domingo, 15 de abril de 2018

CORDIALIDADE PRA INGLÊS VER, SEGUNDO PEARL JAM


A banda grunge Pearl Jam causou polêmica no cartaz de divulgação de sua turnê pelo Rio de Janeiro de 21 de março de 2018, no estádio do Marcanã. Aves tropicais aparecem fardadas e armadas diante de uma favela. Ao invés de cores carnavalescas, o tom é soturno e pesado. Nenhuma ginga, nenhum sorriso, à la Carmen Miranda, ou a malandragem simpática de um Zé Carioca. Ao contrário, as aves estão em posição de sentido e apresentam expressão taciturna, aterradora. O cartaz não deixa de ser sintomático, é o modo como os estrangeiros estão vendo o Brasil atual.

Para mim, me remeteu imediatamente ao mesmo sentido do título da obra clássica do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss: “Tristes Trópicos”. O Pearl Jam sempre foi uma banda engajada e não podia se omitir diante da grave situação do país em sua turnê. Deu uma lição para nós brasileiros.

Vejamos algumas curiosidades do Pearl Jam, grupo de Seattle, formado em 1990, por Eddie Vedder, Jeff Ament, Stone Gossard e Mike McCready e o mais novo baterista Matt Cameron.

1. O primeiro show do Pearl Jam (ainda com outro nome) ocorreu no Off Ramp Cafe.

2. Antes de se chamar Pearl Jam, o nome da banda era Mookie Blaylock.

3. O primeiro baterista do Pearl Jam foi Dave Krusen.

4. Antes de entrarem no Pearl Jam, Stone Gossard e Jeff Ament tocaram numa banda chamada Mother Love Bone.

5. Antes de serem famosos, os rapazes do Pearl Jam ensaiavam num porão que ficava embaixo de uma loja de ferragens chamada Black Dog Forge.

6. Eddie Vedder, Stone Gossard e Jeff Ament atuaram no filme Singles, de 1992. Não deve ter sido muito difícil para eles representarem o papel, pois no filme eram integrantes de uma banda de rock chamada Citizen Dick.

7. O Pearl Jam gravou seu primeiro álbum Ten (Redux), no London Bridge Studio.

8. Em Seattle, no dia 23 de agosto de 1991, num clube de dança, o Pearl Jam realizou o show de lançamento de Ten.






domingo, 1 de abril de 2018

O GUARDADOR DE REBANHOS DE ALBERTO CAEIRO (FERNANDO PESSOA) - COMENTÁRIOS



J. P. A. Gonçalves

1. Introdução

Este trabalho visa discutir alguns aspectos de “O guardador de rebanhos”, de autoria de Fernando Pessoa, sob o heterônimo Alberto Caeiro. Em primeiro lugar, será salientado, na referida obra de Caeiro, uma meditação antifilosófica sobre o ser, a vida e a existência, por parte do poeta. O que não se faz sem grandes problemas, haja vista que os temas repetidamente enfatizados por Caeiro são próprios da filosofia. Em segundo lugar, será considerado a posição antifilosófica de Caeiro como uma estratégia para Fernando Pessoa purgar-se dos males e doenças da civilização ocidental, através do pensamento filosófico-religioso oriental.

2. Pensar é viver

Analisar “O guardador de rebanhos” de Alberto Caeiro não é tarefa fácil, muito embora seus poemas, do ponto de vista formal, sejam relativamente simples – “Não me importo com as rimas. Raras vezes” (XIV - Não me Importo com as Rimas) – e pareçam se originar de um turbilhão saído da intuição do poeta, totalmente avassalador e espontâneo, em que o vivido é por si só exemplar, prescindindo, portanto, de maiores explicações. Mas, como bem salienta Bréchon (1997), o sentido profundo de seus versos está na superfície aparente das coisas e nas proposições tautológicas que, por trás de sua suposta obviedade, há sempre uma verdade imediatamente revelada. Todavia, apesar do plano sem mediações desta poesia, a condição, propalada pelo poeta, de “guardador de rebanhos” apresenta uma conotação metafórica. É o modo como o Eu-lírico se situa e cria uma realidade fictícia para justificar uma visão de mundo. Esta realidade é a idealização de uma “utopia” transfigurada em um vilarejo distante da civilização urbana, e onde os fenômenos naturais, ainda muito presentes, comunicam aos seres humanos um significado irrefutável sobre a existência concreta. Para o poeta, os “rebanhos” são “pensamentos”, que, por sua vez, não são uma imagem abstrata interior à consciência, mas a própria realidade percebida, repleta de sentidos: um não pensar.

