segunda-feira, 15 de março de 2021

Jackie Wilson - Pioneiros do Rock'n'Roll

Jack Leroy “Jackie” Wilson Jr. nasceu em 9 de junho de 1934, em Detroit, Michigan. Notabilizou-se por sua voz de tenor e presença de palco marcante, pelo qual recebeu o apelido de “Mr. Excitement”.

Jackie Wilson

Wilson iniciou sua carreira cantando música gospel. Durante a sua adolescente também se destacou como lutador de boxe, mas a pedido de sua mãe, parou de lutar e optou pela música.

Em 1953, Wilson substituiu o vocalista da banda Billy Ward and the Dominoes. Partiu para a carreira solo em 1957, dando início a uma trilha de sucesso com mais de 50 canções que incluem vários estilos, como R&B, pop, soul, doo-wop e easy listening.

Já no ano de 1958, ele conquistou as paradas de música pop com a canção “To Be Loved”. Em dezembro, lançou um grande sucesso do R&B, “Lonely Teardrops”. Outros sucessos seguiram, como a operística “Night” (1960), inspirada na ária de “Samson e Delilah”, de Camille Saint-Saens; “Baby Workout” (1963); e seu último grande sucesso, “(Your Love Keeps Lifting Me) Higher and Higher” (1967).

Wilson abriu caminho para uma geração de artistas afro-americanos. Teve um papel importante na transição do rhythm and blues e soul para a música pop, sendo um dos intérpretes mais dinâmicos da história do R&B e do rock’n’roll.

Entrou para o Grammy Hall of Fame e para o Rock’n’Roll Hall of Fame, em 1987. Em 2004, a revista Rolling Stone classificou Jackie Wilson na posição 68º de sua lista dos 100 maiores artistas de todos os tempos.

segunda-feira, 1 de março de 2021

Lógica e teoria do conhecimento em Aristóteles

Começamos a exposição do sistema aristotélico com a sua lógica. Foi ele quem constituiu a lógica como ciência particular. Os seus escritos lógicos costumam ser designados pelo nome de “Organon” (isto é, “instrumento” para conseguir o conhecimento certo da verdade).

Aristóteles

No “Organon” se contém, em primeiro lugar, a sua doutrina das categorias. As categorias são os predicados mais gerais que podem ser atribuídos às coisas, quer dizer, as afirmações mais gerais possíveis acerca delas, e que como tais são também as determinações mais gerais (formas) do ser. Aristóteles enumera as seguintes categorias:

1ª Substância (por exemplo: homem, cavalo).

2ª Quantidade (quer dizer, a que responde à pergunta: que dimensões?).

3ª Qualidade (quer dizer, como está constituída? Por exemplo: vermelho).

4ª Relação (a que se refere? Por exemplo: maior do que este).

5ª Lugar (onde? Por exemplo: no mercado).

6ª Tempo (quando? Por exemplo: ontem).

7ª Ação (por exemplo: ele corta).

8ª Paixão (por exemplo: é cortado).

A estas se acrescentam, às vezes, duas outras categorias de caráter mais especial:

9ª Posição (por exemplo: está deitado, sentado).

10ª Estado (por exemplo: está armado).

Kant objetou, com razão, que esta tábua de categorias não está sistematicamente deduzida. Não obstante, graças ao seu pequeno escrito sobre as categorias, Aristóteles situou um problema lógico fundamental, e realizou uma tentativa valiosa para resolvê-lo.

Para Aristóteles, todo o conhecimento consiste na junção de conceitos para formar juízos, e depois na combinação de juízos para formar silogismos e demonstrações. Os juízos são para ele “verdadeiros” se corresponderem as relações reais; “falsos” se esse não for o caso. Por consequência, no juízo verdadeiro representamos como unido o que na realidade está unido, e como separado o que na realidade se encontra separado. Tratou como particular com mais vagar a doutrina do silogismo e a demonstração na sua “Analítica” (quer dizer, “decomposição” do pensamento). Expondo o mais completamente possível as diversas espécies de silogismos, que ainda hoje se encontram nos manuais tradicionais de lógica, julgou fornecer um instrumento importante (Organon) para a investigação em geral. Mas, de fato, nem ele próprio faz uso nas suas numerosas obras de organon, nem fui tão pouco muito frutífera esta enumeração das formas do silogismo para o posterior desenvolvimento do pensamento científico. Mais importante é a sua doutrina dos sofismas, que desenvolve no escrito “Refutações Sofisticas”. Ali encontramos valiosas contribuições para distinguir o verdadeiro pensamento do falso, e descobrir sofismas, generalizações infundadas, inversões inadmissíveis de silogismos verdadeiros, etc. Na sua "Tópica" (ao pé da letra: Doutrina dos “lugares” onde se encontra o que se pode dizer das coisas, quer dizer: doutrina dos “pontos de vista” da maneira de tratar as coisas) oferece Aristóteles instruções para a arte da discussão tão espalhada então nas escolas filosóficas. Não desdenha nesta obra nenhuma forma de conter, enganar e contradizer o adversário.

