sexta-feira, 15 de junho de 2018

O FIM DO DIA DOS NAMORADOS - FECALOMA PUNK



A pós-modernidade liquidou o amor. Para que haja amor, é preciso relações constantes e relativamente estáveis. Perante a fragmentação de todas as relações sociais, o amor à primeira vista é, na pós-modernidade, impossível. Ama-se a cada encontro, uma pessoa diferente de cada vez; depois, a separação sem volta. Histórias como Romeu e Julieta são interditadas na pós-modernidade, pois aqui o que importa são as sensações imediatas e voláteis. O amor, ao contrário, é um sentimento duradouro, quase religioso, metafísico. É possível amar para sempre e nunca ser correspondido, mas não na pós-modernidade. No mundo de hoje, as relações são efêmeras e não duram mais que uma noite. É o fim do dia dos namorados.

A canção da banda Fecaloma “Fins de semana de solidão” parece traduzir bem o espírito das relações amorosas na pós-modernidade.

Fins de semana de solidão
Por acaso eu te encontro
Longe de mim
Às vezes, me olha
Fica na sua
E me provoca
Mas nas horas que se vão
Não há tempo pros nossos sonhos
Eu chego junto
E você foge
Desentendida
Me mata de vontade

Porque só temos essa noite
Amanhã te perderei nas multidões

Fins de semana de solidão
Por acaso eu te encontro
Me desespero
Você disfarça
Eu imploro
Você acha graça
E Nas horas que se vão
Não há tempo pros nossos sonhos
Mais um pouco
Não sei se te vejo
Me dê uma chance
Ou te roubo um beijo

sexta-feira, 1 de junho de 2018

SOCIOLOGIA EM HOMERO, POR MAX WEBER



A cultura micênica na metrópole grega pressupunha, pelo menos em Tirinto e Micenas, uma realeza patrimonial baseada em trabalho forçado, de caráter oriental, ainda que de dimensões bem menores. Sem a utilização dos serviços obrigatórios dos súditos, são inimagináveis as grandes construções, sem par até a época clássica. Nas margens do círculo da cultura helênica daquela época, do lado do Oriente, parece até haver existido uma administração que usava um sistema gráfico próprio, no estilo egípcio, para fazer contas e organizar listas, tratando-se, portanto, de uma espécie de administração de armazém de caráter patrimonial-burocrático, enquanto mais tarde, ainda na época clássica, a administração de Atenas realizava-se quase completamente de forma oral, e não escrita. Da mesma maneira que aquele sistema gráfico desapareceu, esta cultura, baseada em trabalho forçado, também se extinguiu. A Ilíada menciona em seu catálogo de navios reis hereditários que dominam extensos territórios, dos quais cada um abrange várias localidades mais tarde conhecidas como cidades, originalmente todas elas concebidas como castelos, estando um soberano, como Agamêmnon, disposto a conceder algumas delas em feudo a Aquiles. Em Tróia, o rei tinha ao seu lado, como conselheiros, os anciões de casas nobres, livres do serviço militar devido à idade. Heitor é considerado o rei guerreiro, enquanto se recorre a Príamo para fechar contratos. Um documento escrito, mas talvez apenas composto de símbolos, é mencionado apenas uma única vez. De resto, todas as condições excluem completamente a existência de uma administração baseada em trabalho forçado ou de uma realeza patrimonial. Esta tem caráter gentilício-carismático. Mas também o forasteiro Enéias pode nutrir esperanças de assumir o cargo de Príamo depois de matar Aquiles, pois a realeza é considerada uma "dignidade" com caráter de cargo, e não uma propriedade. O rei é o comandante do exército e participa no tribunal junto com os nobres, é representante diante dos deuses e dos homens, dotado de terras reais, exercendo, porém, particularmente na Odisseia, um poder semelhante ao de um chefe local, baseado em influência pessoal, não em autoridade regulamentada. Também a expedição guerreira, quase sempre marítima, tem para as linhagens nobres mais o caráter de uma aventura empreendida pelo séquito do que o de uma campanha obrigatória: os companheiros de Ulisses são chamados hetaíroí, bem como mais tarde o séquito real macedônico. A longa ausência do rei não é considerada uma fonte de inconvenientes sérios: em Ítaca, já não existe mais rei nenhum. Ulisses deixou sua casa aos cuidados de Mentor, que nada tem a ver com a dignidade real. O exército é um exército cavalheresco, os duelos decidem a batalha. A infantaria perde toda importância. Em algumas partes dos poemas homéricos, aparece no mercado político das cidades: se Ismaros é chamado polis, isto poderia significar "castelo", mas em todo caso trata-se do castelo não de um indivíduo, mas dos Cícones. No escudo de Aquiles estão sentados os anciões - dos clãs de honoratíores que se destacam pela propriedade e pelos méritos militares - no mercado e pronunciam sentenças; o povo, como plateia do tribunal, acompanha com aplauso os discursos das partes. A queixa de Telêmaco torna-se objeto de uma discussão, organizada pelo arauto, entre os honoratíores aptos para o serviço militar. Os nobres, inclusive os reis, dependendo das circunstâncias, são senhores territoriais e proprietários de navios, saindo para a batalha em carros de guerra. Mas somente quem reside na polis tem participação no poder. O fato de que o rei Laertes se retirou à sua quinta significa que está aposentado. Como também entre os germanos, os filhos das linhagens de honoratíores participam como séquito (hetaíroí) nas aventuras de um herói - na Odisseia, nas do filho do rei. Entre os feacos, a nobreza atribui a si mesma o direito de fazer o povo participar nas despesas para os presentes aos hóspedes. Em nenhum lugar se diz que todos os moradores do campo eram considerados dependentes ou servos dos nobres residentes na cidade, apesar de nunca serem mencionados camponeses livres.