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido
(IX - Sou um Guardador de Rebanhos)

Portanto, em Caeiro, haveria um certo realismo ingênuo, tal como a filosofia de Berkeley, em que o sensível é a própria encarnação da verdade, já que a especulação filosófica encerra limites intransponíveis ao se perder em abstrações. “Estamos diante de uma visão objetualista do mundo, segundo a qual as coisas se resumem à sua aparência externa, àquilo que se mostra ao olhar. A exaltação do real sensível opõe-se, por decorrência, ao ideal concebido pelo espírito” (GAGLIARDI, 2006, p. 11). Neste sentido, a metafísica é um modo de renunciar à existência real do ser engajado na vida tal como ela é, pois desvia a atenção para um além-mundo que só é possível a partir da especulação filosófica e do pensamento abstrato, isto é, separado do real.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
(V - Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada)

Todavia, para formular sua concepção de mundo, Alberto Caeiro se vale da metafísica, ainda que para negá-la. Se para encontrar o sentido da existência, conforme propõe Caeiro, bastasse apenas o não pensar, então, a melhor resposta para esta questão seria o silêncio. Mas Caeiro quer argumentos irrefutáveis e, diante do paradoxo em que se encontra, sua saída, que é expressa em versos, é encontrar a metafísica na mundanidade da natureza.

3. Caeiro Zen

A responsabilidade é ainda maior em analisar e interpretar Caeiro pelo fato de Caeiro ser o mestre de Fernando Pessoa e seus heterônimos, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Alberto Caeiro é o porta-voz poético de um pensamento filosófico fundado e denominado por Pessoa de Sensacionismo. Tal filosofia, que, no entanto, não ousa alçar o status de filosofia, mas uma orientação poética, parte do pressuposto, como vimos, de que o sentido da vida e a verdade estão nas sensações: “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...” (II - O Meu Olhar), diz Caeiro. Porém, além de outras referências, apontada pela crítica, Bergson, Hurssel, Heidegger Merleau-Ponty etc., como observa Leyla Perrone-Moisés, o ideário de Caeiro encontra paralelo também na tradição oriental. O que parece ser uma contradição. Pois, o próprio Fernando Pessoa, enquanto ortônimo, e demais heterônimos – além de seus leitores – estão irremediavelmente mergulhados nos valores da civilização ocidental. Ora, isto parece ser um problema insolúvel, já que a visão de mundo destas duas tradições choca-se em seus aspectos fundamentais. Qual sentido, então, tem para Fernando Pessoa, identificar em Alberto Caeiro um mestre inspirado pela cultura filosófico-religiosa do Oriente? Segundo Perrone-Moisés:

“Para Pessoa, a busca de uma saída pela via Caeiro não é apenas mais uma especulação filosófica ou mera experimentação poética, mas uma questão de sobrevivência: saúde e salvação. Sofrendo agudamente da doença ocidental, debatendo-se na busca de um “eu profundo” que quanto mais se busca mais se perde – porquanto o pensamento se volta, afiado e aniquilador, contra o próprio ser pensante – Pessoa foi ao extremo desse descaminho, até o ponto em que essa doença toma o nome de loucura, paralisa e mata” (PERRONE-MOISÉS, 2001, pp. 147 e 148).

