quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Rogue One: hoje não tem estreia!!!


por Paula Vanessa

Enquanto muitos adoraram o Episódio VII de Star Wars e estão ansiosos para assistir o novo filme Rogue One, eu ainda estou decepcionada com o que vi no ano passado.  Só agora, depois de ter passado muito tempo, passada a tristeza e a decepção, é que resolvi escrever. Pode parecer um tema desatualizado, mas o que escrevo são justamente motivos que me farão não ir ao cinema hoje.

Acredito ainda que muitos daqueles que gostaram do mencionado episódio são do tipo de “pessoa bate-palmas”: toca o hino, bate palmas; casamento, bate palmas; votação no senado, bate palmas... Não querem estar por fora, não querem estar associados ao passado e querem demonstrar que estão bem informados e abertos para todo tipo de inovação. E quem não gostou não tem o direito de dizê-lo, porque senão corre o risco de ser banido da “comunidade Star Wars”.

Quando passar a histeria, provocada pelo retorno de mais um episódio da saga, e a vontade de rever o filme na telona, vai ser possível dizer: “não gostei”. Com certeza, vai ter um monte de gente afirmando que “O Despertar da Força” decepcionou. Pois, se a intenção era que o filme representasse uma ruptura com os episódios anteriores, ele deveria romper mesmo. Mas não foi o que aconteceu. Velhas histórias foram recontadas com “novos personagens”: o jovem Jedi seduzido pelo lado negro da força ou, então, o mestre decepcionado que some para um lugar inacessível.

Quando fui ao cinema no ano passado, desejava assistir um bom filme, com uma história emocionante e efeitos especiais fantásticos, mas, principalmente, para me integrar a um grande encontro mundial de rebeldes, de siths, de seres galáticos. Fui ao cinema participar do grande “rito de passagem” dessa epopeia moderna da sétima arte, onde a velha geração entrega para a nova o bastão que um dia pertencera aos deuses do Olimpo.

É por isso que o novo filme da série, Rogue One, me entristece muito, porque hoje eu gostaria de voltar aos cinemas em busca de novas alianças e não apenas para ver mais um capítulo da “novela Star Wars”. Não me sinto com forças para assistir esse filme depois do episódio VII... e esse número já é bem pesado para nós brasileiros... “O Despertar da Força” despertou em mim – e o trocadilho não é mera distração – muita tristeza pelo fato da história ter sido enlatada e vendida por comerciantes gananciosos. Pois, o único objetivo do vendedor é vender, não importa o quê e como, mas o produto tem de ser vendido.

Sob esta lógica mercantil, agora poderemos comprar Star Wars todo ano!!!!!!

Tudo bem, sabemos que esse é o mundo em que vivemos. Podemos não estar de acordo, mas isso não nos isenta da condição de cúmplices! Também somos consumidores insaciáveis!!!

Mas a saga Star Wars não poderia ter sido consumida pela vaidade de poucos e a ânsia pelo lucro dos novos proprietários da franquia (!).

Seria de bom alvitre se, pelo menos, a identidade dos fãs fosse preservada no filme.

Se a marca estampada na mercadoria, ao menos tivesse a nossa cara, teríamos saídos satisfeitos do cinema. Para comprar, temos que nos identificar com o produto. Mas, se a nova franquia reduz todo o ritual que envolve a série em uma mercadoria, os comerciantes deveriam ter pensado nisso antes de entregar o filme para um egocêntrico rodar!!!

Não é de hoje que nós humanos gostamos de contar e recontar histórias de heróis míticos. Não é privilégio da “sociedade do espetáculo” reviver os feitos dos deuses e semideuses, espelhar suas posturas, interpretar suas falas, imitar seus gestos. Desde muito tempo, outras narrativas tiveram vida própria e não dependiam apenas do talento do seu criador. Sempre contavam com a empatia de um público receptor que vou chamar aqui de comuns, ou seja, nós, os espectadores. Foram os comuns que consagraram Homero, transmitindo por milênios seu nome e sua genialidade. São os comuns que contam, recontam, vivem e recriam seus versos, eternizando o próprio Homero.

Já na Pré-história, na Idade do Bronze, circulavam histórias fascinantes como a de uma personagem que era atraída para o lado negro. O pessoal lá das cavernas contava a história do ”Ferreiro e do Diabo”, um tipo de Darth Vader, ao gosto dos comuns daquela época. Comum em latim é COMMUNIS, significa “ato de repartir deveres entre todos”. MUNUS, em latim significa ofício, obrigação e, ainda, dom, recompensa. A etimologia da palavra pode nos sugerir que são os comuns que transformam o dom em uma tarefa a ser compartilhada por e para todos. Ao se reapropriarem da historia, dão a ela significados subjetivos que lhes trarão uma sensação de pertencimento, de familiaridade, ao recontá-la sempre como se fosse parte de suas próprias trajetórias. E assim ela atravessa décadas, séculos, enfim, milênios.

Voltando aos nossos tempos, à série Star Wars, para que haja uma identificação com uma narrativa, uma empatia para com ela, supõe-se que todos os comuns revivam um momento em que Carrie Fisher, Mark Hamill e Harrison Ford aparecem juntos. Tal cena, em 2015, após décadas de “Guerra nas Estrelas”, seria antológica, lendária, única. Unir as três personas juntas, naquele momento em que gerações foram ao cinema participar de um “rito de passagem”, seria como se fosse uma forma de permitir que os comuns de nosso tempo se familiarizassem com os novos episódios da série. Unir tais personagens não seria repetir um enredo antigo, mas lhes dar um espaço respeitoso entre os novos protagonistas, até mesmo para que as primeiras gerações pudessem ter um sentimento de reconhecimento. Seria um momento de um grande reencontro, uma festa de confraternização. Depois de tantos anos, seria um reencontro de proporções mundiais... Mas alguém resolveu boicotar...

Tais personagens, eu os chamo de “personas” porque, em algum momento da trajetória desse nosso mundo, onde o real se confunde com o virtual, estes atores se transformaram em heróis, tanto quanto às personagens a que deram vida. São pessoas que se transformaram em personagens. Por isso, havia grande expectativa para que, atuando juntas, promovessem a união dos laços que atariam diferentes gerações. Personas que esperavam ser vistas. Esperavam estar juntas e poderiam realmente ter protagonizado no episódio VII um agradável happy hour.

Acredito que seria uma unanimidade, entre todos os fãs, assistir na telona a princesa Leia, Luke Skywalker, Han Solo (e até o Chewbacca) juntos em ação! Mas não! Deixaram estes personagens muito distantes uns dos outros e de nós, os comuns! Por exemplo, o Luke foi parar bem longe, em cima de um penhasco! Bem no alto e na pontinha... prestes a cair...

Esta última e enfadonha cena me faz lembrar aquela perguntinha infame que circulava às vésperas da estreia do episódio VII: por que o Luke não aparece no cartaz do filme? Porque simplesmente ele não aparece no filme!! Como bem disse minha filha: “Quem espirrou no final do filme não conseguiu ver o Luke Skywalker”.

Acredito, inclusive, que, se houvesse um pouco de sensibilidade da parte dos produtores, bastava apenas uma cena para estabelecer uma experiência vivida em comum pelas diferentes gerações presentes nos cinemas. Eu escolheria uma cena em que Luke, Han e Léia se abraçam no filme “Guerra nas Estrelas”, que depois virou “Star Wars: Uma Nova Esperança”. No final do filme quando os Rebeldes destroem a Estrela da Morte, Luke e Han saem de suas naves, se reencontram com Léia, e, abraçados, comemoram a vitória. Poderia haver esse abraço no episódio VII, que teria o valor de uma comemoração simbólica pela vitória da saga sobreviver por mais de 30 anos. O que se viu, no entanto, não foi um reencontro nem uma vitória, pois estes não foram levados em consideração pelo diretor nem pelos comerciantes de “O Despertar da Força”.

Seria uma cena memorável se os três heróis aparecessem unidos e depois cada um tomasse seu próprio rumo... Porque nós humanos não somos eternos... De fato, o filme é uma ficção, mas nós somos de carne e osso.

Porém somos nós, de carne e osso, que tornamos real a ficção.

Neste sentido, os três atores deveriam ter sido mais aproveitados pela produção; deveriam ter maior participação, já que são gente e não efeitos especiais. Sem dúvida, não são mais jovens. Mas continuam ótimos atores e os legítimos elos para dar continuidade à trilogia. Pena que não foi assim...

Todos estariam representados, personas e comuns, todos teriam se identificado. Se estes pudessem ter vivenciado a atuação dessas personas, que iriam abrir o caminho para a épica estelar no século XXI.

Para aqueles que no passado foram jovens e envelheceram juntos com seus heróis, e para aqueles que hoje são jovens e estão prontos a pegar o bastão dessa odisseia, a confraternização dos três heróis teria sido gratificante para o público em geral.

Não quero aqui sustentar um saudosismo empedernido. Todos esperavam novas personagens, pelos quais uma nova trama teria início, dando seguimento à aventura. Mas todos queriam ver seus heróis unidos celebrando a continuidade da trama.

O que me parece que rolou, no entanto, foi o fato de a vaidade humana em parceria com a ganância almejar produzir um “filme polêmico” e, por consequência, atraente para o mercado. Sim, qualquer polêmica, desde que desse o que falar. Os novos donos da franquia queriam ganhar muito dinheiro e os responsáveis pela filmagem queriam entrar para a história da sétima arte. Aí veio a falta de sensibilidade do diretor, roteirista, produtor, detentor dos direitos autorais, ou sei lá quem mais, ao se deter em um artifício óbvio, porém, não menos apelativo: matar um dos heróis e gerar polêmica com isso. Fácil, muito fácil, mas pouco inteligente.

Assim, mataram o Han Solo sob o pretexto de que, para se aliar ao lado negro da força, seu filho, Kylo Ren, teria de tomar uma atitude bem perversa para que assim justificasse sua opção pelo mal. Então o “novo Vader” mataria seu próprio pai, se tornaria extremamente maléfico...

A indignação foi total. Grande foi a decepção na sala de cinema em que eu estava. Houve até que fosse embora!

A saga tinha ficado incompleta, parou em “Star Wars: O Retorno de Jedi”. Ainda estamos aguardando o episódio VII, pois aquele de 2015 não fez jus às expectativas dos comuns. Ou então, reivindicamos “Star Wars: O Retorno de Han Solo”.