O tratamento da figura do Tersites prova, em todo caso, que também o guerreiro comum - isto é, que não sai para a campanha no carro de guerra - ousa, ocasionalmente, falar contra os senhores, só que isto é considerado atrevimento. Mas também o rei faz trabalhos domésticos, monta sua cama e cava o jardim. Seus companheiros guerreiros remam eles mesmos. Por outro lado, podem os escravos comprados esperar obter um kleros: ainda não existe, como mais tarde em Roma, a extrema diferença entre os escravos comprados e os clientes com terras concedidas. As relações são patriarcais, a economia de subsistência satisfaz todas as necessidades normais. Os navios próprios servem para a pirataria, o comércio é passivo, cujos portadores ativos são, naquela época, ainda os fenícios. Além do "mercado" e da residência urbana da nobreza, existem dois fenômenos importantes: por um lado o agón, que mais tarde dominará a vida inteira, nascido, como é natural, do conceito de honra cavaleiroso e do treinamento militar dos jovens nos campos de exercício. Externamente organizado, encontramo-lo, sobretudo, no culto fúnebre aos heróis de guerra (Patroklos). Ele domina já naquela época a condução da vida da nobreza. Por outro lado, apesar de toda deísídemonía, há a relação totalmente despreocupada com os deuses, cujo tratamento poético mais tarde Platão sente como constrangedor. Esta falta de respeito da companhia heroica somente podia nascer como consequência de migrações, particularmente as ultramarinas, em regiões onde não tinham que conviver com antigos templos e túmulos. Enquanto a cavalaria aristocrática da polis de linhagens históricas falta nos poemas homéricos, parece que mencionam, o que é muito estranho, a luta dos hoplitas, mais tarde disciplinada e organizada em fileiras: uma prova de que épocas diferentes deixavam suas marcas na poesia.

Até o desenvolvimento da tirania, o tempo histórico conhece, fora de Esparta e poucos outros exemplos (Cirene), a realeza gentílfcío-carisrnática somente em resíduos ou pela lembrança (isto em muitas cidades da Hélade e na Etrúria, no Lácio e em Roma), sempre como realeza sobre uma única polis, também então de caráter gentilício-carismático, com competências sacras, mas, de resto, com exceção de Esparta e da tradição romana, dotada apenas de privilégios honoríficos diante da nobreza, às vezes também chamada "reis". O exemplo de Cirene mostra que também aqui o rei devia a fonte de seu poder, seu tesouro, ao comércio intermediário, seja na forma de comércio próprio, seja na de controle e proteção remunerados. Ao que parece, o monopólio do rei quebrantou a luta cavalheiresca, com sua autonomia militar das linhagens nobres, que mantinham carros de guerra e séquitos e possuíam navios próprios, depois de haverem decaído também os grandes impérios orientais - tanto o poder egípcio quanto o hitita, com as quais mantinham relações, e ainda não haverem surgido outras grandes realezas, como o reino lídio. Isto é, depois de acabar o comércio monopólico e o Estado baseado em trabalho forçado dos reis orientais, ao qual correspondia em pequena escala a cultura micênica. Esta ruptura do fundamento econômico do poder real possibilitou, provavelmente, também a chamada migração dórica. Iniciaram-se, então, as migrações dos cavaleiros piratas em direção ao litoral da Ásia Menor, onde Homero ainda não conhece povoados helênicos e naquela época ainda não existiam fortes associações políticas e, ao mesmo tempo, começou o comércio ativo dos helenos.

