso superior sobre as colunas, destaca-se a inscrição em grego antigo: ΑΝΔΡΟΜΑΧΗ ΕΥΡΙΠΙΔΟΥ (Andrômaca de Eurípides).
A Atmosfera e a Plateia: Sob o céu do crepúsculo e a iluminação suave das tochas, a plateia ocupa as arquibancadas (theatron), acompanhando o drama sobre opressão, inveja e os horrores do pós-guerra.
A cena sintetiza o tema principal da peça: o desamparo de Andrômaca diante da arrogância dos governantes espartanos e a luta desesperada de uma mãe para proteger seu filho das intrigas da casa real.

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