Ao deixar a sala de cinema, passei o ano todo pensando em várias hipóteses para explicar tão grande desapontamento em relação ao episódio em tela e só me veio uma palavra: vaidade. Vaidade igual àquela que fez Narciso cair no lago ao se admirar no espelho d’água. Pensei: o autor tem a oportunidade de se consagrar como sendo aquele quem criou o elo entre as gerações, o Homero do mundo pós-moderno, e se transforma em alguém indigno de ser laureado por elas. Realmente, que tipo de cara é escalado para dirigir um filme que é, mesmo antes de ser filmado, um sucesso de bilheteria e ainda assim consegue decepcionar?!!! Um filme que por si só tem o potencial de se tornar um sucesso retumbante, mas que, em suas mãos, não passou de um fragoroso fracasso. Não dá para entender. Só mesmo pensando em termos de vaidade. Vaidade que impediu o diretor de dar os méritos aos verdadeiros protagonistas da história e ao mestre da saga: George Lucas. Realmente, o novo diretor não queria ser lembrado como aquele que deu continuidade a série; queria, ao contrário, ter brilho próprio como um inovador. Mas não é fácil brilhar sem a empatia dos comuns. São os comuns que transformam um criador em gênio... Àquela pessoa de ego inchado, faltou-lhe generosidade e, principalmente, humildade.

O diretor queria uma ruptura a qualquer custo numa tentativa de se sobressair, a cima, da própria série. Não conseguiu. Talvez, queria dar um “up” em sua fama, a qualquer preço, mesmo que isso custasse o desapreço total pela saga, pelos fãs e, principalmente, pela herança das “gerações Star Wars”. Quis entrar para a história pela porta da frente, causar, impactar.

Impactante foi a sua burrice...

A verdade é que o filme não trouxe nada de inovador. Foi um patchwork das trilogias anteriores – e acredito que, realmente, era assim que tinha que ser. Mas nenhum dos fãs gostaria que o episódio VII representasse uma ruptura com os anteriores. Ao contrário, os fãs queriam matar a nostalgia e assistir a substituição dos antigos protagonistas pelos novos, numa transição continua que a todos contemplasse. Por isso, as referências, que são as cenas, as falas ou indicações que nos remetem aos acontecimentos anteriores, teriam de ser imprescindíveis.

Muitas cenas que, inclusive, deveriam desempenhar esta função de ganchos no episódio VII, embora muito aplaudidas pelos fãs, não cumpriram esse papel. Havia muitos outros momentos celebres que poderiam ter sidos usados como ótimas “referencias” e foram ignorados. Apesar desta falta, tudo certo, o público estava digerindo bem, e, como foi dito, aplausos foram arrancados no auditório, porque tínhamos a ideia de que era “um filme de passagem”.

Um “filme de passagem” é como um “rito de passagem”: ocorre um sacrifício, há uma grande comemoração e os mais velhos cedem lugar a uma nova geração, que será responsável pela condução do futuro.

A comunidade Star Wars toda estava lá, na esperança de experimentar a transformação intrínseca à Star Wars a partir de uma nova linguagem, feita por novos interlocutores.

Na minha opinião, a ideia que motivou a construção do personagem que representaria o novo vilão também foi de muito mal gosto. Que coisa mais doentia, um vilão parricida!!! Desnecessário apelar tanto para construção do mau. Existem tantos perfis nefastos que causam repulsa e poderiam a contento compor a personagem. Basta ter um pouco de criatividade e encontrar uma que dê bastante aversão. Se o problema era falta de inspiração, bastava entrar em um site de pesquisa da internet e digitar “10 passos para se criar um vilão”. Acho que teria saído coisa melhor daí. Um pouco de sadismo e de cinismo, e pronto! Kylo Ren já poderia ter ficado muito tenebroso.

É totalmente inconsistente o fato de o vilão ser um parricida, para lhe conferir legitimamente maléfica, quando descobrirmos que os novos personagens exibem destreza com o sabre de luz mesmo sem o treinamento necessário dos primeiros episódios. Mas apesar disso, ninguém estava se importando se a Rey sabia usar a Força sem ao menos ter sido preparada para isso por um Yoda; ou ainda muito menos para o fato de um Storm Trooper lutar com um sabre de luz tão facilmente como Luke; ou para os remendos dos filmes anteriores justificarem a Resistência etc. O que se esperava era apenas um “O filme de passagem” que pudesse dar continuidade a essa história que encantou tantas gerações ao redor do mundo, tantos comuns que transformaram “Star Wars” na “Odisséia” do Mundo Contemporâneo.

Não é exagero da minha parte. Os novos personagens estavam sendo bem aceitos por um público receptivo e até muito celebrados. Como já disse, havia uma necessidade de transmitir a tradição da saga para as novas gerações. Todos queriam novos Rebeldes, novos clones, novos Jedis, novos Palpatines, novos Landos, novos mestres... Estava valendo tudo. Ou, quase tudo...

Eu, particularmente, gostei muito quando a Rey e o Finn, em fuga, procuram uma nave e partem com a sucata mais incrível da galáxia: a Millennium Falcon. Gostei da cena em que Han, ao recuperar a Millennium, diz ao Chewie: “Estamos em casa”.

Se eu pudesse dar um pitaco no filme, colocaria o George Lucas de mecânico, consertando uma  X-Wing, ao estilo Hitchcock. Eu o aplaudiria de pé!!!
  
Tudo porque, para mim, havia um entendimento de que é necessário uma transformação para se adequar as linguagens do mundo de hoje, passados 30 anos desde que fora rodado o primeiro filme. Para dar continuidade, seriam necessários novos interlocutores engajados nessa empreitada.

Ao deixar passar a oportunidade de juntar os heróis da saga, o filme redundou em frustração, assim como todos os outros que levarão o nome Star Wars da franquia Disney. Matar Han Solo foi matar a vontade de voltar aos cinemas para assistir uma história de muito tempo atrás, ocorrida numa galáxia muito, muito distante...

Como retornar ao cinema para assistir Darth Vader na nova produção da série, Rogue One? Qualquer um pode vestir aquela capa e aquele elmo e atuar como essa personagem!!! Não é como o Luke, a Léia ou o Han!!!

Por que eu assistiria narrativas paralelas se não me identifiquei com o “episódio VII”? Até mesmo porque sei que Vader é um grande vilão e, como tal, será insuperável...

Por fim, após esse desabafo, aconselho a todos irem aos Shoppings Centers e passarem bem longe das salas de cinema. Quem sabe, nestes tempos natalinos, não será mais interessante tirar uma foto com Papai Noel (personagem de outra história que atravessa gerações!!!) e talvez pedir de Natal uma ratoeira... 

domingo, 20 de novembro de 2016

Livraria do blog

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Florisa é uma jovem mulher casada com um empresário bem sucedido. Sua vida é monótona e por isso ela resolve voltar a estudar. Na faculdade, conhece pessoas diferentes que irão mudar a sua vida para sempre. “Des-Tino” é uma história de amor composta para a dramaturgia.Livro didático-infantil sobre astronomia básica (sistema solar) e temas atuais relativos ao planeta Terra, como aquecimento global. Descrito de modo divertido, faz nos lembrar de como o planeta Terra é bonito e ensina como é importante cuidar do planeta. .

Haveria ainda utopia no planeta Terra nos tempos atuais? Guerras, aquecimento global, devastação da natureza, poluição, escassez econômica, corrupção, são alguns dos inúmeros problemas que a humanidade precisa enfrentar porque a sua própria subsistência está em risco. Superar tais obstáculos para garantir a existência da espécie humana no futuro é o grande desafio do nosso tempo. Eis o grande dilema que se impõe a todos nós e que vivenciamos na atualidade: ou mudamos o mundo, tal como o conhecemos; ou a destruição total certamente virá. Neste romance de ficção científica, um estranho personagem abandona o planeta Terra para andar pelas Estrelas, a procura de um mundo melhor, mais justo e feliz, onde seus habitantes se respeitam e se autogovernam de modo inteligente e em harmonia com a natureza e o Universo.A primeira greve planetária escrita para o teatro e outros causos vulgares, no mínimo, singulares narrados pelo último anarquista no século XXI.

A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, é uma obra marcante do romantismo brasileiro publicada em 1844. A história gira em torno de Augusto, um jovem estudante de medicina, que aceita o desafio de seus amigos durante uma estadia na casa de Dona Ana, avó de Carolina, a protagonista. Eles apostam que ele não seria capaz de se apaixonar e permanecer fiel a uma única mulher por mais de quinze dias.  Na ilha onde ocorre a maior parte da trama, Augusto conhece Carolina, a moreninha encantadora, e a convivência desperta um amor inesperado. Contudo, ele guarda uma promessa de fidelidade feita a uma paixão de infância, criando um conflito interno. Aos poucos, os mistérios da infância de Augusto e Carolina se entrelaçam, revelando que ela é a mesma menina a quem ele prometera amor eterno.  Com uma linguagem leve e cheia de humor, o romance aborda temas como o amor idealizado, fidelidade e os costumes da sociedade da época. No desfecho, o reencontro com o passado solidifica o amor dos protagonistas, e Augusto finalmente cumpre sua promessa. A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, narra a trágica história de amor entre Marguerite Gautier, uma cortesã parisiense, e Armand Duval, um jovem burguês apaixonado. Marguerite, conhecida por sua beleza e pela predileção por camélias, é envolta em uma vida de luxo e decadência. Apesar das barreiras sociais e do preconceito, os dois vivem um romance intenso. No entanto, a relação enfrenta a oposição da família de Armand, que teme pela reputação do jovem. Pressionada, Marguerite sacrifica seu amor para proteger Armand, afastando-se dele. Com o tempo, ela adoece gravemente e morre na pobreza, deixando Armand desolado. A obra explora temas como amor, sacrifício, hipocrisia social e redenção, sendo uma das histórias mais emblemáticas do romantismo francês. 

Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, é um clássico da literatura portuguesa que narra a história trágica de amor entre Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, jovens de famílias rivais. O romance entre os dois enfrenta a oposição de seus pais, que forçam Teresa a entrar para um convento e planejam seu casamento com outro homem. Simão, tomado pela paixão, tenta lutar contra as imposições, mas acaba envolvido em um conflito que leva à morte de Baltasar, rival amoroso, e à sua prisão. Condenado ao exílio na Índia, Simão morre durante a viagem, enquanto Teresa também sucumbe ao sofrimento no convento. A obra explora temas como destino, paixão avassaladora e as tragédias causadas pelas convenções sociais. Desobediência Civil, de Henry David Thoreau, é um ensaio que defende o direito de resistir pacificamente a leis e governos considerados injustos. Escrito em 1849, o texto reflete a oposição de Thoreau à escravidão e à Guerra Mexicano-Americana. Ele argumenta que a consciência individual deve prevalecer sobre as leis impostas, e que os cidadãos têm o dever moral de não colaborar com sistemas opressores. Thoreau enfatiza o poder da ação individual e da resistência pacífica como ferramentas para promover mudanças sociais e políticas. A obra influenciou movimentos liderados por figuras como Mahatma Gandhi e Martin Luther King Jr., tornando-se um marco no pensamento sobre justiça, liberdade e direitos civis.

