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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Assembleia das Mulheres de Aristófanes e a Utopia do Matriarcado

Esta ilustração retrata o clímax cômico da peça "Assembleia das Mulheres" (Ekklesiazousai), encenada por Aristófanes em 392 a.C., capturando a famosa cena em que as mulheres de Atenas ocupam o espaço político disfarçadas de homens.  Abaixo estão os detalhes visuais que explicam os elementos da imagem:  Praxágora no Púlpito (Ao Centro): A líder do movimento, Praxágora, ocupa o centro da plataforma do palco vestindo túnica masculina e manto escuro, usando uma barba postiça. Com gesticulação enérgica e postura firme, ela profere seu discurso revolucionário para convencer a assembleia a entregar o governo da cidade às mulheres. O Grupo de Mulheres Disfarçadas: Ladeando Praxágora no palco estão suas companheiras atenienses, todas caracterizadas de forma cômica com túnicas masculinas, barbas postiças visíveis e segurando cajados de madeira, simulando a aparência dos cidadãos homens para garantir a maioria dos votos na sessão. A Plateia Ateniense e a Reação do Povo: Nas arquibancadas de pedra e no plano inferior, os cidadãos homens assistem ao discurso. Alguns apontam para a tribuna e gesticulam perplexos, sem perceber que o "cidadão" eloquente no controle da assembleia é, na verdade, uma mulher liderando uma tomada de poder silenciosa. O Cenário da Pólis (Ao Fundo): A estrutura teatral exibe faixas com a inscrição em grego antigo ΕΚΚΛΗΣΙΑΖΟΥΣΑΙ (título original da obra), enquanto ao fundo, sobre a colina sob a luz do dia, ergue-se a impressionante Acrópole de Atenas com o Partenon, contextualizando o coração político da Grécia clássica. A composição capta com precisão a essência da sátira aristofânica: o uso do absurdo, da inversão de papéis sociais e da disfarçaria cômica como ferramentas de crítica ao cenário político de sua época.

A genial comédia política intitulada Assembleia das Mulheres de Aristófanes foi encenada em Atenas por volta de 392 a.C., momento em que a pólis enfrentava o declínio de suas instituições democráticas tradicionais e uma profunda crise socioeconômica no período pós-Guerra do Peloponeso. A narrativa ganha vida a partir da liderança audaciosa de Praxágora, uma cidadã ateniense determinada a salvar a cidade do colapso provocado pela incompetência e pela corrupção dos governantes masculinos. Nas primeiras horas da alvorada, Praxágora reúne um grupo clandestino de mulheres que se disfarçam com as roupas, mantos, calçados e barbas postiças de seus maridos, treinando discursos e posturas no espaço público para ocupar fisicamente os assentos do parlamento antes que os homens despertem.

Com uma estratégia impecável e o apoio de suas companheiras disfarçadas, a protagonista consegue aprovar uma reforma constitucional radical na assembleia das mulheres. Fingindo ser um cidadão preocupado com o bem comum, Praxágora discursa com eloquência e convence a multidão masculina presente a transferir todo o controle político, administrativo e financeiro do Estado ateniense para as mulheres, argumentando que elas sempre demonstraram maior zelo na gestão doméstica, na preservação das tradições e na economia de recursos. Ao acordarem e descobrirem que foram despossuídos do poder político, os homens da cidade, representados pelo marido de Praxágora, Blépiro, veem-se obrigados a aceitar a nova ordem matriarcal estabelecida de forma irreversível.

Sob a nova liderança feminina, o governo institui um sistema de comunismo absoluto que altera drasticamente todas as relações econômicas e sociais. Praxágora abole a propriedade privada, determina a coletivização integral de todos os bens, terras, dinheiros e alimentos, e transforma os espaços públicos em banquetes comunitários abertos a toda a população. Para garantir uma igualdade irrestrita e evitar qualquer privilégio estético ou financeiro, a lei passa a regular inclusive os relacionamentos afetivos e sexuais: homens e mulheres jovens e atraentes são legalmente obrigados a se relacionar primeiro com pessoas idosas ou consideradas desprovidas de beleza antes de obterem o direito de buscar parceiros de sua preferência.

As ramificações cômicas dessa reestruturação socioeconômica são exploradas ao longo de cenas repletas de ironia, nas quais anciãs exigem seus direitos legais perante jovens relutantes e cidadãos astutos tentam desfrutar dos banquetes públicos sem entregar seus bens pessoais ao patrimônio coletivo da pólis. A obra encerra-se em um tom de festividade ruidosa e carnavalesca, celebrando a abundância dos grandes jantares compartilhados, ao mesmo tempo em que expõe com perspicácia as contradições inevitáveis e o absurdo prático das utopias radicais quando impostas à complexidade da natureza humana.