As notícias históricas que começaram naquela época mostram-nos a típica cidade aristocrática da Antiguidade. Quase sempre era uma cidade litorânea: até a época de Alexandre e das guerras dos samnitas, não havia nenhuma polis a mais de uma jornada do mar. Fora do território da polis existia somente a convivência em aldeias (xwllcn) com uniões políticas pouco estáveis de "tribos". Uma polis dissolvida por iniciativa própria ou por inimigos tem seu oikos desfeito e os membros distribuídos em várias aldeias. Ao contrário, o processo de sinecismo era considerado o fundamento real ou fictício da cidade: trata-se da convivência, iniciada às ordens do rei ou em virtude de um acordo de várias linhagens dentro ou em volta de um castelo fortificado. Este processo também não era totalmente desconhecido na Idade Média: assim, no caso de Áquila, descrito por Gothein, ou na fundação de Alexandria. Mas sua essência apresentava-se de forma mais específica na Antiguidade do que na Idade Média. Não era absolutamente essencial a convivência efetiva permanente: como as linhagens medievais, as da Antiguidade continuavam, em parte, residindo em seus castelos rurais ou pelo menos possuíam - e isto constituía a regra - casas de campo, além de sua sede urbana. (...)

Fragmento extraído do Vol. 2 de WEBER, Max. “Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva”. Brasília: Editora UNB, 2009.

terça-feira, 15 de maio de 2018

THE CURE - CURIOSIDADES


The Cure foi formado, em 1976, na cidade de Crawley, subúrbio de Londres, Inglaterra, por Robert Smith, voz e guitarra, Michael Dempsey, baixo, e Laurence “Lol” Tolhurst, bateria. A banda passou por diversas formações desde então, mas Robert Smith foi o único que permaneceu desde sua origem até os dias atuais.

A banda revelou pela primeira vez seus cabelos de espanadores e visual dark durante a turnê do álbum "Pornography", em 1982. No final da turnê, o baixista Simon Gallup saiu da banda. Ao se recordar do fato, Robert Smith faz uma autocrítica: “Eu era uma pessoa monstruosa naquela época”.

A canção "Lullaby" foi inspirada nas músicas de ninar bizarras que o pai de Robert Smith inventava quando Robert era uma criança e não conseguia dormir. Segundo o cantor: “Meu pai inventava essas canções e os finais eram sempre assustadores. Mais ou menos assim: ‘Durma agora, lindo bebê – ou amanhã você não vai acordar’".

Por um breve período, no ano de 1989, o Cure foi a maior banda do mundo. Naquele ano, a venda de ingressos em megaestádios se esgotava rapidamente e a banda se apresentava para públicos que somavam mais de 40 mil pessoas por show. Smith é sóbrio ao analisar aquele ano: "Nunca foi nossa intenção nos tornarmos tão grandes".

Em suas primeiras turnês, em 1979, o Cure abria os shows da banda Siouxsie And The Banshees. Devido a um desfalque na banda da musa do gótico, Robert Smith se ofereceu para ser um Banshee, sendo imediatamente aceito. Para Robert Smith, esta experiência mudou profundamente a sua atitude musical: “Foi muito diferente do que estávamos acostumados a fazer com o Cure. Antes disso, eu queria que fôssemos como os Buzzcocks ou Elvis Costello. Ser um Banshee realmente foi um divisor de águas para o Cure”.

Robert Smith é casado com Mary, sua namorada de infância, há mais de 30 anos. Mas o casal nunca teve filhos.

Durante a gravação do álbum mais vendido do The Cure, "Disintegration", de 1989, Robert Smith ficou sobrecarregado por pensamentos sombrios, causados por uma combinação de depressão e uso pesado de LSD. Aliás, a bebida foi um grande problema na vida do artista.

