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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Fernando Pessoa e o Labirinto da Alma: Entre a Razão, a Emoção e a Modernidade

 A ilustração apresenta uma cena simbólica e onírica que celebra o conhecimento, a pluralidade e a imaginação humana. No centro, um homem de terno e chapéu — figura que remete ao intelectual moderno, ao escritor ou ao leitor erudito — segura um livro aberto, como se estivesse lendo ou mediando saberes. Ele ocupa o eixo da composição, sugerindo o papel do sujeito que transita entre diferentes mundos, épocas e formas de pensamento.  Ao redor dele, ergue-se uma imensa biblioteca circular, cujas estantes se prolongam como um labirinto infinito. Os livros simbolizam a memória acumulada da humanidade: ciência, literatura, filosofia, história. O formato circular reforça a ideia de totalidade, continuidade e eterno retorno do conhecimento.  Em cada lado da cena surgem figuras clássicas — esculturas, filósofos, escribas — que evocam a herança greco-romana e o nascimento do pensamento racional. Ao mesmo tempo, aparecem elementos naturais, como árvores floridas e personagens contemplativos, que sugerem introspecção, sensibilidade e ligação com o mundo interior. A convivência entre razão e imaginação é um dos eixos centrais da imagem.  No plano superior, o céu se abre para o fantástico: uma cidade flutuante, um navio navegando entre nuvens, engrenagens cósmicas e astros. Esses elementos apontam para o universo, para o sonho, para a utopia e para a ideia de que o pensamento humano não se limita ao concreto. A frase “Seja plural como o universo!” funciona como síntese da proposta visual: a defesa da multiplicidade de perspectivas, identidades e saberes.  Já ao fundo, prédios modernos e um trem indicam o avanço da modernidade e do progresso técnico, criando um diálogo entre passado, presente e futuro. A ilustração, como um todo, sugere que o ser humano se constrói na interseção entre tradição e inovação, entre ordem e caos, entre o racional e o poético.  Trata-se, portanto, de uma imagem que celebra a cultura, o conhecimento e a complexidade do “eu”, convidando o observador a aceitar a pluralidade como essência da experiência humana.

Introdução: O Homem que Foi Muitos

Falar de Fernando Pessoa é mergulhar em um dos maiores enigmas da literatura mundial. Mais do que um poeta, Pessoa foi um "drama em gente", um arquiteto de identidades que não se contentou em viver uma única existência. No coração de sua obra, reside uma tensão perpétua que define a condição humana moderna: o conflito entre o sentir e o pensar, entre a herança do passado clássico e o choque da industrialização do século XX.

Este artigo explora como Pessoa e seus principais heterônimos — Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos — transformaram a crise existencial e cultural de Portugal em uma linguagem universal, equilibrando-se no fio da navalha entre a tradição e a modernidade.

A Tensão entre Razão e Emoção: O Drama do Ortônimo

O "Pessoa ele-mesmo", ou Pessoa Ortônimo, é marcado por uma intelectualização profunda do sentimento. Para ele, o ato de sentir passa invariavelmente pelo filtro do pensamento, o que gera uma angústia metafísica única.

O "Fingimento" Poético

A famosa frase "O poeta é um fingidor" não sugere que Pessoa fosse falso, mas sim que a arte exige a transmutação da dor real em dor intelectual.

  • A Razão: Analisa, fragmenta e questiona a realidade.

  • A Emoção: Clama por expressão, mas é contida pela consciência crítica.

Essa dualidade resulta em uma sensação de isolamento. Pessoa ortónimo olha para o passado com saudosismo (como em Mensagem), mas sente o peso de uma consciência que o impede de simplesmente "ser" sem pensar.

O Labirinto dos Heterônimos: Diferentes Respostas ao Mundo

Para resolver a tensão entre razão e emoção, Pessoa criou universos inteiros. Cada heterônimo é uma tentativa de solucionar o dilema da existência.

1. Alberto Caeiro: A Primazia das Sensações

Caeiro é o "mestre" de todos. Ele busca eliminar a razão. Para ele, "pensar é estar doente dos olhos".

  • Filosofia: O objetivismo absoluto. As coisas não têm significado além do que são.

  • Papel na obra: Representa a tentativa de retorno a uma natureza pré-intelectual, onde a emoção é substituída pela visão pura.

2. Ricardo Reis: A Serenidade Clássica e a Razão

Reis é o expoente da tradição. Latinista e monárquico, ele busca a calma através do estoicismo e do epicurismo.