Para ele, o supremo princípio da prova, isto é, o princípio que nem pode ser demonstrado nem de tal carece, é o de contradição. Formula-o deste modo: “É impossível que a mesma coisa corresponda e não corresponda ao mesmo na mesma relação simultaneamente” (ou, em menos palavras: é impossível que algo seja e não seja ao mesmo tempo). Com isto se afirmava que proposições como, por exemplo, a de Heráclito – “somos e não somos” - não podem ser verdadeiras.

Como imediata como sequência deste axioma supremo (cuja evidência se compreende sem mais nada), vinha um segundo axioma, o de que “uma qualquer coisa, ou deve ser afirmada, ou negado” (isto é, o princípio de terceiro excluído). Ambos os axiomas se resume neste princípio: “de duas afirmações (diretamente) opostas, só uma pode ser verdadeira, ou então uma tem que ser verdadeira e a outra falsa”. Mencionaremos igualmente o chamado princípio de identidade (“dizer que o que é e o que não é, é verdade”). Deste modo formulou conceitualmente Aristóteles as leis formais supremas da validade objetiva dos juízos, isto é, trouxe até à consciência clara normas de pensamento a que habitualmente os homens obedecem por instinto.

Na sua teoria do conhecimento, Aristóteles inclina-se para o empirismo, para a valorização da “experiência”, o que define como observação repetida e hábito adquirido graças a ela. Considera acima de tudo importante que os fatos sejam fixados por percepção e observação; mostra-se cauteloso perante a reflexão conceitual (a especulação, o raciocínio); pode se confiar nela quando os seus resultados forem confirmados pela observação. Não obstante, continua a crer (como Platão) que só possui “saber” real, isto é, conhecimento, aquele que vai do individual ao geral, e sabe aplicar depois o geral para ajuizar e manejar o singular (o qual é a obra da “arte”, isto é, do poder).

Sem dúvida, o próprio Aristóteles deu muita imperfeita realização a estas suas opiniões teóricas. Nas suas obras, ao lado de observações sutis, se encontra outras totalmente exatas e deficientes, que não podem encontrar desculpa, nem sequer na imperfeição dos antigos meios de observação; por exemplo, de que o número de dentes do homem é superior ao da mulher; que os corvos, pardais e andorinhas ficam brancos com o frio; que a procriação da perdiz se realiza graças a um hálito procedente do macho. Nestes casos, Aristóteles aceitou, sem dúvida, crenças populares, sem as submeter à crítica. Ainda de acordo com a opinião popular, prescindiu da distinção entre qualidades “primárias” e qualidades “secundárias”, já realizada por Demócrito.

Além disso, em Aristóteles a especulação supera de muito a observação. O seu espírito inventivo não se assustava nunca perante hipóteses mais ou menos arbitrárias. E como se esforçava ao mesmo tempo por estar de acordo, tanto quanto possível, com as crenças populares, não raras vezes defende opiniões que já tinham sido denunciados como preconceitos por filósofos anteriores. Encontraremos exemplos disso, sobretudo, na sua teoria da natureza.

(August MESSER, “História da Filosofia”, Editorial Inquérito: Lisboa, 1946 - obra em domínio público).

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Pablo Neruda e impressões do Brasil

Pablo Neruda, pseudônimo do poeta chileno Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, em homenagem ao compositor de música clássica, do século XVIII, Johann Baptist Georg Neruda, de nacionalidade tcheca. Além da poesia, Pablo Neruda se notabilizou pela militância comunista. Em 1971, foi laureado com o prêmio Nobel de Literatura. Entre suas principais obras, destacam-se: Crepusculário (1919), de inspiração romântica e linguagem tradicional; Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada (1924), caracterizado pelo hermetismo linguístico; Tentativa do homem infinito (1925), versos surrealista; Terceira Residência (1947), poesia engajada enfatizando a problemática social; e Canto Geral (1950), poema épico composto de 15 cantos que traz a temática do trabalhador e o fim das ditaduras.