Em um show do Cure em Los Angeles no ano de 1986, um fã enlouquecido subiu no palco e começou a se cortar com uma faca. Robert Smith relata: "Foi muito sério, mas os fãs acharam que era um tipo de performance artística e ficaram enlouquecidos".

Na turnê de lançamento de Pornography, álbum mais sombrio do The Cure, a banda usava maquiagem de olhos vermelhos, de modo que, quando suavam sob as luzes, parecia que os integrantes da banda estavam chorando sangue.


terça-feira, 8 de maio de 2018

DES-TINO - TEATRO


Florisa é uma jovem mulher casada com um empresário bem sucedido. Sua vida é monótona e por isso ela resolve voltar a estudar. Na faculdade, conhece pessoas diferentes que irão mudar a sua vida para sempre. “Des-Tino” é uma história de amor composta para a dramaturgia. Confira o texto completo no site:


terça-feira, 1 de maio de 2018

O PRIMEIRO DE MAIO DE SARAMAGO E ZECA AFONSO



Em Abril, falas mil. Nos campos há grandes ajuntamentos noturnos, os homens mal veem as caras uns dos outros, mas ouvem-se-lhes as vozes, abafadas se o local não é de suficiente segurança, ou mais soltas e claras em deserto, em todos os casos com a proteção de vigias, dispostos segundo a arte estratégica da prevenção, como quem defende um acampamento. É, deste lado, uma guerra pacífica. Se pelo escuro da noite a guarda se aproxima, e agora já não é a simples patrulha de dois homens dos tempos correntes, vêm às dúzias e meias dúzias, e até onde os carreteiros chegam transportam-se em jipe e jipão, se vindo assim se aproximam, depois em linha, como quem levanta caça, recuam as sentinelas a avisar, e então de duas uma, consoante, ou a guarda vai passar de largo e o silêncio é a melhor defesa, todos os homens, sentados ou de pé, seguram a respiração e os pensamentos, são direitas pedras, antas doutro tempo, ou a guarda vem mesmo ao direito da reunião e a ordem é dispersar por caminhos de mau piso, por enquanto ainda a guarda não tem cães, é o que vale. Na noite seguinte prosseguirá a conversa no ponto em que foi deixada, naquele mesmo lugar ou noutro, que esta paciência é infinita. E quando é possível encontram-se de dia, em grupos mais pequenos, ou vão pelas casas, conversa de ao pé do lume, enquanto as mulheres lavam a louça caladas e as crianças adormecem pelos cantos. E estando no eito um homem ao pé doutro homem, a palavra dita e ouvida é como o bater do maço da cabrilha na estaca, mais funda um pouco, e na hora de comer, com a panelinha ou a marmita pousadas no chão, entre as pernas, enquanto a colher sobe e desce e a aragem fria vai arrefecendo o corpo, tornam as palavras ao de cima, é um falar pausado que diz, Vamos para as oito horas, basta de trabalhar de sol a sol, e então os prudentes temem-se do futuro, Que será de nós se os patrões não quiserem dar trabalho, mas as mulheres que estão a lavar a loiça da ceia, enquanto o lume arde, têm vergonha de que tão prudente o seu homem seja e estão de acordo com o amigo que lhes bateu à porta para dizer, Vamos para as oito horas, basta de trabalhar de sol a sol, porque também elas assim trabalham, e mais ainda, doridas, menstruadas, pejadas da barriga à boca, ou, quando já não, com os seios a derramar o leite que devia ter sido mamado, é uma sorte, não se lhes secou, muito se engana pois quem julgue que basta levantar uma bandeira e dizer, Vamos. É preciso que Abril seja um mês de palavras mil, porque mesmo os certos e convencidos têm seus momentos de dúvida, suas agonias e desânimos, lá está a guarda, lá estão os dragões da pide, e a negra sombra que alastra pelo latifúndio, que nunca o abandona, não há trabalho, e vamos nós, por nossas mãos, acordar a besta que dorme, sacudi-la e dizer, Amanhã, só trabalharei oito horas, isto não é o primeiro de Maio, o primeiro de Maio é o menos, ninguém pode obrigar-me a ir trabalhar, mas se eu disser, Oito horas, só isto e nada mais, é como açular o cão raivoso. E o amigo diz, aqui sentado no cortiço, ou ao meu lado no eito, ou no meio de uma noite tão escura que nem posso ver-lhe a cara, Não se trata só das oito horas, vamos também reclamar quarenta escudos de salário, se não quisermos morrer de canseira e de fome, são boas coisas de pedir e de fazer, o difícil é tê-las. O que vale é que sendo as falas muitas, muitas são as vozes, e do ajuntamento levanta-se uma, não é simples modo de dizer, é verdade, há vozes que se põem de pé, Que vida tem sido a nossa, em dois anos morreram-me dois filhos da doença da fome, e aquele que me resta, irei criá-lo para besta de carga, respondam-me, se nem eu quero continuar a ser a besta de carga que sou, são palavras que ferem os ouvidos delicados, mas aqui não os há, ainda que ninguém, deste ajuntamento, goste de olhar para o espelho e ver-se metido em varais de carroça ou com albarda e cangas, É assim desde que nascemos.