  • Conflito: Ele sabe que a vida é breve e que o destino (o Fado) é implacável.

  • Solução: Usa a razão para disciplinar a emoção. Ele não busca a felicidade, mas a ausência de dor através da aceitação intelectual da finitude.

3. Álvaro de Campos: A Entrega Turbulenta à Modernidade

Se Reis é o passado, Campos é o futuro. O engenheiro naval representa a modernidade em sua forma mais crua e ruidosa.

  • Fase Sensacionalista: A celebração das máquinas, da eletricidade e da velocidade (ex: Ode Triunfal).

  • Fase Abatida: A depressão profunda quando percebe que a modernidade não preenche o vazio da alma (ex: Tabacaria).

  • Tensão: Campos sente tudo "de todas as maneiras", sendo o heterônimo onde a emoção explode com mais força, muitas vezes atropelando a razão.

Tradição vs. Modernidade: A Crise do Século XX

A obra de Fernando Pessoa reflete a transição dolorosa do século XIX para o XX. Portugal, um país com um passado glorioso de navegações, enfrentava uma decadência política e social.

O Nacionalismo e a Mensagem

Pessoa tentou reerguer o espírito português através do Sebastianismo. Em seu único livro publicado em português em vida, Mensagem, ele utiliza a tradição e os mitos heróicos para projetar um futuro de grandeza cultural, o "Quinto Império". É a tentativa de conciliar o passado místico com uma nova era de consciência.

O Choque com a Era das Máquinas

Através de Álvaro de Campos, Pessoa expressa o fascínio e o horror pela modernidade. A industrialização trouxe o progresso, mas também a fragmentação do "eu". O homem moderno, cercado por tecnologia, sente-se mais fragmentado e perdido do que nunca — uma temática que ressoa até os dias de hoje.

Por que Fernando Pessoa ainda é atual?

Pessoa antecipou a crise de identidade que vivemos na era digital. Em um mundo onde criamos diferentes "perfis" e identidades online, a heteronímia de Pessoa parece uma profecia. Ele nos ensina que não somos uma unidade sólida, mas uma multiplicidade de vozes em constante conflito.

Pontos Chave da Obra:

  • Subjetividade: A realidade depende de quem a sente.

  • Inquietude: A busca constante por um sentido que a razão insiste em desconstruir.

  • Universalidade: Embora profundamente português, Pessoa fala do humano em sua essência mais nua.

Perguntas Comuns (FAQ)

1. O que são heterônimos?

Diferente de pseudônimos, que são apenas nomes falsos, os heterônimos são personalidades completas, com biografias, estilos literários, opiniões políticas e até signos astrológicos próprios.

2. Qual o livro mais famoso de Fernando Pessoa?

Além de Mensagem (poesia), o Livro do Desassossego (atribuído ao semi-heterônimo Bernardo Soares) é considerado uma das maiores obras em prosa do século XX.

3. Qual era o objetivo de Pessoa ao criar os heterônimos?

Foi uma necessidade psicológica e artística de viver todas as possibilidades da existência. Como ele mesmo escreveu: "Seja plural como o universo!".

Conclusão: O Legado de um Gênio Plural

Fernando Pessoa não ofereceu respostas prontas, mas sim as perguntas mais profundas que alguém pode fazer. Sua obra é um campo de batalha onde a razão e a emoção lutam por espaço, e onde a tradição e a modernidade se fundem para criar algo inteiramente novo. Ao ler Pessoa, não encontramos apenas um autor, mas um espelho de nossas próprias contradições.

A imagem apresenta um design simples e acolhedor, com fundo marrom. No centro, há uma pilha de livros coloridos — vermelho, azul, verde e amarelo — empilhados de forma irregular. Sobre esses livros, está sentado um gato preto estilizado, de olhos amarelos grandes e expressivos, com formato minimalista e elegante.  Na parte superior, em letras grandes e brancas, aparece o nome “Ariadne”. Na parte inferior, também em branco, lê-se “Nossa Livraria Online”. O conjunto transmite a ideia de uma livraria charmosa, aconchegante e com personalidade, associando livros ao símbolo do gato — frequentemente ligado à curiosidade, mistério e imaginação.

Conhece nossa Livraria Online Ariadne!!!

(*) Notas sobre a ilustração:

A ilustração apresenta uma cena simbólica e onírica que celebra o conhecimento, a pluralidade e a imaginação humana. No centro, um homem de terno e chapéu — figura que remete ao intelectual moderno, ao escritor ou ao leitor erudito — segura um livro aberto, como se estivesse lendo ou mediando saberes. Ele ocupa o eixo da composição, sugerindo o papel do sujeito que transita entre diferentes mundos, épocas e formas de pensamento.

