domingo, 2 de abril de 2017

A PROPRIEDADE EM S. BERNARDO E GRANDE SERTÃO: VEREDAS


por Jean Pires de Azevedo Gonçalves
Introdução

Para o trabalho pretendo analisar o acesso à propriedade privada em um país como o Brasil, de modernização conservadora e de subdesenvolvimento, através das obras São Bernardo, de Graciliano Ramos, e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Nota-se que o período retratado pelas duas obras é relativamente contemporâneo, mais ou menos entre a proclamação da república e a primeira metade do século XX. O Brasil nesta época mal havia proclamado a Leis de Terras (1850), havendo grande quantidade de terras devolutas, e a grande extensão territorial dificultava a integração nacional por parte de um governo central. Neste vácuo de poder, muitos potentados locais dominavam e estabeleciam suas próprias leis em detrimento dos interesses gerais. A constituição da propriedade, neste contexto, não se faz via de regra por meio da troca econômica mas, muitas vezes, pelo uso da violência pura e simplesmente, já que no país não há um mercado interno pujante e, portanto, a escassez de moeda corrente predomina. Neste sentido, comparar os personagens Paulo Honório e Riobaldo pode revelar algumas questões importantes da realidade brasileira e seu processo de modernização. A institucionalização da propriedade privada representa, para o bem ou para o mal, um marco no desenvolvimento, rumo a uma economia de mercado. O que significa a emergência de novas relações de dependência e exploração. Tanto Paulo Honório como Riobaldo são personagens de origem humilde e que acabam, cada um a seu modo, por se tornar proprietários de terra. Porém, há diferenças na tessitura dos romances que tornam o significado da propriedade bastante distinto.


A questão da propriedade em “São Bernardo”, de Graciliano Ramos

A propriedade em “São Bernardo” não pode ser mais emblemática, pois é uma fazenda – a fazenda São Bernardo – que intitula o romance. Portanto, refere-se a uma realidade objetiva – a propriedade enquanto instituição que surge por convenção social imposta historicamente. No entanto, no romance, ela aparece, como um registro estruturante, tal qual um pano de fundo, por meio da subjetividade do protagonista do romance, que se expressa pela descrição de suas memórias, como confissão.
A confissão é um recurso estético que caracteriza a obra de Graciliano Ramos, como afirma Antonio Candido: “Para ler Graciliano Ramos, talvez convenha ao leitor aparelhar-se do espírito de jornada, dispondo-se a uma experiência que se desdobra em etapas e, principiada na narração de costumes, termina pela confissão das mais vívidas emoções pessoais” (CANDIDO, 2006, p. 17). Em São Bernardo, por meio da confissão, as sombras dos fatos lembrados vão ganhando nitidez até chegar a um desfecho que inverte todos os valores do narrador confidente.
            As memórias em questão são um relato do personagem Paulo Honório, que, através de uma narrativa em primeira pessoa, se propõe a contar a trajetória de sua vida. Logo na primeira frase, há um aspecto bastante interessante de metalinguagem, pois a narrativa se justifica pela elaboração de um projeto no qual o personagem intenciona escrever um livro – “Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho” –, o que, a princípio, poderia trazer uma certa confusão ao leitor: afinal, de quem se trata o escritor, Graciliano Ramos ou um personagem fictício? A referência à divisão do trabalho já nos dá uma pista, que se revelará completamente com o avançar da leitura: é Graciliano que se deixa falar por Paulo Honório. Portanto, Paulo Honório é o escritor e, ao mesmo tempo, o protagonista do romance. Tal recurso reforça o aspecto subjetivo e também dá vulto ao personagem principal do romance. Tudo parece girar em torno dele.
A vida de Paulo Honório é a história vulgar de um homem de origem muito pobre que enriquece. A partir deste fio condutor, sua visão de mundo reproduz radicalmente uma lógica capitalista de fundamento patrimonialista. E isso é tão visceral em seu ser, que a propriedade torna-se quase uma extensão de seu próprio corpo, influenciando o seu modo de agir e de se relacionar com o mundo e com as pessoas:

“Em Paulo Honório, o sentimento de propriedade, mais do que simples instinto de posse, é uma disposição total do espírito, uma atitude geral diante das coisas. Por isso engloba todo o seu modo de ser, colorindo as próprias relações afetivas. Colorindo e deformando. Uma personalidade forte, nucleada por paixão duradoura - avareza, paternidade, ambição, crueldade (...)” (Idem, p. 39).