(...)


Grândola, vila morena

Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto, igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola, a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade


E então começa-se a falar no primeiro de Maio, é uma conversa que todos os anos se repete, mas agora é um alvoroço público, lembrar-se a gente de que ainda o ano passado andava a esconder-se por aí, para combinar, organizar, era preciso voltar constantemente ao princípio, ligar os de confiança, animar os indecisos, tranquilizar os temerosos, e mesmo agora ainda há quem não acredite que a festa do primeiro de Maio possa ser às claras como dizem os jornais, quando a esmola é grande, o pobre desconfia. Não é esmola nenhuma, declaram Sigismundo Canastro e Manuel Espada, desdobra-se um jornal de Lisboa, Está aqui escrito que o primeiro de Maio será festejado livremente, e dia feriado em todo o país, E então a guarda, insistem os de boa memória, A guarda desta vez fica a ver-nos passar, quem havia de dizer que uma coisa assim nos viria a acontecer um dia, a guarda quieta e calada enquanto tu gritas viva o primeiro de Maio.

E como por cima daquilo que nos permitem temos sempre de pôr o que imaginamos, ou então não somos homens merecedores de pão cozido, principiou a dizer-se que toda a gente devia estender colchas à janela e pôr flores, como se fosse dia de sair o Senhor dos Passos à praça, com um pouco mais se varriam as ruas e embarracavam as casas, tão fáceis são de subir as escadas do contentamento. Porém, assim são os dramas humanos, exagero foi chamar-lhes dramas, mas sem dúvida são perplexidades, agora que vou eu fazer se em minha casa não há colchas nem tenho jardins de cravos e rosas, quem terá sido o da ideia. Tem Maria Adelaide parte nesta ansiedade, mas sendo nova e esperançosa diz à mãe que não poderão ficar em pouco, que não havendo colcha fará uma toalha as vezes dela, branquíssimo pano suspenso do postigo da porta, bandeira de paz no latifúndio, homem civil que ali passasse haveria de descobrir-se com respeito, e sendo guarda ou militar em sentido e continência prestar homenagem diante da porta de Manuel Espada, trabalhador e bom homem. E não sejam as flores vosso cuidado, senhora mãe, que à fonte do Amieiro irei colher das silvestres que neste tempo de Maio cobrem os vales e as colinas, e estando as laranjeiras floridas ramos dela trarei e assim nosso postigo será janela enfeitada como varanda de alcácer, menos do que os outros não seremos, porque somos tanto.

(José Saramago: trecho de “Levantado do chão: romance”; & Zeca Afonso: "Grândola, vila morena").




domingo, 15 de abril de 2018

CORDIALIDADE PRA INGLÊS VER, SEGUNDO PEARL JAM


A banda grunge Pearl Jam causou polêmica no cartaz de divulgação de sua turnê pelo Rio de Janeiro de 21 de março de 2018, no estádio do Marcanã. Aves tropicais aparecem fardadas e armadas diante de uma favela. Ao invés de cores carnavalescas, o tom é soturno e pesado. Nenhuma ginga, nenhum sorriso, à la Carmen Miranda, ou a malandragem simpática de um Zé Carioca. Ao contrário, as aves estão em posição de sentido e apresentam expressão taciturna, aterradora. O cartaz não deixa de ser sintomático, é o modo como os estrangeiros estão vendo o Brasil atual.

Para mim, me remeteu imediatamente ao mesmo sentido do título da obra clássica do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss: “Tristes Trópicos”. O Pearl Jam sempre foi uma banda engajada e não podia se omitir diante da grave situação do país em sua turnê. Deu uma lição para nós brasileiros.

