Encenada em 415 antes da era cristã, num momento em que Atenas, embriagada pelo ímpeto imperialista, preparava-se para lançar a desastrosa Expedição à Sicília, As Troianas de Eurípides emerge não como uma mera tragédia mitológica, mas como o mais devastador libelo antiguerra já concebido no palco da antiguidade, uma peça que transpira cinzas e lágrimas e que ousou transformar o esplendor épico da Guerra de Troia num cenário de escombros onde apenas restam mulheres, crianças e a memória agonizante de uma civilização reduzida a pó. Se em Medeia o dramaturgo nos havia brindado com a fúria ativa de uma heroína que se faz justiça com as próprias mãos, aqui ele nos oferece um quadro de sofrimento passivo, de dor arrastada e incontornável, onde as vítimas não têm armas nem venenos, apenas a voz para lamentar e a dignidade para testemunhar o fim do seu mundo, e essa diferença crucial faz de As Troianas uma obra de desolação tão absoluta que o próprio conceito de catarse aristotélica parece vacilar diante de tamanho abismo, pois não há purificação possível quando o espectador é obrigado a contemplar, sem nenhum lenitivo, a sorte das prisioneiras de guerra enquanto os deuses, representados por Poseidon e Atena no prólogo, se afastam com indiferença cínica da cidade que outrora amaram, deixando claro que o Olimpo não se comove com o sangue derramado e que a justiça divina, se é que existe, opera segundo lógicas inacessíveis ou simplesmente não opera. E é precisamente esse abandono transcendental que confere à peça seu tom de réquiem irremediável, pois as mulheres troianas não esperam salvação dos céus nem dos homens, sabendo-se condenadas a servir como espólios de guerra nos leitos dos vencedores, e a grandeza trágica de Eurípides está justamente em extrair beleza e resistência dessa absoluta impotência, transformando o lamento em forma de arte e a memória em trincheira contra o esquecimento.
A peça, que se desenrola diante das muralhas ainda fumegantes de Ílion, não tem uma trama no sentido tradicional do termo, mas antes uma sucessão de encontros e despedidas que compõem um mosaico doloroso. Hécuba, a rainha outrora poderosa, agora prostrada e envelhecida, é o eixo em torno do qual giram as demais figuras femininas, e sua inteligência agônica, ainda afiada apesar da queda, permite-lhe perceber que a verdadeira derrota não está na perda da cidade, mas na dissolução de todos os laços que davam sentido à existência. Cada uma das mulheres que desfilam em cena representa uma faceta distinta dessa dissolução, como Cassandra, a profetisa louca que, ao ser destinada como concubina de Agamêmnon, irrompe em cena com um histerismo trágico que beira o sublime, pois ela, que sempre anunciou a ruína de Troia sem ser ouvida, agora celebra seu próprio casamento fúnebre com a certeza de que sua união com o comandante grego trará a morte a ele e a destruição à própria casa dos Atridas, invertendo assim, num lampejo de lucidez delirante, a posição de vítima e algoz. Essa cena, de uma ironia cortante, é um dos momentos mais perturbadores do teatro ocidental porque nos força a rir e a chorar simultaneamente diante da insanidade que se revela a única forma de lucidez num mundo que enlouqueceu com a guerra.
Em seguida, Andrômaca, a viúva de Heitor, traz à cena a dor da maternidade despedaçada, pois seu filho Astíanax, a única esperança de continuidade da linhagem troiana, é condenado pelos gregos a ser lançado das muralhas, num ato de crueldade pragmática que visa eliminar qualquer possibilidade de vingança futura. O diálogo entre Hécuba e Andrômaca sobre o destino da criança é de uma beleza desoladora, pois a avó e a mãe trocam palavras sobre como seria melhor para o menino ter morrido nos braços do pai Heitor do que nas mãos de algozes estrangeiros. Eurípides, com uma sensibilidade que antecipa o existencialismo moderno, mostra que a morte de uma criança inocente não é um acidente colateral, mas o sintoma mais puro da lógica perversa que rege toda guerra, a lógica que exige o aniquilamento do outro não apenas no corpo, mas na posteridade, na memória e na cultura. O momento em que Taltíbio, o arauto grego, entrega a Hécuba o corpo do pequeno Astíanax, trazido sobre o escudo de Heitor que outrora aterrorizara os aqueus, é o coração pulsante e dilacerado da peça, pois aquele escudo, símbolo máximo da resistência troiana, converte-se agora em caixão improvisado, e a rainha, ao receber o neto morto, profere uma das elegias mais pungentes da literatura universal, onde cada objeto, cada carícia impossível, cada promessa de futuro desfeita é recitada como um inventário de perdas que ultrapassa o individual para se tornar o luto de toda uma civilização. Essa cena fúnebre, encenada com uma economia de meios impressionante, atinge um pathos tão extremo que o público ateniense, que naquele mesmo ano debatia a crueldade do massacre de Melos, não poderia deixar de reconhecer nos corpos troianos o reflexo de suas próprias vítimas contemporâneas.