Feita esta consideração, a sabedoria, então, de Alberto Caeiro, não advém de uma cultura livresca, racionalista e iluminista do Ocidente, mas da reflexão sobre a própria experiência de si e no mundo, em contato direto com a natureza, tendo por base de seus pressupostos os ensinamentos Zen: filtro da civilização ocidental e urbana.

Como já foi assinalado acima, Alberto Caeiro jamais se detém às grandes reflexões sobre a liberdade; ele, simplesmente, prova a liberdade sendo livre; o conceito de liberdade lhe é inútil. O mesmo se poderia dizer a respeito de um Deus transcendente, próprio da tradição judaico-cristã. Um Deus fora do mundo, invisível, é um Deus ausente, não participa da vida, não está na natureza. Mas esta experiência concreta, calcada na prática e no imediatismo da vida cotidiana, sob um cenário rural e pagão, como bem lembra Gagliardi (2006), ao citar Perrone-Moisés, não é isenta de toda noção de uma divindade. A concepção de Deus em Caeiro é, de alguma forma, pagã e panteísta: o ser divino está em tudo, em cada ser e ente da natureza. Tal concepção é muito próxima do conceito divino formulado pelas religiões orientais.

Neste sentido, Perrone-Moisés defende a tese de que a cura da doença de Pessoa viria justamente por meio de um Caeiro zen-budista e, daí, a necessidade de elevá-lo à condição de mestre.

“Para chegar ao conhecimento direto das coisas pela mente-corpo, é necessário todo um trabalho de desaprender. Assim, o ensinamento de um mestre Zen, como o do Mestre Caeiro, consiste mais em um esvaziamento do discípulo (na limpeza de seus pressupostos racionalistas, de seus hábitos abstratizantes, de suas desnecessárias e atravancadoras complicações mentais) do que de um acréscimo de conhecimento, tal como se concebe o ensino ocidental” (PERRONE-MOISÉS, 2001, p. 161).

Sem dúvida, em Caeiro, Deus é a natureza:

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
(V - Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada)

Esta característica imanente do divino, própria a todo monismo, no qual todas as coisas e os seres da natureza participam de uma inteligência divina, está intimamente ligada à tradição do hinduísmo, budismo e do Tao:

“A metáfora mais transparente dessa profunda unidade do Tao é, como no hinduísmo, a imagem do mar, principal tema de todas as visões do mundo orientais, nos antípodas do individualismo ocidental: cada ser, aparentemente distinto, inclusive o ‘eu’, não é mais do que uma onda da mesma substância que o mar, sem limites nem fronteiras que os separem. É mera forma provisória e fugitiva, que se desenha no oceano sem forma e sem término, e é reabsorvida por ele. (...) O universo inteiro participa dessa unidade: uma montanha é viva como uma onda ou como eu. Viva da mesma vida, obediente ao mesmo ritmo vital. Estou em continuidade com as árvores ou os rochedos (GARAUDY, R., 1981, p. 139).

Se a natureza é a expressão direta da divindade em suas múltiplas expressões, a paisagem campestre, numa concepção panteísta, é o templo onde melhor se presta culto. O camponês, o pastor ou o lavrador, ou ainda a idealização, como em Caeiro, de um Eu-lírico, que é pastor de pensamentos que aparecem como espelho da natureza, são estereótipos de uma devoção inconsciente de um Deus que se multiplica ao infinito e é manifestação do universo. Portanto, em Caeiro, não há alienação religiosa ou instâncias especializadas, pois viver já implica em comunhão com o divino que está em tudo e é imanente. O “eu” é apenas o microcosmo que reflete exatamente o macrocosmo. Esta concepção também é oriunda da tradição oriental.

