Por Nilza Monti Pires
Era uma vez, entre as colinas douradas, campos cheios de pequenas margaridas e montanhas majestosas, morava um coelhinho chamado Pepe.
Pepe era diferente dos outros coelhinhos da floresta. Era um sonhador. Todas as noites, antes de dormir, ele olhava o céu estrelado e imaginava como era viver em um lugar mágico, onde as flores dançavam, os rios falavam e o sol brilhava em cores multicoloridas, como um caleidoscópio.
Certa vez, Pepe lembrou-se de uma certa coruja que havia falado sobre uma cidade encantada, um lugar lindo e fascinante, mas onde só poderia entrar quem fosse verdadeiramente corajoso.
Curioso, Pepe resolveu procurar a coruja para perguntar sobre a cidade encantada e qual seria o caminho para chegar até lá. Procurou, procurou e procurou a coruja, mas não conseguiu encontrá-la. Ela tinha passado por lá e nunca mais foi vista. Então, Pepe tomou coragem e decidiu que era hora de partir assim mesmo, em direção ao desconhecido, às escuras, sem rumo, ao acaso.
Logo no início do caminho da aventura, encontrou uma criatura engraçada: uma tartaruga com casco de vidro chamada Teca. Ela era esperta e pensava muito rápido. Assim que viu Pepe, reparou que ele estava desorientado e confuso.
Teca, curiosa, quis sondar o que ele estava fazendo por aquelas bandas e perguntou gentilmente:
— Ei, amigo, está precisando de alguma ajuda?
— Sim — respondeu Pepe. — Estou querendo ir até a cidade encantada, mas não sei qual caminho devo seguir. Por acaso você sabe onde ela fica?
— Eu sei onde fica — respondeu Teca com um sorriso maroto.
— Que bom! — exclamou Pepe, entusiasmado. — Por favor, poderia me indicar que direção devo pegar?
— Claro! Mas fica muito distante, bem longe mesmo. Talvez eu possa ajudá-lo.
— Eu agradeço.
— Como não estou fazendo nada, posso ir com você, se quiser.
— Claro que quero!
E assim Teca se juntou à aventura, e lá foram os dois.
Depois de uma longa caminhada, encontraram um gato azul chamado Zazu.
Pepe e Teca caminhavam distraídos quando passaram perto dele.
— Ei, vocês dois! — chamou Zazu. — Sei para onde vocês estão indo.
Pepe ficou surpreso e perguntou:
— Para onde nós vamos?
— Vocês querem encontrar a cidade encantada.
— Como você sabe? — perguntou Pepe.
— Eu sou vidente. Adivinho tudo. Consigo ver o futuro.
Teca sussurrou no ouvido de Pepe:
— Vamos perguntar a ele onde fica a cidade encantada. Acabei esquecendo o caminho.
— Você sabia o caminho! — reclamou Pepe.
Teca demorou alguns instantes para responder. Então Zazu continuou:
— Vocês querem ir mesmo até a cidade encantada?
— Sim — respondeu Pepe. — Estamos perdidos e precisamos de ajuda.
— Que ajuda vocês querem?
— Gostaríamos de saber qual é o caminho para chegar até a cidade encantada. Por acaso, você sabe o caminho?
— Claro que sei — respondeu Zazu. — É uma longa caminhada, de centenas de quilômetros, repleta de obstáculos.
— Já ouvi essa conversa antes — pensou Pepe, olhando para Teca.
— Se realmente querem chegar à cidade encantada — continuou Zazu —, terão de atravessar trilhas perigosas, escorregadias e de difícil acesso. Em alguns momentos, vocês até pensarão em desistir.
— Se é tão perigoso assim — disse Teca —, talvez seja melhor desistirmos enquanto há tempo.
— Eu já estou decidido, mesmo com todos estes perigos — respondeu Pepe.
— Está certo! Você é mesmo inflexível quando se trata dos seus objetivos — comentou Teca.
Zazu interrompeu a conversa:
— Talvez vocês precisem de amigo para chegar à cidade encantada. Hoje estou de folga, então posso ir com vocês.
— Então venha conosco! — disse Pepe, bem animado. — Se formos juntos, será mais fácil.
Zazu agradeceu e logo avisou:
— A cidade encantada é bem longe. Precisamos dar passos largos.
