Pablo
Neruda, pseudônimo do poeta chileno Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, em
homenagem ao compositor de música clássica, do século XVIII, Johann Baptist
Georg Neruda, de nacionalidade tcheca. Além da poesia, Pablo Neruda se
notabilizou pela militância comunista. Em 1971, foi laureado com o prêmio Nobel
de Literatura. Entre suas principais obras, destacam-se: Crepusculário (1919),
de inspiração romântica e linguagem tradicional; Vinte Poemas de Amor e uma
Canção Desesperada (1924), caracterizado pelo hermetismo linguístico; Tentativa
do homem infinito (1925), versos surrealista; Terceira Residência (1947),
poesia engajada enfatizando a problemática social; e Canto Geral (1950), poema
épico composto de 15 cantos que traz a temática do trabalhador e o fim das
ditaduras.
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| Salvador Allende e Pablo Neruda |
NO
BRASIL
No
Rio visitei Burle Marx, o Conquistador da flora, Libertador de jardins, Herói
Verde do Brasil, que com Niemeyer e Lúcio Costa formam a trilogia procriadora
das cidades radiantes. Passeia-me sob folhas imensas, mostra-me raízes
espinhosas que defendem sob a terra, troncos com pruridos, quermelias
marmoratas, ilairinas misteriosas e especialmente o tesouro de suas bromélias,
reconhecidas do Brasil profundo ou investigadas em Samatra. São quilométricas
de esplendor nos quais florescem o escarlate, o amarelo, o violeta até
voltarmos a casa com uma ninféa puríssima que vibra como um relâmpago azul nas
mãos de Matilde.
Mas
Jorge Amado chama-me de Salvador e voamos ao mercado da Bahia, para comer
vatapá e beber cerveja na cidade encaracolada da magia. Como o fiz no Rio,
torno a ler meus versos ao público aberto, moços e moças, e gravar centenas de
autógrafos que me oprimem.
Percorro
com Jorge os retorcidos entrepechos de Salvador, sob a luz perfurante. Subimos
ao avião saturados de cítrico aroma da Bahia, da emancipação marinha, do fervor
estudantil. Deixemos em baixo, na laje do aeroporto, os Amado: robusto, Jorge,
sempre do Célia, Paloma e João: minha família no Brasil.
Ao
ar! Ao amplíssimo celeste! Da altura: a cidade branca, a cidade Vênus:
BRASÍLIA!
O
deputado Márcio me abre todas as portas. Mas Brasília não tem portas: é espaço
claro, extensão mental, claridade construída. Os setores comuns pululam de
crianças, seus palácios dão dignidade inédita às instituições. O arquiteto Ítalo,
companheiro de Niemeyer, já tem dez anos de Brasília e nos assinala o novo
Itamaraty, o Congresso, o Teatro inconcluso, a Catedral, rosa férrea que abre
na altura grandes pétalas para o infinito.
Brasília, isolada em seu milagre humano, em
meio do espaço brasileiro, é como uma imposição da suprema vontade criadora do
homem. Daqui nos sentiremos dignos de voar aos planetas. Niemeyer é o ponto
final de uma parábola que começa em Leonardo: a utilidade do pensamento
construtivo: a criação como dever social: a satisfação espacial da
inteligência.
DIÁRIO
DE VIAGEM
De
Ipanema, com azul oceano, ilhas e penínsulas, montes corcovados, trepidação
circulatória, Vinícius de Moraes me leva a Belo Horizonte (imensa Antofagasta
da meseta), em seguida a Ouro Preto, colonial e calcárea, com o ar mais
transparente da América do Sul e uma basílica em cada um de seus dez cerros que
se elevam como os dedos das mãos na reconcentrada mansuetude. Aqui vive
Elisabeth Bishop, grande poetisa norte-americana que conheci há anos no alto de
uma pirâmide de Chichén Itzá. Como não estava no Brasil, escrevi-lhe um pequeno
poema em inglês, um poema com erros, como deve ser.
O
libertador de escravos e independentista Tiradentes olha as igrejas de uma
altíssima coluna, no centro da praça onde foi esquartejado. Tiradentes –
Sacamuelas, porque era dentista – encabeçou uma revolução derrotada no coração
clerical e escravista da monarquia. Agora o deixaram, pequeníssimo, numa coluna
ridícula, encarapitado na glória, em lugar de o colocarem em meio à gente
branca e negra que passeia na praça de Ouro Preto.
Mas
em Congonhas, aonde chegamos para ver as estátuas de Aleijadinho,
encontramo-nos de repente dentro de uma romaria com esses cânticos que, com voz
de bronze, um sacerdote dirige do templo, e crianças, mulheres, vendedores de
rua, a multidão, enfim, cantando ou comendo fritada, os pequenos sentados sobre
os profetas de pedra de nosso Miguel Ângelo americano.