            Assim, tendo o enredo por epicentro o “eu” do personagem, a trajetória de Paulo Honório se resume a trabalho e apropriação, em um primeiro momento, das coisas (dinheiro) e, em um segundo momento, das pessoas. Tudo se torna passível de se transformar em sua propriedade, que vem sempre imbuída de uma carga afetiva, humanizada. O caso de Margarida, mulher que o criou quando órfão, é exemplar. Paulo Honório, depois de se tornar um homem rico, descobre o paradeiro de sua madrasta, já bastante idosa, e manda buscá-la para viver com ele em sua fazenda: “A velha Margarida mora aqui em S. Bernardo, numa casinha limpa e ninguém a incomoda. Custa-me dez mil-réis por semana, quantia suficiente para compensar o bocado que me deu” (RAMOS, p. 11). De certo modo, Paulo Honório oscila entre uma atitude que lhe faz mensurar em termos de valores monetários as relações humanas e o afeto recalcado que sente por algumas pessoas e que, no limite, vai lhe dilacerar.     

“O seu caso é dramático porque há fissuras de sensibilidade que a vida não conseguiu tapar, e por elas penetra uma ternura engasgada e insuficiente, incompatível com a dureza em que se encouraçou. Daí a angústia desse homem de propriedade, cujos sentimentos eram relativamente bons quando escapavam à tirania dela, e que descobre em si mesmo estranhas sementes de moleza e lirismo, que é preciso abafara todo custo (CANDIDO, op. cit., p. 40).

            Ao encarar tudo pela lógica do valor das coisas, o protagonista constrói um universo pessoal a partir da propriedade privada – São Bernardo. Esta é pré-condição de seu próprio ser, de sua própria essência. Por isso, existe quase uma indistinção entre a propriedade, a fazenda São Bernardo, e o próprio personagem, Paulo Honório. Noutras palavras, Paulo Honório é São Bernardo e São Bernardo é Paulo Honório. O que implica em dizer que o fato de adquirir a fazenda era uma questão imprescindível de sua existência, ou melhor, de sua sobrevivência. E, por isso, ele não mede esforços para comprá-la e mantê-la, ainda que para isso passe por cima de todos os escrúpulos. Ao tratar tudo como coisa e humanizar as coisas, ele próprio se embrutece. Neste aspecto, é a violência, como observa Antonio Candido, que move Paulo Honório.
            Após comprar S. Bernardo de Luis Padilha, herdeiro relapso do antigo proprietário, Paulo Honório vai constituindo uma rede de relações sociais que de certa maneira giram em torno dele e da fazenda. Quando sua vida parece estar consolidada, Paulo Honório entende que chegou o momento de constituir família, de se casar. Seu casamento, com uma professora, muito mais jovem do que ele, chamada Madalena, a princípio, não passa de uma barganha, em que S. Bernardo é colocada na condição implícita de penhor. De fato, Paulo Honório trata o casamento como uma negociata, um cálculo racional, em suma, um contrato entre as partes envolvidas e interessadas. Os termos do acordo são mensurados em prós e contras, e não como fruto de um sentimento espontâneo, de uma paixão verdadeira. Paulo Honório chegar a dizer para sua futura esposa, Madalena, a seguinte frase, quase como se o fato de casar lhe partisse de uma decisão impessoal: “Resolvi escolher uma companheira. E como a senhora me quadra...” (RAMOS, p. 88). Por seu turno, Madalena indaga: “O seu oferecimento é vantajoso para mim, seu Paulo Honório... Muito vantajoso” (idem, p. 89).
            Esta atitude de Paulo Honório não pode se sustentar por muito tempo, e em seu íntimo movem-se tendências em sentido contrário, ao mesmo tempo centrífugo e centrípeto. É novamente Antonio Candido que descreve com precisão o estado de espírito do personagem:

“Dois movimentos o integram: um, a violência do protagonista contra homens e coisas; outro, a violência contra ele próprio. Da primeira, resulta São Bernardo-fazenda, que se incorpora ao seu próprio ser, como atributo penosamente elaborado; da segunda, resulta São Bernardo-livro-de-recordações, que assinala a desintegração da sua pujança. De ambos, nasce a derrota, o traçado da incapacidade afetiva”. (p. 40)
(...)
“Não se podia comparar a qualquer outra empresa, pois era o prolongamento dele próprio; era a imagem concreta da sua vitória sobre homens e obstáculos de vário porte, reduzidos,superados ou esmagados. E assim percebemos o papel da violência, que voltada para fora é vontade e constrói destruindo. (p. 41)