Ao redor dele, ergue-se uma imensa biblioteca circular, cujas estantes se prolongam como um labirinto infinito. Os livros simbolizam a memória acumulada da humanidade: ciência, literatura, filosofia, história. O formato circular reforça a ideia de totalidade, continuidade e eterno retorno do conhecimento.

Em cada lado da cena surgem figuras clássicas — esculturas, filósofos, escribas — que evocam a herança greco-romana e o nascimento do pensamento racional. Ao mesmo tempo, aparecem elementos naturais, como árvores floridas e personagens contemplativos, que sugerem introspecção, sensibilidade e ligação com o mundo interior. A convivência entre razão e imaginação é um dos eixos centrais da imagem.

No plano superior, o céu se abre para o fantástico: uma cidade flutuante, um navio navegando entre nuvens, engrenagens cósmicas e astros. Esses elementos apontam para o universo, para o sonho, para a utopia e para a ideia de que o pensamento humano não se limita ao concreto. A frase “Seja plural como o universo!” funciona como síntese da proposta visual: a defesa da multiplicidade de perspectivas, identidades e saberes.

Já ao fundo, prédios modernos e um trem indicam o avanço da modernidade e do progresso técnico, criando um diálogo entre passado, presente e futuro. A ilustração, como um todo, sugere que o ser humano se constrói na interseção entre tradição e inovação, entre ordem e caos, entre o racional e o poético.

Trata-se, portanto, de uma imagem que celebra a cultura, o conhecimento e a complexidade do “eu”, convidando o observador a aceitar a pluralidade como essência da experiência humana.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Resumo: A Profundeza da Alma Desvendada no Livro do Desassossego de Fernando Pessoa

A ilustração retrata um homem solitário e melancólico, presumivelmente Bernardo Soares, inclinado sobre uma mesa de madeira gasta, absorto na escrita de um livro. Ele está em um quarto pequeno e simples, com as paredes descascadas, que sugerem uma vida de isolamento e introspecção.  A cena é iluminada por uma vela, lançando sombras que acentuam a atmosfera de solidão e o foco no ato de escrever. Através de uma janela em arco, observa-se a paisagem de Lisboa, com os seus telhados alaranjados e as ruas sinuosas, culminando no Castelo de São Jorge.  A imagem estabelece um contraste entre o mundo interior e solitário do protagonista e a vida lá fora, representando a essência do Livro do Desassossego: a observação da vida e a reflexão sobre a própria existência, a partir do isolamento de um ajudante de guarda-livros na Baixa de Lisboa. A ilustração capta de forma poética a melancolia e a profundidade da obra.

O Livro do Desassossego é uma obra-prima da literatura portuguesa, uma tapeçaria fragmentada de pensamentos, reflexões e devaneios de um dos maiores nomes da nossa poesia: Fernando Pessoa. Mas, ao contrário de seus poemas mais conhecidos, esta obra não é de Pessoa, o ortônimo, e sim de seu semi-heterônimo Bernardo Soares. Através de Soares, um ajudante de guarda-livros na Baixa de Lisboa, Pessoa nos oferece um mergulho profundo na alma humana, explorando a solidão, a melancolia, a banalidade do cotidiano e a busca incessante por um sentido.

Neste artigo, vamos desvendar os mistérios e a genialidade do Livro do Desassossego, explorando sua estrutura única, as ideias que o permeiam e o impacto duradouro que ele deixou na literatura mundial. Prepare-se para uma jornada introspectiva e inesquecível.

Bernardo Soares: O Rosto por Trás do Desassossego

Para entender o Livro do Desassossego, é fundamental conhecer seu autor fictício. Bernardo Soares é descrito por Pessoa como um semi-heterônimo, uma categoria intermediária entre o ortônimo (o próprio Pessoa) e os heterônimos mais célebres como Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. A principal distinção é que, enquanto os heterônimos possuem biografias, personalidades e estilos literários completamente distintos, Soares é uma espécie de extensão do próprio Pessoa, uma persona que reflete seus sentimentos mais íntimos e suas reflexões sobre a vida urbana e a solidão.

Ele é o "autor" do livro, o sujeito que escreve o que Pessoa, em seu prefácio, descreve como "biografia sem fatos". Soares vive em um quarto alugado, trabalha num escritório monótono e dedica sua vida a observar e a anotar suas impressões do mundo. Ele é um flâneur melancólico, um observador silencioso que encontra beleza na decadência e profundidade na rotina. Seu desassossego não é um desespero ativo, mas sim uma resignação passiva, uma aceitação melancólica da sua própria existência.