Cortando
a pobreza, como se corta um queijo, aproximamos, e Matilde me fotografa com
Isaias, com Daniel, com Ezequiel, e não me sinto mal ao lado de cada um, só que
eles foram melhores poetas que eu e se mostram agora, em seus retratos de
pedra, poderosos ou pensativos, iracundos ou adormecidos. Jonas tem um pequeno
peixe, do qual apenas divisamos a cauda entre cabecinhas negras e brancas dos
romeiros da romaria. Aproximo-me para ver se é uma sereia (que beleza seria ver
um profeta na rede de uma filha do mar), mas não. Trata-se apenas de uma
baleia, de sua baleia, que o Aleijadinho lhe pôs sorridente junto da cintura
para que não a deixe esquecida nos vagões ferroviários do céu.
Mais
tarde, através da tarde, cruzamos selvas, grandes rios, caminhos subitamente
atravessado por uma borboleta Marpho, dando-nos uma calafrio azul, e árvores
junto à estrada, cobertos de fogo escarlate, de frutas pendentes dos ramos como
melancias aéreas, de montículos de formigas térmitas, as que inventaram os
arranha-céus, e mais tarde, à noite, fatigados de tanto esplendor, a dormir em
Petrópolis, na cidade arejada do Brasil, onde Gabriela Mistral viveu talvez as
horas mais felizes e as mais desditadas de sua existência. Boa noite, Gabriela.
COLÔMBIA
ESMERALDINA
Do
restaurante de 46º. andar, em São Paulo – onde o almoço transcorria quase entre
as nuvens –, aviões a jato ou mosquitos de quatro asas me sacudiram, levantaram
e depositaram em Manizales.
Faz
vinte e cinco anos que visitei a Colômbia.
Reconheço
do alto sua linhagem cordilheirana, o entrecruzamento de montanhas e rios,
vales e vapores: uma geografia de esmeraldas molhadas que sobem e baixam do
céu.
Devo
presidir um Júri de Teatro Universitário Latino-americano.
O aviãozinho baixa numa pista de quatro metros
de largura, entre dois abismos: o fio de uma navalha andina.
Manizales
estava irreconhecível, moderna, crescida, limpa como nenhuma outra cidade.
Submergi
no cenário cotidiano com teatro novo todos os dias do Peru, Brasil, Venezuela,
argentina, equador, Colômbia. Teatro lírico ou chocarreiro, experimental ou
satânico, popular ou intelectualizante. Em todo caso, vivo e vital, trabalhado
e meritório. Passei uma semana no interior da Sala escura, vivendo com
estranhos personagens, arlequins e andrajosos, esquizofrênicos e papis
executivos.
A
mim me agradou mais de que tudo uma peça brasileira tirada dos teatros de
marionetes populares que percorrem o Brasil.
Os
atores revivem em três atos os movimentos simplórios e a vampiresa, o negrinho
sábio, o afazendado apaixonado, chegam até o céu suspensos de cordas
inexistentes. Frescor e raízes de povo se reúnem nesta unidade teatral que
mereceu o prêmio por unanimidade.
(Assim
que regressei a Bogotá, uma conspiração palaciana deu a “Máscara de Ouro” a uma
obra norte-americana, vomitivamente obsceno).
Minha
vida em Manizalas prosseguia, de dia, pelas ruas, o teatro à noite: perseguido
por muitíssimos caçadores de autógrafos entrei numa barbearia local para cortar
o cabelo, e ali estive rodeado por cinquenta espectadores assinando livros e
papeizinhos enquanto o paciente
cabeleireiro afastava cabeças para trabalhar com as tesouras.
De
volta a Bogotá, a poesia principal da Colômbia, os Rojas, Zalameas, Carranzas,
De Greif, Camachos e Castro-Saavedras, montam guarda a fim de impedir a
curiosidade e os álbuns.
Renuncio
a prosseguir para o México, com o amor que lhe tenho e o muito que ali me
espera. Corre, porém, o sangue estudantil e para mim a Tocha Olímpica se apaga.
Por
esses mesmos dias morre crivado nas montanhas colombianas um guerrilheiro
solitário: chama-se Ciro. Para a biografia policial é um bandido. Para muitos,
um herói. Um batalhão o encurralou e o rapaz morreu disparando. Grande tristeza
entre a emoção da amizade e da claridade poética da Colômbia.
Quando
me recuso a ser condecorado pelo senhor Lleras Restrepo, não faltam os que se
dão por ofendidos.
Respondo:
nada me separará do coração verde da Colômbia. Uma medalha mais ou uma medalha
menos significa. Minha poesia continuará e celebrar-te, Esmeralda.
Em
seguida, o Museu do Ouro Pré-colombiano, com suas máscaras, caracóis,
borboletas, rãzinhas refulgentes. Nossa América enterrada vive aqui acusando os
seus cristãos crucificadores. E sua milagrosa ourivesaria não tem voz: é um
calado relâmpago de ouro. Oxalá houvesse, à saída do Museu uma grande tigela de
ouro para deixar as lágrimas.
Amanhã
voaremos para a Venezuela.
(Trecho
extraído de “Para nascer nasci”, de Pablo Neruda).