            Eis o grande dilema. Apesar de Paulo Honório apresentar uma força incrível, tanto física, como psíquica, internamente ele é acometido por uma fragilidade demasiadamente humana, que ele próprio desconhece. O seu casamento, que se originou, como vimos, de uma ponderação racional ou de um acordo à maneira de uma troca mercantil, se revela irredutível ao cálculo administrativo, da contabilidade dos bens e da produtividade de S. Bernardo. De fato, Madalena não é mais um bem que ele acumula ao patrimônio. Madalena é uma mulher que tem sentimento e que desperta sentimentos. Ela é fator que desencadeia uma autodescoberta.
            No capítulo 25, surpreendentemente, Paulo Honório confessa, logo na primeira frase: “Comecei a sentir ciúmes” (RAMOS, p. 134). Tal confissão, vindo de um personagem tão brutal, chega a ser chocante. Até então, Paulo Honório era inabalável e agia apenas no sentido de uma violência contra homens e coisas:

“Mas vimos que este primeiro movimento se entrelaça com outro: voltada para dentro, a violência é dissolução, e destrói construindo. Caracteriza-se efetivamente pela volúpia do aniquilamento espiritual, o cultivo implacável do ciúme, que não é senão uma forma de exprimir a vontade de poderio e recusar o abrandamento da rigidez. (CANDIDO, p.42).

            É através da figura de Madalena que, pela primeira vez, Paulo Honório faz uma autocrítica de si mesmo e, talvez, sinta vergonha de seus atos violentos. Numa discussão de casal, Madalena sai pelo corredor como um redemoinho e grita para Paulo Honório: “Assassino!” Depois disso, novamente uma confissão: Paulo Honório relata em suas memórias que se sentiu atordoado e murmurou – sim, murmurou! – a seguinte ofensa: Cachorra! Em suas lembranças, Madalena teria o chamado por mais três vezes de assassino. E isso parece ter o incomodado bastante. Até então, não era um assassino, apenas agia por necessidade de sobrevivência e, se caso fosse necessário tirar a vida de alguém, assim procedia sem a menor hesitação, como se afastasse um obstáculo do meio do caminho. Mas associar isso à palavra assassino, para ele era demais. Mas, realmente, Paulo Honório era um assassino, o que, inconscientemente, talvez, devia lhe deixar horrorizado.
            A culpa ainda lhe assombraria mais intensamente com o suicídio de Madalena. É o suicídio de sua mulher que faz Paulo Honório prestar contas à sua consciência, tornando-se um sujeito problemático. Percebe, então, que o mundo que construiu, à base da acumulação de bens materiais, não tinha valor de fato existencial e humano.

“A verdadeira busca começa onde termina a vida de Paulo Honório. A busca verdadeira, entenda-se, a procura dos verdadeiros e autênticos valores que deveriam reger as relações entre os homens. A vida terminou, o romance começou. O romance, segundo Lukács, é a história da busca de valores autênticos por um personagem problemático, dentro do universo vazio e degrado, no qual desapareceu a imanência do sentido à vida (Nota: LUKÁCS, G., A teoria do romance [trad. port. de Alfredo Margarido]. Lisboa, Ed. Presença [s. d.]. para uma análise postulada sobre lukács, mas diferente da nossa, ver o ensaio de Carlos Nelson Coutinho). Ora, só neste instante o herói se torna problemático, o universo surge como vazio e degradado, o sentido da vida desaparece. Antes, Paulo Honório fora um personagem coeso e forte, movendo-se um mundo de objetivos claros e (ainda que ilusório) repleto de significado: a propriedade” (LAFETÁ, p. 214).

                       
A questão da propriedade em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa

Também em Grande Sertão: Veredas o personagem principal, Riobaldo, narra em primeira pessoa as memórias de sua vida passada, o que denota forte carga subjetiva do narrador sobre os acontecimentos que se desenrolam na trama do romance. (Não vou me ater no trabalho sobre o experimentalismo da linguagem da obra rosiana).

“Vida, e guerra, é o que é: esses tontos movimentos, só o contrário do que assim não seja. Mas, para mim, o que vale é o que está por baixo ou por cima – o que parece longe e está perto, ou o que está perto e parece longe. Conto ao senhor é o que eu sei e o senhor não sabe; mas principal quero contar é o que eu não sei se sei, e que pode ser que o senhor sabe” (ROSA, p. 245).