Nota-se que a relação entre a revolução cômica encenada em Assembleia das Mulheres e as pautas do feminismo contemporâneo expõe uma instigante ambivalência na história do pensamento ocidental. Por um lado, ao colocar Praxágora e as atenienses no centro da esfera pública, Aristófanes constrói uma das representações mais precoces da capacidade de organização política e retórica das mulheres, sugerindo que a gestão feminina poderia curar as feridas de um Estado corroído pelo egoísmo patriarcal. Essa inversão da ordem social antecipa questionamentos centrais das teorias feministas sobre a divisão sexual do trabalho e a exclusão histórica da mulher das tomadas de decisão, demonstrando como a esfera doméstica, historicamente relegada ao privado, guarda saberes administrativos capazes de reestruturar a própria pólis.

Por outro lado, é fundamental compreender que a obra não foi concebida como um manifesto de libertação feminina no sentido moderno, mas sim como uma sátira conservadora que usava o absurdo do matriarcado para chocar a plateia masculina ateniense. O feminismo contemporâneo, portanto, apropria-se do texto por via reflexiva: ao transformar o corpo e a voz das mulheres em instrumentos de subversão institucional e redistribuição coletiva, a comédia aristofânica acaba involuntariamente fornecendo um poderoso modelo simbólico de resistência. A peça evidencia que a utopia da igualdade passa inevitavelmente pela desconstrução das hierarquias de gênero, tornando a empreitada de Praxágora um espelho satírico, porém fecundo, para os debates sobre autoridade, emancipação e justiça social.

Por fim, a relevância estética e histórica expressa em Assembleia das Mulheres de Aristófanes é indiscutivelmente um dos retratos mais contundentes da Comédia Antiga sobre o protagonismo feminino e a engenharia social. Ao utilizar a inversão de papéis de gênero e a sátira de teor coletivista — antecipando em décadas debates filosóficos semelhantes presentes na República de Platão —, o dramaturgo construiu um espetáculo vibrante que continua a instigar reflexões profundas sobre o poder político, a busca pela igualdade e os limites do idealismo comunitário.

(*) Notas sobre a ilustração:

Esta ilustração panorâmica, repleta de detalhes, retrata o clímax de uma apresentação teatral da comédia grega antiga de Aristófanes, "Assembleia das Mulheres" (Ecclesiazusae). A imagem captura o momento em que as mulheres atenienses, disfarçadas de homens, assumem o controle da Pnyx, o local de reunião da Assembleia de Atenas, enquanto o Partenon na Acrópole observa no fundo.

Análise da Ilustração:

1. O Título e o Contexto:
Na parte superior direita, dois grandes estandartes pendurados na fachada de um edifício grego clássico (a skene) trazem a inscrição em grego antigo: ΕΚΚΛΗΣΙΑΖΟΥΣΑΙ, que é o título original da peça, transliterado como Ecclesiazusae (literalmente, "As Mulheres na Assembleia"). O cenário é a colina da Pnyx ao amanhecer, com a Acrópole iluminada atrás.

2. A Cena no Palco:
O palco está repleto de figuras. A personagem central, no centro-direita, em pé sobre uma plataforma, é Praxágora, a líder das mulheres. Embora a imagem a mostre com uma fisionomia que sugere uma mulher forte, o texto da peça especifica que ela está disfarçada de homem, usando a roupa e a barba falsa de seu marido. Ela está falando com um grupo de mulheres ao seu redor.

3. O Disfarce e o Gesto:
Observe as figuras que a cercam no palco. Elas são a Coro das Mulheres e suas seguidoras. Todas estão usando barbas falsas e mantos (chlamys) tradicionais dos cidadãos homens, alguns segurando cajados e cestas de mercado. Seus rostos e cabelos ainda mostram traços femininos, revelando o disfarce para o público. Elas gesticulam e ouvem, preparando-se para o plano de Praxágora para votar a favor da transferência do poder para as mulheres.

4. A Reação da Plateia:
Abaixo do palco, nas arquibancadas de pedra, centenas de cidadãos atenienses (reais homens) estão sentados, formando a plateia. Eles estão vestidos com mantos brancos. O homem idoso no centro, de frente para nós, parece confuso, sonolento e coça a cabeça. À sua esquerda, dois homens apontam e discutem a cena no palco com expressões de descrença e choque, começando a perceber a verdadeira identidade das figuras no palco. Suas reações humorísticas são um elemento-chave da comédia.

5. Significado:
A imagem explica visualmente a premissa de gender role reversal (reversão de papéis de gênero) de Aristófanes. Mostra o contraste entre as mulheres ativas e determinadas, orquestrando um golpe político, e os homens passivos, confusos e, em última análise, ignorantes de que seu poder está sendo tirado por suas próprias esposas.