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segunda-feira, 25 de agosto de 2025

O Tempo Fatal em Romeu e Julieta: Como a Urgência Amplifica a Tragédia

A ilustração é uma representação dramática de Romeu e Julieta em um abraço frenético. Julieta estende o braço como se estivesse tentando agarrar algo fora de alcance, enquanto Romeu a segura firmemente, com a cabeça virada em direção a um relógio distorcido ao fundo. Os rostos deles expressam uma mistura de amor desesperado e condenação iminente, com olhos arregalados e bocas abertas.  A cena é envolvida por elementos que simbolizam o avanço implacável do tempo: ampulhetas quebradas com a areia se espalhando, engrenagens de um relógio quebrado espalhadas pelo primeiro plano e um grande mostrador de relógio deformado com ponteiros quebrados no fundo. A paleta de cores é escura e sombria, com azuis profundos, cinzas e sombras dominando a cena, pontuados por realces nos rostos e mãos dos amantes. A iluminação dramática de uma fonte invisível projeta longas sombras, acentuando o clima trágico da imagem.

A história de Romeu e Julieta, a eterna tragédia de William Shakespeare, captura corações há séculos. Mas, além do amor proibido e do ódio familiar, um elemento crucial intensifica o destino fatídico dos jovens amantes: o tempo implacável e acelerado em que a trama se desenrola. Este artigo explora como a brevidade dos acontecimentos em Romeu e Julieta contribui significativamente para a profundidade e a inevitabilidade da tragédia.

Desde o primeiro encontro apaixonado até o duplo suicídio, a narrativa de Romeu e Julieta é comprimida em um período de poucos dias. Essa urgência não é um detalhe menor; ela impulsiona as decisões impulsivas, as falhas de comunicação e o culminar trágico da peça. Entender a importância do tempo em Romeu e Julieta é fundamental para apreciar a genialidade de Shakespeare em construir uma das histórias de amor mais impactantes da literatura.

A Corrida Contra o Relógio no Amor Proibido

O romance entre Romeu e Julieta floresce com uma intensidade avassaladora, em parte devido à urgência imposta pelas circunstâncias. O ódio visceral entre suas famílias, os Montecchios e os Capuletos, força os jovens a viverem seu amor nas sombras, sob a constante ameaça de descoberta.

O Encontro e o Juramento Apressado

  • O primeiro encontro no baile dos Capuletos é imediato e fulminante. A paixão surge à primeira vista, sem tempo para reflexão ou hesitação.

  • A famosa cena do balcão, que ocorre logo na noite seguinte, sela o compromisso dos amantes. Em poucas horas, eles trocam juras de amor eterno e decidem se casar secretamente. Essa rapidez demonstra a impulsividade da juventude e a pressão de manter seu relacionamento oculto.

O Casamento Secreto e suas Implicações

  • Com a ajuda de Frei Lourenço, o casamento de Romeu e Julieta acontece secretamente no dia seguinte ao juramento. Essa decisão, tomada em um lapso de tempo tão curto, evidencia a urgência desesperada dos amantes em consumar sua união antes que sejam separados.

  • A pressa em oficializar o matrimônio impede que Romeu e Julieta avaliem completamente as consequências de seus atos, confiando na esperança de que o casamento possa eventualmente reconciliar suas famílias.

A Escalada da Tragédia em Dias Fatais

Após o casamento secreto, a velocidade dos eventos trágicos se intensifica, impulsionada por mal-entendidos, fatalidades e a impossibilidade de comunicação eficaz devido à brevidade do tempo.

O Duelo e o Banimento Prematuro

  • A morte de Teobaldo, primo de Julieta, por Romeu, ocorre logo após o casamento. Esse evento, desencadeado pela fúria de Teobaldo e pela recente ligação familiar de Romeu, mergulha os amantes em um turbilhão de dor e desespero.

  • O príncipe de Verona, ao invés de condenar Romeu à morte, decreta seu banimento imediato da cidade. Essa decisão, embora clemente, separa os recém-casados abruptamente, intensificando seu sofrimento e a sensação de perda irreparável.

O Plano Desesperado e a Falha de Comunicação

  • Diante da decisão de seu pai de casá-la com Páris, Julieta busca desesperadamente a ajuda de Frei Lourenço. O frade, na tentativa de reunir os amantes, elabora um plano arriscado que envolve uma poção do sono que simulará a morte de Julieta.

  • A execução do plano depende crucialmente da comunicação entre Frei Lourenço e Romeu, que está exilado em Mantua. No entanto, a mensagem sobre o plano de Julieta não chega a Romeu a tempo, devido a um revés do destino.

O Clímax Fatal no Túmulo dos Capuletos

  • Ao receber a notícia da aparente morte de Julieta, Romeu, tomado pelo desespero e pela crença de que perdeu seu amor para sempre, retorna secretamente a Verona. A urgência de seus sentimentos o impede de verificar a veracidade da notícia.

  • No túmulo dos Capuletos, Romeu encontra Páris e, em um confronto fatal, o mata. Em seguida, acreditando que Julieta está morta, ele bebe um veneno, tirando a própria vida ao lado de seu amada.

  • Quando Julieta acorda e encontra Romeu sem vida, a realização da tragédia a consome. Sem hesitar, ela usa a adaga de Romeu para se matar, unindo-se a ele na morte.

O Legado da Urgência em Romeu e Julieta

A trama condensada de Romeu e Julieta, ocorrendo em um curto espaço de tempo, amplifica a intensidade das emoções e a sensação de inevitabilidade trágica. As decisões impulsivas, a falta de tempo para reflexão e a fragilidade da comunicação em um cenário de urgência demonstram como o destino pode ser selado em um breve período.

A peça serve como um poderoso lembrete das consequências da intolerância, do ódio cego e da importância da comunicação. A pressa dos eventos impede que a razão prevaleça sobre a paixão e o desespero, culminando em uma das tragédias mais comoventes da literatura mundial.

Perguntas comuns sobre Romeu e Julieta

Em quanto tempo a história de Romeu e Julieta se passa?

Acredita-se que a maior parte da ação da peça se desenrola em um período de aproximadamente quatro a seis dias.

Por que o tempo acelerado é importante na peça?

O tempo acelerado intensifica a paixão avassaladora dos amantes, força decisões impulsivas, dificulta a comunicação eficaz e contribui para a sensação de inevitabilidade da tragédia.

Quais são os principais eventos que ocorrem em um curto espaço de tempo?

O primeiro encontro, o juramento de amor, o casamento secreto, a morte de Teobaldo, o banimento de Romeu, o plano de Frei Lourenço e o duplo suicídio acontecem em um ritmo frenético.

Como a pressão do tempo afeta as decisões dos personagens?