A Estrutura Fragmentada: Um Espelho da Mente

Uma das características mais marcantes do Livro do Desassossego é sua estrutura fragmentada. O livro não possui uma narrativa linear. Em vez disso, é uma compilação de centenas de fragmentos, aforismos, reflexões e divagações, escritos em prosa, que foram encontrados e organizados postumamente. Esses fragmentos, muitas vezes sem data ou ordem cronológica, formam um mosaico de pensamentos que se contradizem e se complementam, refletindo a natureza multifacetada e por vezes caótica da mente humana.

A compilação da obra:

  • A "desordem" original: A obra foi encontrada após a morte de Pessoa em uma arca, em centenas de papéis soltos e desorganizados.

  • O trabalho editorial: A primeira edição, publicada em 1982, foi resultado de um complexo trabalho editorial de Jacinto do Prado Coelho. Desde então, novas edições e arranjos têm sido publicados, com diferentes critérios de ordenação e inclusão de fragmentos.

Essa ausência de uma estrutura rígida é proposital. O livro é, em si, um reflexo do desassossego, da inconstância e da falta de propósito que Soares sente. Ele é uma obra aberta, um labirinto de ideias onde o leitor pode entrar em qualquer ponto e encontrar uma nova perspectiva.

Temas Centrais e Reflexões Profundas

O Livro do Desassossego é um oceano de temas, mas alguns se destacam pela sua recorrência e profundidade.

  • A solidão e o isolamento: A solidão não é apenas uma condição física para Soares, mas uma escolha existencial. Ele se isola para poder observar, para poder sonhar, para poder ser ele mesmo, longe das convenções sociais.

  • A banalidade do cotidiano: A vida de Soares é marcada pela rotina: o escritório, as ruas de Lisboa, seu quarto. No entanto, ele encontra beleza e significado na banalidade, transformando o ordinário em extraordinário através de sua prosa poética.

  • O sonho e a realidade: A fronteira entre o sonho e a realidade é fluida. Soares prefere viver no seu mundo interior de fantasias e reflexões do que enfrentar a "realidade" do mundo exterior, que ele considera vulgar e tediosa.

  • A melancolia e o tédio: O desassossego de Soares é uma melancolia profunda, um tédio existencial que o impede de agir e de viver plenamente. É a dor de ser consciente, de ver a futilidade em tudo e, ao mesmo tempo, não conseguir se libertar dessa visão.

  • A crítica à sociedade: O livro não é explicitamente político, mas está repleto de críticas subtis à sociedade, à moralidade, à religião e às convenções que aprisionam o indivíduo. Soares é um anarquista filosófico que rejeita todas as formas de poder e autoridade.

Perguntas Frequentes sobre o Livro do Desassossego

Quem escreveu o Livro do Desassossego? Embora a autoria seja atribuída a Fernando Pessoa, a obra é assinada por seu semi-heterônimo Bernardo Soares.

Por que o Livro do Desassossego é tão importante? O livro é uma das maiores obras-primas da literatura moderna, uma reflexão profunda sobre a condição humana, a solidão e a busca por sentido. Ele influenciou inúmeros escritores e pensadores e continua a ser uma fonte de inspiração para leitores em todo o mundo.

Qual a melhor edição para ler? Existem várias edições do Livro do Desassossego, com diferentes organizações dos fragmentos. A edição de Richard Zenith é amplamente aclamada pela sua organização e notas detalhadas. A editora Tinta da China também oferece uma edição crítica e de alta qualidade.

É um livro fácil de ler? Não. A natureza fragmentada do livro, a densidade das ideias e a prosa complexa podem ser um desafio para alguns leitores. No entanto, sua leitura não precisa ser linear. Você pode lê-lo em pequenos trechos, digerindo cada fragmento por vez.

O Legado Duradouro de Bernardo Soares

O Livro do Desassossego não é apenas um livro, é uma experiência. É um convite à introspecção, a questionar o nosso próprio lugar no mundo e a confrontar os nossos próprios desassossegos. A genialidade de Pessoa reside em criar uma voz tão íntima e universal ao mesmo tempo. Bernardo Soares, o ajudante de guarda-livros da Baixa, tornou-se um símbolo do ser humano moderno, aprisionado na rotina, mas sonhador por natureza.