Pablo Neruda e Salvador Allende
Salvador Allende e Pablo Neruda

NO BRASIL

No Rio visitei Burle Marx, o Conquistador da flora, Libertador de jardins, Herói Verde do Brasil, que com Niemeyer e Lúcio Costa formam a trilogia procriadora das cidades radiantes. Passeia-me sob folhas imensas, mostra-me raízes espinhosas que defendem sob a terra, troncos com pruridos, quermelias marmoratas, ilairinas misteriosas e especialmente o tesouro de suas bromélias, reconhecidas do Brasil profundo ou investigadas em Samatra. São quilométricas de esplendor nos quais florescem o escarlate, o amarelo, o violeta até voltarmos a casa com uma ninféa puríssima que vibra como um relâmpago azul nas mãos de Matilde.

Mas Jorge Amado chama-me de Salvador e voamos ao mercado da Bahia, para comer vatapá e beber cerveja na cidade encaracolada da magia. Como o fiz no Rio, torno a ler meus versos ao público aberto, moços e moças, e gravar centenas de autógrafos que me oprimem.

Percorro com Jorge os retorcidos entrepechos de Salvador, sob a luz perfurante. Subimos ao avião saturados de cítrico aroma da Bahia, da emancipação marinha, do fervor estudantil. Deixemos em baixo, na laje do aeroporto, os Amado: robusto, Jorge, sempre do Célia, Paloma e João: minha família no Brasil.

Ao ar! Ao amplíssimo celeste! Da altura: a cidade branca, a cidade Vênus: BRASÍLIA!

O deputado Márcio me abre todas as portas. Mas Brasília não tem portas: é espaço claro, extensão mental, claridade construída. Os setores comuns pululam de crianças, seus palácios dão dignidade inédita às instituições. O arquiteto Ítalo, companheiro de Niemeyer, já tem dez anos de Brasília e nos assinala o novo Itamaraty, o Congresso, o Teatro inconcluso, a Catedral, rosa férrea que abre na altura grandes pétalas para o infinito.

Brasília, isolada em seu milagre humano, em meio do espaço brasileiro, é como uma imposição da suprema vontade criadora do homem. Daqui nos sentiremos dignos de voar aos planetas. Niemeyer é o ponto final de uma parábola que começa em Leonardo: a utilidade do pensamento construtivo: a criação como dever social: a satisfação espacial da inteligência.

DIÁRIO DE VIAGEM 

De Ipanema, com azul oceano, ilhas e penínsulas, montes corcovados, trepidação circulatória, Vinícius de Moraes me leva a Belo Horizonte (imensa Antofagasta da meseta), em seguida a Ouro Preto, colonial e calcárea, com o ar mais transparente da América do Sul e uma basílica em cada um de seus dez cerros que se elevam como os dedos das mãos na reconcentrada mansuetude. Aqui vive Elisabeth Bishop, grande poetisa norte-americana que conheci há anos no alto de uma pirâmide de Chichén Itzá. Como não estava no Brasil, escrevi-lhe um pequeno poema em inglês, um poema com erros, como deve ser.

O libertador de escravos e independentista Tiradentes olha as igrejas de uma altíssima coluna, no centro da praça onde foi esquartejado. Tiradentes – Sacamuelas, porque era dentista – encabeçou uma revolução derrotada no coração clerical e escravista da monarquia. Agora o deixaram, pequeníssimo, numa coluna ridícula, encarapitado na glória, em lugar de o colocarem em meio à gente branca e negra que passeia na praça de Ouro Preto.

Mas em Congonhas, aonde chegamos para ver as estátuas de Aleijadinho, encontramo-nos de repente dentro de uma romaria com esses cânticos que, com voz de bronze, um sacerdote dirige do templo, e crianças, mulheres, vendedores de rua, a multidão, enfim, cantando ou comendo fritada, os pequenos sentados sobre os profetas de pedra de nosso Miguel Ângelo americano.