A urgência impede que os personagens reflitam completamente sobre suas ações e considerem as consequências a longo prazo, levando a decisões baseadas na emoção e no desespero.

Conclusão

O tempo, em Romeu e Julieta, não é um mero pano de fundo para a história; é um catalisador crucial da tragédia. A velocidade implacável dos eventos, desde o nascimento do amor até a consumação da morte, sublinha a fragilidade da felicidade dos jovens amantes em um mundo consumido pelo ódio. A urgência da trama nos lembra da importância da paciência, da comunicação e da razão diante de conflitos e paixões intensas. Romeu e Julieta permanece uma obra atemporal, em parte, pela maestria com que Shakespeare utiliza o tempo para intensificar o impacto de seu conto trágico.

(*) Notas sobre a ilustração:

A ilustração é uma representação dramática de Romeu e Julieta em um abraço frenético. Julieta estende o braço como se estivesse tentando agarrar algo fora de alcance, enquanto Romeu a segura firmemente, com a cabeça virada em direção a um relógio distorcido ao fundo. Os rostos deles expressam uma mistura de amor desesperado e condenação iminente, com olhos arregalados e bocas abertas.

A cena é envolvida por elementos que simbolizam o avanço implacável do tempo: ampulhetas quebradas com a areia se espalhando, engrenagens de um relógio quebrado espalhadas pelo primeiro plano e um grande mostrador de relógio deformado com ponteiros quebrados no fundo. A paleta de cores é escura e sombria, com azuis profundos, cinzas e sombras dominando a cena, pontuados por realces nos rostos e mãos dos amantes. A iluminação dramática de uma fonte invisível projeta longas sombras, acentuando o clima trágico da imagem.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Mercúcio em Romeu e Julieta: O Coração Irreverente que Anuncia a Tragédia

 A ilustração apresenta Mercúcio como um jovem de aparência sedutora e espirituosa, com uma expressão ligeiramente cínica e teatral. Ele veste trajes ricos e coloridos que remetem à moda renascentista italiana: um gibão verde-esmeralda com bordados dourados, calças bufantes em tons de vinho e uma camisa branca com gola alta. O personagem segura um florete com uma mão, de forma casual, enquanto gesticula com a outra, como se estivesse no meio de um dos seus famosos discursos ou tiradas.  O cenário, embora desfocado, sugere uma rua italiana ao entardecer, com edifícios de pedra e uma luz suave que realça o protagonista. A pose e a expressão facial de Mercúcio capturam a sua natureza complexa: ele é ao mesmo tempo carismático e crítico, um mestre das palavras e um amigo leal, mas também um espírito inquieto que anuncia a tragédia que se aproxima.

Quando pensamos em Romeu e Julieta, a primeira imagem que nos vem à mente é, sem dúvida, a dos jovens amantes presos em um destino cruel. No entanto, a verdadeira ignição que acende o fogo da tragédia de William Shakespeare não vem de um beijo proibido, mas da morte de um personagem secundário: o espirituoso, cínico e profundamente leal Mercúcio.

Longe de ser apenas um alívio cômico, Mercúcio é o contraponto vital para a paixão avassaladora de Romeu. Ele é a voz da razão, ou melhor, da irreverência realista, que serve de espelho para a futilidade da rivalidade entre as famílias. Neste artigo, vamos mergulhar na complexidade de Mercúcio em Romeu e Julieta, explorando seu papel como amigo, poeta e, acima de tudo, o catalisador que transforma uma história de amor em uma das mais célebres tragédias de todos os tempos.

A Essência de Mercúcio: O Contraste Vivo

A genialidade de Shakespeare muitas vezes reside em seus personagens secundários, e Mercúcio é um exemplo brilhante. Amigo de Romeu e parente do Príncipe Escalo, ele é uma figura que transborda vida. Sua personalidade é uma mistura vibrante de humor ácido, inteligência aguçada e um certo desdém pelas convenções românticas e sociais.

O Poeta Irreverente e o Realista Cínico

Mercúcio é, em sua essência, um poeta, mas um que usa as palavras para desconstruir, não para construir. Enquanto Romeu idealiza o amor e a beleza de Rosalina (e depois de Julieta) em versos sonetistas, Mercúcio usa a linguagem para brincadeiras de duplo sentido e provocações intelectuais. Ele zomba do amor de Romeu, tratando-o como uma mera "paixão juvenil", uma doença que se cura com a ironia.

Essa irreverência é o que o torna tão fascinante. Ele vê a paixão de Romeu como uma ilusão e a honra da briga das famílias como uma loucura sem sentido. Sua visão de mundo é a de um realista amargo, alguém que não se deixa levar por idealismos. Ele não é amargurado por natureza, mas sim cético e profundamente consciente da hipocrisia ao seu redor.

A Famosa Tirada da Rainha Mab

Não se pode falar de Mercúcio sem analisar o seu discurso sobre a Rainha Mab. Quando Romeu está preocupado com um sonho que previu um mau presságio, Mercúcio responde com uma tirada de mais de 50 linhas, uma das passagens mais famosas de toda a peça.

O discurso começa como uma fantasia pitoresca sobre uma fada que visita os homens em seus sonhos. No entanto, a narrativa rapidamente se transforma, revelando a visão cínica de Mercúcio sobre a natureza humana. Ele descreve como a Rainha Mab, com sua carruagem feita de uma avelã e puxada por átomos, visita as mentes adormecidas, instigando sonhos de vaidade, poder e ambição.

Este monólogo é a essência de Mercúcio: um exercício de imaginação que se torna uma crítica afiada à futilidade dos desejos humanos. Ele ridiculariza a própria ideia de que os sonhos possam ter algum significado, sugerindo que são apenas frutos de uma "imaginação ociosa". O discurso é um contraste gritante com o mundo passional e predestinado de Romeu e Julieta, e uma das maiores contribuições de Shakespeare para a psicologia teatral.

O Catalisador da Catástrofe: Por Que a Morte de Mercúcio É Crucial

O papel de Mercúcio transcende a mera irreverência e o alívio cômico. Sua existência no palco é fundamental para o desenrolar da tragédia. Ele não é apenas um personagem; é o ponto de viragem do enredo.

A Briga com Teobaldo

A morte de Mercúcio acontece em uma das cenas mais tensas da peça. O orgulhoso Teobaldo, primo de Julieta, busca vingança contra Romeu por ele ter comparecido a um baile dos Capuleto. No entanto, Romeu, agora casado secretamente com Julieta, tenta apaziguar Teobaldo, recusando-se a lutar.