Sem sair fora da porta
Pode-se conhecer todo o mundo
Sem olhar pela janela
Pode se ver Tao do céu
Quanto mais se viaja
Menos se conhece.
(Taoísmo)

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
(VII - Da Minha Aldeia)

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
(XX - O Tejo é mais Belo)

Além da influência da religião oriental, e da poesia japonesa haikai, como aponta Perrone-Moisés, os versos de Caeiro poderiam também fincar raízes na poesia árabe, como aparece no estilo livre e sensualista de um Omar Kháyyám:

Ninguém desvendará
o que é misterioso.
Ninguém poderá ver o que
se oculta debaixo das
aparências.
Todas as nossas moradas
são provisórias, salvo a última,
no coração da terra.
Bebe o vinho amigo!
Basta de palavras
supérfluas.
(Rubáiyat)

E se não for exagero de nossa parte, ainda poderíamos sugerir uma influência de um certo cristianismo de remota tradição nos essênios, ou mesmo considerando-se a hipótese de que Jesus Cristo passou parte de formação no continente asiático. Na célebre passagem dos lírios do campo, percebe-se ecos de fundo panteísta.

“Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?”
(Mateus 6:28-30)

4. Conclusão

Há muito o que se falar ainda de “O guardador de rebanhos”; aqui esboçamos apenas em linhas gerais algumas das características reconhecidas pela crítica e outras apenas sugeridas ao modo de um ensaio. O paganismo e a crítica à metafísica, ou melhor, à tradição filosófica ocidental, de cunho eurocêntrico e colonizador, é o eixo temático de “O guardador de rebanhos”, por onde irradiam outros temas que ainda estão em aberto. Seja como for, a poesia de Fernando Pessoa e de seus heterônimos alçou os ápices da mais alta literatura, em todos os tempos, e é fonte de inesgotável reflexão estética e literária.

5. Bibliografia

BRÉCHON, Robert. “O ‘Mestre’ Caeiro e o paganismo (1914-1915)”, in Estranho estrangeiro. Uma biografia de Fernando Pessoa, Lisboa: Quetzal Editores/Círculo de Leitores, 1997.
GAGLIARDI, Caio. “Alberto Caeiro - a falsa pista de um cego teimoso”, Via Atlântica, No. 18, dezembro de 2010.
GAGLIARDI, Caio. “Os três Caeiros: introdução a Poemas completos de Alberto Caeiro”, São Paulo: Hedra, 2006;
GARAUDY, Roger. “Apelo aos vivos”, São Paulo: Nova Fronteira, 1981.
PERRONE-MOISÉS, Leyla. “Caeiro Zen”, in Fernando Pessoa: Aquém do eu, além do outro”, São Paulo: Martins Fontes, 2001. 




domingo, 25 de março de 2018

GÊNERO FEMININO – SUBSTANTIVO



J. P. A. Gonçalves

Gênesis 2:20 – “Assim o homem deu nomes a todos os rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens. Todavia não se encontrou para o homem alguém que o auxiliasse e lhe correspondesse”.

O elemento mais fundamental da formação da linguagem é o nome. A linguagem nada mais é do que um conjunto articulado de nomes. Nomeia-se tudo: seres, entidades, objetos, coisas, concretas ou abstratas, lugares, relações, ações, qualidades, quantidades etc.

A palavra, como ensina Saussure, é um signo arbitrário. Portanto, o nome é uma convenção, social, cultural e historicamente engendrada. Nada diz em si mesmo. Por exemplo, “ (nǚ) não significa nada para um falante de língua portuguesa. Na China, todos sabem que é “mulher”.

O nome só ganha sentido quando está referenciado a um conteúdo externo à linguagem e reconhecido por uma comunidade linguística comum.

No princípio, Adão só podia apontar os animais. Deus, no entanto, lhe deu a faculdade de nomeá-los e Adão nomeou todos os animais em um único dia com nomes que lhes correspondiam exatamente; a cada espécie um nome. Estes nomes eram universais e idênticos aos seres indicados – aqui faço uma alusão de passagem à teoria do conhecimento de Walter Benjamin. Mas não havia ninguém que chamasse Adão pelo nome que de fato era.

Foi Eva que lhe deu nome: homem.

Adão não tinha sexo antes de Eva, pois é a condição de mulher que define a condição de homem.