A obra continua a fascinar e a desafiar leitores, provando que a literatura pode ser um espelho da alma, capaz de revelar as mais profundas e complexas verdades sobre nós mesmos. Se você está em busca de uma leitura que o faça pensar, sentir e se conectar com o que há de mais humano em você, o Livro do Desassossego é, sem dúvida, a escolha certa.

(*) Notas sobre a ilustração:

A ilustração retrata um homem solitário e melancólico, presumivelmente Bernardo Soares, inclinado sobre uma mesa de madeira gasta, absorto na escrita de um livro. Ele está em um quarto pequeno e simples, com as paredes descascadas, que sugerem uma vida de isolamento e introspecção.

A cena é iluminada por uma vela, lançando sombras que acentuam a atmosfera de solidão e o foco no ato de escrever. Através de uma janela em arco, observa-se a paisagem de Lisboa, com os seus telhados alaranjados e as ruas sinuosas, culminando no Castelo de São Jorge.

A imagem estabelece um contraste entre o mundo interior e solitário do protagonista e a vida lá fora, representando a essência do Livro do Desassossego: a observação da vida e a reflexão sobre a própria existência, a partir do isolamento de um ajudante de guarda-livros na Baixa de Lisboa. A ilustração capta de forma poética a melancolia e a profundidade da obra.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Autopsicografia - análise e comentário

por Jean Pires de Azevedo Gonçalves

Autopsicografia
                                   
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

“Autopsicografia” é um dos poemas de Fernando Pessoa ele mesmo, isto é, não assinado pelos poetas personagens que ele criou, os célebres heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, mas, sim, pelo próprio autor (ortônimo).


Esta distinção é importante para iniciar a análise do poema, pois “Autopsicografia” é atribuído à pessoa do poeta Fernando Pessoa sem máscaras, isto é, sem suas personas, que adquiriram autonomia e, digamos assim, vida própria.

Portanto, “Autopsicografia” deveria ser bem revelador a respeito da personalidade do autor dos poetas heterônimos. Talvez os versos do poema decifrassem o enigma da pessoa que em sua criação poética se esquiva de uma apresentação de si para, por fim, dizer algo de si através de outro – ou outros.

Literalmente, o título significa uma “descrição do próprio Eu” (ou da mente, psique, alma). [Nota: Aqui descarto uma interpretação possível do termo “psicografia” relacionado à religião espírita, tendo em vista o fato de Fernando Pessoa ser discípulo do mestre Caeiro].

Neste sentido, o poema deveria desvendar o verdadeiro Eu do poeta Fernando Pessoa sob suas múltiplas manifestações que se desdobram no Eu lírico dos heterônimos. Algo como uma interpretação autopsicanalítica da natureza íntima do poeta que emerge das profundezas à consciência. Mas não. Nenhuma confissão; nenhum segredo desvendado.

De início, estas nossas expectativas são frustradas. As cartas não são abertas sobre a mesa.

O poeta...

Não é Pessoa mas um genérico poeta.

Aparentemente, Fernando Pessoa se vale de um ardil ao se omitir na figura de um poeta impessoal, ou melhor, de um conceito.

Seria então o poeta mais um de seus heterônimos?

Sem dúvida, tenho uma profissão, sou professor, mas, quando quero dizer algo sobre minha pessoa, não me refiro jamais a mim mesmo como professor, a não ser numa entrevista de emprego... A profissão, para dizer com os existencialistas, é uma das minhas muitas essências e não minha existência autêntica, que é livre, e, sendo livre, pode escolher entre diversas essências: garçom, filósofo, camponês, engenheiro, médico, professor, músico, escritor, poeta etc. Negar-se à liberdade inerente da existência, reduzindo-a a uma essência pré-estabelecida socialmente, é, para os existencialistas, um ato de má-fé.

Assim sendo, estaria agindo Fernando Pessoa de má-fé, ao se apresentar na figura de poeta quando aparentemente prometia revelar uma verdade sobre si mesmo, o seu Eu autêntico?

A resposta é não. Em Fernando Pessoa poeta não é uma essência, entre muitas, mas a existência concreta. Em última instância, Fernando Pessoa é que é uma ficção, um heterônimo do ser que é poeta.

Entretanto, ainda mais escandaloso do que a ardilosa “trapaça” de Fernando Pessoa em se apresentar na figura de um poeta genérico é como o poeta define o poeta:

...é um fingidor

Não este ou aquele poeta, mas todo poeta é um fingido. Portanto, uma sentença universal e necessária.