É neste momento que Mercúcio intervém. Irritado com a "submissão" de Romeu e com a ostentação de Teobaldo, ele assume a briga. Para ele, a honra é algo a ser defendido com uma espada, não com palavras. Sua luta contra Teobaldo não é apenas por Romeu, mas por um senso de justiça e para impor um fim à teatralidade vazia da inimizade. Ele morre de forma honrosa, mas trágica, como resultado da violência que tanto ridicularizou.

"Uma praga em ambas as vossas casas!"

A morte de Mercúcio é o grande ponto de inflexão de Romeu e Julieta. Ao ser ferido mortalmente por Teobaldo, ele lança a sua famosa maldição: "Uma praga em ambas as vossas casas!" (A plague o' both your houses!).

Essa frase não é apenas um lamento de um homem à beira da morte; é a profecia que se concretizará. A maldição de Mercúcio se torna a força motriz que impulsiona o enredo para o desastre inevitável. Sua morte força Romeu a retaliar, matando Teobaldo, o que leva ao seu exílio e, finalmente, à morte dos amantes. O humor e a vivacidade de Mercúcio desaparecem do palco, e a peça mergulha de vez na escuridão e na seriedade.

Perguntas Comuns sobre Mercúcio

Qual é o papel de Mercúcio em Romeu e Julieta? Mercúcio serve como o principal amigo e confidente de Romeu, funcionando como um alívio cômico e, crucialmente, como o catalisador da tragédia. Sua morte desencadeia a série de eventos que levam ao desfecho fatal da peça.

O que a Rainha Mab representa? A Rainha Mab representa o mundo dos sonhos e das fantasias, mas na visão cínica de Mercúcio, ela personifica a futilidade, a vaidade e a natureza ilusória dos desejos humanos. É a deconstrução de ideais românticos.

Por que a morte de Mercúcio é tão importante para o enredo? A morte de Mercúcio transforma a peça de uma comédia romântica em uma tragédia. Seu último fôlego, com a maldição sobre as duas famílias, selou o destino de Romeu e Julieta, pois a sua morte provoca a vingança de Romeu, seu exílio e a inevitável conclusão trágica.

O Legado de um Personagem Inesquecível

O legado de Mercúcio em Romeu e Julieta é o de um personagem que, apesar de sua breve existência em palco, define o curso de uma das maiores peças de Shakespeare. Ele é a voz que se recusa a aceitar as convenções, o espírito livre que se opõe ao destino, e o amigo leal cuja morte serve como a faísca que incendeia a tragédia. Sem a sua irreverência, o romance de Romeu e Julieta seria apenas uma história de amor com um final infeliz. Com a sua morte, ele nos lembra que a vida é tanto sobre as paixões ardentes quanto sobre o acaso brutal e sem sentido.

(*) Notas sobre a ilustração:

A ilustração apresenta Mercúcio como um jovem de aparência sedutora e espirituosa, com uma expressão ligeiramente cínica e teatral. Ele veste trajes ricos e coloridos que remetem à moda renascentista italiana: um gibão verde-esmeralda com bordados dourados, calças bufantes em tons de vinho e uma camisa branca com gola alta. O personagem segura um florete com uma mão, de forma casual, enquanto gesticula com a outra, como se estivesse no meio de um dos seus famosos discursos ou tiradas.

O cenário, embora desfocado, sugere uma rua italiana ao entardecer, com edifícios de pedra e uma luz suave que realça o protagonista. A pose e a expressão facial de Mercúcio capturam a sua natureza complexa: ele é ao mesmo tempo carismático e crítico, um mestre das palavras e um amigo leal, mas também um espírito inquieto que anuncia a tragédia que se aproxima.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

O Contraste entre a Paixão Juvenil e a Frieza dos Adultos em Romeu e Julieta, de William Shakespeare

A Paixão Contrastada com a Frieza A ilustração divide-se em duas cenas, cada uma capturando um aspecto distinto da tragédia de Romeu e Julieta. À esquerda, vemos a paixão ardente dos jovens amantes. Romeu e Julieta estão próximos, talvez em um momento de troca de olhares ou um toque sutil, com uma aura de intimidade e um cenário que sugere um jardim ou pátio, com elementos orgânicos e cores vibrantes que refletem o calor de seu amor. A iluminação é suave, focando neles.  Do lado direito, o contraste é gritante. Os adultos, representados pelos pais de Julieta e pelo Príncipe Escalus, estão em uma composição mais formal e distante. Suas posturas são rígidas, os rostos expressam seriedade, preocupação ou até mesmo indiferença, e as cores de suas vestimentas são mais sóbrias, como tons escuros de azul ou cinza, que simbolizam a frieza e a rigidez das normas sociais e políticas da época. O Príncipe, com sua autoridade imponente, e os pais, com sua preocupação com o status e a rivalidade, exalam uma aura de seriedade que contrasta fortemente com a leveza e a paixão dos jovens.  Essa dualidade visual ressalta o conflito central da peça: o amor puro e inocente de Romeu e Julieta versus o mundo inflexível e cheio de ódio dos adultos que os cercam.

Introdução

Romeu e Julieta, de William Shakespeare, é uma das tragédias mais emblemáticas da literatura mundial. A peça, escrita no final do século XVI, atravessou séculos conquistando leitores e espectadores ao abordar temas universais como o amor, o ódio e o destino. No entanto, um dos aspectos mais marcantes da obra — e muitas vezes subestimado — é o forte contraste entre a paixão impulsiva dos jovens protagonistas e a racionalidade fria (ou mesmo a indiferença) dos adultos ao redor deles. Este conflito geracional intensifica o drama e expõe as barreiras sociais e emocionais que impedem a realização do amor entre Romeu e Julieta. Neste artigo, exploramos esse contraste como elemento central da tragédia, analisando o comportamento dos pais, do Príncipe de Verona e de outras figuras adultas frente ao ardor juvenil.

O amor impetuoso da juventude

Romeu e Julieta: emoção acima da razão

Desde o primeiro encontro entre Romeu e Julieta, o amor floresce com intensidade avassaladora. Ambos são jovens — ele tem cerca de 16 anos, ela apenas 13 — e são tomados por uma paixão imediata e absoluta. A juventude é retratada por Shakespeare como um tempo de entrega total, em que os sentimentos falam mais alto do que a razão. Romeu se apaixona com facilidade (antes de Julieta, ele estava infeliz por causa de Rosalina), e Julieta, apesar da pouca idade, demonstra coragem e maturidade ao se contrapor às ordens da família para viver esse amor proibido.

O casamento secreto dos dois, ocorrido apenas um dia após se conhecerem, reforça essa urgência juvenil. Em vez de esperar, planejar ou ponderar, os dois preferem arriscar tudo por um sentimento puro, mas impetuoso. Essa característica confere beleza ao amor de Romeu e Julieta, mas também os conduz, tragicamente, à morte.