Cortando a pobreza, como se corta um queijo, aproximamos, e Matilde me fotografa com Isaias, com Daniel, com Ezequiel, e não me sinto mal ao lado de cada um, só que eles foram melhores poetas que eu e se mostram agora, em seus retratos de pedra, poderosos ou pensativos, iracundos ou adormecidos. Jonas tem um pequeno peixe, do qual apenas divisamos a cauda entre cabecinhas negras e brancas dos romeiros da romaria. Aproximo-me para ver se é uma sereia (que beleza seria ver um profeta na rede de uma filha do mar), mas não. Trata-se apenas de uma baleia, de sua baleia, que o Aleijadinho lhe pôs sorridente junto da cintura para que não a deixe esquecida nos vagões ferroviários do céu.

Mais tarde, através da tarde, cruzamos selvas, grandes rios, caminhos subitamente atravessado por uma borboleta Marpho, dando-nos uma calafrio azul, e árvores junto à estrada, cobertos de fogo escarlate, de frutas pendentes dos ramos como melancias aéreas, de montículos de formigas térmitas, as que inventaram os arranha-céus, e mais tarde, à noite, fatigados de tanto esplendor, a dormir em Petrópolis, na cidade arejada do Brasil, onde Gabriela Mistral viveu talvez as horas mais felizes e as mais desditadas de sua existência. Boa noite, Gabriela.

COLÔMBIA ESMERALDINA

Do restaurante de 46º. andar, em São Paulo – onde o almoço transcorria quase entre as nuvens –, aviões a jato ou mosquitos de quatro asas me sacudiram, levantaram e depositaram em Manizales.

Faz vinte e cinco anos que visitei a Colômbia.

Reconheço do alto sua linhagem cordilheirana, o entrecruzamento de montanhas e rios, vales e vapores: uma geografia de esmeraldas molhadas que sobem e baixam do céu.

Devo presidir um Júri de Teatro Universitário Latino-americano.

O aviãozinho baixa numa pista de quatro metros de largura, entre dois abismos: o fio de uma navalha andina.

Manizales estava irreconhecível, moderna, crescida, limpa como nenhuma outra cidade.

Submergi no cenário cotidiano com teatro novo todos os dias do Peru, Brasil, Venezuela, argentina, equador, Colômbia. Teatro lírico ou chocarreiro, experimental ou satânico, popular ou intelectualizante. Em todo caso, vivo e vital, trabalhado e meritório. Passei uma semana no interior da Sala escura, vivendo com estranhos personagens, arlequins e andrajosos, esquizofrênicos e papis executivos.

A mim me agradou mais de que tudo uma peça brasileira tirada dos teatros de marionetes populares que percorrem o Brasil.

Os atores revivem em três atos os movimentos simplórios e a vampiresa, o negrinho sábio, o afazendado apaixonado, chegam até o céu suspensos de cordas inexistentes. Frescor e raízes de povo se reúnem nesta unidade teatral que mereceu o prêmio por unanimidade.

(Assim que regressei a Bogotá, uma conspiração palaciana deu a “Máscara de Ouro” a uma obra norte-americana, vomitivamente obsceno).

Minha vida em Manizalas prosseguia, de dia, pelas ruas, o teatro à noite: perseguido por muitíssimos caçadores de autógrafos entrei numa barbearia local para cortar o cabelo, e ali estive rodeado por cinquenta espectadores assinando livros e papeizinhos enquanto  o paciente cabeleireiro afastava cabeças para trabalhar com as tesouras.

De volta a Bogotá, a poesia principal da Colômbia, os Rojas, Zalameas, Carranzas, De Greif, Camachos e Castro-Saavedras, montam guarda a fim de impedir a curiosidade e os álbuns.

Renuncio a prosseguir para o México, com o amor que lhe tenho e o muito que ali me espera. Corre, porém, o sangue estudantil e para mim a Tocha Olímpica se apaga. 

Por esses mesmos dias morre crivado nas montanhas colombianas um guerrilheiro solitário: chama-se Ciro. Para a biografia policial é um bandido. Para muitos, um herói. Um batalhão o encurralou e o rapaz morreu disparando. Grande tristeza entre a emoção da amizade e da claridade poética da Colômbia.

Quando me recuso a ser condecorado pelo senhor Lleras Restrepo, não faltam os que se dão por ofendidos.

Respondo: nada me separará do coração verde da Colômbia. Uma medalha mais ou uma medalha menos significa. Minha poesia continuará e celebrar-te, Esmeralda.

Em seguida, o Museu do Ouro Pré-colombiano, com suas máscaras, caracóis, borboletas, rãzinhas refulgentes. Nossa América enterrada vive aqui acusando os seus cristãos crucificadores. E sua milagrosa ourivesaria não tem voz: é um calado relâmpago de ouro. Oxalá houvesse, à saída do Museu uma grande tigela de ouro para deixar as lágrimas.