Foi a mulher que inventou o gênero e fez do homem homem. Não o homem enquanto ser genérico, uma ficção – o homem não é o homem nem a mulher é o homem. Mas o fez enquanto ser humano, tão humano e tão igual a ela própria, tão humana.

Adão, que comeu do fruto proibido, culpou Eva por sua fraqueza, não assumindo assim sua responsabilidade. Eva, mais honesta, confessou sua falta. Ambos, iguais em pecado, mas não em dignidade, foram expulsos do jardim do Éden.

Muito mais tarde, a linguagem, que era um espelho da realidade, foi perdida com a construção da Torre de Babel.

O signo passou a ser arbitrário e através da força bruta, o homem dominou a mulher e a fez escrava! Passou então a ditar, e ditar, e ditar, e ditar... fazendo da palavra sua imagem e semelhança.

A mulher, após século de escravidão, se rebelou e fez do gênero feminino sua força e identidade, e a cada dia vem conquistando mais e mais liberdade, inclusive de dar nomes!

No mundo atual, as mulheres nomeiam as coisas como elas de fato são: a poeta, a presidenta, a poderosa etc.

Todavia, a linguagem precisa ser revolucionada, ainda.

As palavras, apesar de serem signos arbitrários, têm sexo. Assim, “panela” é feminino; “carro”, masculino etc.

O gênero na língua é meramente gramatical, estabelecido por convenção, em sociedades patriarcais. Por isso, a primazia do masculino.

Na gramática, o gênero nem sempre se conhece por sua significação ou terminação.

- Quanto à significação, o gênero feminino é dado conforme o sexo do ser referenciado, seres humanos ou animais:

Mulher, Roberta, menina, poeta, santa, meretriz, gata, leoa, presidenta etc.

- Ou o gênero é meramente gramatical:

Mesa, cadeira, televisão, luz etc.

SUBSTANTIVOS FEMININOS

- Todos os substantivos que admitem o artigo “a” pertencem ao gênero feminino.

A mulher, a águia, a grua, a pitonisa etc.

- Quanto à significação, são femininos:

a) Nomes de mulher ou ocupação por elas exercida:

Margarida, Lilian, Beatriz, escritora, presidenta etc.

b) Nome de animais do sexo feminino.

Égua, pata, cadela etc.

c) A maioria das árvores frutíferas e de flores:

Laranjeira, rosa, margarida etc.

d) Nome de cidades e ilhas nas quais a cidade e a ilha estão subtendidas:

Fortaleza, Campinas, Ilha Bela, Ilha das Canárias etc.

- Quanto à terminação em geral, os nomes terminados em -a átonos:

Menina, flauta, águia, cadeira etc.
Exceções: clima, dia, planeta etc.

- Geralmente, são femininos os substantivos abstratos terminados em -ão:

A comunicação, a solução, a opinião etc.

- Os substantivos que designam pessoas e animais se flexionam em gênero e apresentam, em geral, duas formas diferentes.

Mulher – homem
Filha – filho
Rainha – rei
Presidenta – presidente
Leoa – leão
Égua - cavalo

quinta-feira, 15 de março de 2018

A MULHER INVENTOU O ROCK'N'ROLL - ESPECIAL 8 DE MARÇO


ESPECIAL: SISTER ROSETTA THARPE


Conforme já havíamos anunciado no post “Dia da consciência negra é rock’n’roll”, no mês da mulher, prestaremos uma homenagem a Sister Rosetta Tharpe, a mulher que inventou o rock and roll.


No princípio era Sister Rosetta Tharpe.


De fato, se por um acaso Sister Rosetta Tharpe não brilhasse sua estrela no princípio, isto é, no gênesis do rock’n’roll, tocando freneticamente sua guitarra e se tornando modelo inspirador de toda uma geração posterior, Elvis Presley, Little Richard, Johnny Cash, Jerry Lee Lewis, entre outros, jamais teriam sido astros do rock e, provavelmente, teriam seguido profissões muito diferentes e nunca seriam lembrados.