Todavia, tal sentença não é um axioma. Fingidor não é uma qualidade inerente ao poeta, mas possivelmente um de seus muitos atributos.

Se não fosse muito descabido recorrer à lógica num comentário de um poema, e nos fosse concedido a licença para tanto, a frase “o poeta é um fingidor” não é de inerência, ou seja, do conceito de poeta não se infere imediatamente fingidor. Somente através da negação interna do poeta pode se construir a identidade do poeta enquanto fingidor:

“O poeta [não é o poeta, mas] é um fingidor”.

O que significa dizer que a verdadeira face do poeta é a de um enganador, um mentiroso, um impostor, um farsante, um hipócrita, um embusteiro... enfim!

O poeta, justamente o poeta, tido como aquele que melhor expressa a autenticidade das emoções! Sim, o poeta: sensível, verdadeiro, visionário, “antena da raça” (Erza Pound).

Nada disso! O poeta Fernando Pessoa ensina categoricamente o inverso: o poeta é um fingidor... um mentiroso!

Mas “fingidor”, muito embora um atributo contingente, é uma característica geral do poeta em geral. Afirmar isso, no entanto, carece de uma demonstração mais detida. Vejamos:

[O fingidor] Finge tão completamente

Dando prosseguimento a análise lógica, a frase “o fingidor finge” é de inerência lógica, porque fingidor pressupõe necessariamente aquele que finge. Ora, afirmar que o fingidor mente nada acrescenta ao que já sabemos, não sendo senão uma redundância. O que disso resulta, e não podia ser diferente, é que o fingimento de quem finge não poderia deixar de ser pleno, total, completo.

Porém, agora vem a grande sacada de Fernando Pessoa. O fingidor não finge qualquer coisa, mas:

Finge [tão completamente
Que chega a fingir] que é dor
[A dor] que deveras sente.

Rigorosamente, o fingidor não sente dor, apenas simula a dor:

A dor que [o poeta] deveras sente.

Do que se conclui:

“O poeta é um finge-dor”.

Há aqui uma relação de identidade que só se constitui pela dor e, daí, pela contradição entre a não dor (dor fingida, dissimulada) e a dor (dor verdadeira, autêntica).

Por outro lado, se retomássemos a intenção implícita no título, não seria absurdo afirmar que o poeta não é a pessoa do poeta mas, ao fingir a dor do poeta, o poeta só pode sentir a dor da pessoa do poeta enquanto fingidor.

Logo, o poeta é a mesma pessoa que finge a sua própria dor.

Estes versos nos enchem de assombro. Como pode o poeta fingir algo que lhe é real? Como pode o poeta, ainda que fingidor, ter duas dores, uma autêntica e outra fingida e as duas serem, afinal, a mesma dor (da pessoa do poeta)?

Ao que parece, Fernando Pessoa está dialogando com a tradição literária que remonta à Arte Poética de Aristóteles e seus antecessores, tendo por conceitos chaves techne, poiesis e mimesis.

Estas palavras têm sido comumente traduzidas por “arte” (techne) (a tradução mais precisa é “conhecimento específico”), “criação” (poiesis) e “imitação” (mimesis):

Caberia ainda aqui esclarecer, para aqueles que gostam de etimologia, o sentido original de “fingir”, pois este, de certo modo, guarda alguma relação de conteúdo com os termos citados.

A palavra “fingir” vem do latim fingire, de fingo (terceira conjugação), e seu sentido primordial é “formar”, “amassar” [a massa], do qual radica do proto-indo-europeu, *dʰeyǵʰ-: “moldar”.

A palavra latina fingo também deu origem as palavras figura e ficção.

Portanto, “fingir” é essencialmente modelar, tal qual o ofício de um oleiro, que trabalha o barro na roda e produz objetos de cerâmicas, como cântaros, tijolos, jarros etc.

Já acepção grega de poesia, de ποίησις ou poiesis (poíēsis), no latim poesis, significa “criação”, “produção”, “composição”. Deriva do verbo ποιέω (poiéō), “fazer”. Daí poeta ποιητής (poiētḗs): fazedor, compositor, criador, autor.

Em Aristóteles, o conceito de poiesis refere-se à produção verbal ou criação literária. (Provavelmente, porque, desde Platão, pelo menos, este sentido já estava consagrado).

Para Aristóteles, “(...) o poeta deve ser mais um criador de narrativas (roteiros) do que de versos, na medida em que é poeta devido à imitação, e esta sua imitação é das ações” (Poética).