A frieza e o pragmatismo dos adultos

Os pais: autoridade inflexível e distanciamento emocional

Em contrapartida ao fervor emocional dos protagonistas, os pais de ambos representam uma geração marcada pela rigidez, pelo orgulho e pelo apego às convenções sociais. O pai de Julieta, Lorde Capuleto, inicialmente reluta em casar a filha por sua juventude, mas logo muda de ideia quando surge a oportunidade de unir sua família ao nobre Paris. Ele ignora os sentimentos da filha, ameaçando deserdá-la caso não aceite o casamento arranjado — mesmo sem saber que ela já está casada com Romeu.

Lady Capuleto, por sua vez, mantém uma postura submissa ao marido e distante da filha. Sua falta de empatia revela-se quando Julieta implora apoio para evitar o casamento com Paris, e ela apenas diz: "Faça como quiser, pois eu já desisti de ti".

Do lado dos Montecchios, pouco se fala dos pais de Romeu, o que por si só denota uma ausência ou desinteresse pela vida emocional do filho. O espaço deixado por esses adultos é ocupado por figuras como Frei Lourenço e a Ama, que tentam mediar o amor dos jovens — com boas intenções, mas consequências trágicas.

O Príncipe de Verona: representante da ordem

O Príncipe Escalo representa o poder institucional. Seu papel é o de manter a ordem e punir aqueles que a perturbam — como as famílias rivais Capuleto e Montecchio. Desde o início da peça, ele se mostra impaciente com os conflitos constantes entre os clãs, ameaçando de morte quem violar novamente a paz.

Ainda que justo em suas decisões, o Príncipe age com distanciamento emocional. Quando bani Romeu por matar Teobaldo, ele tenta ser equilibrado, mas não considera as circunstâncias emocionais do ato. Sua justiça é legalista, e não humana. Mesmo ao lamentar a tragédia no final, sua postura continua marcada pela autoridade e pelo desejo de manter a ordem, não pela empatia.

Juventude e maturidade em conflito: um abismo irreconciliável

A tragédia como denúncia do mundo adulto

A tragédia de Romeu e Julieta não é apenas uma história de amor frustrado, mas uma crítica à sociedade que permite — e até estimula — o sofrimento dos jovens em nome da honra, da tradição e da autoridade. Shakespeare constrói um universo em que os adultos, presos a convenções, não enxergam ou não valorizam os sentimentos verdadeiros que nascem entre Romeu e Julieta.

É possível dizer que os jovens morrem não apenas por amor, mas também pela ausência de escuta e compreensão. A paixão juvenil, intensa e sincera, é sufocada pela frieza dos adultos, pela lógica da rivalidade e pelo formalismo das instituições. Nesse sentido, a peça denuncia o custo humano de um mundo que despreza os sentimentos em nome da ordem.

Conclusão

O contraste entre a paixão juvenil e a frieza dos adultos em Romeu e Julieta é um dos elementos mais poderosos da tragédia shakespeareana. Romeu e Julieta amam com toda a força da juventude, mas vivem em um mundo governado por adultos que priorizam a honra, a obediência e as aparências. Esse conflito entre emoção e razão, entre desejo e dever, culmina em uma tragédia que ainda ressoa com força nos dias de hoje. Ao explorar esse abismo geracional, Shakespeare nos convida a refletir sobre o papel da empatia, do diálogo e da escuta entre gerações — uma lição atemporal que transcende os séculos.

(*) Notas sobre a ilustração: 

A Paixão Contrastada com a Frieza

A ilustração divide-se em duas cenas, cada uma capturando um aspecto distinto da tragédia de Romeu e Julieta. À esquerda, vemos a paixão ardente dos jovens amantes. Romeu e Julieta estão próximos, talvez em um momento de troca de olhares ou um toque sutil, com uma aura de intimidade e um cenário que sugere um jardim ou pátio, com elementos orgânicos e cores vibrantes que refletem o calor de seu amor. A iluminação é suave, focando neles.

Do lado direito, o contraste é gritante. Os adultos, representados pelos pais de Julieta e pelo Príncipe Escalus, estão em uma composição mais formal e distante. Suas posturas são rígidas, os rostos expressam seriedade, preocupação ou até mesmo indiferença, e as cores de suas vestimentas são mais sóbrias, como tons escuros de azul ou cinza, que simbolizam a frieza e a rigidez das normas sociais e políticas da época. O Príncipe, com sua autoridade imponente, e os pais, com sua preocupação com o status e a rivalidade, exalam uma aura de seriedade que contrasta fortemente com a leveza e a paixão dos jovens.

Essa dualidade visual ressalta o conflito central da peça: o amor puro e inocente de Romeu e Julieta versus o mundo inflexível e cheio de ódio dos adultos que os cercam.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Meghan Markle: Cinderela ou Lady Macbeth?

 

Cinderela ou Lady Macbeth

Por Jean Fecaloma

Ao terminar de assistir a série documental Harry & Meghan, da Netflix, me perguntei como Shakespeare retrataria a duquesa de Sussex Meghan Markle e o príncipe Henrique, o Harry, em uma de suas peças eternas? Para mim, a questão é instigante porque meu interesse pelo universo demasiadamente humano das personagens representadas pela dramaturgia tragicômica do bardo inglês é muito maior que eventuais pendências mal resolvidas envolvendo membros da caduca monarquia britânica que, aliás, não me dizem respeito em absoluto. Sou um anarquista, inimigo de reis, políticos e déspotas em geral, pois, onde há governo, como diriam os espanhóis, ¡soy contra! Portanto, não me importo com títulos, cargos, honrarias, aparência ou rótulos, preferindo me fiar naquilo que está por traz da embalagem e que revela a verdade oculta de cada ser humano: a sua alma interior.

O seriado Harry & Meghan de seis episódios só passou a ter algum sentido para as minhas meditações extracotidianas devido à minha total falta do que fazer num tedioso sábado de chuva. A verdade é que quando acionei inconsciente e automaticamente o título sugerido pelo catálogo do serviço de streaming não sei se agia mais por uma bisbilhotice maledicente e inconfessável ou se por um arrebatamento abstrato mais alto, inerente às grandes reflexões relativas às artes literárias e filosofia propriamente ditas. Vamos dizer assim: a primeira proposição é verdadeira, mas a segunda é uma boa desculpa!

Seja como for, as peripécias da ex-atriz, também conhecida no show business por Meg, e de seu nobre marido apaixonado ensejaram em mim alguma boa vontade de ânimo, levando-me a me dedicar algumas breves considerações sobre a produção da Netflix.