A aparição de Helena, a causa nominal de toda aquela devastação, introduz um debate retórico de sofisticação brilhante, pois a princesa espartana, invocando todos os argumentos de sua beleza e da influência divina para justificar sua traição e sua fuga, enfrenta a ira de Hécuba num julgamento sumário diante de Menelau, e aí Eurípides desfere um golpe duplo: ao mesmo tempo que desmascara a hipocrisia de Helena, que se esconde atrás do discurso para salvar a pele, ele também desmascara a fragilidade de Menelau, que, apesar de prometer vingança, acaba por ceder à beleza da esposa e poupá-la, mostrando que os vencedores, longe de serem arautos de qualquer justiça, são tão movidos por paixões mesquinhas e interesses torpes quanto os perdedores. Tal cena, que tantos intérpretes viram como um desvio cômico ou satírico, é na verdade a confirmação de que a guerra, em sua essência, nunca é travada por ideais elevados, mas por vaidades, desejos e ambições que se ocultam sob o manto da honra.
Quando, ao final, Troia é incendiada diante dos olhos das mulheres que partiram, a peça se encerra não com uma nota de esperança, mas com a imagem das prisioneiras sendo arrastadas para os navios gregos, enquanto o fogo consome os templos e as casas. Hécuba, em sua última fala, deseja lançar-se nas chamas para morrer com sua cidade, mas é impedida, condenada a viver como escrava, e essa sobrevivência forçada é talvez a punição mais cruel que Eurípides poderia imaginar, pois a verdadeira tragédia não é morrer, mas continuar existindo quando tudo o que se amava foi aniquilado, e assim, a peça termina num silêncio que é mais eloquente do que qualquer discurso, o silêncio do extermínio cultural, da língua que será esquecida, dos deuses que serão trocados, das crianças que não crescerão.
Ao longo dos séculos, As Troianas foi relida e reencenada em contextos dos mais diversos belicosos, porque sua mensagem, infelizmente, permanece terrivelmente atual, e essa atualidade não decorre de uma pretensa universalidade abstrata, mas da concretude crua com que Eurípides descreve os mecanismos da opressão: a violência sexual contra as mulheres vencidas, a separação forçada das famílias, a destruição da memória histórica, a hipocrisia dos vencedores que se autoproclamam portadores da civilização enquanto praticam a barbárie, e, acima de tudo, a cumplicidade dos espectadores que, do alto de sua segurança, assistem ao espetáculo da desgraça alheia sem mover um dedo, exatamente como o público ateniense assistia à peça enquanto seus generais planejavam novas conquistas. Essa dimensão metateatral, que faz do palco um espelho da assembleia política, confere à obra uma força subversiva que a censura dos poderosos sempre tentou silenciar, mas que a arte, em sua teimosia, insiste em fazer ouvir. A figura de Hécuba, em particular, transcende o tempo porque ela não é uma heroína trágica no molde de Antígona ou Electra, que lutam por princípios claros e definidos; Hécuba é simplesmente uma mãe, uma avó, uma mulher idosa que vê tudo desmoronar e que, mesmo assim, encontra forças para enterrar seu neto, para discutir com Helena, para lembrar aos gregos que eles também serão um dia esquecidos. Tal resistência cotidiana, feita de gestos mínimos e palavras sábias, é a única vitória possível num campo de batalhas onde a derrota já está consumada; Eurípides, com sua lucidez implacável, sabia que a glória militar é efêmera e que o verdadeiro legado de uma civilização não está nas estátuas dos generais, mas na memória das mães que choram seus filhos, e por isso ele escreveu uma peça onde o coro, composto por mulheres troianas, não canta hinos de vitória, mas canções de trabalho forçado e saudade da pátria, entoando melodias que são ao mesmo tempo lamentos e afirmações de identidade, pois enquanto houver uma voz feminina para cantar as montanhas do Ida e as águas do Escamandro, Troia não terá morrido completamente, sobreviverá na poesia que a atravessa.
Contudo, a visão de Eurípides é demasiado sombria para se refugiar em consolos fáceis: ao colocar em cena a disputa entre Helena e Hécuba, ele parece sugerir que a palavra, o logos grego tão celebrado pela filosofia, pode ser pervertido para justificar tanto o crime quanto a virtude, e que a retórica, longe de ser ferramenta de verdade, é um jogo de poder onde vence quem fala melhor, não quem tem razão; e essa desconfiança radical em relação à linguagem e à política, que atravessa toda sua obra tardia, faz de As Troianas uma peça profundamente moderna, que dialoga com o niilismo e o surrealismo do século XX, com o teatro do absurdo de Beckett e a filosofia da desconstrução, porque ela nos mostra que as grandes narrativas, sejam elas religiosas, nacionais ou familiares, são frágeis construções humanas que o vento da história pode derrubar num instante, restando apenas o corpo sofredor, a carne exposta à violência, e a consciência dolorosa de que nenhum deus nos ouve e nenhuma justiça nos redime. O famoso coro que descreve a queda de Troia como a queda de uma árvore gigantesca, cujas raízes foram cortadas, é uma metáfora que ressoa com eco profundo em qualquer sociedade que se veja ameaçada pela guerra, pois a árvore representa não apenas a cidade, mas a própria ideia de pertencimento, de lar, de continuidade geracional, e quando essa árvore cai, o que resta são cacos, fragmentos de vida que as mulheres recolhem como relíquias de um tempo que não voltará, e é nessa recolha de fragmentos que a peça se realiza como ato de testemunho, como recusa do esquecimento que todo vencedor impõe ao vencido.
