quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Como e Por Que Sou Romancista: O Testemunho de José de Alencar sobre a Invenção da Literatura Brasileira

A ilustração de Como e Por Que Sou Romancista, de José de Alencar, constrói uma síntese visual do projeto literário e intelectual do autor, articulando autobiografia, nação e imaginação romântica. No centro da cena, José de Alencar aparece sentado à escrivaninha, em postura reflexiva, com a pena na mão e papéis espalhados à sua frente. A imagem do escritor em ato de escrita reforça o caráter ensaístico e memorialístico da obra, na qual Alencar explica sua formação, suas motivações e sua concepção do romance como instrumento de construção cultural. A mesa repleta de livros e manuscritos simboliza tanto o trabalho intelectual quanto a tradição literária que ele assimila e transforma. Ao fundo, a ilustração se desdobra em diferentes paisagens que representam os grandes eixos da literatura alencariana. À esquerda, a cena indígena, com figuras que remetem aos povos originários e à natureza exuberante, evoca os romances indianistas, nos quais Alencar buscou um mito fundador para a identidade brasileira. À direita, o sertão árido, com o vaqueiro e os cactos, remete ao romance regionalista e à exploração das diversas realidades do território nacional. No plano superior, a cidade com arquitetura oitocentista sugere o Brasil urbano e imperial, ligado aos romances históricos e de costumes. A árvore central, cujos galhos sustentam uma faixa com o título da obra, funciona como metáfora da própria literatura nacional: suas raízes fincam-se na terra brasileira, enquanto seus ramos se expandem em múltiplas direções narrativas. O sol nascente reforça a ideia de origem, de começo e de esperança, associando o romantismo à fundação simbólica da nação. O enquadramento ornamental, inspirado em gravuras do século XIX, reforça o caráter clássico e fundador de Alencar, enquanto a inscrição “Literatura Nacional” na base da imagem explicita o sentido do conjunto: a ilustração apresenta José de Alencar não apenas como escritor individual, mas como arquiteto de uma literatura voltada a pensar o Brasil, sua história, seu povo e sua identidade cultural.

Para muitos, José de Alencar é apenas o nome em capas de livros obrigatórios do colégio. No entanto, em sua obra autobiográfica e ensaística Como e Por Que Sou Romancista, o autor de O Guarani revela-se um estrategista cultural, um artesão da palavra e, acima de tudo, um apaixonado pela construção de uma identidade para o Brasil. Escrito em 1873, o texto funciona como uma "carta aberta" onde Alencar explica sua trajetória, seus métodos e as razões filosóficas que o levaram a dedicar a vida à ficção.

Neste artigo, vamos dissecar as principais lições de Como e Por Que Sou Romancista, explorando como Alencar moldou o Romantismo no Brasil e quais segredos ele deixou para os escritores que o sucederam.

O Nascimento de uma Vocação: Da Política às Letras

José de Alencar não começou como um romancista de tempo integral. Filho de um senador do Império, sua formação foi jurídica e sua vida pública, política. No entanto, em Como e Por Que Sou Romancista, ele descreve como a necessidade de "sentir o Brasil" pulsando em uma forma artística o desviou do Direito para a literatura.

A Influência da Leitura e do Meio Social

Alencar relata que sua formação literária foi híbrida. De um lado, o consumo ávido dos folhetins franceses (como os de Alexandre Dumas); de outro, a observação atenta das matas cearenses e dos costumes cariocas. Ele percebeu que, embora o Brasil fosse independente politicamente, ainda era uma colônia literária. Sua missão em Como e Por Que Sou Romancista fica clara: era preciso criar um passado e um presente para a nação através da escrita.

A Estrutura Criativa de Alencar: O Método por Trás da Obra

Diferente do que muitos imaginam, Alencar não acreditava apenas na inspiração divina. Em seu ensaio, ele detalha o rigor com que planejava suas obras. Ele via o romancista como um historiador do presente e um arqueólogo do passado.

As Três Fases da Ficção Alencariana

José de Alencar categoriza sua própria produção em três frentes principais, que ele justifica em Como e Por Que Sou Romancista:

  1. O Indianismo: A busca pelas raízes e a criação de um mito de fundação (ex: Iracema, Ubirajara).

  2. O Regionalismo: A exploração do vasto território brasileiro e seus tipos rurais (ex: O Gaúcho, O Sertanejo).

  3. O Urbanismo: A crítica e o retrato dos salões do Rio de Janeiro (ex: Senhora, Diva).

O Estilo e a Polêmica da "Língua Brasileira"

Um dos pontos mais fascinantes de Como e Por Que Sou Romancista é a defesa que Alencar faz do uso de uma linguagem que respeitasse os falares brasileiros. Ele foi duramente criticado por puristas portugueses da época, que viam em seu estilo "erros" de gramática.

A Independência Linguística

Para Alencar, o romancista brasileiro deveria escrever em "brasileiro". Ele defendia:

  • A incorporação de termos indígenas (Tupi).