Amanhã voaremos para a Venezuela.

(Trecho extraído de “Para nascer nasci”, de Pablo Neruda).

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Feliz 2021 com Olavo Bilac: O cometa

Esse ano que passou provavelmente não deverá deixar muitas saudades a ninguém. Há um ano, quando as primeiras informações sobre um novo vírus identificado na cidade de Wuhan, com potencialidade para provocar uma pandemia global, passaram a ser veiculadas pelos principais noticiários, ninguém podia imaginar que, um ano depois, estaríamos comemorando o ano novo confinados em nossas casas e confraternizando com os nossos familiares através de videochamada. Afinal, em pleno século XXI, com os avanços sem precedentes da técnica e tecnologia, um cenário sombrio de grandes epidemias parecia ter ficado no passado. Aquilo que parecia improvável tornou-se uma triste realidade e o mundo agradecido aplaudiu os esforços incansáveis dos heróis que tanto salvaram vidas: os profissionais de saúde. Mas, apesar de contabilizarmos tantas tristezas, temos motivos para começar este ano com esperança. As vacinas foram desenvolvidas com uma rapidez inaudita e, muito em breve, a vida voltará ao normal.

Para abrir o ano de 2021, transcrevemos o soneto O cometa, do grande poeta brasileiro Olavo Bilac.

Feliz Ano Novo!!!

Dos editores do blog Verso, Prosa & Rock’n’Roll

O cometa 

Um cometa passava... Em luz, na penedia,

Na erva, no inseto, em tudo uma alma rebrilhava;

Entregava-se ao sol a terra, como escrava;

Ferviam sangue e seiva. E o cometa fugia...


Assolavam a terra o terremoto, a lava,

A água, o ciclone, a guerra, a fome, a epidemia;

Mas renascia o amor, o orgulho revivia,

Passavam religiões... E o cometa passava.

 

E fugia, riçando a ígnea cauda flava...

Fenecia uma raça; a solidão bravia

Povoava-se outra vez. E o cometa voltava...

 

Escoava-se o tropel das eras, dia a dia:

E tudo, desde a pedra ao homem, proclamava

A sua eternidade! E o cometa sorria...


BILAC, Olavo. Tarde. In: Antologia: Poesias. São Paulo: Martin Claret, 2002. (Coleção a obra-prima de cada autor).

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Guimarães Rosa: a invenção da linguagem, por Alfredo Bosi

João Guimarães Rosa nasceu no ano de 1908, em Cordisburgo, zona pastoril centro-norte de Minas Gerais. Formado em medicina, exerceu a profissão em Itaúna e Barbacena. Poliglota, aprendeu sozinho alemão, russo, francês, inglês, húngaro, grego, latim, italiano e espanhol. Em 1934, ingressou na carreira diplomática, servindo em Hamburgo, Lisboa, Bogotá e Paris.

Como escritor, publicou sua obra máxima Grande Sertões: Vereda – um clássico da literatura brasileira. Frequentemente, Guimarães Rosa é comparado ao escrito irlandês James Joyce pelo experimentalismo que ambos realizaram na linguagem. De fato, característica marcante da obra de Guimarães Rosa é a linguagem que recria e transfigura o linguajar popular através de metáforas poéticas próprias. Embora sua obra literária não possa ser classificada como simplesmente regionalista, o “regionalismo” de Guimarães Rosa, povoado por personagens do sertão, como jagunços, peões, vaqueiros, coronéis, beatas, prostitutas etc., assume aspectos universais, transitando dialeticamente entre o local e o global, o real e o mágico, o concreto e o abstrato, o finito e o infinito etc. Polêmicas à parte, talvez a melhor definição da obra de Guimarães Rosa é a metáfora do crocodilo e do rio São Francisco escrita pelo próprio Guimarães Rosa:

“(...) Gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. O crocodilo vem ao mundo como um “magister” da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar de sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sentimento dos homens. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade”.

Obras:

Sagarana (1946) – contos;

Corpo de Baile (1956 - 1964) – novelas: Manuelzão e Miguilim (“Campo Geral” e “Uma Estória de Amor”); No Urubuquaquá, no Pinhém (“O recado do Morro”, “Cara de Bronze” e “Lélio e Lina”); Noites do Sertão (“Lão-Dalalã” e “Buriti”).