Os contos de Machado de Assis são obras-primas da literatura brasileira, marcados por sua profundidade psicológica, ironia sutil e estilo conciso. Em narrativas como "O Alienista", ele explora as fronteiras entre a razão e a loucura, enquanto em "A Cartomante" aborda os paradoxos do destino e da superstição. Machado constrói personagens complexos, revelando as contradições humanas com olhar crítico e sarcástico. Sua escrita reflete uma sociedade marcada por desigualdades e hipocrisias, mas sempre com elegância literária e um toque de humor. Combinando introspecção e crítica social, os contos de Machado permanecem atemporais, desafiando leitores a refletirem sobre si mesmos e o mundo ao redor. Édipo Rei, tragédia de Sófocles, narra a jornada de Édipo, rei de Tebas, em busca da verdade sobre sua origem e o motivo da desgraça que assola sua cidade. Ao investigar o assassinato do antigo rei, Laio, Édipo descobre, com horror, que ele próprio é o culpado, tendo matado o pai sem saber e desposado sua mãe, Jocasta. A peça explora temas como o destino inevitável, a cegueira (física e simbólica) e o confronto entre o homem e as forças superiores. Ao final, Jocasta se suicida, e Édipo, em desespero, cega a si mesmo e aceita o exílio, cumprindo o destino profetizado pelos oráculos. A obra é uma reflexão poderosa sobre os limites do controle humano frente à vontade divina. 

Mensagem, de Fernando Pessoa, é uma coletânea de 44 poemas que celebra a história, a mitologia e o destino de Portugal. Dividida em três partes – Brasão, Mar Português e O Encoberto –, a obra traça uma visão épica da nação, exaltando seus heróis e feitos marítimos, como a Era dos Descobrimentos, enquanto reflete sobre o presente e anseia por um futuro glorioso. A última parte aborda o mito sebastianista e a crença no retorno de um salvador que trará redenção a Portugal. Combinando nacionalismo, simbolismo e misticismo, Mensagem é um canto de esperança e uma meditação poética sobre o papel de Portugal no mundo. "O Alienista", de Machado de Assis, é uma sátira que explora os limites da razão e da loucura. A trama se passa na fictícia cidade de Itaguaí, onde o médico Simão Bacamarte funda a Casa Verde, um asilo para tratar pessoas consideradas insanas. Inicialmente, ele confina indivíduos com comportamentos estranhos, mas, ao longo do tempo, amplia os critérios, internando grande parte da população, incluindo autoridades e cidadãos influentes. Isso gera revoltas e questionamentos sobre quem realmente é louco. No desfecho, Bacamarte conclui que ele próprio é o único insano e decide se internar. O conto provoca reflexões sobre o poder da ciência, a moralidade e os limites da autoridade.

"O Guardador de Rebanhos", de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, é uma coletânea de poemas que celebra a simplicidade e a conexão com a natureza. O poeta se apresenta como um pastor que observa o mundo sem buscar significados profundos, valorizando a experiência sensorial e rejeitando abstrações e crenças metafísicas. Sua filosofia é marcada por um olhar inocente e direto, que enxerga as coisas como elas são, sem a necessidade de transcendência. Por meio de versos livres e linguagem acessível, Caeiro desafia conceitos tradicionais de poesia e filosofia, exaltando a harmonia entre o homem e o mundo natural. A obra reflete uma atitude de aceitação e uma busca por autenticidade no viver. Dom Casmurro, de Machado de Assis, é uma das obras mais importantes da literatura brasileira. O romance é narrado em primeira pessoa por Bento Santiago, conhecido como Dom Casmurro, que relembra sua vida, marcada pelo amor por Capitu, sua amiga de infância. A narrativa aborda temas como ciúme, traição e dúvida. Bento suspeita que Capitu o tenha traído com seu melhor amigo, Escobar, e que seu filho seria fruto dessa traição. Porém, a obra nunca confirma essas suspeitas, deixando o leitor em um constante estado de incerteza. Com um estilo irônico e psicológico, Machado de Assis explora a complexidade dos sentimentos humanos e a subjetividade da verdade. 

O Sermão da Sexagésima, pregado por Padre Antônio Vieira em 1655, tem como tema central a eficácia da pregação da palavra divina e os motivos pelos quais nem sempre ela gera frutos. Baseado na parábola do semeador, Vieira compara os pregadores a semeadores e as palavras a sementes, destacando que o sucesso depende tanto da qualidade da semente quanto da disposição do terreno (as almas dos ouvintes). Ele critica pregadores que buscam vaidade e exibicionismo, afastando-se do verdadeiro propósito da pregação. Vieira defende a necessidade de clareza, simplicidade e unção na oratória religiosa para tocar os corações e produzir conversão. O sermão reflete seu brilhantismo retórico e sua preocupação com a eficácia da evangelização. Durante os eventos de Outubro, os marinheiros da base naval de Kronstadt foram essenciais para que os bolcheviques chegassem ao poder. Em 1921, frustrados com a piora das condições econômicas devido ao Comunismo de Guerra e os movimentos cada vez mais imperiosos dos bolcheviques para centralizar o poder em torno de seu partido, marinheiros e soldados de Kronstadt ficaram desiludidos com os rumos em que os eventos estavam tomando e apresentaram uma série de demandas destinadas a reconquistar o controle e a autonomia popular prometidos pela Revolução de 1917. A Revolta de Kronstadt, de 1921, muito embora frequentemente negligenciada pela historiografia recente, foi o acontecimento mais importantes do fim da Guerra Civil, antes da guinada da Rússia Soviética para uma economia sob a égide do capitalismo de Estado. A repressão sangrenta do “governo dos trabalhadores e camponeses” sobre o movimento rebelde marcou um golpe final em qualquer esperança de uma verdadeira revolução popular baseada na autogestão democrática dos trabalhadores.

Senhora, de José de Alencar, é um dos romances mais marcantes do romantismo brasileiro, explorando temas como o casamento por interesse, a hipocrisia social e a força feminina. A trama acompanha Aurélia Camargo, uma jovem de origem humilde que herda uma grande fortuna e decide usar seu poder financeiro para vingar-se de Fernando Seixas, seu antigo amor, que a abandonou para casar-se com uma mulher rica. Aurélia oferece uma grande quantia para casar-se com ele, mas transforma o matrimônio em um acordo frio, humilhando-o. Ao longo do livro, a narrativa expõe as fragilidades humanas e os conflitos entre amor e orgulho. Com uma protagonista determinada e reflexões críticas sobre os valores da sociedade, Senhora é uma obra-prima do romance urbano brasileiro. Iracema, de José de Alencar, é um romance indianista que narra a trágica história de amor entre Iracema, uma índia da tribo dos Tabajaras, e Martim, um colonizador português. Iracema é a guardiã do segredo do licor da juventude de sua tribo, mas se apaixona por Martim, traindo sua missão sagrada. O relacionamento dos dois simboliza a união entre as culturas indígena e europeia, mas também resulta em sofrimento. Iracema abandona sua tribo e, após uma série de desafios, dá à luz Moacir, o “primeiro cearense”. Contudo, a protagonista morre, vítima da tristeza e da ruptura com sua identidade cultural. O livro mescla lirismo e nacionalismo, celebrando as origens do Brasil em meio a uma narrativa poética. 

A verdade sobre Kronstadt ("Pravda o Kronshtadte"), uma obra de muitas mãos, foi publicado pelo periódico Volia Rossi em 1921 e é fonte primária indispensável sobre a rebelião dos marinheiros de Kronstadt na Rússia Soviética de 1921. Esta edição contém um prefácio de Jean (Fecaloma – punk rock), uma discussão sobre a atualidade de Kronstadt na historiografia recente, o texto propriamente dito de A verdade sobre Kronstadt, um mapa de Kronstadt e seus fortes no Golfo da Finlândia e a edição completa do “Izvestiia do Comitê Provisório Revolucionário, dos marinheiros, soldados e trabalhadores da cidade de Kronstadt” (14 exemplares). (Total: 260 páginas). A antologia poética de Jean Monti é um reencontro com a juventude do autor, que aos 20 anos escreveu suas reflexões e emoções em três cadernos. Esquecidos pelo tempo, os cadernos ficaram guardados até que, aos 40 anos, Jean encontrou dois deles em uma caixa durante uma mudança. Reconectado com sua voz mais jovem, o autor decidiu transcrever e preservar esses poemas, resultando em uma obra que celebra a força da memória e a passagem do tempo, revelando uma visão poética marcada pela sensibilidade e a introspecção da juventude.

domingo, 30 de outubro de 2016

Presidenta ou presidente? Gênero não pode ser neologismo

Por Zarina Monti Airumã

A posse da ministra Carmem Lúcia ao posto da presidência do supremo tribunal federal gerou polêmica nas redes sociais. Isso porque ao ser interrogada sobre qual forma verbal gostaria de ser chamada, presidenta ou presidente, a ministra respondeu com empáfia: “Eu fui estudante e sou amante da língua portuguesa e acho que o cargo é de presidente, não é não?” Ato contínuo, a figura mais bizarra daquele “egrégio tribunal” (Nota 1), Gilmar Mendes, emendou: “Ontem até dizem que teve uma presidenta inocenta”.

(Nota 1: As aspas em “egrégio tribunal” não é porque acredito que a suprema côrte é um instrumento de justiça, mas que o judiciário brasileiro, por seu protagonismo político, pôs por terra, de uma vez por todas aqui no Brasil, a teoria dos três poderes de Montesquieu).

Após a declaração infeliz da presidente do stf Carmem Lúcia, houve uma enxurrada de comentários de internautas em fóruns de discussão que expunham, um atrás do outro, inúmeros registros da palavra presidenta em textos que iam desde Machado de Assis a Camilo Castelo Branco.

Já os fascistas, que exibem orgulhosamente uma ignorância atroz, embora se creem muito cultos (!!!), como era de se esperar, rejubilaram com a ministra.

Tal episódio, que poderia passar por trivial, esconde uma questão muito mais profunda do que parece.