Eurípides, ao dar voz às silenciadas, ao transformar o espólio de guerra em protagonista, realiza uma operação política da mais alta ordem, pois ele desloca o olhar do centro da ação heroica para as margens onde a história oficial não costuma olhar, e com isso ele não apenas humaniza o inimigo troiano, mas também desumaniza o grego vencedor, mostrando que a vitória militar é quase sempre uma derrota ética, uma mancha na alma do vencedor que nenhum troféu poderá apagar, e essa inversão de valores, que coloca o sofrimento das mulheres acima da glória dos generais, é a marca registrada do gênio euripidiano, o mesmo gênio que em Medeia fizera da infanticida uma heroína e que aqui faz das escravas as verdadeiras senhoras da dignidade.
Em última análise, As Troianas não é uma peça sobre Troia, mas sobre nós mesmos, sobre nossa capacidade de olhar para o outro em sua desgraça sem desviar o rosto, sobre nossa cumplicidade com as guerras que se travam em nosso nome, sobre o preço que pagamos por nossa indiferença, e ao terminar a leitura ou a encenação, o espectador fica não com a sensação de ter aprendido uma lição moral, mas com um desconforto profundo, uma ferida na alma que não cicatriza, porque Eurípides não oferece respostas nem consolos, ele apenas mostra o abismo e nos obriga a encará-lo, e nesse confronto com a dor pura, sem nenhum véu estético que a suavize, reside a grandeza e a terrível beleza dessa obra-prima, que continua a queimar como as chamas de Ílion na consciência da humanidade, lembrando-nos a cada encenação que a barbárie não é um atributo dos outros, dos bárbaros de além-fronteiras, mas uma possibilidade sempre latente dentro de cada cidade, dentro de cada império, dentro de cada coração que se deixa corromper pelo desejo de poder e pela cegueira da vingança.
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Eu Versos Eu, Jean Monti
(**) Notas sobre a ilustração:
Esta ilustração retrata o clímax devastador da tragédia grega "As Troianas", de Eurípides, apresentada em um teatro de pedra ao ar livre sob um céu dramático de crepúsculo e chamas.
Abaixo estão os detalhes que explicam os elementos da imagem:
Hécuba e o Corpo de Astíanaxe (O Centro Dramático): No centro da orchestra, a idosa rainha Hécuba está ajoelhada em profundo luto, segurando nos braços o corpo sem vida de seu neto, o pequeno Astíanaxe, envolto em um sudário branco. Ao seu lado, a profetisa Cassandra ergue uma tocha acesa em desespero e fúria, enquanto um soldado grego observa a cena com ar solene.
Andrômaca e o Coro de Troianas (Lados e Fundo): À direita, Andrômaca chora a perda do filho e de seu esposo Heitor. Ao redor e ao fundo, o Coro das mulheres troianas, vestidas com túnicas rasgadas e em tons de terra, ergue as mãos aos céus em gestos de lamentação, horror e desespero diante do exílio e da escravidão iminentes.
Os Soldados Gregos (À Direita ao Fundo): Um contingente de soldados gregos armados com lanças, elmos e escudos dourados permanece de guarda, representando as forças de ocupação que partilham as mulheres derrotadas como espólios de guerra.
A Skene em Chamas e a Inscrição: O edifício do palco (skene) simula as ruínas fumegantes e destruídas de Tróia, com colunas quebradas e chamas visíveis ao fundo. No friso superior do frontão, lê-se a inscrição: ΑΣ ΤΡΟΙΑΝΑΣ ΕΥΡΙΠΙΔΟΥ (As Troianas de Eurípides).
O Cenário e a Plateia: Nas arquibancadas laterais (theatron), uma grande plateia assiste atenta ao espetáculo. Ao fundo, no topo das colinas, a vista da Acrópole contrasta com a fumaça e as chamas de Tróia em chamas, unindo o mito ao espaço cênico clássico.
A imagem sintetiza o manifesto pacifista da obra de Eurípides: a dor das vítimas indefesas, o horror do massacre dos inocentes e a futilidade da vitória militar sobre as ruínas de uma civilização destruída.

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