Ainda Aristóteles: “A poesia épica e a trágica, bem como a cômica e a ditirâmbica e a maioria da interpretação com flauta e instrumentos de cordas dedilhados são todas, encaradas como um todo, tipos de imitação. Diferem, entretanto, entre si, em três aspectos, a saber, nos meios, nos objetos ou nos modos de imitação” (Poética).

Platão, no entanto, não se contenta em pensar a arte pura e simplesmente. O filósofo faz um juízo de valor sobre ela; um valor pejorativo.

Em sua “República”, Platão idealiza uma cidade perfeita, governada apenas por filósofos, que a administram através da ciência (episteme), discurso que versa sobre conceito (logos) e a verdade, que, para Platão, é indissociada de utilitarismo. A arte, ao contrário, é supérflua por ser imitação (mimesis) – da verdade, portanto, simulacro, falsidade – um pintor, por exemplo, não precisa conhecer o ofício de fazer sapatos para desenhar um sapato. Neste sentido, a arte que desvia da verdade e ilude deve ser censurada numa sociedade de sábios que buscam a verdade. E, para Platão, a arte por excelência própria a sofismas é a poesia. Por conseguinte, na República de Platão, Sócrates expulsa os poetas da cidade:

“Aqui está o que tínhamos a dizer, ao lembrarmos de novo da poesia, por, justificadamente, excluirmos da cidade uma arte desta espécie. (...) mesmo assim, diga-se que, se a poesia imitativa voltada para o prazer tiver argumentos para provar que deve estar presente numa cidade bem governada, a receberemos com gosto, pois temos consciência do encantamento que sobre nós exerce, mas seria impiedade trair o que julgamento ser verdadeiro. Ou não sentes também seduzido pela poesia, meu amigo, sobretudo quando contemplas através de Homero?” (PLATÃO, A República).

De tudo que foi dito, poderíamos dizer que em Pessoa o poeta é um imitador (fingidor), ou melhor, um artesão que molda palavras, matéria-prima da criação poética.

A dor do poeta é então a palavra “dor”, dita ou escrita, não a dor em si.

Na verdade, Fernando Pessoa vai contra a ideia platônica de que imitação é falsidade. A dor criada, moldada, dita, escrita, lida, à parte e pelo poeta, é de fato a verdade verdadeira.

O poeta não é como o ator que interpreta um papel e que depois da encenação retoma a sua vida cotidiana, completamente diversa da do personagem interpretado.

Não, o poeta é Édipo que interpreta a sua própria tragédia e que por traz de sua máscara de tristeza há uma face totalmente consternada por uma dor não menos profunda.

Andamos em círculos!!!

De volta ao paradoxo: a dor sentida pelo poeta e a dor fingida pelo poeta são a mesma dor. (Lembro-me das aulas de dialética: A é A não são idênticos, porque a repetição já introduz uma mínima diferença que é elevada à enésima potência - Deleuze).

A palavra “dor” não é dor mas um simulacro tão verdadeiro quanto dor verdadeira.

Na segunda estrofe, algo ainda mais chocante: o poeta se metamorfosea num terceiro: “os que leem”...

E os que leem o que escreve [a dor escrita],
Na dor lida sentem bem (...)

Mais uma vez Fernando Pessoa surpreende. A conexão entre poeta e leitor não se faz pela dor do poeta, e, sim, pela dor fingida. Esta tem uma dupla determinação: escrita e lida. A dor lida é um momento da dor escrita. E a dor lida é tão sentida (completamente) como a dor escrita; mas não é a dor do poeta tampouco a do leitor.

Não as duas que ele [o poeta] teve,
Mas só a que eles [leitores] não têm.

Acontece que, por uma lei da empatia ou alteridade, para sentir a dor do poeta, por meio de suas mediações negativas, escrita ou lida (dita ou ouvida), o leitor deve ter uma dor exatamente igual à dor do poeta. Porém, o leitor não é o poeta e, portanto, sua dor não é a do poeta.

Em termos dialéticos, há dois polos contraditórios: o poeta e o leitor. Pois somente negando o poeta, o leitor pode sentir a dor do poeta, e, sentindo a dor do poeta, o leitor é o poeta e, portanto, também é um fingidor.

Se retomássemos o exemplo de Édipo, seria quase como dizer que Édipo assiste da plateia do anfiteatro a representação de sua vida em cena, sendo ele próprio o ator. O protagonista é ao mesmo tempo dois: ator-espectador; e um terceiro: ele é ator e espectador sem ser realmente nenhum dos dois.