“Irmã” Rosetta, como ficou conhecida, por causa de sua música gospel, chegou ao estrelato em 1938, com o disco "Rock Me". Mulher, negra, cantando e tocando sua própria guitarra elétrica, numa sociedade segregacionista, repleta de valores conservadores, Sister foi uma pioneira do gênero musical que mudaria o mundo e transformaria para sempre tendências e comportamentos. 

Sua primeira música a romper o círculo fechado do Rhythm and Blues (ou R&B), na época restrito aos “guetos negros”, foi "Strange Things Happening Every Day" (1945), que alcançou a segunda posição nas paradas de sucesso e se tornou um paradigma para o rock’n’roll.


Durante toda a década de 1950, Sister Rosetta chegou a fazer muito sucesso e lotava casas de show por onde passava. Entre as muitas de suas apresentações, Sister convidou para dividir o palco um menino chamado Richard Wayne Penniman de apenas 14 anos! Sim, Sister Rosetta trazia ao mundo aquele que se tornaria mais tarde o grande Little Richard.



Sem dúvida nenhuma, Sister Rosetta Tharpe foi a progenitora de Elvis Presley, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis, e todos os outros. Johnny Cash se referia a Sister como a sua cantora favorita.

No início dos anos sessenta, a revolução musical que ela ajudou a criar relegou-a injustamente ao esquecimento. Então Sister Rosetta mudou-se para a Inglaterra, e nas cidades de Londres e Liverpool se apresentou para muitos jovens fãs de blues.


Sem Sister Rosetta Tharpe, o rock’n’roll não existiria (nem este blog). Ela é a mãe fundadora que deu à luz a sucessivas gerações de roqueiros pelo mundo todo.

DISCOGRAFIA SELECIONADA


“Rock Me,” “That’s All,” “The Lonesome Road” • (1938) “Shout, Sister, Shout!” • (1942) “Strange Things Happening Every Day” (1945) • “Nobody’s Fault But Mine” (1949) • Gospel Train (1956) • Sister On Tour (1961)


quinta-feira, 1 de março de 2018

A ABELHINHA SEM ASAS


A abelhinha sem asas - Infantil



Nilza Monti Pires

Num abelheiro, a tristeza era muito grande, a rainha das abelhas ficou tão doente que a pobrezinha não resistiu e morreu.

Todas as abelhinhas dessa colmeia ficaram desesperadas, além de gostarem muito da abelha rainha, elas ficariam totalmente desamparadas, pois todas vivem em comunidade em função da rainha.

Somente a abelha rainha põe os ovos e sem a rainha a colmeia iria desaparecer totalmente.

Acontece que antes de morrer, a abelha rainha deixou milhares de ovinhos que iam nascer em breve.


- Que será de nós?! Disse uma das abelhinhas, chorando.

Outra respondeu:

- Ainda temos uma esperança nesses ovinhos que estão por nascer.

- Estou muito preocupada, se entre esses ovinhos não nascer uma abelha rainha, nossa colmeia vai se extinguir. Indagou outra, aflita.

- Essa ideia me apavora... Sempre fazemos tudo com perfeição, construímos os favos, cuidamos dos ovos, produzimos o mel...

- Pois é, vamos torcer para que nesses milhares de ovinhos nasça a nossa rainha. Concluiu uma das abelhinhas.


E assim passaram alguns dias e numa tarde quente de verão nasceram as novas abelhinhas.

Ficaram todas na maior expectativa. A rainha tinha que nascer!

Quando viram que a abelhinha rainha tinha nascido, a alegria foi geral.

- Eu não falei que a rainha ia nascer!

Mas a abelhinha rainha nem se movia, nasceu sem asas, enquanto os seus irmãozinhos já estavam voando.

Todas ficaram apreensivas. A imensa alegria demorou pouco.