Ao aproximarmos superficialmente da questão, a declaração de Carmem Lúcia demonstra, a princípio, que ela teria corrigido tardiamente Dilma Rousseff quando esta, ao ser eleita ao cargo da presidência da república, optou por ser chamada de presidenta, assim mesmo, no feminino.

Atravessando a superfície, numa análise mais detida da frase da atual presidente do stf, duas coisas sobressaem: primeiro, que ela, Carmem Lúcia, foi estudante (verbo no passado) e não é mais; e, segundo, que a ministra é uma amante bem infiel da língua portuguesa. Pois, além de manifestar uma visão simplista sobre a linguagem, rigorosamente, presidente não é cargo mas, sim, que preside [adjetivo] ou título [substantivo] de quem exerce o cargo da presidência. Como então o cargo não é presidente e, sim, função de quem preside, não acarretaria maiores constrangimentos dizer cargo de presidenta. Em o “cargo é de presidente”, o substantivo presidente está no genitivo regido pela preposição de antecedida pelo verbo ser, por significar possuidor do cargo. Logo, o cargo (é do ou é da) pertence ao presidente ou à presidenta. Pois é, ministra, achou errado!

Quanto a intervenção de Gilmar Mendes, vale o velho ditado: insistir em um erro é burrice.

Afora os deslizes gramaticais, se o cargo é de presidente, a mulher que o ocupa é, evidentemente, a presidenta.

De fato, a palavra presidenta é recorrente, na língua portuguesa, desde pelo menos o início do século XIX. (Ver referências no fim do texto). No francês, no espanhol e no galego, muito antes disso.

Se, no entanto, os anos de 1800 pareçam relativamente recentes, é bom lembrar que a generalização da palavra presidente como chefe de Estado também é recente. Data, obviamente, da vigência do presidencialismo.

A origem é latina e literalmente significa “estar à frente”. Os romanos, a partir da era cristã, utilizavam-na para designar genericamente governante de província ou outras funções na magistratura. Na república de Veneza, o vocábulo ganhou vitalidade, mas só a partir da independência dos EUA, no século XVIII, a partir de uma releitura idealizada da frugalidade romana, tornou-se de uso corrente o sentido supracitado.

(A título de curiosidade, o Dicionário de Etimologia da Língua Portuguesa Pedro Machado registra do ano de 1457, “calisto terceiro era presidente na Ygreja”, Desc. I, p. 545; e “havendo quinze anos, um mês e sete dias que presidia na Igreja de Deus”, Frei Bernardo de Brito, Monarquia Lusitana VI, cap. II, século XVI. “Presidência” data do século XVII. Ao que parece, o termo no português era empregado no jargão eclesiástico, para se referir ao papado).

Mas se para nós a palavra presidente no feminino causa estranheza, o que não ocorreria o mesmo com a palavra governanta, é porque o contexto social até os dias de hoje impediu a mulher de ocupar funções de liderança, como a presidência de qualquer coisa.

Isso porque a linguagem é um reflexo da composição social. Governanta, no caso, era uma funcionária que se empregava numa casa de família para educar crianças. Governante é o chefe de Estado, o mandatário, o comandante etc. O significante é o mesmo, mas o conteúdo ideologicamente distinto.

A mulher, nas sociedade patriarcais, sempre ocupou posições inferiores, geralmente ligadas a tarefas domésticas. Portanto, o respectivo contexto sociológico sempre determinou as distinções de gênero em sociedade, relegando aos escalões inferiores a condição da mulher, refletindo na linguagem, que foi forjada com o selo masculino. A neutralidade da linguagem, por isso, dissimula uma ideologia fortemente machista, de séculos e mais séculos de violência, dominação e opressão.

Ora, em um mundo em que até bem pouco tempo as mulheres tiveram de se organizar e lutar por seus direito, como sufrágio universal, ou seja, conquistar o direito de votar em um presidente (!!!), o grande equívoco foi acreditar que a presidenta Dilma Rousseff teria inventado um neologismo, criado para marcar o ineditismo do fato de uma mulher se tornar autoridade máxima da república.

No Brasil, por exemplo, dos 36 presidentes, apenas um é mulher: Dilma Rousseff. (Nota-se a desinência masculina marcando coletividade ou sempre dissimulada pela neutralidade). Assim, como a palavra presidenta poderia soar bem aos ouvidos acostumados a ouvir palavras denominando homens sempre mandando em tudo? Como poderia a palavra presidenta ser de uso disseminado se, até bem pouco tempo atrás, as mulheres sequer podiam votar?

Mas, ainda que presidenta fosse um neologismo, seria extremamente justificável a novidade ortográfica, e a recusa em chamá-la pelo termo, apoiando-se numa suposta ortodoxia, por parte de setores reacionários, indica apenas uma tendência social refratária a mudanças.

Ainda assim, muitos saíram em defesa da presidente do supremo tribunal, argumentando que o stf não era ambiente para experiencialismos linguísticos, como o uso de neologismos. (Como se aquele ambiente fosse uma casa respeitável!)

Nada mais falacioso.

Ora, em termos rigorosos, qual palavra da língua portuguesa não é neologismo? Ou alguém acredita em um etéreo mundo das ideias de palavras e regras gramaticais puras, eternas, e imutáveis?

Na verdade, como é bem sabido, a língua portuguesa é, como todas as línguas neolatinas, derivada do latim vulgar, isto é, o latim mal falado, popular, contaminado por barbarismos e estrangeirismos, e de maneira alguma é a flor do Lácio; é um de seus filhos bastardos.

Toda a língua tem uma natureza plástica, contraditória, mutável. Se não fosse assim, os europeus e os indianos ainda falariam o mesmo idioma, o indo-europeu.

A língua portuguesa não é diferente. Ela se transformou, ao longo do tempo (diacronia), está em constante variação (sincronia) e será uma língua distinta no futuro. Tal fenômeno é bem conhecido entre os linguistas e é inevitável.

Mas não é preciso ir tão longe. O neologismo “você”, por exemplo, formado por aglutinação do pronome de tratamento “vossa mercê”, hoje é tão “natural” que nenhum gramático, por mais purista ou saudosista que seja, interditaria o seu uso sob pena de cometer erro gravíssimo.

Portanto, a norma culta é uma ficção. Um arquétipo que só encontra respaldo nos livros de gramática. Funciona como um lastro e, de certa forma, como um segregador social quando alguma circunstância obriga o seu uso, geralmente restrito à escrita, em provas de concurso público, editoras etc.

No dia a dia, entretanto, assim como no trânsito, ninguém respeita as regras (gramaticais). Porém, diferentemente do trânsito, onde as infrações das normas podem acarretar acidentes gravíssimos, o estrito cumprimento da gramática normativa inviabilizaria a plena fluência da comunicação, já que a fala é regida por outras leis.

Há, sem dúvida, um descompasso entre a gramática e a língua viva. Aquela sempre chega atrasada e de tempos em tempos tem de ser atualizada, ou melhor, corrigida pelo uso coloquial!

Um caso clássico disso foi imortalizado por Oswald de Andrade no poema Pronomiais: “Dê-me um cigarro; Diz a gramática; do professor e do aluno; E do mulato sabido; Mas o bom negro e o bom branco; Da nação brasileira; Dizem todos os dias; Deixa disso camarada; Me dá um cigarro”. Hoje, a gramática se rendeu ao uso vulgar e consagrou como correto a colocação pronominal um tanto idiossincrática do brasileiro, que outrora ou em terra lusitana seria pecado gramatical (Nota 2).

(Nota 2: O referido pronome de tratamento “você” também foi assimilado normativamente pela gramática portuguesa, embora no português brasileiro ocasionou um grande estrago, com a supressão da segunda pessoa, bem como sua respectiva conjugação verbal, que caiu em desuso, a desestabilização dos demonstrativos “este” e “esse” etc.).

Aliás, um dos primeiros exercícios do curso de linguística é mostrar como os defensores da norma culta cometem erros grosseiros de português. Os exemplos são numerosos. Tais exercícios, além de proporcionar boas gargalhadas em sala de aula, é uma espécie de batismo de fogo para os estudantes, que são alertados a atentarem para a complexidade da língua, de evitar preconceitos linguísticos, eivados por questões de classe social, regionais, de gênero etc.

Mas o que subjaz toda esta discussão, no entanto, é uma questão política e não linguística.

Quando Dilma Rousseff foi eleita, ela procurou no vernáculo (e encontrou) uma designação que melhor qualificava o fato, inédito no Brasil, de um mulher comandar a presidência da república. Tal ato estava repleto de simbolismo, demarcava o empoderamento da mulher em posições tradicionalmente reservadas a homens.

A palavra presidenta, então, virou questão de honra para os conservadores. Estes sempre demonstraram má vontade e recusa em atender o pedido da presidenta. (Jamais tiveram a delicadeza de um Lewandowski). Chamavam-na reiteradamente de presidente, numa clara atitude provocativa e afrontosa. Mais do que um representante dos Partidos dos Trabalhadores, o que lhes causava ojeriza era o fato de uma mulher chegar ao poder.

Por isso, Carmem Lúcia ao optar pela forma supostamente neutra, no entanto, carregada de sentidos implícitos machistas, escreveu mais uma passagem vergonhosa, dentre muitas, na anedótica história brasileira, fazendo jus ao complô de conspiradores golpistas que, ao assaltarem o poder, rebaixaram todas as mulheres (e negros também) a cargos de segundo escalão no governo.

Carmem Lúcia abdicou de sua condição de mulher.

Ao querer de modo sutil humilhar Dilma, a ministra acabou por patentear solenemente toda a sua mediocridade. Com seu cinismo maldoso, apenas exibiu a prepotência dos tolos.

Dilma passou incólume pelo escândalo de corrupção que atingiu todos os partidos, inclusive o Partido dos Trabalhadores. Ela se tornou um incômodo para a classe política. Foi vítima de um pacto nacional pela corrupção que envolveu os três poderes, todas as instituições brasileiras, os setores empresariais e a própria sociedade.

As manifestações e os panelaços não eram, afinal, contra a corrupção; eram contra a corrupção de um partido, contra um projeto de poder de longa duração, contra a “ditadura comunista”, contra a “revolução bolivariana”, contra o Foro de São Paulo, contra a PEC das domésticas etc., etc., etc.

A missão dos usurpadores foi trazer de volta a paz dos corruptos. A sociedade civil, numa atitude cúmplice, de quem também age nas sombras, se comportou como o avestruz, que põe a cabeça dentro de um buraco para não ver o perigo.

A estrutura social do Brasil mais parece com a do Ancien Régime. Os ricos e poderosos isolados do resto do povo, numa espécie de Palácio de Versalhes de cristal, inventaram um Estado que é um Leviatã às avessas.