— Eu sou lenta — disse Teca —, mas sou persistente e nunca me canso.
— Ótimo! — respondeu Zazu. — Porque consigo prever três obstáculos muito complicados.
— Eu topo — declarou Pepe com firmeza. — Não existe obstáculo que me impeça de realizar meu sonho.
— Você tem muita determinação — disse Teca. — É por isso que eu o admiro.
— O primeiro obstáculo — explicou Zazu — é a Caverna dos Morcegos. Ela é muito escura e possui uma temperatura subterrânea extremamente baixa, que pode atingir quinze graus abaixo de zero ou mais.
E lá foram os três, rumo à cidade encantada.
O caminho até a Caverna dos Morcegos foi tranquilo, até agradável. Lindas paisagens, algumas brincadeiras entre os amigos e nenhum perigo pelo caminho. Mas, quando chegaram na frente da caverna, levaram o maior susto. Até Pepe ficou assustado.
A entrada da Caverna dos Morcegos era impressionante. Parecia um enorme buraco aberto na base de uma gigantesca montanha. Tudo era muito escuro, com um aspecto sombrio e misterioso. O silêncio era absoluto.
— Eu vou na frente — disse Zazu — porque enxergo bem no escuro e, além disso, sou vidente.
— Está certo — respondeu Pepe. — Mas vamos ficar sempre juntos.
Assim que entraram na Caverna dos Morcegos, uma escuridão total! Não havia sequer uma fagulha de luz. Morcegos voavam por todos os lados.
Logo em seguida, Teca começou a reclamar:
— Não estou enxergando nada! Parece que estou andando no vazio. Os morcegos ficam batendo em mim!
De repente, ouviram um grito.
— Aiiiiii! — gritou Zazu. — Caí em um buraco!
— Caiu em um buraco? — perguntou Pepe, preocupado. — E agora? Como vai sair daí? O buraco é fundo?
— É muito fundo — respondeu Zazu. — Mas fiquem tranquilos. Sou um gato muito ágil. Meu pulo é um só!
Realmente, Zazu foi exímio, sua esperteza e agilidade foram surpreendentes. Com um salto impressionante, conseguiu sair do buraco.
Pepe e Teca ficaram surpresos e aliviados. Os três comemoraram. E assim continuaram andando dentro da Caverna dos Morcegos, que parecia não ter fim. A temperatura começou a cair cada vez mais, até atingir quinze graus abaixo de zero.
— Estou com muito frio! — disse Teca. — Meu casco de vidro está começando a congelar. Tenho medo de que ele se quebre.
— Xiiiii!!!!! Com certeza, com esse frio intenso, isso realmente pode acontecer — respondeu Zazu. — E ainda estamos apenas na metade do caminho.
Pepe observou o casco da amiga.
— Também estou preocupado. Ele está coberto de gelo.
— Sim — respondeu Teca. — Mas vou aguentar firme. Não vou desistir. Vivo mais de cem anos e sou uma tartaruga forte e corajosa.
Naquele momento, algo surpreendente aconteceu.
A caverna ficou toda iluminada e o gelo começou a derreter. Aos poucos, o ambiente ficou aquecido e agradável.
Os três ficaram impressionados com a súbita mudança.
— Incrível! — exclamou Pepe.
— Como vidente, percebi o que aconteceu — disse Zazu. — As palavras corajosas de Teca agradaram a Caverna dos Morcegos.
— Maravilha! — respondeu Teca. — Aquele gelo em meu casco estava me incomodando.
Felizes, os três deixaram a caverna para trás e seguiram viagem.
Logo entraram em uma floresta de mata fechada, repleta de insetos estranhos e sons misteriosos.
Depois de algum tempo, Zazu falou:
— Estamos nos aproximando do segundo obstáculo: o Rio das Emoções.
Pouco depois, chegaram à margem do rio e levaram outro susto.
O Rio das Emoções era enorme e muito agitado. Suas águas giravam em redemoinhos poderosos.
— Por que ele se chama Rio das Emoções? — perguntou Pepe.
— Porque é um rio muito sensível — explicou Zazu. — Qualquer sentimento negativo o deixa furioso. Quando isso acontece, suas águas ficam violentas e arrastam tudo para o fundo. Mas precisamos atravessá-lo para chegar à cidade encantada.