Pois bem, em resumo, a série é uma espécie de versão ou “direito de resposta” do casal Meghan e Harry. Em tom autolaudatório, a dupla busca se defender de supostos ataques que alega estar sofrendo há algum tempo daquilo que eles chamam de Instituição – uma entidade indelével que controla toda a família real como um jogo de marionetes.

Partindo-se deste pressuposto, Harry & Meghan foi construída, grosso modo, sob duas partes bem distintas. Na primeira, tudo se passa como em um conto de fadas do século XXI – com direito a “era uma vez” e “reino encantado”. Seria mais ou menos assim: Era uma vez uma linda plebeia americana, rebento de uma mulher negra com um homem branco, que vivia maltratada pela sua meia-irmã mais velha, uma branquela feia, perversa e invejosa. Um belo dia, a nossa Cinderela de pele morena partiu em uma longa viagem para um reino distante do outro lado do oceano, onde conheceu um garboso príncipe de cabelos ruivos e olhos azuis, que a salvou de seu triste destino. Para variar, a inocente donzela e o nobre cavalheiro se casaram e viveram num castelo felizes para sempre!

Na segunda parte, o “felizes para sempre no castelo” é interrompido de repente por misteriosas intrigas palacianas e, tal como em Otelo, o Mouro de Veneza, Meghan é tragada por uma turbilhão de inveja, ciúmes, traição e racismo. O motivo aparente seria a popularidade crescente da duquesa, que vai ofuscando como um eclipse total os membros da família real.

Os famosos tabloides britânicos estampam fotos de Meghan na primeira página e multidões se arrastam para tietar a plebeia que mal entrou para a aristocracia. Meg se torna um fenômeno real.

“Deixando de lado o que eu penso, Meghan está se tornando realmente uma estrela do rock, maior que William e Kate. E isso provavelmente não é uma coisa boa”, constata o narrador da série.

Pouco depois, sentencia: “O conto de fadas acabou, e uma pessoa está levando toda a culpa”.

De uma hora para outra, Meg vai do céu ao inferno. Os tabloides sensacionalistas, que antes a glorificavam como uma diva, tratam-na agora como uma ex-integrante de uma gangue do Harley ou uma extremista de um grupo radical islâmico.

Os desdobramentos nefastos da polêmica alcança o Novo Mundo. No México, o pai de Meghan, que, na ocasião do casamento da caçula, para ganhar um troco, ensaiou uma sessão de fotos vestido de fraque e, às vésperas da cerimônia, teria supostamente simulado um ataque cardíaco, não comparecendo braços dados com a noiva ao altar, vendeu secretamente uma carta escrita pela filha à imprensa, que publicou os trechos mais picantes e, digamos assim, desnaturados da missiva, escandalizando a conservadora sociedade inglesa. Da Califórnia, a malvada meia-irmã ressurge e monta um gabinete do ódio para destruir a reputação de Meghan, espalhando fake news através de disparos em massa pelo zap zap que se alastraram pelos quatro cantos do planeta como uma nuvem de gafanhotos vorazes.

Harry e Meghan contra-atacam, acusando a monarquia de racista e a imprensa de antiética. Como dois francos atiradores solitários debaixo de intenso fogo cruzado, abandonam o palácio real e fogem do país para a América. Encurralados num esconderijo, Meg refuta todas as publicações a seu respeito como ilações mentirosas e Harry argumenta que sua esposa vem sendo alvo do mesmo assédio invasivo que outrora mirava sua mãe, a princesa Diana.

Movido por não sei quê nobreza de caráter ou desencargo de consciência, o príncipe ultrajado decide viver uma vida de plebeu, abdicando o parasitismo secular sobre o suor de quem trabalha, os súditos contribuintes, onerados pela dispendiosa frivolidade da vida na corte. Do alto dos seus 38 anos, Harry arregaça as mangas e anuncia com pompa e circunstância que finalmente vai trabalhar, no melhor estilo do trabalho enobrece o homem.

Vítima do preconceito racial, Meg e seu solidário esposo se engajam em causas sociais, na defesa dos oprimidos, da luta contra o racismo, contra o machismo etc., etc. etc. Pelo exemplo o casal quer passar a limpo eventuais mal-entendidos e provar a todos que está do lado certo da história.

A essa altura, estamos indignados com a família real, a monarquia e a tal da Instituição, e somos levados a tomar incondicionalmente o partido dos dois. Afinal, o casal de nobres desceu do pedestal e ergueu a bandeira das lutas das minorias e das pautas politicamente corretas, impossíveis de se contrapor, até mesmo porque se opor pega mal pra caramba.

Mas a epopeia de Harry e Meghan tem o seu calcanhar de Aquiles: uma sobrinha de Meg, Ashleigh Hale, coincidência ou não, filha da megera meia-irmã. Tida pela ex-atriz como sua “melhor amiga”, Ashleigh surge na história para esclarecer um caso invulgar, qual seja, ela é, ao mesmo tempo, convidada e desconvidada para o casamento da tia famosa. Sim, em que pese o convite, a única pessoa da família de Meghan a ter comparecido na cerimônia foi a mãe da noiva. Meg alega que a Instituição a orientou (ou aconselhou) a não convidar a sobrinha, tendo em vista o sabido parentesco consanguíneo materno da moça. Assistimos constrangidos Ashleigh derramar lágrimas e culpar a própria mãe por ter sido barrada de um evento único e raro como a passagem do Cometa de Halley: o faustoso himeneu que oficializou a união da titia com um príncipe de carne e osso. (Imaginem só as guloseimas que foram servidas!)

Ora, para quem conhece minimamente o que os membros da família real inglesa já aprontaram, sabe muito bem que proibir Ashleigh de participar da festa pelo único motivo de ser filha de sua mãe não é senão uma desculpa muito esfarrapada. Ademais, supor que um príncipe, filho do futuro rei e neto da rainha, não tivesse qualquer influência sobre os convidados de sua noiva, é no mínimo uma história muito mal contada. Por exemplo, eu tenho uma banda e sempre coloco quem eu quero nas casas de show em que nós nos apresentamos, pois, caso contrário, a banda não toca. E eu sou apenas o vocalista de uma banda de bêbados (e a minha banda é uma banda punk!), não sou nenhum imperador, conde, marques, prefeito ou mesmo porteiro de um cabaré de quinta; e, no entanto, eu coloco quem eu quero no show da minha banda (Fecaloma)! E, cá entre nós, orientar não é uma ordem, não é impedir, não é proibir.

Eis o balançar de uma única carta e todo um enorme castelo de mentiras vem abaixo.