Antes de terminar, gostaria de mencionar que o radical da palavra ministro vem da palavra latina “mininus”, isto é, pequeno, parvo, menor.

A associação fortuita do nome de Carmen Lucia ao do grande escritor Machado de Assis é a maior glória que poderia ter sido alcançada pela atual presidente do stf, ainda que tal associação abra um abismo entre eles e revele a monumental pequenez da ministra.

Num país em que Josés Dias são elevados à categoria de sumidades intelectuais (vide FHC), não é difícil de entender MINIstros como Carmem Lúcia.

Carmem Lúcia ou Machado de Assis é uma questão de escolha. É uma decisão cultural e ao mesmo tempo política, entre o retrocesso e os avanços sociais. Eu fico com Machado de Assis. Mas também com Clarice Lispector, Virginia Woolf, Simone de Beauvoir, Laura Esquivel, Emily Brontë, etc. ,etc., etc.

Em tempo: numa pesquisa rápida na internet, separei alguns registros de presidenta. Todos estão linkados e podem ser encontrados nos seguintes sites: “Discórdia Gramatical” (excelentes artigos) e “dicionarioegramatica.com” (um prato cheio para que gosta de estudar a língua portuguesa):

Diccionario portatil portuguez-frances e francez-portuguez (1812), de Domingos Borges de Barros, diplomata e senador brasileiro (p. 347): Presidenta, s.f. président.

Gazeta de Lisboa registra, numa edição de 1818: uma corveta chamada “Presidenta”.

Historias de meninos para quem não for creança, de António Lobo de Barbosa Ferreira Teixeira (1835), faz menção a uma marquesa como “presidenta”:

Otim literario em fórma de soliloquios, de José Agostinho de Macedo, tomo III (1841): “(...) e a presidenta das gritadoras da escólas de Athenas…”

Revista Popular de Lisboa (1851) também se referia à “presidenta” de uma reunião.

Archivo pittoresco  (1858), jornal de Lisboa: “Como presidenta ia a madre Maria Espírito Santo (...)”

Dicionário Caldas Aulete (1881) de Antônio Feliciano de Castilho.

Tradução da obra As Sabichonas (Les Femmes Savantes), do dramaturgo francês Molière, por meio do escritor português Antonio Feliciano de Castilho, em 1872: “Mais gratidão lhe devo, immortal presidenta” (p. 128); “À nossa presidenta, e às minhas sócias, peço se dignem perdoar-me o intempestivo excesso” (p. 153); “Nada, nada! Escusa, presidenta, de insistir mais” (p. 230).

Dicionário de Português-Alemão de Michaëlis (1876).

O Universo Ilustrado (1878) menciona “presidenta”.

Anos depois, no Brasil, Machado de Assis utilizaria o vocábulo em Memórias Póstumas de Brás Cubas(publicada pela primeira vez em 1881): “Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretário, era resolver as cousas de um modo administrativo”.

Dicionário Cândido de Figueiredo (1899): "Presidenta, f. (neol.) mulher que preside; mulher de um presidente. (Fem. de presidente.)"

Vocabulário oficial da língua portuguesa, elaborado em 1912 por Gonçalves Viana.

Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras desde a sua primeira edição, em 1932; no Dicionário da Academia Brasileira de Letras; e estava já no primeiro Vocabulário Ortográfico sancionado pela Academia de Lisboa, de Portugal, em 1912 (o vocabulário integral pode ser acessado aqui).

Vocabulário do português por Rebelo Gonçalves (1966).

sábado, 1 de outubro de 2016

Camões: Sonetos (1)

Ah! Fortuna cruel! Ah! duros Fados!
Quão asinha em meu dano vos mudastes!
Passou o tempo que me descansastes,
agora descansais com meus cuidados.

Deixastes-me sentir os bens passados,
para mor dor da dor que me ordenastes;
então nü'hora juntos mos levastes,
deixando em seu lugar males dobrados.

Ah! quanto milhor fora não vos ver,
gostos, que assi passais tão de corrida,
que fico duvidoso se vos vi:

sem vós já me não fica que perder,
se não se for esta cansada vida,
que por mor perda minha não perdi.


Ah! minha Dinamene! Assi deixaste
quem não deixara nunca de querer-te?
Ah! Ninfa minha! Já não posso ver-te,
tão asinha esta vida desprezaste!

Como já para sempre te apartaste
de quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te,
que não visses quem tanto magoaste?

Nem falar-te somente a dura morte
me deixou, que tão cedo o negro manto
em teus olhos deitado consentiste!

Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte!
Que pena sentirei, que valha tanto,
que inda tenho por pouco o viver triste?


Alegres campos, verdes arvoredos,
claras e frescas águas de cristal,
que em vós os debuxais ao natural,
discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos,
compostos em concerto desigual,
sabei que, sem licença de meu mal,
já não podeis fazer meus olhos ledos.

E, pois me já não vedes como vistes,
não me alegrem verduras deleitosas,
nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
regando-vos com lágrimas saudosas,
e nascerão saudades de meu bem.


Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer te
algüa causa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver te,
quão cedo de meus olhos te levou.


Amor, co a esperança já perdida,
teu soberano templo visitei;
por sinal do naufrágio que passei,
em lugar dos vestidos, pus a vida.

Que queres mais de mim, que destruída
me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de forçar me, que não sei
tornar a entrar onde não há saída.

Vês aqui alma, vida e esperança,
despojos doces de meu bem passado,
enquanto quis aquela que eu adoro:

nelas podes tomar de mim vingança;
e se inda não estás de mim vingado,
contenta te com as lágrimas que choro.


Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?


Amor, que o gesto humano n'alma escreve,
vivas faíscas me mostrou um dia,
donde um puro cristal se derretia
por entre vivas rosas e alva neve.

A vista, que em si mesma não se atreve,
por se certificar do que ali via,
foi convertida em fonte, que fazia
a dor ao sofrimento doce e leve.

Jura Amor que brandura de vontade
causa o primeiro efeito; o pensamento
endoudece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera num momento,
de lágrimas de honesta piedade
lágrimas de imortal contentamento.


A Morte, que da vida o nó desata,
os nós, que dá o Amor, cortar quisera
na Ausência, que é contr' ele espada fera,
e co Tempo, que tudo desbarata.

Duas contrárias, que üa a outra mata,
a Morte contra o Amor ajunta e altera:
üa é Razão contra a Fortuna austera,
outra, contra a Razão, Fortuna ingrata.

Mas mostre a sua imperial potência
a Morte em apartar dum corpo a alma,
duas num corpo o Amor ajunte e una;

porque assi leve triunfante a palma,
Amor da Morte, apesar da Ausência,
do Tempo, da Razão e da Fortuna.


Apartava se Nise de Montano,
em cuja alma partindo se ficava;
que o pastor na memória a debuxava,
por poder sustentar se deste engano.

Pelas praias do Índico Oceano
sobre o curvo cajado s'encostava,
e os olhos pelas águas alongava,
que pouco se doíam de seu dano.

Pois com tamanha mágoa e saudade
(dezia) quis deixar me a que eu adoro,
por testemunhas tomo Céu e estrelas.

Mas se em vós, ondas, mora piedade,
levai também as lágrimas que choro,
pois assi me levais a causa delas!


Apolo e as nove Musas, discantando
com a dourada lira, me influíam
na suave harmonia que faziam,
quando tomei a pena, começando:

— Ditoso seja o dia e hora, quando
tão delicados olhos me feriam!
Ditosos os sentidos que sentiam
estar se em seu desejo traspassando!

Assi cantava, quando Amor virou
a roda à esperança, que corria
tão ligeira que quase era invisível.

Converteu se me em noite o claro dia;
e, se algua esperança me ficou,
será de maior mal, se for possível.


Aquela fera humana que enriquece
sua presuntuosa tirania
destas minhas entranhas, onde cria
Amor um mal que falta quando crece;

Se nela o Céu mostrou (como parece)
quanto mostrar ao mundo pretendia,
porque de minha vida se injuria?
Porque de minha morte s'enobrece?

Ora, enfim, sublimai vossa vitória,
Senhora, com vencer me e cativar me:
fazei disto no mundo larga história.

Que, por mais que vos veja maltratar me,
já me fico logrando desta glória
de ver que tendes tanta de matar me.


Aquela que, de pura castidade,
de si mesma tomou cruel vingança
por üa breve e súbita mudança,
contrária a sua honra e qualidade

(venceu à fermosura a honestidade,
venceu no fim da vida a esperança
porque ficasse viva tal lembrança,
tal amor, tanta fé, tanta verdade!),

de si, da gente e do mundo esquecida,
feriu com duro ferro o brando peito,
banhando em sangue a força do tirano.

[Oh!] estranha ousadia ! estranho feito !
Que, dando breve morte ao corpo humano,
tenha sua memória larga vida!


Fermosos olhos que na idade nossa
mostrais do Céu certissimos sinais,
se quereis conhecer quanto possais,
olhai me a mim, que sou feitura vossa.

Vereis que de viver me desapossa
aquele riso com que a vida dais;
vereis como de Amor não quero mais,
por mais que o tempo corra e o dano possa.

E se dentro nest'alma ver quiserdes,
como num claro espelho, ali vereis
também a vossa, angélica e serena.

Mas eu cuido que só por não me verdes,
ver vos em mim, Senhora, não quereis:
tanto gosto levais de minha pena!


Aqueles claros olhos que chorando
ficavam quando deles me partia,
agora que farão? Quem mo diria?
Se porventura estarão em mim cuidando?

Se terão na memória, como ou quando
deles me vim tão longe de alegria?
Ou s'estarão aquele alegre dia
que torne a vê-los, n'alma figurando?

Se contarão as horas e os momentos?
Se acharão num momento muitos anos?
Se falarão co as aves e cos ventos?

Oh! bem-aventurados fingimentos,
que, nesta ausência, tão doces enganos
sabeis fazer aos tristes pensamentos!


Arvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;

nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruto debuxando;

que, pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,

se não te celebrar como mereces,
cantando te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.


Bem sei, Amor, que é certo o que receio;
mas tu, porque com isso mais te apuras,
de manhoso mo negas, e mo juras
no teu dourado arco; e eu to creio.

A mão tenho metida no teu seio,
e não vejo meus danos às escuras;
e tu contudo tanto me asseguras,
que me digo que minto, e que me enleio.

Não somente consinto neste engano,
mas inda to agradeço, e a mim me nego
tudo o que vejo e sinto de meu dano.

Oh! poderoso mal a que me entrego!
Que, no meio do justo desengano,
me possa inda cegar um Moço cego!


Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar me, e novas esquivanças;
que não pode tirar me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.


Cá nesta Babilónia, donde mana
matéria a quanto mal o mundo cria;
cá onde o puro Amor não tem valia,
que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

cá, onde o mal se afina, e o bem se dana,
e pode mais que a honra a tirania;
cá, onde a errada e cega Monarquia
cuida que um nome vão a desengana;

cá, neste labirinto, onde a nobreza
com esforço e saber pedindo vão
às portas da cobiça e da vileza;

cá neste escuro caos de confusão,
cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!


Cantando estava um dia bem seguro quando,
passando, Sílvio me dizia
(Sílvio, pastor antigo, que sabia
pelo canto das aves o futuro):

—Méris, quando quiser o fado escuro,
oprimir-te virão em um só dia
dous lobos; logo a voz e a melodia
te fugirão, e o som suave e puro.

Bem foi assi: porque um me degolou
quanto gado vacum pastava e tinha,
de que grandes soldadas esperava;

E outro por meu dano me matou
a cordeira gentil que eu tanto amava,
perpétua saudade da alma minha!


Cara minha inimiga, em cuja mão
pôs meus contentamentos a ventura,
faltou te a ti na terra sepultura,
porque me falte a mim consolação.

Eternamente as águas lograrão
a tua peregrina fermosura;
mas, enquanto me a mim a vida dura,
sempre viva em minh'alma te acharão.

E se meus rudos versos podem tanto
que possam prometer te longa história
daquele amor tão puro e verdadeiro,

celebrada serás sempre em meu canto;
porque enquanto no mundo houver memória,
 será minha escritura teu letreiro.


Chorai, Ninfas, os fados poderosos
daquela soberana fermosura!
Onde foram parar na sepultura
aqueles reais olhos graciosos?

Ó bens do mundo, falsos e enganosos!
Que mágoas para ouvir! Que tal figura
jaza sem resplandor na terra dura,
com tal rosto e cabelos tão fermosos!

Das outras que será, pois poder teve
a morte sobre cousa tanto bela
que ela eclipsava a luz do claro dia?

Mas o mundo não era dino dela,
por isso mais na terra não esteve;
ao Céu subiu, que já *se* lhe devia.


Com grandes esperanças já cantei,
com que os deuses no Olimpo conquistara;
despois vim a chorar porque cantara
e agora choro já porque chorei.

Se cuido nas passadas que já dei,
custa me esta lembrança só tão cara
que a dor de ver as mágoas que passara
tenho pola mor mágoa que passei.

Pois logo, se está claro que um tormento
dá causa que outro n'alma se acrescente,
já nunca posso ter contentamento.

Mas esta fantasia se me mente?
Oh! ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser contente?


Como fizeste, Pórcia, tal ferida?
Foi voluntária, ou foi por inocência?
—Mas foi fazer Amor experiência
se podia sofrer tirar me a vida.

—E com teu próprio sangue te convida
a não pores à vida resistência?
—Ando me acostumando à paciência,
porque o temor a morte não impida.

—Pois porque comes, logo, fogo ardente,
se a ferro te costumas?—Porque ordena
Amor que morra e pene juntamente.

E tens a dor do ferro por pequena?
—Si: que a dor costumada não se sente;
e eu não quero a morte sem a pena.


Como quando do mar tempestuoso
o marinheiro, lasso e trabalhado,
d'um naufrágio cruel já salvo a nado,
só ouvir falar nele o faz medroso;

e jura que em que veja bonançoso
o violento mar, e sossegado
não entre nele mais, mas vai, forçado
pelo muito interesse cobiçoso;

Assi, Senhora eu, que da tormenta,
de vossa vista fujo, por salvar me,
jurando de não mais em outra ver me;

minh'alma que de vós nunca se ausenta,
dá me por preço ver vos, faz tornar me
donde fugi tão perto de perder me.


Conversação doméstica afeiçoa,
ora em forma de boa e sã vontade,
ora de üa amorosa piedade,
sem olhar qualidade de pessoa.

Se despois, porventura, vos magoa
com desamor e pouca lealdade,
logo vos faz mentira da verdade
o brando Amor, que tudo em si perdoa.

Não são isto que falo conjecturas,
que o pensamento julga na aparência,
por fazer delicadas escrituras.

Metido tenho a mão na consciência,
e não falo senão verdades puras
que me ensinou a viva experiência.


Correm turvas as águas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florecidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.

Passou o Verão, passou o ardente Estio,
üas cousas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.


Dai me üa lei, Senhora, de querer vos,
que a guarde, sô pena de enojar vos;
que a fé que me obriga a tanto amar vos
fará que fique em lei de obedecer vos.

Tudo me defendei, senão só ver vos,
e dentro na minh'alma contemplar vos;
que, se assi não chegar a contentar vos,
ao menos que não chegue [a] aborrecer vos.

E, se essa condição cruel e esquiva,
que me dois lei de vida não consente,
dai ma, Senhora, já, seja de morte.

Se nem essa me dais, é bem que viva,
sem saber como vivo, tristemente,
mas contente porém de minha sorte.


Despois que quis Amor que eu só
passasse quanto mal já por muitos repartiu,
entregou me à Fortuna, porque viu
que não tinha mais mal que em mim mostrasse.

Ela, porque do Amor se avantajasse
no tormento que o Céu me permitiu,
o que para ninguém se consentiu,
para mim só mandou que se inventasse.

Eis me aqui vou com vário som gritando,
copioso exemplário para a gente
que destes dous tiranos é sujeita,

desvarios em versos concertando.
Triste quem seu descanso tanto estreita,
que deste tão pequeno está contente!


Despois que viu Cibele o corpo humano
do fermoso Átis seu verde pinheiro,
em piedade o vão furar primeiro
convertido, chorou seu grave dano.

E, fazendo a sua dor ilustre engano,
a Júpiter pediu que o verdadeiro
preço da nova palma e do loureiro,
ao seu pinheiro desse, soberano.

Mais lhe concede o filho poderoso
que, as estrelas, subindo, tocar possa,
vendo os segredos lá do Céu superno.

Oh! ditoso Pinheiro! Oh! mais ditoso
quem se vir coroar da folha vossa,
cantando à vossa sombra verso eterno!


De tão divino acento e voz humana,
de tão doces palavras peregrinas,
bem sei que minhas obras não são dinas,
que o rudo engenho meu me desengana.

Mas de vossos escritos corre e mana
licor que vence as águas cabalinas;
e convosco do Tejo as flores finas
farão enveja à cópia mantuana.

E pois, a vós de si não sendo avaras,
as filhas de Mnemósine fermosa
partes dadas vos tem, ao mundo caras,

a minha Musa e a vossa tão famosa,
ambas posso chamar ao mundo raras:
a vossa d'alta, a minha d'envejosa.


De um tão felice engenho, produzido
de outro, que o claro Sol não viu maior,
é trazer cousas altas no sentido,
todas dinas de espanto e de louvor.

Museu foi antiquíssimo escritor,
filósofo e poeta conhecido,
discípulo do Músico amador
que co som teve o Inferno suspendido.

Este pôde abalar o monte mudo,
cantando aquele mal, que eu já passei,
do mancebo de Abido mal sisudo.

Agora contam já (segundo achei),
Passo, e o nosso Boscão, que disse tudo
dos segredos que move o cego Rei.


De vós me aparto, ó vida! Em tal mudança,
sinto vivo da morte o sentimento.
Não sei para que é ter contentamento,
se mais há de perder quem mais alcança.

Mas dou vos esta firme segurança
que, posto que me mate meu tormento,
pelas águas do eterno esquecimento
segura passará minha lembrança.

Antes sem vós meus olhos se entristeçam,
que com qualquer cous' outra se contentem;
antes os esqueçais, que vos esqueçam.

Antes nesta lembrança se atormentem,
que com esquecimento desmereçam
a glória que em sofrer tal pena sentem.


Diana prateada, esclarecia
com a luz que do claro Febo ardente,
por ser de natureza transparente,
em si, como em espelho, reluzia.

Cem mil milhões de graças lhe influía,
quando me apareceu o excelente
raio de vosso aspecto, diferente
em graça e em amor do que soía.

Eu, vendo-me tão cheio de favores,
e tão propínquo a ser de todo vosso,
louvei a hora clara, e a noite escura,

Sois nela destes cor a meus amores;
donde colijo claro que não posso
de dia para vós já ter ventura.


Ditoso seja aquele que somente
se queixa de amorosas esquivanças;
pois por elas não perde as esperanças
de poder n'algum tempo ser contente.

Ditoso seja quem, estando ausente,
não sente mais que a pena das lembranças;
porqu', inda que se tema de mudanças,
menos se teme a dor quando se sente.

Ditoso seja, enfim, qualquer estado
onde enganos, desprezos e isenção
trazem o coração atormentado.

Mas triste quem se sente magoado
d'erros em que não pode haver perdão,
sem ficar n'alma a mágoa do pecado.


Diversos dões reparte o Céu benino,
e quer que cada üa um só possua;
assi, ornou de casto peito a Lüa,
ornamento do assento cristalino.

De graça, a Mãe fermosa do Minino,
que nessa vista tem perdido a sua;
Palas, de discrição, que imite a tua;
do valor, Juno, só de império dino.

Mas junto agora o mesmo Céu derrama
em ti o mais que tinha, e foi o menos,
em respeito do Autor da natureza;

que, a seu pesar, te dão, fermosa Dama,
Diana, honestidade, e graça, Vénus,
Palas o aviso seu, Juno a nobreza.


Dizei, Senhora, da Beleza ideia:
para fazerdes esse áureo crino,
onde fostes buscar esse ouro fino?
de que escondida mina ou de que veia?

Dos vossos olhos essa luz Febeia,
esse respeito, de um império dino?
Se o alcançastes com saber divino,
se com encantamentos de Medeia?

De que escondidas conchas escolhestes
as perlas preciosas orientais
que, falando, mostrais no doce riso?

Pois vos formastes tal, como quisestes,
vigiai-vos de vós, não vos vejais,
fugi das fontes: lembre-vos Narciso.


Doce contentamento já passado,
em que todo meu bem já consistia,
quem vos levou de minha companhia
e me deixou de vós tão apartado?

Quem cuidou que se visse neste estado
naquelas breves horas de alegria,
quando minha ventura consentia
que de enganos vivesse meu cuidado?

Fortuna minha foi, cruel e dura,
aquela que causou meu perdimento,
com a qual ninguém pode ter cautela.

Nem se engane nenhüa criatura,
que não pode nenhum impedimento
fugir do que [lhe] ordena sua estrela.


