Quando pensamos em Luís Vaz de Camões, a imagem que surge é a do poeta épico de Os Lusíadas ou do mestre dos sonetos petrarquistas. No entanto, existe um Camões mais próximo da terra, das cantigas de amigo e do povo: o Camões das Redondilhas. Esta faceta da sua obra, frequentemente chamada de "Medida Velha", revela um poeta que, embora dominasse as formas clássicas italianas, nunca abandonou a tradição peninsular do verso curto, ágil e musical.
Neste artigo, vamos mergulhar no universo das Redondilhas, explorando como o gênio lusitano utilizou o verso de cinco e sete sílabas para expressar o amor, a saudade e o eterno desconcerto do mundo.
O Que é a Redondilha na Lírica Camoniana?
A redondilha é a forma poética tradicional da Península Ibérica. Ao contrário do decassílabo (medida nova), que é mais lento e reflexivo, a redondilha possui um ritmo natural que emula a fala e a música popular.
Redondilha Maior e Menor
Camões utilizava dois tipos principais de Redondilhas:
Redondilha Menor: Versos de cinco sílabas poéticas (pentassílabos). É rápida, incisiva e ideal para composições leves.
Redondilha Maior: Versos de sete sílabas poéticas (heptassílabos). É a forma mais comum, equilibrando perfeitamente a extensão do fôlego humano com a musicalidade.
A Estrutura da Composição: Mote e Glosa
Diferente dos sonetos, que são formas fixas, as Redondilhas de Camões organizam-se frequentemente sob a forma de Vilancetes ou Esparsas. A estrutura funciona como um desafio criativo:
Mote: Um pequeno trecho (geralmente de 2 a 3 versos) que apresenta o tema.
Glosa (ou Voltas): Estrofes mais longas onde o poeta desenvolve a ideia do mote, terminando quase sempre com a repetição de uma palavra ou rima do mote original.
Temas Principais nas Redondilhas de Camões
Embora a forma seja tradicional, o conteúdo das Redondilhas camonianas é profundamente sofisticado. Nelas, o poeta destila temas universais com uma aparente simplicidade que esconde uma técnica rigorosa.
O Desconcerto do Mundo
Camões usa o verso curto para lamentar a injustiça da vida. Nas redondilhas, o sentimento de que "os tempos mudam, as vontades mudam" e que o mundo premia os maus em detrimento dos bons ganha uma clareza cortante.
O Amor e a Coivara
Ao contrário do amor idealizado e neoplatônico dos sonetos, as Redondilhas trazem frequentemente um amor mais concreto, por vezes malicioso ou melancólico. É aqui que encontramos as famosas composições dedicadas às "Bárbara escrava", onde o poeta subverte os padrões de beleza da época através do ritmo popular.
A Autocompaixão e o Destino
A precariedade da própria vida do poeta é um tema recorrente. Exilado, pobre e incompreendido, Camões utiliza a leveza das Redondilhas para criar um contraste irônico com a gravidade de suas desgraças pessoais.
A Técnica do Engenho: O Vilancete "Sôbolos Rios"
Não se pode falar em Redondilhas sem mencionar a obra-prima Sôbolos rios que vão, uma glosa ao Salmo 137 da Bíblia. É nesta composição que Camões atinge o ápice da fusão entre a tradição hebraica, a filosofia clássica e a forma popular peninsular.
O Contraste: O poeta compara os rios da Babilônia (onde os judeus choravam o exílio) com os rios de Portugal e do Oriente.
A Memória: O uso da redondilha maior permite que a melancolia flua como a água, criando uma hipnose verbal que prende o leitor.
Diferenças entre Medida Velha e Medida Nova
Para compreender a importância das Redondilhas, é essencial notar como Camões transitava entre dois mundos literários:
| Característica | Redondilhas (Medida Velha) | Sonetos/Épica (Medida Nova) |
| Métrica | 5 ou 7 sílabas | 10 sílabas (Decassílabo) |
| Origem | Popular / Peninsular | Erudita / Italiana |
| Ritmo | Ágil e Musical | Lento e Majestoso |
| Objetivo | Cantigas, motes, glosas | Reflexão filosófica e epopeia |
Perguntas Comuns sobre as Redondilhas (FAQ)
1. Camões preferia as Redondilhas ou os Sonetos?
Não havia preferência, mas sim adequação. Camões usava as Redondilhas para temas que exigiam musicalidade e ligação com a tradição oral, reservando a medida nova para temas mais densamente intelectuais ou heroicos.
2. Por que as Redondilhas são chamadas de "Medida Velha"?
O termo surgiu durante o Renascimento para diferenciar as formas tradicionais da Península Ibérica das "novas" formas introduzidas de Itália (como o soneto) por Francisco de Sá de Miranda.
3. Qual a redondilha mais famosa de Camões?
Provavelmente o vilancete de sete sílabas dedicado à escrava Bárbara ("Aquela cativa / que me tem cativo"), que é um marco da quebra de preconceitos estéticos na literatura.
4. Como contar as sílabas em uma Redondilha Maior?
A contagem é feita até a última sílaba tônica do verso. No caso da redondilha maior, o verso termina na 7ª sílaba tônica.
Conclusão: A Imortalidade do Verso Curto
As Redondilhas de Luís Vaz de Camões são a prova de que a grande poesia não precisa de formas complexas para atingir a profundidade. Nelas, o autor de Os Lusíadas despe-se da armadura épica e fala-nos diretamente ao coração, com o ritmo que ainda hoje ressoa no fado e na música popular portuguesa.
Entender as Redondilhas é entender a alma de Portugal: uma mistura de melancolia (saudade) e uma capacidade rítmica vibrante. Camões não foi apenas o poeta do império; foi o poeta que soube transformar a cantiga da aldeia em arte universal.
(*) Notas sobre a ilustração:
Nenhum comentário:
Postar um comentário