Grande Sertão: Veredas, 1956 – romance.

Primeiras Estórias, 1962 – contos;

Tutameia – Terceiras Estórias 1967 – contos;

Estas estórias, 1969 – contos;

Ave, Palavra, 1970 – contos.

 

A invenção da linguagem em Guimarães Rosa

Por Alfredo Bosi

(em: História Concisa da Literatura Brasileira)

A obra de Guimarães Rosa implica uma alteração profunda no modo de encarar a palavra, tomada como um feixe de significações. Além do referente semântico, signo estético é portador de sons e de formas que desvendam, fenomenicamente, as relações íntimas entre significado e o significante.

Voltada para as forças virtuais da linguagem, a escritura de Guimarães Rosa procede abolindo intencionalmente as barreiras entre narrativa e lírica, revitalizando recursos da expressão poética: células rítmicas, aliterações, onomatopeias, rimas internas, ousadias mórficas, elipses, cortes e deslocamentos sintáticos, vocabulário insólito, arcaico ou de todo neológico, associações raras, metáforas, anáforas, metonímias, fusão de estilos, coralidade.

Suas experiências semânticas e invenções fundamentam-se no inventário dos processos da língua. Imerso na musicalidade da fala sertaneja, ele procurou, em Sagarana, fixá-la na melopeia de um fraseio no qual soam cadências populares e medievais.

“As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos de guampas, estrondos de baques, e o berro queixoso do gado Junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão...

Um boi preto, um boi pintado,

cada um tem sua cor.

Cada coração um jeito

de mostrar o seu amor.

Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando... Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito... Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando...”

Vale observar a riqueza e a ousadia de algumas reinvenções de Guimarães Rosa, em palavras como “essezinho”, “essezim”, “salsim”,” satanazim”, “semblar”, “fiúme”, “agarrante”, “levantante”, “maravilhal”, “fluifim” (adj.),” gaviãoão”, “ossoso”,” vivoso”, “brisbrisa”, “cavalanços”, “refrio”, “retrovão”, “remedir”, “deslei”, “desfalar”, “acismorro”, “de pouquinho em pouquim”, “o ferrabrir dos olhos”, “abrumalva”, “alemão-rana”; ou em frases e períodos como “a bala beija-florou”; “os passarinhos que bem-me-viam”; “os cavalos aiando gritos”; “recebe o encharcar dos brejos, verde a verde, veredas...”; “ao que nós acampapados em pé duns brejos, brejal, cabo de várzeas; me revejo de tudo, daquele dia a dia; aí a gente se curvar, suespendia uma folhagem, lá entrava; resumo que nós dois, sob num tempo, demos para trás, discordas”; “e aí se deu o que se deu – isto é”; “eu era um homem restante trivial”; “aí, de, já searapuava o Gorgulho mestre na desconfiança...”

O mitopoético foi a solução romanesca de Guimarães Rosa, situando sua obra na vanguarda da narrativa contemporânea que se tem abeirado dos limites entre o real e o surreal, explorando as dimensões pré-conscientes do ser humano e nutrindo-se de velhas tradiçõe, as mesmas que davam à gesta dos cavaleiros feudais a aura do convívio entre o sagrado e o demoníaco.

A saída proposta por Guimarães Rosa para esconjurar o pitoresco e o exótico do regionalismo deu-se com a entrega amorosa à paisagem e ao mito, reencontrados na materialidade da linguagem. A saída de Guimarães Rosa não é a única para o escritor brasileiro hoje, mas é que nos fascinará por mais tempo e com mais razões.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Islamismo - Série Religiões

Maomé nasceu em Meca, no ano de 570 d.C., filho de um mercador pertencente a uma nobre família haxemita, da tribo coraixita. O clã de Maomé guardava a Kaaba, um lugar santo, onde se venerava a “pedra negra” (um meteorito), e que era o destino das peregrinações das tribos árabes.

Kaaba

Maomé foi pastor e guia de caravanas, o que o fez viajar muito e entrar em contato com o Judaísmo e o Cristianismo. Durante esse período, Maomé sofria de depressão por causa do enorme desgosto que sentia com os cultos pagãos praticados por seus conterrâneos.

