segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

A Náusea de Jean-Paul Sartre: O Despertar do Absurdo e a Liberdade Radical

A ilustração dialoga diretamente com o romance A Náusea, de Jean-Paul Sartre, traduzindo visualmente a experiência existencial de angústia e estranhamento diante do mundo. No centro da cena, um homem solitário — figura que remete a Antoine Roquentin — está sentado em um café, apoiando o rosto nas mãos, com um olhar exausto, perturbado e profundamente introspectivo. Seu semblante sugere a consciência brutal da existência, marcada pela perda de sentido e pela sensação de sufocamento metafísico que dá nome à obra. O ambiente do café, tradicional espaço de sociabilidade, surge aqui como um lugar de alienação. As pessoas ao redor aparecem sem feições definidas, quase desumanizadas, reforçando a ideia sartreana de que o outro pode se tornar opaco, distante e até opressor. Essa ausência de rostos enfatiza a solidão radical do protagonista, mesmo quando está cercado por outros indivíduos. Elementos grotescos — como tentáculos que emergem da mesa, dos objetos cotidianos e dos cantos da cena — simbolizam a náusea propriamente dita: a repulsa diante da materialidade bruta das coisas, quando os objetos deixam de ser familiares e passam a revelar sua existência absurda, excessiva e sem finalidade. O café, a xícara, os talheres e os alimentos parecem ganhar vida própria, tornando-se ameaçadores, como se o mundo material invadisse violentamente a consciência do sujeito. A cidade ao fundo, cinzenta e opressiva, reforça o clima de desencanto e despersonalização típico do existencialismo. As árvores secas e a arquitetura rígida contribuem para a sensação de imobilidade e tédio, temas centrais do romance. O título “NAUSÉA”, escrito em letras que escorrem como sangue, sugere tanto o mal-estar físico quanto o colapso existencial, transformando o sentimento filosófico em imagem visceral. Assim, a ilustração não apenas representa um personagem, mas encarna visualmente o núcleo da obra de Sartre: a descoberta angustiante de que a existência precede a essência, e que o mundo, quando percebido sem ilusões, pode provocar vertigem, repulsa e desamparo.

A literatura do século XX foi marcada por profundas transformações intelectuais, mas poucos livros foram tão sísmicos quanto A Náusea, publicado em 1938. Escrito por Jean-Paul Sartre, o romance não é apenas uma obra de ficção; é o manifesto literário que inaugurou o existencialismo francês, moldando o pensamento de gerações sobre o propósito da vida, a consciência e a liberdade.

Neste artigo, exploraremos as profundezas do diário de Antoine Roquentin, os conceitos filosóficos por trás de sua angústia e por que este clássico continua sendo visceralmente relevante nos dias de hoje.

O Enredo de A Náusea: O Diário da Existência

A narrativa de A Náusea nos apresenta a Antoine Roquentin, um historiador solitário que vive na cidade portuária fictícia de Bouville (baseada em Le Havre). Roquentin está na cidade para concluir uma pesquisa biográfica sobre o Marquês de Rollebon, uma figura do século XVIII. No entanto, sua rotina acadêmica é interrompida por uma sensação física e metafísica perturbadora: a "Náusea".

Diferente de um mal-estar biológico, a Náusea de Roquentin surge do contato direto com a realidade nua. Ele começa a perceber que os objetos, as pessoas e a própria natureza não possuem uma razão de ser. Tudo é "demais", tudo é contingente.

O Personagem Antoine Roquentin

Roquentin é o protótipo do anti-herói existencialista. Desconectado de laços sociais e sem crenças religiosas, ele se torna um observador puramente lúcido. Através de seu diário, acompanhamos o desmoronamento de suas justificativas para viver, culminando na famosa cena do jardim público.

O Conceito da Náusea e a Contingência

Para entender A Náusea, é preciso compreender o que Sartre define como a gratuidade da existência. No coração do livro está a descoberta de que o mundo não foi "planejado".

A Contingência Absoluta

Sartre utiliza a Náusea para descrever a revelação de que a existência precede a essência. Isso significa que as coisas simplesmente são, sem uma explicação lógica ou um propósito inerente. Quando Roquentin olha para a raiz de uma castanheira, ele não vê apenas uma árvore; ele vê a matéria bruta e injustificável que existe fora das palavras e dos conceitos humanos.

"A existência não é algo que se deixe pensar de longe: é preciso que nos invada bruscamente, que pare sobre nós, que pese sobre o nosso coração como um grande animal imóvel."

A Diferença entre Ser-em-si e Ser-para-si

Através da experiência de Roquentin, Sartre começa a esboçar sua distinção ontológica:

  • O Ser-em-si: Objetos inanimados (como a raiz da árvore ou um seixo), que são o que são, sem consciência ou possibilidade de mudança.

  • O Ser-para-si: A consciência humana, que é "nada", um vazio que deve constantemente se definir através de escolhas.

Temas Centrais de A Náusea

A obra é rica em simbolismos e críticas sociais que definem o pensamento sartriano.

1. O Absurdo e a Falta de Sentido

O "Absurdo" em A Náusea refere-se ao divórcio entre o desejo humano de ordem e a realidade caótica do universo. Roquentin percebe que todos os seus esforços para dar sentido ao tempo — como escrever a biografia de Rollebon — são tentativas inúteis de escapar da gratuidade do presente.