No dia seguinte, todas as abelhinhas operárias que nasceram saíram tristemente voando de cá para lá, dançando, em zigue-zague, pois na linguagem das abelhas elas comunicam umas às outras dessa maneira, indicando onde se encontra o néctar das flores, matéria prima do mel, e também avisando a presença de qualquer perigo.


A abelhinha rainha estava cada vez mais fraquinha, não adiantava nem se alimentar com geleia real, estava entediada e lamentava a triste sorte de não poder voar.

As abelhas operárias e os zangões também lamentavam a triste sorte da abelha rainha e o destino cruel que reservava para toda a colmeia, caso ela viesse a perecer.

As abelhas operárias se multiplicavam em atenções, para preservar sua rainha que estava muito fraca.


Num certo dia chuvoso, surpreenderam a abelhinha rainha numa poça de água, fazendo um zumbido tão alto que as abelhas operárias correram em sua direção, para acudi-la, já que parecia estar se afogando.

- Hoje estou muito feliz, disse a abelhinha rainha.

Todas as abelhinhas não entenderam nada, mais ficaram muito satisfeitas de ver sua rainha pela primeira vez feliz.

Aí uma abelhinha disse para outra:

- Coitada da rainha, ela se sente muito humilhada por não poder voar. Mas gostamos dela assim mesmo, do que jeito que ela é.

- É verdade, eu tenho observado isto. Mas, para deixá-la um pouco mais feliz, até podemos construir uma pequena prensa no corpo dela, duas chapas de madeira perfuradas de zinco e arame de ferro galvanizado e assim ela vai poder voar com asas postiças.


Numa bela manhã, a abelha rainha avisou que subiria no alto de uma montanha.

- Mas como? Dizia uma abelhinha operária indignada. Você não tem asas!

- Vou subir numa montanha muito alta, onde passa um rio, para apreciar a paisagem. Quero ver o mundo lá de cima, como vocês veem. Respondeu a abelha rainha.

- Não faça isso... a montanha é muito alta e além disso você pode cair e se afogar no rio.

E assim a abelhinha rainha começou a subir a montanha, acompanhada por outras abelhas, que voavam à sua volta e tentavam dissuadi-la. Nada, porém, detinha a abelha rainha. O percurso era difícil, levou mais de duas horas para subir. De lá de cima se ouvia o barulho da água do rio.


Outras as abelhas, no entanto, ficaram ao pé da montanha, de olhos fixos, vendo a abelha rainha subir palmo a palmo a montanha.

- Desista! Gritavam as abelhinhas operárias e os zangões.

- Ah! eu não quero nem ver. Se ela cair de tão alto, não vai sobrar nada.

- Já temos tantos problemas!

- Por que ela não muda de ideia?

- Fraca do jeito que ela está é bem capaz de cair mesmo.

- Xiiii.... Ela caiu mesmo! Vem descendo girando que nem um parafuso!


Quando a abelhinha rainha estava quase chegando rente ao chão, perto das outras abelhinhas, com tanta precisão e exatidão abriu suas lindas asas e começou a voar.

- Vejam, a rainha está voando... Como pode?!!!

- E que belas asas! E tão fortes!

E todas foram ao encontro da abelha rainha felizes da vida.


- Como conseguiu voar, abelha rainha, e de onde saíram estas asas?

- Descobri que minhas asas estavam coladas. Naquele dia em que choveu, eu fui sentir a água da chuva e as asas descolaram. Por isso, eu estava tão feliz.

- Agora nós entendemos.

- Mas porque subiu tão alto, se arriscando para mostrar suas belas asas?

- Queria fazer uma surpresa. Queria mostrar que tenho asas e sou igual a vocês.

- Ora, você é a nossa rainha, gostamos da sua perseverança, capacidade e inteligência! Para nós, pouco importa se você tem asas ou não. Gostamos de você de qualquer maneira.

- Vamos brindar, disse a rainha, com a nossa geleia real, essa bebidinha perfeita, poderosa e muito nutritiva, que só nós sabemos fazer!

E a colmeia viveu feliz para sempre.