Aos 40 anos de idade, segundo a tradição, estava prestes a suicidar-se quando teve uma visão do Arcanjo Gabriel, que lhe disse: “Ó Maomé, tu és o enviado de Deus”. Maomé proclamou-se mensageiro divino e conclamou a todos a aceitarem Alá como o único Deus. Passou então a pregar contra os ídolos de Meca. Suas primeiras conversões foram sua mulher Khadijah e sua filha Fátima, o marido e o primo desta. Depois foi ganhando mais adeptos, principalmente, entre os pobres e escravos.

À medida que sua influência crescia, maior era a resistência por parte dos poderosos que temiam que ele pudesse assumir o controle político da cidade. Seus discípulos foram perseguidos enquanto se tramava o assassinato de Maomé.

Em 622, Maomé foge para Yathrib, onde foi acolhido com todas as honras. Maomé muda o nome da cidade para Medina (“cidade do Profeta”). A fuga para Medina é conhecida como Hégira (“partida”) e marca o início do calendário muçulmano. Em Medina, Maomé uniu os clãs e as tribos numa única comunidade baseada no Islã. Maomé tornou-se então chefe político, autoridade religiosa e diplomata.

A crença em Alá existia antes de Maomé, mas estava misturada com outros cultos idólatras. Na antiguidade, para protegerem seus interesses, os reis não admitiam seitas religiosas que não comungassem a religião do Estado. Estes reis passavam então a perseguir religiosos que não praticavam a religião oficial. Evidentemente, a religião fundada por Maomé contrariava os grandes potentados locais que se voltariam contra ele.

Maomé então amplia rapidamente seu território pela conquista e conversão, iniciando a “guerra santa” que assinala a expansão do islamismo. Em 630, após um longo período de luta contra Meca, Maomé conquista a cidade com pouco derramamento de sangue e purifica a Kaaba, eliminando todos os ídolos e deixando ficar apenas a pedra negra, consagrando-a ao culto de Alá. Meca se transforma na capital política e religiosa do islamismo.

A raiz da palavra Islã é “Silm”, que significa “paz”. A palavra remete ao árabe “Salam”, que também significa “paz”. Um dos nomes de Alá, ou Allah, de acordo com o Corão, é As-Salam, ou seja, “paz/pacificador”. Portanto, Islã tem origem no termo “Islam”, que é “submissão” (à vontade de Deus, o pacificador); muçulmano deriva da própria raiz da palavra e significa “aquele que se submete”.

Islamismo é a religião que se pretende ligar diretamente ao monoteísmo do Patriarca Abraão. Por isso, o Islamismo tem pontos de contato com o Antigo Testamento e também com os Evangelhos. Para o Islamismo, Maomé é o último dos Profetas.

Os muçulmanos consideram-se irmãos pela religião e não pela nacionalidade ou raça. Deus está presente em tudo e tudo depende de Deus.

As verdades fundamentais dos muçulmanos são:

Monoteísmo puro: assim como os judeus, para os muçulmanos a Santíssima Trindade dos cristãos apresenta laivos de politeísmo. Quando os mouros invadiram a península ibérica, os judeus os saldaram como heróis, pois, ao menos, acreditavam na unicidade de Deus. Além disso, os reis visigodos, recém-convertidos ao cristianismo, impunham a conversão forçada dos judeus. Segundo Max Weber, pelo fato do islamismo ser uma religião de guerreiros, originou uma elite aristocrática de dominadores que raras as vezes praticaram proselitismo ou obrigaram à conversão. Normalmente, a tolerância religiosa caracterizou a sociedade andaluza, mas também todo o mundo muçulmano.

Juízo Universal: um prêmio ou um castigo no fogo abrasador (inferno).

Paraíso: jardins com fontes, rios de vinhos e virgens belíssimas, as “Huris grandes olhos negros”, sempre jovens e virgens, ao serviço dos bem-aventurados.

Obrigações – os cinco pilares do islamismo:

1. Reconhecer a unidade de Deus e a missão do Profeta, segundo a profissão de fé “La ilaha illa Allah, ya Muhammad rasul Allah” (não há outra divindade senão Deus e Maomé é seu profeta).

2. Oração, feita cinco vezes por dia, voltando-se para Meca.

3. Caridade – dar esmola aos pobres.

4. O jejum do Ramadan, que dura um mês. Durante o dia não se pode beber nem água. À noite, pelo contrário, pode-se comer. “Durante esse tempo - diz Maomé - as portas do paraíso estão abertas, as do inferno fechadas, o demônio encadeado”.