Porém, diferentemente de São Bernardo, a propriedade não ocupa posição central. Se, como vimos, o título de São Bernardo designava uma fazenda, em Grande Sertão: Veredas é justamente o contrario; a propriedade é quase um arquipélago disperso no imenso oceano do sertão. Grande sertão é, assim, um espaço ilimitado, onde os limítrofes entre o mundo real e da fantasia são muito tênues, e veredas é o fluxo da própria vida, transitoriedade, passagem, travessia, aprendizagem.
Sobre este lugar impreciso ao conceito, diz o personagem narrador Riobaldo: “Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente forma mais forte do que o poder do lugar.” (ROSA, p. 41). Entre o pensamento e o lugar está o sertão. Conecta as duas instâncias. Indagamos: Onde começa e termina o lugar, o pensamento, o sertão? Sujeito e objeto se confundem em um mesmo reflexo no espelho. Nem materialismo, nem idealismo: apenas o sertão.
Esta insólita paisagem sertaneja, atravessada por trilhas que se dispersam no infinito, condiciona um modo de vida que revela o segredo da existência. “O sertão aparece aqui como labirinto, lugar por excelência do se perder e do errar” (Bolle, p. 65). Nada é fixo, tudo é vir-a-ser. Portanto, a propriedade ocupa uma posição marginal em um mundo em eterno devir. Mundo que é o sertão: uma realidade subjetiva-sócio-geoográfica inóspita, agreste, primeva e irredutível às convenções sociais fixadoras. Por isso, no sertão de Grande Sertão: Veredas o aparato do Estado é uma realidade muito remota e a lei é feita de fato e de direito por bandos de jagunços que vivem em permanente guerra, em um território sem demarcações legais. “Sertão é o penal, criminal. Sertão é onde homem tem de ter nuca e mão quadrada”, diz Riobaldo sobre o sertão, em suas muitas definições, que jamais apreendem definitivamente o objeto.
             Esta geografia nômade, vazia, sem lei, sem fronteiras, existencial, induz a pensar um mundo épico, maniqueísta e marcado por forte oralidade. De fato, os casos do sertão são contados através de uma torrente narrativa indomável e assistemática, sempre pela perspectiva de Riobaldo, e, daí, suas impressões ganharem estatuto de realidade. Daí os espaços míticos conterem mais verdades e melhor se adequarem à realidade do sertão do que seria o caso de uma descrição metódica e objetiva de cunho científico.

“O fundo arcaico – de cujo oco mais profundo no sertão, reino de uma mitologia crônica, parece ter saído Hermógenes – e também o da cercania do mito. Dali brota a aventura de heróis romanescos, dos grandes chefes jagunços: narrativa propriamente épica, que acaba por se definir como história de uma busca de vingança, incitada e tensionada pela paixão amorosa: amor e morte em estreita liga numa demanda aventurosa pelo fio (pela quicé) de Diadorim” (ARRIGUCCI JR., p. 17).

No sertão, homens e mulheres apresentam um feitio quase sobre humano, indistintos, e em cada paragem há algo de misterioso e encantamento. É neste cenário sincrético que surge a guerra do bando de Hermógenes e de Zé Bebelo, que será substituído pelo próprio narrador da estória, Riobaldo. Dois personagens tem grande relevo. Joca Ramiro, antigo chefe dos jagunços, é a presença-ausência na trama do romance, o nexo que supostamente, para Riobaldo, manteria a unidade do sertão, desfeita, pela traição de Hermógenes e Ricardão, assassinos do líder guerreiro. Diadorim, amor possível-impossível, nem homem nem mulher, que leva Riobaldo a uma guerra própria, interior.
Um dos aspectos mais significativos do livro, que permeia todo o romance, e que não posso deixar de mencionar, é o pacto de Riobaldo com o diabo. Em um de seus ensaios críticos, Roberto Schwarz compara o romance de Guimarães Rosa ao Doutor Faustus, de Thomas Mann. Atentando sempre para as semelhanças e as diferenças, Schwarz escreve:

“O jagunço Riobaldo e o compositor Adrian Leverkuehn têm, cada qual a seu modo, uma tarefa a cumprir, tarefa que está além de sua capacidade. Remédio é convocar a energia obscura por meio do pacto diabólico, trocar a alma pela força de levar a cabo a missão proposta. Realizado o que houvesse por realizar (a morte do bandidi assassino Hermógenes ou a criação da grande música), os dois heróis se afastam da esfera que os fez grandes:Leverkuehn sofre um ataque de paralisia que o deixa idiota, enquanto Riobaldo, também após fortes doenças e delírios, vira um pacato caipira pensativo” (SCHWARZ, P. 28).