Então, qual seria o verdadeiro motivo para Meghan e Harry armar esse barraco na casa de Windsor? Retomemos à questão do início, quando Shakespeare foi evocado por revelar a alma humana em toda a sua nudez. O que Harry e Meghan almejam é destronar o sucessor natural da monarquia britânica e usurpar a coroa real.

No documentário, Harry sem querer deixa escapar literalmente suas reais intenções: “A questão é que quando alguém entra para uma família e deveria ter um papel coadjuvante, mas rouba os holofotes ou faz um trabalho melhor do que a pessoa que nasceu para isso, acaba incomodando, desequilibra tudo”. Aparentemente, Harry se refere aqui a Meghan; porém, uma análise profunda (psicanalítica ou talvez sintática) revelaria que o sujeito oculto expresso no lapso de linguagem é o próprio Harry, pois nem a ex-atriz Meghan nem Kate possuem “sangue azul” e portanto não nasceram para isso (reinar). Quem nasceu para reinar é, segundo a lei e os costumes, o irmão mais velho, cabendo ao irmão mais novo o mero papel coadjuvante.

Mas Harry faz jus a ocupar o trono não porque nasceu primeiro mas porque rouba os holofotes e supostamente trabalha melhor que o inepto primogênito. Um desabafo tão eloquente em defesa da meritocracia desperta a nossa curiosidade sobre qual a atividade profissional vem exercendo o príncipe Harry desde que assumiu uma vida plebeia. Descobrimos horrorizados que o duque e a duquesa não saem da frente do computador e – muito provavelmente – passam o dia nas redes sociais preocupados com a própria imagem. Eis o trabalho do príncipe Harry: tuitar e postar no Instagram e no Facebook.

Se estivéssemos na Idade Média, o príncipe e a princesa de Gales – William e Kate – já estariam com a corda no pescoço prestes a perderem a cabeça. Já a prole do casal destronado seria trancafiada em uma torre de antanho até apodrecer, enquanto, às gargalhadas, o duque e a duquesa de Sussex brindariam triunfantes a vitória: curto verão, primavera precoce.

Como no melhor estilo das tragédias shakespearianas, Herry e Meghan seriam coroados rei e rainha, após deixar um longo rastro de sangue pelo caminho.

Mas não estamos mais na Idade Média nem no absolutismo e depois da Revolução Francesa a política mudou muito e os reis não mandam mais nada. Hoje vivemos a era da sociedade do espetáculo, na qual pouco importa o ser, a natureza íntima da pessoa, ou mesmo o ter; pois o que realmente importa é o aparecer (ou parecer). No mundo atual, a imagem é tudo, é poder. Ainda que a densidade ontológica do espetáculo seja tênue como a superfície de um espelho, a representação toma o lugar da presença, enquanto forma vazia sem conteúdo, aparência física destituída de caráter, e domina. O que vale é estar na mídia, ganhar likes, seguidores, curtidas, compartilhamentos e visualizações; aparecer na TV e ganhar muito dinheiro. Nesse contexto, Harry e Megan trabalham diuturnamente para alcançar o status de celebridades infinitamente mais poderosas do que a conformação a meros enfeites de um símbolo anacrônico, já que a própria monarquia britânica tornou-se a essência mais bem acabada do espetáculo.

Assim sendo, o seriado da Netflix Harry & Meghan não passa de uma impostura, uma peça de publicidade vazia, marketing puro, para, como se diz por aí, passar pano e transformar o casal Harry e Meg em rei e rainha, de fato e de direito, por aclamação dos internautas.

Todavia, é muito curioso como ao longo da série a maquiagem de Meghan vai ficando cada vez mais escura e, em dado momento, chegamos mesmo a questionar se Harry não se casou com a ex-atriz apenas para se promover. Ora, para quem se fantasiava de nazista na adolescência e na juventude se tornou um soldado a serviço da missão civilizatória no Afeganistão o figurino de campeão da diversidade não parece se ajustar muito bem ao talhe do rapaz. Ademais, para um libelo contra o racismo e o machismo, como a série se pretende, é bastante embaraçoso o fato do documentário apagar completamente a memória de Dodi Al-Fayed, o namorado árabe de lady Di, também vitimado no acidente fatal de 31 de agosto de 1997, em Paris. Mas a videobiografia oficial do casal chega a ser mais realista do que o rei em seu um puritanismo de fachada, encarregando-se de desintegrar o primeiro marido da ex-atriz Meghan e as constrangedoras fotos em que Harry aparece peladão numa festa “bunga-bunga” em Las Vegas. Muito se varreu para debaixo do tapete...

Em resumo, Harry é um sapo que nasceu príncipe; um Ricardo III bem apanhado disposto a tudo para furar a fila da sucessão real. Quanto a Meghan, longe de ser uma gata borralheira, está mais para Lady Macbeth, a gananciosa esposa do general a serviço do rei Duncan, da Escócia, que fará de tudo para que o marido usurpe o trono do legítimo rei e garantir a linha sucessória da realeza para seus descendentes. Se o emprego da espada está fora de moda no reino do entretenimento, então a fama de youtuber ou influencer digital coroará os ordinários usurpadores, para o bem ou para o mal.

Quando concluía este texto, tomei conhecimento que Harry lançava a sua não menos polêmica bibliografia O que sobra (“Spare”) – o sujeito nem fez 40 anos e já lança uma biografia! Evidentemente, não vou ler (já perdi tempo demais com esses dois pilantras), prefiro assistir uma peça de Shakespeare – uma boa pedida é Macbeth, disponível no YouTube, com Vera Fisher e a interpretação memorável de Antonio Fagundes – ou mesmo ler as obras completas do carequinha inglês. Aliás, cá entre nós, só escrevi este texto como uma desculpa para citar Shakespeare (abaixo). Afinal, o rabo não pode abanar o cachorro, não é mesmo? Ah, quase ia esquecendo...: Viva a Anarquia!

MACBETH

Primeiro Ato

Cena VII

Castelo de Macbeth

(Oboés e archotes. Entram um mordomo e diversos criados com pratos e travessas, passando pelo palco. Depois entra Macbeth).

Macbeth: Se ficasse feito tudo o que se faz, então seria bom o que mais depressa se fizesse. Se o assassínio desse fim às consequências, e com a sua execução conseguisse sucesso, apenas com este golpe que pode ser tudo ou o fim de tudo, aqui e só aqui, desta ribanceira e deste rochedo do tempo nós arriscaríamos a vida vindoura. Mas em tais casos ainda temos julgamento e as severas instruções que ordenamos e que, por ordenadas, recaem em seu próprio inventor. A justiça, de mão igualitária, leva aos nossos próprios lábios o conteúdo do nosso cálice envenenado. Ele está aqui sob dupla garantia: Primeiro porque sou seu parente e súdito, fortes motivos contra o atentado; depois, sou o seu hospedeiro e deveria fechar a porta ao assassino em vez de eu mesmo brandir o punhal. Além disso, este Duncan tem carregado tão docemente a sua soberania, tem cumprido com tanta clarividência a sua grande missão, que suas virtudes clamarão, como anjos com voz de trombeta, contra a danação de lhe tirar a vida. A piedade, como uma criança recém-nascida e nua, surgindo do turbilhão ou trazida por um querubim pelas invisíveis camadas do ar, mostrará a cada olhar o feito horrível, e o vento derramará lágrimas. Para picar as ilhargas do meu intento a espora desta ambição inquieta, que salta sobre si mesma e sobre ele cai.