5. Peregrinação a Meca. Todo bom muçulmano deveria ir à Meca pelo menos uma vez na vida.

O Corão ou Alcorão é o livro sagrado dos muçulmanos que contém a doutrina e os ensinamentos de Maomé.

O Corão impõe muitas outras obrigações, como não comer carne de porco, não tomar bebidas alcoólicas, não jogar. Proíbe também as imagens e estátuas e determina as normas para o divórcio.

O Corão menciona 25 profetas:

Adam (Adão); Idris (Enoque); Nuh (Noé); Hud (Éber); Salih (Selá); Lut (Ló); Ibrahim (Abraão); Ismail (Ismael); Ishaq (Isaque); Yaqub (Jacó); Yusuf (José); Shu’aib (Jetro); Ayyub (Jó); Dhulkifl (Ezequiel); Musa (Moisés); Harun (Arão); Dawud (Davi); Sulayman (Salomão); Ilias (Elias); Alyasa (Eliseu); Yunus (Jonas); Zakariya (Zacarias); Yahya (João Batista); Isa (Jesus); e Muhammad (Maomé).

A missão de todos os profetas, de Adão (Adão) a Isa (Jesus), era uma só: o estabelecimento do monoteísmo no mundo.

Muitas das passagens do Corão são inspiradas na paz e na bondade. A sociedade ideal é Dar As-Salam, isto é, “A casa da paz”.

Para os muçulmanos, o dia festivo é a sexta-feira.

Muezin é o arauto que do alto do minarete convida em voz alta os fiéis à oração.

Mesquita é o lugar sagrado para os muçulmanos.


domingo, 15 de novembro de 2020

Jerry Lee Lewis - Pioneiros do Rock'n'Roll

Jerry Lee Lewis nasceu em 29 de setembro de 1935, numa pequena fazenda de Ferriday, Louisiana. Roqueiro branco por excelência, a surgir imediatamente depois de Elvis Presley, Jerry possuía em comum com rei do rock as mesmas raízes musicais, como o gospel, rockabilly, pop, country e R&B.

Jerry Lee Lewis foto recente

Jerry Lee Lewis aprendeu sozinho a tocar piano e, aos 9 anos de idade, começou a imitar o gênero musical de pregadores religiosos e músicos de blues que passavam em turnê por sua cidade. Seus pais reconheceram seu grande talento e decidiram hipotecar a fazenda para comprar um piano para o menino. Assim, Jerry desenvolveu um estilo eletrizante de tocar piano, tendo por inspiração a tradição da música branca e negra.

Mais tarde, foi para Memphis, Tennessee, onde trabalhou como músico. Em 1956, gravou seu primeiro single, um cover de Crazy Arms, de Ray Price. Logo depois, Jerry conheceu Carl Perkins e juntos chegaram a tocar com Elvis Presley e Johnny Cash.

Foi lançado ao estrelato em 1957, quando gravou Whole lotta shakin´goin´on, seu primeiro disco de ouro. Nessa época, Jerry criou algumas de suas performances extravagantes que o tornariam célebre, como tocar em pé, chutar o banquinho e até mesmo atear fogo no piano. Foi nessa época que a imprensa passou a tratá-lo por seu apelido de infância, The Killer. No mesmo ano lançou Great balls of fire, uma das músicas temas do filme Jamboree. Em março do ano seguinte, Jerry emplacou Breathless no top 10 das paradas musicais. Outros grandes sucessos foram High school confidenitial, em 1958, e Young and deadly, em 1960.

Mas a sua carreira não foi marcada apenas por glórias, Jerry bateu de frente com o que ainda havia de animosidade contra o rock and roll. Enquanto suas músicas o consagravam como um dos maiores astros do rock’n’roll de todos os tempos, sua vida privada o levava à desgraça, sendo marcada por casamentos complicados e abuso de drogas e álcool.

Quando Jerry contraiu matrimônio com uma prima chamada Myra Gale Brown, que tinha só catorze anos, a imprensa sensacionalista não perdeu a oportunidade de envenenar a opinião pública, pois o rock’n’roll ainda era visto como um tipo de música selvagem, de mau gosto e inadequado à moral e aos bons costumes. Em turnê realizada na Inglaterra, os jornais escandalizados acusaram-no “de ter casado com sua própria prima de 13 anos”. Ao regressar aos EUA, seus discos deixaram de tocar e seu nome caiu no esquecimento durante três anos.

Jerry Lee Lewis entrou para Rock and Roll Hall of Fame em 1986.