Portanto, Fernando Pessoa não compõe sozinho. O leitor é coautor. Dito de outro modo, Fernando Pessoa descobre no leitor não um mero interlocutor passivo, mas um criador do sentido da poesia que se aparta e ganha autonomia de ambos.

Na terceira e última estrofe, Fernando Pessoa novamente renuncia a interferência da pessoa do poeta e, aparentemente, engendra uma descontinuidade em relação às estrofes anteriores.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Aqui há uma clara antinomia entre emoção e razão. A razão é entretida pelo coração. A palavra “entreter” é polissêmica, possuindo vários sentidos. Dentre eles: deter, manter, conservar, divertir, distrair, iludir etc. Seu sentido mais cru é simplesmente entre + ter. O que, no fundo, se depreende de todos estes significados é que a razão é dominada pela emoção.

E este é o gancho que liga indiretamente a última estrofe às duas anteriores.

A lógica não entende as coisas do coração que tem uma lógica própria alógica.

Esta estrofe poderia ser perfeitamente bem interpretada como a notória frase de Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Nota-se que Fernando Pessoa denomina o coração com a expressão comboio de corda, uma analogia claramente mecânica, que subjaz um sentido materialista ou físico do sentimento. O coração é uma máquina.

Muitos veem nesta imagem a figura de um trem de brinquedo rodando sobre trilhos. Eu prefiro a imagem de um relógio de corda, com seu sistema de rodas, girando e pulsando, num constante tic-tac. Vale lembrar a raiz etimológica da palavra “coração”, que tem origem no latim cor (coração, alma, mente), da terceira conjugação, neutro, do caso nominativo (acusativo e vocativo), singular - sua forma plural, nos respectivos casos, é corda. Talvez, Fernando Pessoa tenha feito um trocadilho com a palavra “corda”, do latim chorda, que significa fio, fibra, corda – daí acorde musical (em inglês “chord”), das cordas da lira. Na lírica de Fernando Pessoa, a música é dissonante.

Da mesma raiz de cor vem também as palavras “acordar”, “acordo”, “concordar”, “concórdia”, “discórdia”, “cordial”, “cordato” etc.

Quando duas pessoas estão de acordo é porque, em seu sentido literal, seus corações batem juntos.

Portanto, o poeta fala a língua do coração, irredutível à razão, e que é capaz de concordar aquilo que está inerentemente em desacordo.

Para concluir, Fernando Pessoa rompe com a tradição socrático-platônica. Tal como Nietzsche, para o poeta, a mentira é a verdade e vice-versa. Da mesma forma, Pessoa rompe com o principium individuationis; em “Autopsicografia”, o poeta não é um indivíduo distinto, mas uma metamorfose de múltiplos Eus. A fronteira entre escritor e leitor é demarcada por uma tênue linha fictícia, geradora de ilusão. O que Fernando Pessoa nos ensina é que não há individualidade stricto sensu e, sim, que a personalidade é muito mais fluída e porosa do que nos quer fazer acreditar o pensamento racional. Somos fragmentos espalhados, contraditórios e misturados em um mundo tão caótico quanto nós mesmos.

Ao ler “Autopsicografia”, estamos diante de um Fernando Pessoa que reflete a nós mesmo como uma imagem num espelho. É sobre nós que versa o poema. O que não significa que não há integridade entre as múltiplas partes confusas. Fernando Pessoa alerta: “Sê inteiro”. Ou seja, ser íntegro é ser diferente.

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Jean Pires de Azevedo Gonçalves é autor de:



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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Poesia 1

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

(Fernando Pessoa)


CANTIGA SUA PARTINDO-SE

Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tam tristes os tristes,
tam fora d'esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
(João Ruiz de Castelo Branco)


CONFRONTO

Bateu Amor à porta da Loucura.
"Deixe-me entrar - pediu - sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu minha paixão".

A Loucura desdenha em recebê-lo,
sabendo quanto Amor vive de engano,
mas estarrece de surpresa ao vê-lo,
de humano que era, assim tão inumano.

E exclama: "Entra correndo, o pouso é teu.
Mais que ninguém mereces habitar
minha casa infernal, feito breu,

enquanto me retiro, sem destino,
pois não sei de mais triste desatino
que essa mal sem perdão, o mal de amar.

(Carlos Drummond de Andrade)


(FRAGMENTOS)

Ai quantas vezes,
ai quantas, quantas
no turvo mar,
o mar penteado
pelas rajadas
como a desordem
da cabeleira
de uma mulher,
eu suspirei
morto de saudade
pela doçura
de regressar.


(Arquíloco)

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