— Ainda bem que adoro água — disse Teca. — Nado muito bem, sou adaptada para nadar em rios agitados. Sobrevivo tanto na terra como na água. Mas este rio me deixa cismada. Ele parece realmente perigoso.
— Só de pensar em atravessá-lo eu fico apavorado — confessou Zazu. — Quando entro na água, começo a miar bem alto. Meus pelos ficam todos arrepiados. E neste rio turbulento, tenho medo de ser levado pela correnteza.
Pepe observou atentamente o rio e então falou:
— Ei amigos, olhem com atenção. Vejam como é lindo este Rio das Emoções, a água desliza suavemente. Reparem no reflexo do céu azul e das nuvens brancas sobre suas águas cristalinas. Escutem também o som maravilhoso que murmuram as águas.
De repente, o Rio das Emoções ficou calmo, suas águas deslizavam tranquilamente e tudo ficou bem rasinho como um espelho.
Teca e Zazu ficaram admirados.
— Eu não falei — disse Zazu — que o Rio das Emoções era sensível. Comoveu-se com as palavras sonhadoras de Pepe.
— Que alívio! — exclamou Teca.
— Ufa! Um grande alívio mesmo — concordou Zazu. — Desta vez, fiquei com medo de atravessar o rio e ser levado por água abaixo
Os três atravessaram as águas calmas sem qualquer dificuldade e continuaram a caminhada rumo à cidade encantada.
Depois de algum tempo, Zazu voltou a falar:
— Conseguimos superar o segundo obstáculo. Mas ainda falta enfrentar o terceiro e último desafio antes de chegarmos à cidade encantada. Pelos meus cálculos, estamos chegando ao terceiro obstáculo: os Campos dos Ventos Contrários.
— O que são os Campos dos Ventos Contrários? — perguntou Teca.
— É andar em sentido contrário dos ventos, que são fortíssimos e sopram na direção oposta à nossa. Já consigo sentir sua aproximação — respondeu Zazu.
Zazu estava certo, ao se aproximarem já sentiram a força dos ventos. Era um verdadeiro vendaval, tudo voava pelos ares: folhas, galhos e poeira.
Assim que entraram no Campo dos Ventos Contrários, Teca já começou a reclamar:
— Mal posso andar! Dou dois passos para frente e acabo voltando dois para trás! Realmente, este vento vem em direção contrária. Assim não dá para seguir em frente!
— É verdade — concordou Pepe. — Parece que ele quer nos empurrar de volta toda vez que avançamos um pouco.
— Precisamos continuar, mesmo que seja desgastante — disse Zazu. — Pois sou vidente e sei que temos que continuar firmes.
— Esse vento nunca para! — reclamou Pepe. — Andamos, andamos e mal saímos do lugar.
Zazu então respondeu:
— Vamos continuar. Passinho por passinho, de patinha em patinha. Com perseverança, sem desanimar e sempre constante. Tenho certeza de que chegaremos lá.
E assim Zazu tinha razão.
Com muito esforço, avançando lentamente, conseguiram atravessar os Campos dos Ventos Contrários.
— Vencemos! — comemorou Zazu. — Agora é só alegria, estamos a caminho da cidade encantada, e logo chegaremos nela.
Ao entardecer, finalmente avistaram a cidade.
Os olhos de Pepe brilharam.
A entrada era formada por um magnífico monumento dourado, cercado por jardins coloridos e fontes cristalinas.
Quando se aproximaram, Pepe ficou extasiado e ficou ainda mais encantado quando viu escrito:
BEM-VINDO À LUMENLUZ, A CIDADE ENCANTADA!
Quando foram se aproximando da entrada, os três ficaram confusos. Uma cobra cascavel estava sendo expulsa pelos guardiões da cidade.
Então a cobra foi embora chacoalhando sua calda.
Os três ficaram intrigados, e não entenderam por que a cobra foi expulsa.
Pepe ia perguntar para a cobra o que aconteceu, mas, para seu espanto, na porta da cidade encontrava-se a coruja que ele tanto procurou. Ficou perplexo e surpreso.
— Eu sou a coruja Mel, a guardiã de Lumenluz — disse ela. — Para entrar na cidade, vocês precisarão responder a uma pergunta. Se a resposta não estiver de acordo com os valores de Lumenluz, não poderão entrar.
