Na vastidão da literatura do século XX, poucas obras possuem a envergadura e a precisão cirúrgica de Uma Dança para a Música do Tempo (A Dance to the Music of Time). Escrito pelo autor britânico Anthony Powell ao longo de quase trinta anos, este ciclo de doze romances não é apenas uma série de livros, mas um ecossistema social completo. Inspirado pela pintura homônima de Nicolas Poussin, Powell criou uma coreografia narrativa onde os personagens entram e saem de cena, reencontram-se por acaso e envelhecem sob o olhar atento do leitor.
Neste artigo, vamos explorar as engrenagens dessa obra monumental, entender seu impacto na ficção contemporânea e descobrir por que ela é frequentemente comparada ao trabalho de Marcel Proust, mantendo, porém, um humor e um pragmatismo estritamente britânicos.
O Que é o Ciclo "Uma Dança para a Música do Tempo"?
Publicada entre 1951 e 1975, a série é composta por doze volumes que cobrem cerca de cinquenta anos da história da Grã-Bretanha, desde o final da Primeira Guerra Mundial até o início dos anos 70. O narrador, Nicholas Jenkins, serve como nossos olhos e ouvidos, guiando-nos através de festas, campos de batalha, redações de revistas e decadentes mansões rurais.
A Inspiração em Nicolas Poussin
A palavra-chave principal, Uma Dança para a Música do Tempo, remete à ideia de que a vida é uma dança circular onde o "Tempo" toca a melodia e os seres humanos, de mãos dadas, movem-se em padrões que nem sempre compreendem. Powell utiliza essa metáfora para ilustrar como o destino aproxima e afasta as pessoas de forma cíclica e, por vezes, irônica.
A Estrutura dos Doze Romances
Para facilitar a compreensão desta jornada de mais de um milhão de palavras, a obra costuma ser dividida em quatro "movimentos" ou trilogias, refletindo as estações da vida:
1. A Primavera (Volumes 1-3)
Foca na juventude de Nick Jenkins, seus anos de internato e universidade. Aqui, conhecemos os personagens que serão recorrentes por décadas.
Exemplo: Conhecemos Charles Stringham e Peter Templer, amigos de Nick.
2. O Verão (Volumes 4-6)
Explora a vida adulta jovem, os primeiros casamentos, a boemia londrina e a ascensão das tensões políticas que levariam à Segunda Guerra Mundial.
3. O Outono (Volumes 7-9)
Considerada por muitos a parte mais densa e impactante, esta trilogia lida com os anos de guerra. Nick Jenkins atua como oficial, e a "dança" torna-se mais sombria, com muitas mortes e a desintegração do mundo antigo.
4. O Inverno (Volumes 10-12)
Os volumes finais mostram o envelhecimento dos sobreviventes, a chegada da contracultura dos anos 60 e a sensação de fechamento de um ciclo histórico e pessoal.
Kenneth Widmerpool: O Vilão Mais Fascinante da Literatura
Nenhuma análise de Uma Dança para a Música do Tempo estaria completa sem mencionar Widmerpool. Ele é um dos personagens mais memoráveis da ficção inglesa — um homem desajeitado, sem humor, mas implacavelmente ambicioso.
A Ascensão do Medíocre: Widmerpool começa como um alvo de piadas na escola e termina acumulando um poder imenso na política e nos negócios.
A Antítese de Nick: Enquanto o narrador Nick Jenkins é observador e passivo, Widmerpool é a força bruta da vontade humana, muitas vezes atropelando a sensibilidade alheia para alcançar seus objetivos.
Temas Centrais: Coincidência, Classe e Mudança Social
Anthony Powell utiliza a estrutura de Uma Dança para a Música do Tempo para investigar como a sociedade britânica se transformou.
O Poder da Coincidência
Diferente de outros autores que evitam coincidências por parecerem "irrealistas", Powell as abraça. Para ele, o mundo é pequeno. O fato de Nick reencontrar um antigo colega de escola em uma trincheira na Bélgica não é um erro de roteiro, mas uma representação de como os círculos sociais operam.
O Declínio da Aristocracia
A obra mapeia a transição de uma Inglaterra governada por linhagens nobiliárquicas para um país gerido por burocratas e tecnocratas (representados por Widmerpool). É um estudo elegante sobre o fim de uma era.
Perguntas Comuns (FAQ)
1. Preciso ler os doze volumes de "Uma Dança para a Música do Tempo" em ordem?
Sim. A força da obra reside no acúmulo de detalhes e na evolução lenta dos personagens. Ler fora de ordem privaria o leitor da sensação de passagem do tempo, que é o coração da série.
2. Anthony Powell é o "Proust Inglês"?
A comparação é inevitável devido à extensão e ao foco na memória. No entanto, enquanto Proust é introspectivo e lírico, Powell é mais irônico, seco e focado na interação social externa. Powell observa a dança; Proust observa os sentimentos de quem dança.
3. A obra foi adaptada para a TV ou Cinema?
Sim, o Channel 4 britânico produziu uma minissérie aclamada em 1997, estrelada por James Purefoy como Nick Jenkins e Simon Russell Beale como o inesquecível Widmerpool.
4. Qual é o volume mais famoso?
A Question of Upbringing (O primeiro) e Casanova’s Chinese Restaurant (o sexto) são frequentemente citados, mas The Military Philosophers (o nono) é aclamado por sua descrição magistral da burocracia militar.
Conclusão: Por Que Ler Anthony Powell Hoje?
Em um mundo de narrativas rápidas e descartáveis, Uma Dança para a Música do Tempo oferece o luxo da paciência. É uma obra que recompensa o leitor que se permite habitar seu mundo por semanas ou meses. Ao final da leitura, os personagens não parecem meras criações de papel, mas velhos conhecidos com quem compartilhamos uma vida inteira.
Anthony Powell não apenas escreveu uma série de livros; ele construiu um monumento à experiência humana, provando que, embora a música do tempo seja incessante, a forma como escolhemos dançar faz toda a diferença. Se você busca uma leitura que combine humor mordaz, profundidade histórica e uma compreensão melancólica da vida, esta "dança" foi feita para você.
(*) Notas sobre a ilustração:
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