(Entra Lady Macbeth).

Então? Que há?

Lady Macbeth: Quase acabou de cear. Por que deixastes a sala?

Macbeth: Perguntou por mim?

Lady Macbeth: Não sabeis que perguntou?

Macbeth: Não prosseguiremos mais nessa história. Ele acaba de me cumular de honras e eu consegui, de toda espécie de gente, opiniões que valem ouro, que devem assim ser usadas, no seu brilho novo, sem logo ser postas à parte.

Lady Macbeth: Estava bêbada a esperança em que vos envolvestes? E dormiu depois? E desperta agora, para olhar pálida e lívida aquilo que fez livremente? Começa a calcular o vosso amor. Tendes medo de mostrar o que desejas, em vossas ações e em vosso valor? Desejareis ter aquilo que considerais o ornamento da vida, para viverdes como um covarde aos vossos próprios olhos, deixando o “Eu não ouso” vencer o “Eu quero”, como aquele pobre gato do provérbio?

Macbeth: Calma, eu vos suplico. Eu ouso tudo o que convém a um homem. Não o é, quem ousasse mais.

Lady Macbeth: Que diabo então vos fez abrir comigo sobre esta empresa? Quando a planejastes, éreis um homem. E para serdes mais do que éreis, precisáveis ser ainda mais homem. A ocasião nem o lugar era propícios, mas vós os encontrareis; e quando eles se apresentam, diante da possibilidade vós desanimais. Eu dei meu leite, eu sei como é doce amar a criança que amamento: por ainda que ela sorrisse para mim, eu tiraria o meu seio de sua boca tenra, e arrancar-lhe-ia os miolos, se eu tivesse jurado como jurastes.

Macbeth: E se falharmos?

Lady Macbeth: Falharmos! Firmar vossa coragem no máximo e não falharemos. Quando Duncan tiver dormindo – e a fatigante viagem de hoje a de forçá-lo profundamente a isto, eu terei dominado com vinhos e saúdes seus dois camareiros, para que sua memória, guarda do cérebro, seja apenas uma sombra, e o reservatório de sua razão um alambique apenas; e quando, no sono estúpido, seus corpos encharcados estiverem como mortos, que não poderemos, vós e eu, fazer com Duncan indefeso? E por que não acusar seus servidores bêbados, que levarão a culpa do nosso grande ato?

Macbeth: Deveis parir só meninos, pois o vosso ardor indomável não serve senão a homens. E deixarão de acreditar, quando tivermos manchado de sangue os dois camareiros adormecidos, usando os seus próprios punhais, que foram eles que o fizeram?

Lady Macbeth: E quem acreditará outra coisa, se fizermos reboar nossas queixas e clamores diante da sua morte?

Macbeth: Estou decidido, e apresto cada agente do meu corpo para esse ato terrível. Pois vamos disfarçar, a mais doce expressão: oculte em rosto falso o falso coração.

Fim do Primeiro Ato.

(Confesso que para entender melhor o caso consultei no Youtube fofoqueiros de plantão especializados em – pasmem! – família real... kkkkkkkkkkkk*).

*Nota: Risada na pós-modernidade.

domingo, 8 de março de 2020

Especial Dia da Mulher: Shakespeare


Por Jean Pires de A. Gonçalves

Nos dias atuais, Shakespeare poderia ser considerado politicamente incorreto, dados alguns aspectos de suas peças, no mínimo, para dizermos assim, “preconceituosos”. Falstaff sofre bullying por ser obeso e Aarão, o mouro, entre as muitas de suas qualidades negativas, de vilão, soma-se a pele escura.

Peça Otelo, de Shakespeare
Desdêmona, de Frederic Leighton
Na verdade, Shakespeare reproduz os preconceitos de seu tempo, o século XVII, um mundo muito mais inclemente que o nosso. O caso clássico é Shylock, o rico usurário judeu de O mercador de Veneza. Aparentemente, Shakespeare destila todo o seu veneno na construção do personagem, que é ultraestigmatizado, apesar do dramaturgo jamais ter conhecido um único judeu; pois os judeus haviam sido expulsos da Inglaterra quatro séculos antes.

Personagens caricatos, assim como hoje, despertavam todos os tipos de paixão e, claro, atendiam às expectativas catárticas do público da época. Mas Shakespeare não jogava para a plateia sem uma dose de dissenso. Na noite de amor de Otelo, o general mouro, e sua amada Desdêmona, Iago, em companhia de Rodrigo, denuncia a Brabâncio, senador e pai da moça, o encontro proibido, com as seguintes palavras:

“Meu senhor, pelas feridas de Cristo! O senhor foi roubado! Que humilhação! (...) Neste instante, agora, agorinha, um bode preto está cobrindo sua branca ovelhinha (...) Só porque nós viemos lhe fazer um favor e o senhor pensa que somos dois desordeiros, terá um cavalo berbere cobrindo sua filha; terá seus sobrinhos relinchando para o senhor; terá corcéis por primos e ginetes por parentes”.

Ao longo da peça, Shakespeare pinta o personagem Iago, branco e cristão, como um dos vilões mais desprezíveis e malignos da história da literatura, enquanto Otelo, o mouro, aparece surpreendentemente como um homem de caráter íntegro, digno e virtuoso. Essa inversão e humanização de um personagem que devia ser o avesso do tipo ideal da cristandade, tão poderosa naqueles tempos, é, no mínimo, bastante corajosa, para não dizer o óbvio, genial.

Tal esquema, no entanto, não foge à regra. Acuado, Shylock desabafa: “I am a Jew. Hath not a Jew eyes? hath not a Jew hands, organs, dimensions, senses, affections, passions?” (Eu sou judeu. Por acaso, não teria olhos um judeu? Mãos, órgãos, corpo, sentidos, afetos, paixões?).

De fato, parece mesmo que o bardo paira sobre o seu tempo e, em doses homeopáticas, oferece um antídoto para o futuro, até mesmo para nós, que já atravessamos o limiar do século XXI e continuamos batendo cabeça!

