segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Redondilhas de Camões: A Maestria da Medida Velha e o Coração da Tradição Portuguesa

A ilustração apresenta uma cena simbólica e cuidadosamente ornamentada dedicada às “Redondilhas” de Luís Vaz de Camões, destacando o caráter lírico, popular e profundamente português dessa parte de sua obra.  No centro da composição, Camões aparece sentado sob uma grande árvore frondosa, tocando um alaúde enquanto segura um pergaminho. Essa imagem sugere o poeta como cantor e criador inspirado, unindo música e poesia — uma referência direta ao tom musical das redondilhas, versos curtos e ritmados ligados à tradição oral.  O cenário ao redor reforça a identidade nacional e temática das composições:  À esquerda, um moinho, um rio sinuoso e camponeses evocam a vida rural e popular, ambiente típico das cantigas e poemas amorosos simples.  À direita, navios no mar lembram a vocação marítima de Portugal e o contexto histórico dos Descobrimentos.  Nos medalhões laterais, aparecem cenas de amor, dança e convivência, simbolizando temas frequentes das redondilhas: o amor, o cotidiano, a natureza e os costumes do povo.  Elementos decorativos como caveiras, arabescos e molduras ornamentais remetem ao estilo renascentista e também sugerem a passagem do tempo e a permanência da poesia.  A inscrição inferior — “Medida velha e coração português” — sintetiza o sentido da obra: as redondilhas representam a métrica tradicional (“medida velha”) e a expressão genuína do sentimento e da cultura portuguesa.  Assim, a ilustração funciona como um retrato simbólico do Camões lírico, ligado à tradição popular, à musicalidade e à identidade nacional.

Quando pensamos em Luís Vaz de Camões, a imagem que surge é a do poeta épico de Os Lusíadas ou do mestre dos sonetos petrarquistas. No entanto, existe um Camões mais próximo da terra, das cantigas de amigo e do povo: o Camões das Redondilhas. Esta faceta da sua obra, frequentemente chamada de "Medida Velha", revela um poeta que, embora dominasse as formas clássicas italianas, nunca abandonou a tradição peninsular do verso curto, ágil e musical.

Neste artigo, vamos mergulhar no universo das Redondilhas, explorando como o gênio lusitano utilizou o verso de cinco e sete sílabas para expressar o amor, a saudade e o eterno desconcerto do mundo.

O Que é a Redondilha na Lírica Camoniana?

A redondilha é a forma poética tradicional da Península Ibérica. Ao contrário do decassílabo (medida nova), que é mais lento e reflexivo, a redondilha possui um ritmo natural que emula a fala e a música popular.

Redondilha Maior e Menor

Camões utilizava dois tipos principais de Redondilhas:

  • Redondilha Menor: Versos de cinco sílabas poéticas (pentassílabos). É rápida, incisiva e ideal para composições leves.

  • Redondilha Maior: Versos de sete sílabas poéticas (heptassílabos). É a forma mais comum, equilibrando perfeitamente a extensão do fôlego humano com a musicalidade.

A Estrutura da Composição: Mote e Glosa

Diferente dos sonetos, que são formas fixas, as Redondilhas de Camões organizam-se frequentemente sob a forma de Vilancetes ou Esparsas. A estrutura funciona como um desafio criativo:

  1. Mote: Um pequeno trecho (geralmente de 2 a 3 versos) que apresenta o tema.

  2. Glosa (ou Voltas): Estrofes mais longas onde o poeta desenvolve a ideia do mote, terminando quase sempre com a repetição de uma palavra ou rima do mote original.

Temas Principais nas Redondilhas de Camões

Embora a forma seja tradicional, o conteúdo das Redondilhas camonianas é profundamente sofisticado. Nelas, o poeta destila temas universais com uma aparente simplicidade que esconde uma técnica rigorosa.

O Desconcerto do Mundo

Camões usa o verso curto para lamentar a injustiça da vida. Nas redondilhas, o sentimento de que "os tempos mudam, as vontades mudam" e que o mundo premia os maus em detrimento dos bons ganha uma clareza cortante.

O Amor e a Coivara

Ao contrário do amor idealizado e neoplatônico dos sonetos, as Redondilhas trazem frequentemente um amor mais concreto, por vezes malicioso ou melancólico. É aqui que encontramos as famosas composições dedicadas às "Bárbara escrava", onde o poeta subverte os padrões de beleza da época através do ritmo popular.