Doce sonho, suave e soberano,
se por mais longo tempo me durara!
Ah! quem de sonho tal nunca acordara,
pois havia de ver tal desengano!

Ah! deleitoso bem! ah! doce engano!
Se por mais largo espaço me enganara!
Se então a vida mísera acabara,
de alegria e prazer morrera ufano.

Ditoso, não estando em mim, pois tive,
dormindo, o que acordado ter quisera.
Olhai com que me paga meu destino!

Enfim, fora de mim, ditoso estive.
Em mentiras ter dita razão era,
pois sempre nas verdades fui mofino.


Doces águas e claras do Mondego,
doce repouso de minha lembrança,
onde a comprida e pérfida esperança
longo tempo após si me trouxe cego;

de vós me aparto; mas, porém, não nego
que inda a memória longa, que me alcança,
me não deixa de vós fazer mudança,
mas quanto mais me alongo, mais me achego.

Bem pudera Fortuna este instrumento
d'alma levar por terra nova e estranha,
oferecido ao mar remoto e vento;

mas alma, que de cá vos acompanha,
nas asas do ligeiro pensamento,
para vós, águas, voa, e em vós se banha.


Doces lembranças da passada glória,
que me tirou Fortuna roubadora,
deixai me repousar em paz ü'hora,
que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho n'alma larga história
deste passado bem que nunca fora;
ou fora, e não passara; mas já agora
em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, mouro d'esquecido,
de quem sempre devera ser lembrado,
se lhe lembrara estado tão contente.

Oh! quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera me lograr do bem passado,
se conhecer soubera o mal presente.


Dos ilustres antigos que deixaram
tal nome, que igualou fama à memória,
ficou por luz do tempo a larga história
dos feitos em que mais se assinalaram.

Se se com cousas destes cotejaram
mil vossas, cada üa tão notória,
vencera a menor delas a mor glória
que eles em tantos anos alcançaram.

A glória sua foi; ninguém lha tome.
Seguindo cada um vários caminhos,
estátuas levantando no seu Templo.

Vós, honra portuguesa e dos Coutinhos,
ilustre Dom João, com melhor nome
a vós encheis de glória e a nós de exemplo.


El vaso reluciente y cristalino,
de Ángeles agua clara y olorosa,
de blancas e da ornado y fresca rosa
ligado con cabellos de oro fino;

bien claro parecía el don divino
labrado por la mano artificiosa
de aquella blanca Ninfa, graciosa
más que el rubio lucero matutino.

Nel vaso vuestro cuerpo se afigura,
raxado de los blandos miembros bellos,
y en el agua vuestra ánima pura;

la seda es la blancura, e los cabellos
son las prisiones, y la ligadura
con que mi libertad fue asida dellos.


Em fermosa Leteia se confia,
por onde vaïdade tanta alcança,
que, tornada em soberba a confiança,
com os deuses celestes competia.

Porque não fosse avante esta ousadia
(que nascem muitos erros da tardança),
em efeito puseram a vingança,
que tamanha doudice merecia.

Mas Oleno, perdido por Leteia,
não lhe sofrendo Amor que suportasse
castigo duro tanta fermosura,

quis padecer em si a pena alheia;
mas, porque a morte Amor não apartasse,
ambos tornados são em pedra dura.


Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.

Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros, nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece me que estava assi ordenado.

Contentei me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.

Mas minha estrela, que eu já'gora entendo,
a Morte cega, e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo.


Enquanto Febo os montes acendia
do Céu com luminosa claridade,
por evitar do ócio a castidade
na caça o tempo Délia despendia.

Vénus, que então de furto descendia,
por cativar de Anquises a vontade,
vendo Diana em tanta honestidade,
quase zombando dela, lhe dizia:

-Tu vás com tuas redes na espessura
os fugitivos cervos enredando,
mas as minhas enredam o sentido.

—Melhor é (respondia a deusa pura)
nas redes leves cervos ir tomando
que tomar-te a ti nelas teu marido.


Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho co tormento,
para que seus enganos não dissesse.

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,

verdades puras são, e não defeitos...
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos!


Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a nao querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!


Esforço grande, igual ao pensamento;
pensamentos em obras divulgados,
e não em peito timido encerrados
e desfeitos despois em chuva e vento;

animo da cobiça baixa isento,
dino por isso só de altos estados,
fero açoute dos nunca bem domados
povos do Malabar sanguinolento;

gentileza de membros corporais,
ornados de pudica continência,
obra por certo rara de natura:

estas virtudes e outras muitas mais,
dinas todas da homérica eloquência,
jazem debaixo desta sepultura


Está o lascivo e doce passarinho
com o biquinho as penas ordenando;
o verso sem medida, alegre e brando,
espedindo no rústico raminho;

o cruel caçador (que do caminho
se vem calado e manso desviando)
na pronta vista a seta endireitando,
lhe dá no Estígio lago eterno ninho.

Dest' arte o coração, que livre andava,
(posto que já de longe destinado)
onde menos temia, foi ferido.

Porque o Frecheiro cego me esperava,
para que me tomasse descuidado,
em vossos claros olhos escondido.


Está se a Primavera trasladando
em vossa vista deleitosa e honesta;
nas lindas faces, olhos, boca e testa,
boninas, lírios, rosas debuxando.

De sorte, vosso gesto matizando,
Natura quanto pode manifesta
que o monte, o campo, o rio e a floresta
se estão de vós, Senhora, namorando.

Se agora não quereis que quem vos ama
possa colher o fruito destas flores,
perderão toda a graça vossos olhos.

Porque pouco aproveita, linda Dama,
que semeasse Amor em vós amores,
se vossa condição produze abrolhos.


Este amor que vos tenho, limpo e puro,
de pensamento vil nunca tocado,
em minha tenra idade começado,
tê-lo dentro nesta alma só procuro.

De haver nele mudança estou seguro,
sem temer nenhum caso ou duro Fado,
nem o supremo bem ou baixo estado,
nem o tempo presente nem futuro.

A bonina e a flor asinha passa;
tudo por terra o Inverno e Estio
deita, só para meu amor é sempre Maio.

Mas ver-vos para mim, Senhora, escassa,
e que essa ingratidão tudo me enjeita,
traz este meu amor sempre em desmaio.


Eu cantei já, e agora vou chorando
o tempo que cantei tão confiado;
parece que no canto já passado
se estavam minhas lágrimas criando.

Cantei; mas se me alguém pergunta: —Quando?
—Não sei; que também fui nisso enganado.
É tão triste este meu presente estado
que o passado, por ledo, estou julgando.

Fizeram-me cantar, manhosamente,
contentamentos não, mas confianças;
cantava, mas já era ao som dos ferros.

De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças
onde a Fortuna injusta é mais que os erros?


Eu vivia de lágrimas isento,
num engano tão doce e deleitoso
que em que outro amante fosse mais ditoso,
não valiam mil glórias um tormento.

Vendo-me possuir tal pensamento,
de nenhüa riqueza era envejoso;
vivia bem, de nada receoso,
com doce amor e doce sentimento.

Cobiçosa, a Fortuna me tirou
deste meu tão contente e alegre estado,
e passou-me este bem, que nunca fora:

em troco do qual bem só me deixou
lembranças, que me matam cada hora,
trazendo-me à memória o bem passado.


O Ferido sem ter cura perecia
o forte e duro Télefo temido,
por aquele que n'água foi metido,
a quem ferro nenhum cortar podia.

Ao Apolíneo Oráculo pedia
conselho para ser restituído;
respondeu que tornasse a ser ferido
por quem o já ferira, e sararia.

Assi, Senhora, quer minha ventura
que, ferido de ver vos, claramente
com vos tornar a ver Amor me cura.

Mas é tão doce vossa fermosura,
que fico como hidrópico doente,
que co beber lhe cresce mor secura.


Fermosos olhos que na idade nossa
mostrais do Céu certissimos sinais,
se quereis conhecer quanto possais,
olhai me a mim, que sou feitura vossa.

Vereis que de viver me desapossa
aquele riso com que a vida dais;
vereis como de Amor não quero mais,
por mais que o tempo corra e o dano possa.

E se dentro nest'alma ver quiserdes,
como num claro espelho, ali vereis
também a vossa, angélica e serena.

Mas eu cuido que só por não me verdes,
ver vos em mim, Senhora, não quereis:
tanto gosto levais de minha pena!


Fiou se o coração, de muito isento,
de si cuidando mal, que tomaria
tão ilícito amor tal ousadia,
tal modo nunca visto de tormento.

Mas os olhos pintaram tão a tento
outros que visto tem na fantasia,
que a razão, temerosa do que via,
fugiu, deixando o campo ao pensamento.

Ó Hipólito casto, que, de jeito,
de Fedra, tua madrasta, foste amado,
que não sabia ter nenhum respeito:

em mim vingou o amor teu casto peito;
mas está desse agravo tão vingado,
que se arrepende já do que tem feito.


Foi já num tempo doce cousa amar,
enquanto m'enganava a esperança;
O coração, com esta confiança,
todo se desfazia em desejar.

Ó vão, caduco e débil esperar!
Como se desengana üa mudança!
Que, quanto é mor a bem aventurança,
tanto menos se crê que há de durar!

Quem já se viu contente e prosperado,
vendo se em breve tempo em pena tanta,
razão tem de viver bem magoado.

Porém quem tem o mundo exprimentado,
não o magoa a pena nem o espanta,
que mal se estranhará o costumado.


Fortuna em mim guardando seu direito
em verde derrubou minha alegria.
Oh! quanto se acabou naquele dia,
cuja triste lembrança arde em meu peito!

Quando contemplo tudo, bem suspeito
que a tal bem, tal descanso se devia,
por não dizer o mundo que podia
achar-se em seu engano bem perfeito.

Mas se a Fortuna o fez por descontar-me
tamanho gosto, em cujo sentimento
a memória não faz senão matar-me,

que culpa pode dar-me o sofrimento,
se a causa que ele tem de atormentar-me,
eu tenho de sofrer o seu tormento?

Grão tempo há já que soube da Ventura
a vida que me tinha destinada;
que a longa experiência da passada
me dava claro indício da futura.

Amor fero, cruel, Fortuna dura,
bem tendes vossa força exprimentada:
assolai, destruí, não fique nada;
vingai vos desta vida, qu'inda dura.

Soube Amor da Ventura, que a não tinha,
e, por que mais sentisse a falta dela,
de imagens impossíveis me mantinha.

Mas vós, Senhora, pois que minha estrela
não foi milhor, vivei nesta alma minha,
que não tem a Fortuna poder nela.