Mas estamos no 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o que Shakespeare tem a dizer às mulheres? 

Infelizmente, Otelo, nosso herói, não poderá servir de exemplo. Levado até o extremo do ciúme pelas intrigas de Iago, o nobre mouro mata sua amada. “(...) Este que, de olhos baixos, apesar de não ser de seu feitio mostrar-se comovido, agora derrama lágrimas de maneira pródiga, como as árvores das Arábias derramam sua goma medicinal...” diz Otelo, para logo em seguida apunhalar-se de modo fatal, assim como a adolescente Julieta em seu último ato.


Tais desfechos trágicos não eram um problema para Shakespeare. Mas em tempos em que feminicídio é crime hediondo – e já não era sem tempo – não há mais espaço para a infame “legítima defesa da honra”.

Devemos achar em outro lugar, sem abandonar as peças de Shakespeare, já que são tão prodigiosas em personagens femininos marcantes, como Lady MacBeth, Julieta, Ofélia, Rosalinda, entre outras.


Qual seria o papel da mulher em suas peças, escritas em um universo onde a vontade patriarcal chegava às raias do poder absoluto?

Na peça, A comédia de erros temos um exemplo interessante de como Shakespeare não aceitava como dado o papel determinado socialmente à mulher. São bastante interessantes os diálogos travados entre duas irmãs, Adriana e Luciana, sobre a relação conjugal e o amor.

Vejamos primeiro como a conformada Luciana encara a relação homem-mulher:

Luciana – E não pode acontecer de você ter esquecido por completo os seus deveres de marido? Não pode ser, Antífolo, que, em pleno florescer do amor, o seu afeto vai murchando ainda em botão? Será que o amor em construção já está apodrecendo na estrutura? Se desposou minha irmã pela riqueza, então, por amor a essa riqueza, trate-a com mais delicadeza. Se você gosta de outra, trate disso na surdina; mostre-se de olhar vendado, abafe o seu amor infiel, não deixe que minha irmã o enxergue com outros olhos. Não permita que sua própria boca seja o orador de seu pecado. Tenha para com minha irmã olhares ternos, palavras bonitas, encarne a deslealdade com elegância. Apresente o seu vício paramentado como se virtude fosse. Tenha uma presença límpida, embora o seu coração esteja manchado. Ensine ao pecado a postura de um mártir cristão. Seja falso em segredo; que precisão tem ela de saber? Se nem mesmo ladrão de galinha comenta seus atos corruptos! Seria maltratá-la duplamente: ignorar-lhe a cama e, quando estão à mesa, deixar que ela leia a traição em seus olhos. Quando bem manejada, a ação vergonhosa adquire fama peculiar, pois um mau passo sempre se pode confrontar com palavras bem postas. Ai de nós, pobres mulheres! Vocês só precisam fazer-nos acreditar (criaturas crédulas que somos) que vocês nos amam. Enquanto outras têm o seu braço, queremos que vocês nos mostrem a manga. Nós nos movimentamos em sua órbita, e vocês podem se mover. Assim, meu nobre irmão, volte lá para dentro, console minha irmã, anime-a, chame-a de esposa. É diversão saudável usar palavras em certa medida vazias quando o doce som de um elogio vence a discórdia.

Muitas mulheres nos dias de hoje, por incrível que pareça, podem achar um bom conselho as recomendações de Luciana para o marido de Adriana, Antífolo. Mas não é bem isso o que a principal interessada Adriana espera de seu esposo e do lugar da mulher no casamento, como podemos perceber neste diálogo:

Adriana – Meu marido ainda não voltou? E nem o escravo que com tanta pressa mandei que buscasse seu amo? Veja, Luciana, são duas horas.

Luciana – Talvez algum mercador tenha lhe feito um convite, e do mercado ele foi direto para um almoço em outro lugar. Minha boa irmã, vamos almoçar, e deixe de se queixar. Os homens são donos de sua liberdade. O tempo é mestre deles, e, quando têm tempo, eles podem ir e vir. Sendo assim, seja paciente, minha irmã.

Adriana – Por que deveria ser a liberdade deles superior à nossa?

Luciana – Porque a ocupação deles é fora de casa.

Adriana – Ele não gosta quando eu o trato do jeito que ele me trata.

Luciana – Saiba que ele segura as rédeas das tuas vontades.

Adriana – Só os jumentos é que se deixam levar por rédeas desse tipo.

Luciana – Ora, uma liberdade voluntariosa será chicoteada pelo desgosto. Nada existe sob a luz do firmamento que não esteja ligado à terra, ao mar, ao ar, e por eles limitado. Sejam bestas, peixes ou pássaros, as criaturas fêmeas servem aos machos, e estes as comandam. O homem, a mais divina das criaturas, o mestre de todos, senhor deste vasto mundo e das águas salgadas e selvagens, dotado de alma e de faculdades intelectuais, de maior proeminência que peixes e pássaros, ele é o amo e senhor de sua fêmea. Deixe, então, que as tuas vontades sigam o consentimento de teu esposo.

Adriana – Essa servitude é o que te impede de casar.

Luciana – Não, não isso, mas sim as incomodações do leito conjugal.

Adriana – Fosse você casada e teria voz ativa.

Luciana – Antes de aprender a amar, eu me exercitarei em obedecer.

Adriana – E se teu marido quiser pular a cerca?

Luciana – Enquanto ele estiver longe de casa, eu fico esperando.

Adriana – Paciente e impassível! Não é de admirar que ela tire tempo para reflexões; podem ser submissas, sim, as criaturas que não têm outra motivação. Já uma alma infeliz, machucada pela adversidade, a esta nós pedimos que se acalme, sempre que a ouvimos chorar. E, no entanto, estivéssemos nós oprimidos pelo peso de uma dor semelhante, estaríamos nos queixando também, e talvez mais ainda. Tu, que não tens parceiro indelicado que te deixe aborrecida, é exigindo de mim uma paciência inútil que me queres consolar. Mas, se tu viveres para ver-te destituída de teus direitos de esposa, vais deixar de lado essa paciência boba de lunática.

Enfim, num mundo como o nosso, que parece andar para trás, de terra plana a mulheres que se orgulham em serem donas de casa submissas a um marido infiel, Shakespeare ainda tem muito a ensinar.

Que este 8 de março Shakespeare sirva de inspiração para que as mulheres optem por ser como Adriana e que tenham voz ativa ante a sociedade e as questões de gênero.

SHAKESPEARE, William, “Comédia de erros”, tradução de Beatriz Viégas-Faria – Porto Alegre: L&PM, 2004.

SHAKESPEARE, William, “Otelo”, tradução de Beatriz Viégas-Faria – Porto Alegre: L&PM, 2002.