A Autocompaixão e o Destino

A precariedade da própria vida do poeta é um tema recorrente. Exilado, pobre e incompreendido, Camões utiliza a leveza das Redondilhas para criar um contraste irônico com a gravidade de suas desgraças pessoais.

A Técnica do Engenho: O Vilancete "Sôbolos Rios"

Não se pode falar em Redondilhas sem mencionar a obra-prima Sôbolos rios que vão, uma glosa ao Salmo 137 da Bíblia. É nesta composição que Camões atinge o ápice da fusão entre a tradição hebraica, a filosofia clássica e a forma popular peninsular.

  • O Contraste: O poeta compara os rios da Babilônia (onde os judeus choravam o exílio) com os rios de Portugal e do Oriente.

  • A Memória: O uso da redondilha maior permite que a melancolia flua como a água, criando uma hipnose verbal que prende o leitor.


Diferenças entre Medida Velha e Medida Nova

Para compreender a importância das Redondilhas, é essencial notar como Camões transitava entre dois mundos literários:

CaracterísticaRedondilhas (Medida Velha)Sonetos/Épica (Medida Nova)
Métrica5 ou 7 sílabas10 sílabas (Decassílabo)
OrigemPopular / PeninsularErudita / Italiana
RitmoÁgil e MusicalLento e Majestoso
ObjetivoCantigas, motes, glosasReflexão filosófica e epopeia

Perguntas Comuns sobre as Redondilhas (FAQ)

1. Camões preferia as Redondilhas ou os Sonetos?

Não havia preferência, mas sim adequação. Camões usava as Redondilhas para temas que exigiam musicalidade e ligação com a tradição oral, reservando a medida nova para temas mais densamente intelectuais ou heroicos.

2. Por que as Redondilhas são chamadas de "Medida Velha"?

O termo surgiu durante o Renascimento para diferenciar as formas tradicionais da Península Ibérica das "novas" formas introduzidas de Itália (como o soneto) por Francisco de Sá de Miranda.

3. Qual a redondilha mais famosa de Camões?

Provavelmente o vilancete de sete sílabas dedicado à escrava Bárbara ("Aquela cativa / que me tem cativo"), que é um marco da quebra de preconceitos estéticos na literatura.

4. Como contar as sílabas em uma Redondilha Maior?

A contagem é feita até a última sílaba tônica do verso. No caso da redondilha maior, o verso termina na 7ª sílaba tônica.

Conclusão: A Imortalidade do Verso Curto

As Redondilhas de Luís Vaz de Camões são a prova de que a grande poesia não precisa de formas complexas para atingir a profundidade. Nelas, o autor de Os Lusíadas despe-se da armadura épica e fala-nos diretamente ao coração, com o ritmo que ainda hoje ressoa no fado e na música popular portuguesa.

Entender as Redondilhas é entender a alma de Portugal: uma mistura de melancolia (saudade) e uma capacidade rítmica vibrante. Camões não foi apenas o poeta do império; foi o poeta que soube transformar a cantiga da aldeia em arte universal.

(*) Notas sobre a ilustração:

A ilustração apresenta uma cena simbólica e cuidadosamente ornamentada dedicada às “Redondilhas” de Luís Vaz de Camões, destacando o caráter lírico, popular e profundamente português dessa parte de sua obra.

No centro da composição, Camões aparece sentado sob uma grande árvore frondosa, tocando um alaúde enquanto segura um pergaminho. Essa imagem sugere o poeta como cantor e criador inspirado, unindo música e poesia — uma referência direta ao tom musical das redondilhas, versos curtos e ritmados ligados à tradição oral.

O cenário ao redor reforça a identidade nacional e temática das composições:

  • À esquerda, um moinho, um rio sinuoso e camponeses evocam a vida rural e popular, ambiente típico das cantigas e poemas amorosos simples.

  • À direita, navios no mar lembram a vocação marítima de Portugal e o contexto histórico dos Descobrimentos.

  • Nos medalhões laterais, aparecem cenas de amor, dança e convivência, simbolizando temas frequentes das redondilhas: o amor, o cotidiano, a natureza e os costumes do povo.

Elementos decorativos como caveiras, arabescos e molduras ornamentais remetem ao estilo renascentista e também sugerem a passagem do tempo e a permanência da poesia.

A inscrição inferior — “Medida velha e coração português” — sintetiza o sentido da obra: as redondilhas representam a métrica tradicional (“medida velha”) e a expressão genuína do sentimento e da cultura portuguesa.

Assim, a ilustração funciona como um retrato simbólico do Camões lírico, ligado à tradição popular, à musicalidade e à identidade nacional.

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