Ilustre o dino ramo dos Meneses,
aos quais o prudente e largo Céu
(que errar não sabe), em dote concedeu
rompesse os maométicos arneses;

desprezando a Fortuna e seus reveses,
ide para onde o Fado vos moveu;
erguei flamas no Mar alto Eritreu,
e sereis nova luz aos Portugueses.

Oprimi com tão firme e forte peito
o Pirata insolente, que se espante
e trema Taprobana e Gedrosia.

Dai nova causa à cor do Arabo estreito:
assi que o roxo mar, daqui em diante,
o seja só co sangue de Turquia!


Indo o triste pastor todo embebido
na sombra de seu doce pensamento,
tais queixas espalhava ao leve vento
cum brando suspirar da alma saído:

—A quem me queixarei, cego, perdido,
pois nas pedras não acho sentimento?
Com quem falo? A quem digo meu tormento
que onde mais chamo, sou menos ouvido?

Oh! bela Ninfa, porque não respondes?
Porque o olhar-me tanto me encareces?
Porque queres que sempre me querele?

Eu quanto mais te vejo, mais te escondes!
Quanto mais mal me vês, mais te endureces!
Assi que co mal cresce a causa dele.


Lá a saudosa Aurora destoucava
os seus cabelos d'ouro delicados,
e as flores, nos campos esmaltados,
do cristalino orvalho borrifava;

quando o fermoso gado se espalhava
de Sílvio e de Laurente pelos prados;
pastores ambos, e ambos apartados,
de quem o mesmo Amor não se apartava.

Com verdadeiras lágrimas, Laurente,
—Não sei (dizia) ó Ninfa delicada,
porque não morre já quem vive ausente,

pois a vida sem ti não presta nada?
Responde Sílvio:—Amor não o consente,
que ofende as esperanças da tornada.


Já não sinto, Senhora, os desenganas
com que minha afeição sempre tratastes,
nem ver o galardão que me negastes,
merecido por fé, há tantos anos.

A mágoa choro só, só choro os danos
de ver por quem, Senhora, me trocastes;
mas em tal caso vós só me vingastes
de vossa ingratidão, vossos enganos.

Dobrada glória dá qualquer vingança,
que o ofendido toma do culpado,
quando se satisfaz com cousa justa;

mas eu de vossos males e esquivança,
de que agora me vejo bem vingado,
não o quisera eu tanto à vossa custa.


Julga-me a gente toda por perdido,
vendo-me, tão entregue a meu cuidado,
andar sempre dos homens apartado,
e dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
e quase que sobre ele ando dobrado,
tenho por baixo, rústico, enganado,
quem não é com meu mal engrandecido.

Vão revolvendo a terra, o mar e o vento,
busquem riquezas, honras a outra gente,
vencendo ferro, fogo, frio e calma;

que eu só em humilde estado me contento,
de trazer esculpido eternamente
vosso fermoso gesto dentro n'alma.


Leda serenidade deleitosa, que
representa em terra um paraíso;
entre rubis e perlas doce riso;
debaixo de ouro e neve, cor-de-rosa;

presença moderada e graciosa,
onde ensinando estão despejo e siso
que se pode por arte e por aviso,
como por natureza, ser fermosa;

fala, de quem a morte e a vida pende,
rara, suave; enfim, Senhora, vossa;
repouso, nela, alegre e comedido;

estas as armas são com que me rende
e me cativa Amor; mas não que possa
despojar me da glória de rendido.


Lembranças que lembrais meu bem passado
para que sinta mais o mal presente,
deixai-me (se quereis) viver contente,
não me deixeis morrer em tal estado.

Mas se também de tudo está ordenado
viver (como se vê) tão descontente,
venha (se vier) o bem por acidente,
e dê a morte fim a meu cuidado.

Que muito milhor é perder a vida,
perdendo-se as lembranças da memória,
pois fazem tanto dano ao pensamento.

Assi que nada perde, quem perdida
a esperança traz de sua glória,
se esta vida há-de ser sempre em tormento.


Lembranças saudosas, se cuidais
de me acabar a vida neste estado,
não vivo com meu mal tão enganado,
que não espere dele muito mais.

De muito longe já me costumais
a viver de algum bem desesperado;
já tenho co a Fortuna concertado
de sofrer os trabalhos que me dais.

Atado ao remo tenho a paciência,
para quantos desgostos der a vida,
cuide em quanto quiser o pensamento;

que, pois não há i outra resistência
para tão certa queda da caída,
aparar-lhe hei debaixo o sofrimento.


Lindo e sutil trançado, que ficaste
em penhor do remédio que mereço,
se só contigo, vendo te, endoudeço,
que fora cos cabelos que apertaste?

Aquelas tranças d'ouro, que ligaste,
que os raios do Sol têm em pouco preço,
não sei se para engano do que peço
se para me atar, os desataste.

Lindo trançado, em minhas mãos te vejo,
e por satisfação de minhas dores
como quem não tem outra, hei de tomar te.

E se não for contente meu desejo,
dir lhe hei que, nesta regra dos amores,
pelo todo também se toma a parte.


Males, que contra mim vos conjurastes,
quanto há de durar tão duro intento?
Se dura porque dura meu tormento,
baste vos quanto já me atormentastes.

Mas se assi perfiais porque cuidastes
derrubar meu tão alto pensamento,
mais pode a causa dele, em que o sustento,
que vós, que dela mesma o ser tomastes.

E, pois vossa tenção, com minha morte,
há de acabar o mal destes amores,
dai já fim a um tormento tão comprido,

porque d'ambos contente seja a sorte:
vós, porque me acabastes, vencedores;
e eu, porque acabei de vós vencido.


Memória de meu bem, cortado em flores
por ordem de meus tristes e maus Fados,
deixai-me descansar com meus cuidados
nesta inquietação de meus amores.

Basta-me o mal presente, e os temores
dos sucessos que espero infortunados,
sem que venham, de novo, bens passados
afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi nua hora quanto em termos
tão vagarosos e largos alcancei;
leixai-me, pois, lembranças desta glória.

Cumpre acabe a vida nestes ermos,
porque neles com meu mal acabarei
mil vidas, não ua só, dura memória!


Mudam se os tempos, mudam se as vontades,
muda se o ser, muda se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria, e, enfim,
converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.


Na desesperação já repousava
o peito longamente magoado,
e, com seu dano eterno concertado,
já não temia, já não desejava;

quando üa sombra vã me assegurava
que algum bem me podia estar guardado
em tão fermosa imagem que o treslado
n'alma ficou, que nela se enlevava.

Que crédito que dá tão facilmente
o coração áquilo que deseja,
quando lhe esquece o fero seu destino!

Oh! deixem-me enganar, que eu sou
contente; que, posto que maior meu dano seja,
fica-me a glória já do que imagino.


Náiades, vós, que os rios habitais
que os saudosos campos vão regando,
de meus olhos vereis estar manando
outros, que quase aos vossos são iguais.

Dríades, vós, que as setas atirais,
os fugitivos cervos derrubando,
outros olhos vereis que triunfando
derrubam corações, que valem mais.

Deixai as aljavas logo, e as águas frias,
e vinde, Ninfas minhas, se quereis
saber como de uns olhos nascem mágoas;

vereis como se passam em vão os dias;
mas não vireis em vão, que cá achareis
nos seus as setas, e nos meus as águas.


Na metade do Céu subido ardia
o claro, almo Pastor, quando deixavam
o verde pasto as cabras, e buscavam
a frescura suave da água fria.

Co a folha da árvore sombria,
do raio ardente as aves s'emparavam;
o módulo cantar, de que cessavam,
só nas roucas cigarras se sentia;

quando Liso pastor, num campo verde
Natércia, crua Ninfa, só buscava
com mil suspiros tristes que derrama.

Porque te vás de quem por ti se perde,
para quem pouco te ama? (suspirava).
[E] o Eco lhe responde: Pouco te ama.


Não passes, caminhante! Quem me chama?
—üa memória nova e nunca ouvida,
de um que trocou finita e humana vida,
por divina, infinita e clara fama.

Quem é que tão gentil louvor derrama?
—Quem derramar seu sangue não duvida
por seguir a bandeira esclarecida
de um capitão de Cristo, que mais ama.

Ditoso fim, ditoso sacrificio,
que a Deus se fez e ao mundo juntamente,
apregoando direi tão alta sorte.

Mais poderás contar a toda a gente,
que sempre deu sua vida claro indício
de vir a merecer tão santa morte.


Na ribeira do Eufrates assentado,
discorrendo me achei pela memória
aquele breve bem, aquela glória,
que em ti, doce Sião, tinha passado.

Da causa de meus males perguntado
me foi: Como não cantas a história
de teu passado bem, e da vitória
que sempre de teu mal hás alcançado?

Não sabes, que a quem canta se lhe esquece
o mal, inda que grave e rigoroso?
Canta, pois, e não chores dessa sorte.

Respondo com suspiros: Quando crece
a muita saudade, o piadoso
remédio é não cantar senso a morte.


No mundo poucos anos, e cansados,
vivi, cheios de vil miséria dura;
foi-me tão cedo a luz do dia escura,
que não vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados
buscando à vida algum remédio ou cura;
mas aquilo que, enfim, não quer ventura,
não o alcançam trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e cara
pátria minha Alenquer; mas ar corruto
que neste meu terreno vaso tinha,

me fez manjar de peixes em ti, bruto
mar, que bates na Abássia fera e avara,
tão longe da ditosa pátria minha!


No mundo quis um tempo que se achasse
o bem que por acerto ou sorte vinha;
e, por exprimentar que dita tinha,
quis que a Fortuna em mim se exprimentasse.

Mas, por que meu destino me mostrasse
que nem ter esperanças me convinha,
nunca nesta tão longa vida minha
cousa me deixou ver que desejasse.

Mudando andei costume, terra e estado,
por ver se se mudava a sorte dura;
a vida pus nas mãos de um leve lenho.

Mas (segundo o que o Céu me tem mostrado)
já sei que deste meu buscar ventura,
achado tenho já, que não a tenho.


No tempo que de Amor viver soía,
nem sempre andava ao remo ferrolhado;
antes agora livre, agora atado,
em várias flamas variamente ardia.

Que ardesse num só fogo, não queria
O Céu, porque tivesse exprimentado
que nem mudar as causas ao cuidado
mudança na ventura me faria.

E se algum pouco tempo andava isento,
foi como quem co peso descansou,
por tornar a cansar com mais alento.

Louvado seja Amor em meu tormento,
pois para passatempo seu tomou
este meu tão cansado sofrimento!