2. A Crítica aos "Salafrários" (Les Salauds)

Sartre usa o termo "salafrários" para descrever aqueles que tentam esconder de si mesmos a liberdade radical e a contingência da vida. São os burgueses de Bouville, que acreditam que têm um "direito" de existir por causa de sua posição social, tradição ou moralidade rígida. Eles buscam uma "essência" que os justifique, fugindo da angústia da escolha.

3. A Arte como Redenção

No final do romance, Roquentin encontra um breve alívio para sua Náusea ao ouvir uma canção de jazz (Some of These Days). A música, por ser uma estrutura matemática e artística que "está além" da existência bruta, oferece uma promessa de que o homem pode criar algo necessário a partir do nada.

O Impacto de A Náusea no Existencialismo

Embora Sartre tenha desenvolvido sua filosofia técnica em O Ser e o Nada (1943), A Náusea forneceu a base emocional e fenomenológica para o movimento. O livro estabeleceu que:

  1. A liberdade é uma condenação: Se não há Deus ou propósito pré-determinado, somos inteiramente responsáveis pelo que fazemos de nós mesmos.

  2. O homem é um projeto: Nossa existência é algo que construímos a cada instante.

Perguntas Frequentes sobre A Náusea (FAQ)

O que significa a náusea para Sartre?

A náusea é a sensação de repulsa e tontura metafísica que ocorre quando um indivíduo percebe a gratuidade absoluta da existência. É o reconhecimento de que o mundo físico é "excessivo" e não possui sentido intrínseco.

Qual é a principal mensagem do livro?

A mensagem central é que a existência é contingente e absurda, e que o ser humano é radicalmente livre para criar seu próprio sentido, já que não nasce com uma essência ou propósito pré-definido.

A Náusea é um livro difícil de ler?

Embora contenha reflexões filosóficas densas, a narrativa em formato de diário torna a leitura acessível e envolvente. É uma jornada psicológica tanto quanto intelectual.

Por que Antoine Roquentin abandona sua pesquisa histórica?

Ele percebe que tentar recriar a vida de Rollebon é uma ilusão. O passado não existe mais, e usar a vida de outra pessoa para justificar a própria existência é uma forma de "má-fé".

Conclusão: Por que ler Sartre hoje?

Ler A Náusea em pleno século XXI é um exercício de honestidade intelectual. Em um mundo saturado de distrações e "essências" prontas entregues pelo consumo e pelas redes sociais, a obra de Sartre nos convida a confrontar o vazio. Ela nos lembra que, embora a existência seja absurda, essa mesma ausência de sentido é o que nos confere a liberdade suprema de inventar quem queremos ser.

Se você busca uma leitura que desafie suas percepções sobre a realidade e a liberdade, este romance é o ponto de partida ideal.

A imagem apresenta um design simples e acolhedor, com fundo marrom. No centro, há uma pilha de livros coloridos — vermelho, azul, verde e amarelo — empilhados de forma irregular. Sobre esses livros, está sentado um gato preto estilizado, de olhos amarelos grandes e expressivos, com formato minimalista e elegante.  Na parte superior, em letras grandes e brancas, aparece o nome “Ariadne”. Na parte inferior, também em branco, lê-se “Nossa Livraria Online”. O conjunto transmite a ideia de uma livraria charmosa, aconchegante e com personalidade, associando livros ao símbolo do gato — frequentemente ligado à curiosidade, mistério e imaginação.

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(*) Notas sobre a ilustração:

A ilustração dialoga diretamente com o romance A Náusea, de Jean-Paul Sartre, traduzindo visualmente a experiência existencial de angústia e estranhamento diante do mundo. No centro da cena, um homem solitário — figura que remete a Antoine Roquentin — está sentado em um café, apoiando o rosto nas mãos, com um olhar exausto, perturbado e profundamente introspectivo. Seu semblante sugere a consciência brutal da existência, marcada pela perda de sentido e pela sensação de sufocamento metafísico que dá nome à obra.

O ambiente do café, tradicional espaço de sociabilidade, surge aqui como um lugar de alienação. As pessoas ao redor aparecem sem feições definidas, quase desumanizadas, reforçando a ideia sartreana de que o outro pode se tornar opaco, distante e até opressor. Essa ausência de rostos enfatiza a solidão radical do protagonista, mesmo quando está cercado por outros indivíduos.

Elementos grotescos — como tentáculos que emergem da mesa, dos objetos cotidianos e dos cantos da cena — simbolizam a náusea propriamente dita: a repulsa diante da materialidade bruta das coisas, quando os objetos deixam de ser familiares e passam a revelar sua existência absurda, excessiva e sem finalidade. O café, a xícara, os talheres e os alimentos parecem ganhar vida própria, tornando-se ameaçadores, como se o mundo material invadisse violentamente a consciência do sujeito.

A cidade ao fundo, cinzenta e opressiva, reforça o clima de desencanto e despersonalização típico do existencialismo. As árvores secas e a arquitetura rígida contribuem para a sensação de imobilidade e tédio, temas centrais do romance. O título “NAUSÉA”, escrito em letras que escorrem como sangue, sugere tanto o mal-estar físico quanto o colapso existencial, transformando o sentimento filosófico em imagem visceral.

Assim, a ilustração não apenas representa um personagem, mas encarna visualmente o núcleo da obra de Sartre: a descoberta angustiante de que a existência precede a essência, e que o mundo, quando percebido sem ilusões, pode provocar vertigem, repulsa e desamparo.

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