Vejamos algumas curiosidades do Pearl Jam, grupo de Seattle, formado em 1990, por Eddie Vedder, Jeff Ament, Stone Gossard e Mike McCready e o mais novo baterista Matt Cameron.

1. O primeiro show do Pearl Jam (ainda com outro nome) ocorreu no Off Ramp Cafe.

2. Antes de se chamar Pearl Jam, o nome da banda era Mookie Blaylock.

3. O primeiro baterista do Pearl Jam foi Dave Krusen.

4. Antes de entrarem no Pearl Jam, Stone Gossard e Jeff Ament tocaram numa banda chamada Mother Love Bone.

5. Antes de serem famosos, os rapazes do Pearl Jam ensaiavam num porão que ficava embaixo de uma loja de ferragens chamada Black Dog Forge.

6. Eddie Vedder, Stone Gossard e Jeff Ament atuaram no filme Singles, de 1992. Não deve ter sido muito difícil para eles representarem o papel, pois no filme eram integrantes de uma banda de rock chamada Citizen Dick.

7. O Pearl Jam gravou seu primeiro álbum Ten (Redux), no London Bridge Studio.

8. Em Seattle, no dia 23 de agosto de 1991, num clube de dança, o Pearl Jam realizou o show de lançamento de Ten.






domingo, 1 de abril de 2018

O GUARDADOR DE REBANHOS DE ALBERTO CAEIRO (FERNANDO PESSOA) - COMENTÁRIOS



J. P. A. Gonçalves

1. Introdução

Este trabalho visa discutir alguns aspectos de “O guardador de rebanhos”, de autoria de Fernando Pessoa, sob o heterônimo Alberto Caeiro. Em primeiro lugar, será salientado, na referida obra de Caeiro, uma meditação antifilosófica sobre o ser, a vida e a existência, por parte do poeta. O que não se faz sem grandes problemas, haja vista que os temas repetidamente enfatizados por Caeiro são próprios da filosofia. Em segundo lugar, será considerado a posição antifilosófica de Caeiro como uma estratégia para Fernando Pessoa purgar-se dos males e doenças da civilização ocidental, através do pensamento filosófico-religioso oriental.

2. Pensar é viver

Analisar “O guardador de rebanhos” de Alberto Caeiro não é tarefa fácil, muito embora seus poemas, do ponto de vista formal, sejam relativamente simples – “Não me importo com as rimas. Raras vezes” (XIV - Não me Importo com as Rimas) – e pareçam se originar de um turbilhão saído da intuição do poeta, totalmente avassalador e espontâneo, em que o vivido é por si só exemplar, prescindindo, portanto, de maiores explicações. Mas, como bem salienta Bréchon (1997), o sentido profundo de seus versos está na superfície aparente das coisas e nas proposições tautológicas que, por trás de sua suposta obviedade, há sempre uma verdade imediatamente revelada. Todavia, apesar do plano sem mediações desta poesia, a condição, propalada pelo poeta, de “guardador de rebanhos” apresenta uma conotação metafórica. É o modo como o Eu-lírico se situa e cria uma realidade fictícia para justificar uma visão de mundo. Esta realidade é a idealização de uma “utopia” transfigurada em um vilarejo distante da civilização urbana, e onde os fenômenos naturais, ainda muito presentes, comunicam aos seres humanos um significado irrefutável sobre a existência concreta. Para o poeta, os “rebanhos” são “pensamentos”, que, por sua vez, não são uma imagem abstrata interior à consciência, mas a própria realidade percebida, repleta de sentidos: um não pensar.

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido
(IX - Sou um Guardador de Rebanhos)

Portanto, em Caeiro, haveria um certo realismo ingênuo, tal como a filosofia de Berkeley, em que o sensível é a própria encarnação da verdade, já que a especulação filosófica encerra limites intransponíveis ao se perder em abstrações. “Estamos diante de uma visão objetualista do mundo, segundo a qual as coisas se resumem à sua aparência externa, àquilo que se mostra ao olhar. A exaltação do real sensível opõe-se, por decorrência, ao ideal concebido pelo espírito” (GAGLIARDI, 2006, p. 11). Neste sentido, a metafísica é um modo de renunciar à existência real do ser engajado na vida tal como ela é, pois desvia a atenção para um além-mundo que só é possível a partir da especulação filosófica e do pensamento abstrato, isto é, separado do real.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
(V - Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada)

Todavia, para formular sua concepção de mundo, Alberto Caeiro se vale da metafísica, ainda que para negá-la. Se para encontrar o sentido da existência, conforme propõe Caeiro, bastasse apenas o não pensar, então, a melhor resposta para esta questão seria o silêncio. Mas Caeiro quer argumentos irrefutáveis e, diante do paradoxo em que se encontra, sua saída, que é expressa em versos, é encontrar a metafísica na mundanidade da natureza.