Pepe, Teca e Zazu se entreolharam preocupados.
Agora entendiam por que a cascavel havia sido impedida de entrar, pois sua resposta não foi de acordo com os critérios da cidade encantada.
Então a coruja Mel perguntou:
— O que vieram fazer em Lumenluz?
Pepe olhou para seus amigos e respondeu:
— Meu sonho era conhecer uma cidade mágica, onde os rios falam, as flores dançam e todos vivem em harmonia. Mas, durante esta jornada, descobri algo ainda mais importante. Aprendi o valor da amizade verdadeira. Teca e Zazu caminharam ao meu lado, enfrentaram perigos comigo e me ajudaram a realizar meu sonho. Hoje percebo que a maior magia não está apenas nesta cidade, mas nos amigos leais que encontramos pelo caminho.
Teca e Zazu ficaram emocionados.
A coruja Mel sorriu.
Então abriu as asas, a névoa desapareceu e a grande porta de Lumenluz se abriu lentamente.
— Suas palavras foram sinceras e são as chaves para abrir qualquer porta — disse Mel. — Vocês podem entrar.
Os três amigos ficaram radiantes de felicidade.
Antes que entrassem, Mel acrescentou:
— Se precisarem de qualquer ajuda, procurem Lilly, nossa borboleta-guardiã. Durante o dia essa borboleta branca vigia os portões da cidade.
— Agradecemos! — respondeu Pepe.
Assim que atravessaram os portões, ficaram completamente encantados.
Tudo era maravilhoso.
As flores eram inteligentes e realmente dançavam. Os rios conversavam alegremente com quem passava. As montanhas cantavam melodias suaves.
A cada passo, o chão mudava de cor: ora amarelo, ora azul, ora verde, formando combinações brilhantes e surpreendentes.
Todos os animais viviam em paz.
Até mesmo um jacaré dormia tranquilamente ao lado de um ratinho felpudo, que roncava alto.
Pepe estava fascinado.
Seu sonho era mesmo real. Inexplicável.
O céu estava todo estrelado e o tempo parecia passar sem que percebessem.
Até que em certo momento, Zazu teve uma sensação estranha.
Como era vidente, sentiu que seus familiares estavam aflitos procurando por eles.
Preocupado, foi avisar Teca.
— Acho que precisamos voltar — disse ele.
Teca concordou.
Pepe estava deslumbrado, muito concentrado em tudo. Quando Zazu o viu tão satisfeito, ficou com pena de chamá-lo. Mas mesmo assim foi avisá-lo.
— Temos que ir embora — disse Zazu — estão a nossa procura. Já está muito tarde, caminho de volta é cheio de acidentes e é muito longe.
Pepe estava muito feliz, mas concordou com certa tristeza.
Ainda queria explorar aquele lugar maravilhoso, mas compreendeu que era hora de partir.
Lilly, a borboleta branca, conduziu os três até a saída, onde a coruja Mel se encontrava.
Agradeceram a borboleta, que logo foi embora.
— Infelizmente precisamos ir embora — disse Pepe. — Espero voltar novamente, porque tudo que idealizei era real, ainda mais incrível do que eu imaginava.
Mel sorriu.
— Vocês poderão voltar sempre que quiserem. Lumenluz é a terra dos amigos leais e dos corações sinceros.
Então ela acrescentou:
— Como presente, vocês vão voar com o pássaro Curió. Ele vai chegar bem rápido e assim não precisarão enfrentar novamente os três obstáculos.
— Mas somos muito pesados para um pássaro tão pequeno — observou Pepe.
— Fiquem tranquilos — respondeu Mel. — Vocês vão em uma esteira flutuante bem ao lado dele durante toda a viagem.
— Obrigado! — disseram os três ao mesmo tempo. — Gostaríamos de voltar mais vezes.
A Mel também agradeceu os três amigos pela visita e acrescentou:
— Voltem quantas vezes quiserem!
E assim foram os três com o pássaro Curió, ouvindo seu belo canto sob o céu estrelado.
Pepe, Teca e Zazu tornaram-se amigos para sempre.
E, desde aquele dia, voltaram muitas vezes para rever seus amigos na cidade encantada.
E viveram muitas outras aventuras.
E assim termina a história da cidade encantada de Lumenluz, onde a maior magia de todas é a amizade verdadeira.
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