            Em virtude do tema escolhido para o trabalho, arrisco a uma interpretação sobre o papel do pacto. Na teoria política, um contrato social inaugura as formas institucionais na modernidade. Assim Rousseau define a essência do contrato: “Todas estas clausulas, bem entendido, reduzem-se a uma única, a saber, a alienação total de cada associado (...)” (ROUSSEAU, p. 27). O contrato implica uma sociedade, abstrata e racional, que pressupõe a saída do estado de natureza. Natureza esta entendida sob a ótica de dois paradigmas antagônicos: o hobbesiano, em que o ser humano é mau por natureza e está em constante conflito; e do próprio Rousseau, em que o ser humano nasce livre e bom.
            O pacto com o demônio também é uma alienação. Em troca de superpoderes, o pactuário deve vender a alma. No caso de Grande Sertão: Veredas, analisando sobre esta perspectiva, o pacto teria um aspecto civilizador, tanto no sentido de Hobbes – paz entre os bandos de jagunços com a eliminação do mal (no caso, Hermógenes) – como no sentido roussoniano – a propriedade originaria a desigualdade social. Neste sentido, o estado de natureza é posto definitivamente em xeque quando Riobaldo faz o suposto pacto com o demônio, tornando-se então o Urutu-Branco. Fortalecido, Riobaldo supera a natureza, ao atravessar o Liso do Sussuarão, assim como Ulisses foi capaz de ouvir o canto das sereias amarrado no alto do mastro do navio, enquanto seus marujos de ouvidos tapados com cera não foram enfeitiçados. Por fim, Riobaldo acaba com Hermógenes, mas perde seu grande amor, Diadorim, que também morre em combate.

“Mas aquele seo Ornelas era homem de muita bondade, muita honra. Ele me tratou com categoria, fui príncipe naquela casa. Todos – a senhora dele, as filhas, as parentas – me
cuidavam. Mas o que mormente me fortaleceu, foi o repetido saber que eles pelo sincero me prezavam, como talentoso homem-de-bem, e louvavam meus feitos: eu tivesse vindo, corajoso, para derrubar o Hermógenes e limpar estes Gerais da jagunçagem. Fui indo melhor” (ROSA, p. 618).

            Com o sertão livre das guerras de jagunços, Riobaldo casa-se com Otacília e herda a fazenda Santa Catarina, enfim, torna-se sedentário-proprietário, na figura de um pacato fazendeiro.
O fim do sertão é, no entanto, o seu desencantamento que vem com o movimento irrefreável da modernidade, de cunho ocidental e eurocêntrica.

“Na realidade, no interior do grande sertão, a relação entre o mito e o esclarecimento parece repetir e desenvolver em enredo narrativo o mesmo esquema da dialética do esclarecimento que Adorno e Horkheimer apontaram já no interior da epopeia homérica. ‘Desencantar o mundo é destruir o animismo’, conforme notaram aqueles autores, e não é outra coisa que se registra na obra rosiana, na travessia de Riobaldo, que acaba, a seu modo, por exorcizar a projeção antropomórfica do homem da natureza do sertão, que é o demônio, reconhecendo por fim a objetividade do mundo desencantado” (ARRIGUCCI JR., p. 28).

Conclusão

            Um traço comum a ambos os romances analisados é o fato de que a violência está na base da formação da propriedade privada. No Brasil, esta violência ganha contornos ainda mais dramáticos, já que a herança colonial privilegiou sempre o grande latifúndio escravocrata. Em São Bernardo, as questões fronteiriças e até mesmo a grilagem são resolvidas pela violência – no caso, a emboscada, o assassinato de um dos fazendeiros litigantes etc. – que é, posteriormente, endossada pela pelas instituições competentes através de um simulacro de legalidade. Em Grande Sertão: Veredas, Riobaldo se torna um poderoso chefe de jagunço e, portanto, adquire legitimidade para se tornar proprietário. No fundo, tanto um como outro – ainda que indiretamente em Riobaldo – a figura do coronel é encarnada, e representa um traço marcante nas relações sociais brasileiras, mesmo nos dias atuais. No fundo, é o poder pessoal e o clientelismo que caracterizam profundamente a modernização capitalista no Brasil.

Bibliografia

ARRIGUCCI JR., D., “O mundo misturado: romance e experiência em Guimarães Rosa”, in Cadernos de Pesquisa no. 89, São Paulo: Cortez Editora, 1994.
CANDIDO, A., “Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos”, Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
BOLLE, W., O sertão como forma de pensamento, in “grandesertão.br: o romance de formação do Brasil”, Editora 34, 2004.
LAFETÁ, J. L., O mundo à revelia, in “São Bernardo”, Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 1996.
RAMOS, G., “São Bernardo”, Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 1996.
ROSA, G., Grande Sertão: Veredas, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
ROUSSEAU, J. J., “O contrato Social”, São Paulo: Escala.
SCHWARZ, R., Grande Sertão e Dr. Faustus, in “A sereia e o desconfiado”, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.


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