3. Caeiro Zen

A responsabilidade é ainda maior em analisar e interpretar Caeiro pelo fato de Caeiro ser o mestre de Fernando Pessoa e seus heterônimos, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Alberto Caeiro é o porta-voz poético de um pensamento filosófico fundado e denominado por Pessoa de Sensacionismo. Tal filosofia, que, no entanto, não ousa alçar o status de filosofia, mas uma orientação poética, parte do pressuposto, como vimos, de que o sentido da vida e a verdade estão nas sensações: “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...” (II - O Meu Olhar), diz Caeiro. Porém, além de outras referências, apontada pela crítica, Bergson, Hurssel, Heidegger Merleau-Ponty etc., como observa Leyla Perrone-Moisés, o ideário de Caeiro encontra paralelo também na tradição oriental. O que parece ser uma contradição. Pois, o próprio Fernando Pessoa, enquanto ortônimo, e demais heterônimos – além de seus leitores – estão irremediavelmente mergulhados nos valores da civilização ocidental. Ora, isto parece ser um problema insolúvel, já que a visão de mundo destas duas tradições choca-se em seus aspectos fundamentais. Qual sentido, então, tem para Fernando Pessoa, identificar em Alberto Caeiro um mestre inspirado pela cultura filosófico-religiosa do Oriente? Segundo Perrone-Moisés:

“Para Pessoa, a busca de uma saída pela via Caeiro não é apenas mais uma especulação filosófica ou mera experimentação poética, mas uma questão de sobrevivência: saúde e salvação. Sofrendo agudamente da doença ocidental, debatendo-se na busca de um “eu profundo” que quanto mais se busca mais se perde – porquanto o pensamento se volta, afiado e aniquilador, contra o próprio ser pensante – Pessoa foi ao extremo desse descaminho, até o ponto em que essa doença toma o nome de loucura, paralisa e mata” (PERRONE-MOISÉS, 2001, pp. 147 e 148).

Feita esta consideração, a sabedoria, então, de Alberto Caeiro, não advém de uma cultura livresca, racionalista e iluminista do Ocidente, mas da reflexão sobre a própria experiência de si e no mundo, em contato direto com a natureza, tendo por base de seus pressupostos os ensinamentos Zen: filtro da civilização ocidental e urbana.

Como já foi assinalado acima, Alberto Caeiro jamais se detém às grandes reflexões sobre a liberdade; ele, simplesmente, prova a liberdade sendo livre; o conceito de liberdade lhe é inútil. O mesmo se poderia dizer a respeito de um Deus transcendente, próprio da tradição judaico-cristã. Um Deus fora do mundo, invisível, é um Deus ausente, não participa da vida, não está na natureza. Mas esta experiência concreta, calcada na prática e no imediatismo da vida cotidiana, sob um cenário rural e pagão, como bem lembra Gagliardi (2006), ao citar Perrone-Moisés, não é isenta de toda noção de uma divindade. A concepção de Deus em Caeiro é, de alguma forma, pagã e panteísta: o ser divino está em tudo, em cada ser e ente da natureza. Tal concepção é muito próxima do conceito divino formulado pelas religiões orientais.

Neste sentido, Perrone-Moisés defende a tese de que a cura da doença de Pessoa viria justamente por meio de um Caeiro zen-budista e, daí, a necessidade de elevá-lo à condição de mestre.

“Para chegar ao conhecimento direto das coisas pela mente-corpo, é necessário todo um trabalho de desaprender. Assim, o ensinamento de um mestre Zen, como o do Mestre Caeiro, consiste mais em um esvaziamento do discípulo (na limpeza de seus pressupostos racionalistas, de seus hábitos abstratizantes, de suas desnecessárias e atravancadoras complicações mentais) do que de um acréscimo de conhecimento, tal como se concebe o ensino ocidental” (PERRONE-MOISÉS, 2001, p. 161).