  • A adaptação da sintaxe portuguesa ao ritmo tropical.

  • A liberdade criativa sobre a norma culta lusitana.

Essa postura, detalhada em suas confissões, coloca o autor como um precursor remoto do que os Modernistas de 1922 viriam a consolidar décadas depois.

Por Que Alencar Escrevia? A Missão do Romancista

No título Como e Por Que Sou Romancista, o "por que" carrega um peso ético. Alencar não escrevia apenas para entreter, mas para "nacionalizar" o Brasil na mente do povo.

O Papel do Escritor na Formação da Nação

Ele acreditava que o povo só se reconheceria como nação quando visse suas próprias paisagens, seus próprios heróis (como o indígena Peri) e seus próprios dramas sociais espelhados nos livros. Escrever era um ato de patriotismo. Em suas palavras, o romance era o veículo ideal para educar a alma brasileira e criar uma memória coletiva.

Perguntas Comuns sobre "Como e Por Que Sou Romancista" (FAQ)

1. O livro é uma autobiografia completa?

Não exatamente. É mais um ensaio memorialista e literário. Ele foca menos em fatos da vida privada e mais no desenvolvimento da sua consciência artística e técnica.

2. Qual a importância desse texto para os estudantes de Letras?

Ele é fundamental para entender a teoria do romance no Brasil. Alencar explica como adaptou o modelo europeu à realidade local, sendo um documento primário essencial para o estudo do Romantismo.

3. Alencar realmente criou o gênero indianista?

Embora outros autores já tivessem tratado do tema, Alencar foi quem o sistematizou e lhe deu uma estatura épica e poética incomparável, justificando esse esforço em Como e Por Que Sou Romancista.

4. Esse texto influenciou Machado de Assis?

Sim. Embora tivessem estilos diferentes (Alencar Romântico, Machado Realista), Machado nutria um profundo respeito por Alencar e escreveu críticas elogiosas sobre sua capacidade de inventar um Brasil literário.

O Legado das Confissões Alencarianas

Ao ler Como e Por Que Sou Romancista, percebemos que José de Alencar foi o arquiteto de nossa imaginação nacional. Sua coragem de enfrentar os críticos em nome de uma identidade própria permitiu que a literatura brasileira caminhasse com as próprias pernas.

A obra continua sendo um farol para quem deseja entender as raízes de nossa cultura. Ela nos ensina que o talento sem propósito é vazio, e que a grande literatura nasce da observação profunda do solo onde se pisa.

Conclusão

José de Alencar, através de Como e Por Que Sou Romancista, deixou-nos mais do que uma explicação técnica; deixou-nos um manifesto de amor ao Brasil. Ele provou que ser romancista em um país jovem era uma tarefa de resistência e construção. Se hoje temos uma literatura rica e diversa, devemos muito ao homem que, em 1873, decidiu contar ao mundo como e por que dedicou seu gênio às letras nacionais.

(*) Notas sobre a ilustração:

A ilustração de Como e Por Que Sou Romancista, de José de Alencar, constrói uma síntese visual do projeto literário e intelectual do autor, articulando autobiografia, nação e imaginação romântica.

No centro da cena, José de Alencar aparece sentado à escrivaninha, em postura reflexiva, com a pena na mão e papéis espalhados à sua frente. A imagem do escritor em ato de escrita reforça o caráter ensaístico e memorialístico da obra, na qual Alencar explica sua formação, suas motivações e sua concepção do romance como instrumento de construção cultural. A mesa repleta de livros e manuscritos simboliza tanto o trabalho intelectual quanto a tradição literária que ele assimila e transforma.

Ao fundo, a ilustração se desdobra em diferentes paisagens que representam os grandes eixos da literatura alencariana. À esquerda, a cena indígena, com figuras que remetem aos povos originários e à natureza exuberante, evoca os romances indianistas, nos quais Alencar buscou um mito fundador para a identidade brasileira. À direita, o sertão árido, com o vaqueiro e os cactos, remete ao romance regionalista e à exploração das diversas realidades do território nacional. No plano superior, a cidade com arquitetura oitocentista sugere o Brasil urbano e imperial, ligado aos romances históricos e de costumes.

A árvore central, cujos galhos sustentam uma faixa com o título da obra, funciona como metáfora da própria literatura nacional: suas raízes fincam-se na terra brasileira, enquanto seus ramos se expandem em múltiplas direções narrativas. O sol nascente reforça a ideia de origem, de começo e de esperança, associando o romantismo à fundação simbólica da nação.

O enquadramento ornamental, inspirado em gravuras do século XIX, reforça o caráter clássico e fundador de Alencar, enquanto a inscrição “Literatura Nacional” na base da imagem explicita o sentido do conjunto: a ilustração apresenta José de Alencar não apenas como escritor individual, mas como arquiteto de uma literatura voltada a pensar o Brasil, sua história, seu povo e sua identidade cultural.

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