Sem dúvida, em Caeiro, Deus é a natureza:

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
(V - Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada)

Esta característica imanente do divino, própria a todo monismo, no qual todas as coisas e os seres da natureza participam de uma inteligência divina, está intimamente ligada à tradição do hinduísmo, budismo e do Tao:

“A metáfora mais transparente dessa profunda unidade do Tao é, como no hinduísmo, a imagem do mar, principal tema de todas as visões do mundo orientais, nos antípodas do individualismo ocidental: cada ser, aparentemente distinto, inclusive o ‘eu’, não é mais do que uma onda da mesma substância que o mar, sem limites nem fronteiras que os separem. É mera forma provisória e fugitiva, que se desenha no oceano sem forma e sem término, e é reabsorvida por ele. (...) O universo inteiro participa dessa unidade: uma montanha é viva como uma onda ou como eu. Viva da mesma vida, obediente ao mesmo ritmo vital. Estou em continuidade com as árvores ou os rochedos (GARAUDY, R., 1981, p. 139).

Se a natureza é a expressão direta da divindade em suas múltiplas expressões, a paisagem campestre, numa concepção panteísta, é o templo onde melhor se presta culto. O camponês, o pastor ou o lavrador, ou ainda a idealização, como em Caeiro, de um Eu-lírico, que é pastor de pensamentos que aparecem como espelho da natureza, são estereótipos de uma devoção inconsciente de um Deus que se multiplica ao infinito e é manifestação do universo. Portanto, em Caeiro, não há alienação religiosa ou instâncias especializadas, pois viver já implica em comunhão com o divino que está em tudo e é imanente. O “eu” é apenas o microcosmo que reflete exatamente o macrocosmo. Esta concepção também é oriunda da tradição oriental.

Sem sair fora da porta
Pode-se conhecer todo o mundo
Sem olhar pela janela
Pode se ver Tao do céu
Quanto mais se viaja
Menos se conhece.
(Taoísmo)

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
(VII - Da Minha Aldeia)

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
(XX - O Tejo é mais Belo)

Além da influência da religião oriental, e da poesia japonesa haikai, como aponta Perrone-Moisés, os versos de Caeiro poderiam também fincar raízes na poesia árabe, como aparece no estilo livre e sensualista de um Omar Kháyyám:

Ninguém desvendará
o que é misterioso.
Ninguém poderá ver o que
se oculta debaixo das
aparências.
Todas as nossas moradas
são provisórias, salvo a última,
no coração da terra.
Bebe o vinho amigo!
Basta de palavras
supérfluas.
(Rubáiyat)

E se não for exagero de nossa parte, ainda poderíamos sugerir uma influência de um certo cristianismo de remota tradição nos essênios, ou mesmo considerando-se a hipótese de que Jesus Cristo passou parte de formação no continente asiático. Na célebre passagem dos lírios do campo, percebe-se ecos de fundo panteísta.

“Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?”
(Mateus 6:28-30)

4. Conclusão

Há muito o que se falar ainda de “O guardador de rebanhos”; aqui esboçamos apenas em linhas gerais algumas das características reconhecidas pela crítica e outras apenas sugeridas ao modo de um ensaio. O paganismo e a crítica à metafísica, ou melhor, à tradição filosófica ocidental, de cunho eurocêntrico e colonizador, é o eixo temático de “O guardador de rebanhos”, por onde irradiam outros temas que ainda estão em aberto. Seja como for, a poesia de Fernando Pessoa e de seus heterônimos alçou os ápices da mais alta literatura, em todos os tempos, e é fonte de inesgotável reflexão estética e literária.

5. Bibliografia

BRÉCHON, Robert. “O ‘Mestre’ Caeiro e o paganismo (1914-1915)”, in Estranho estrangeiro. Uma biografia de Fernando Pessoa, Lisboa: Quetzal Editores/Círculo de Leitores, 1997.
GAGLIARDI, Caio. “Alberto Caeiro - a falsa pista de um cego teimoso”, Via Atlântica, No. 18, dezembro de 2010.
GAGLIARDI, Caio. “Os três Caeiros: introdução a Poemas completos de Alberto Caeiro”, São Paulo: Hedra, 2006;
GARAUDY, Roger. “Apelo aos vivos”, São Paulo: Nova Fronteira, 1981.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. “Caeiro Zen”, in Fernando Pessoa: Aquém do eu, além do outro”, São Paulo: Martins Fontes, 2001.