"Bem, príncipe, então Gênova e Lucca tornaram-se apenas propriedades, feudos da família Buonaparte. Não, eu o aviso que, se não me disser que estamos em guerra... se ainda se atrever a defender todas as infâmias, todas as atrocidades desse anticristo (sim, eu acredito que ele é o anticristo) — não o conheço mais, não é mais meu amigo..."
Existem livros que lemos para passar o tempo e existem livros que lemos para mudar a nossa percepção sobre o tempo. Guerra e Paz, a obra monumental de Liev Tolstói, pertence inquestionavelmente à segunda categoria. Com mais de mil páginas e centenas de personagens, a obra é frequentemente encarada como o "Everest da literatura".
Curiosamente, uma tradição tem ganhado força entre comunidades de leitores ao redor do mundo: o "War and Peace New Year". Milhares de pessoas decidem iniciar a leitura deste clássico exatamente no dia 1º de janeiro. Mas por que um livro que começa tecnicamente em julho de 1805 tornou-se o símbolo máximo do Ano Novo literário?
Neste artigo, exploraremos a atmosfera de abertura da obra, a tradição das festas de inverno russas e como Tolstói utiliza os recomeços para tecer sua tapeçaria épica.
O Salão de Anna Pavlovna: O "Ano Novo" Simbólico da Narrativa
Embora as primeiras linhas de Guerra e Paz nos situem em uma recepção na casa da dama de honra Anna Pavlovna Scherer em julho, o sentimento de "começo absoluto" é avassalador. Para o leitor, entrar naquele salão é como atravessar o portal de um novo ciclo.
O Contraste entre a Futilidade e a História
A abertura é marcada por fofocas aristocráticas, intrigas palacianas e a figura onipresente de Napoleão Bonaparte — descrito por Anna Pavlovna como o "Anticristo". Este início é estratégico:
Fim de uma Era: O salão representa o auge da sofisticação russa que está prestes a ser despedaçada pelas Guerras Napoleônicas.
O Despertar dos Personagens: É aqui que conhecemos Pierre Bezukhov e Andrei Bolkonsky, cujas jornadas de autodescoberta e "renascimento" espiritual espelham a ideia de resoluções de Ano Novo.
Para muitos críticos, ler a abertura em janeiro faz sentido porque o livro inteiro funciona como um balanço da vida humana: o que perdemos, o que ganhamos e o que decidimos reconstruir após o caos.
A Tradição de Inverno e o Espírito Festivo Russo
Embora o calendário ortodoxo russo da época diferenciasse as datas das celebrações ocidentais (o Natal e o Ano Novo eram celebrados em janeiro), o imaginário de Tolstói está profundamente ligado ao inverno.
As Noites de Inverno dos Rostov
Um dos momentos mais memoráveis da obra ocorre durante o inverno, quando a família Rostov se entrega às festividades russas tradicionais. Tolstói descreve cenas que evocam perfeitamente o espírito de fim de ano:
Passeios de Trenó: A sensação de liberdade e renovação sob a luz da lua e a neve fresca.
Mascarados e Adivinhações: A tradição russa de se fantasiar e tentar prever o futuro no início do ano (o que traz um paralelo direto com nossas resoluções de Ano Novo modernas).
A Noite de Natal: Cenas que capturam o calor doméstico contra o frio implacável do exterior, simbolizando a resistência da vida diante da morte.
O Inverno como Personagem
Em Guerra e Paz, o inverno não é apenas um cenário, mas um agente da História. É o inverno russo que derrota o exército de Napoleão, transformando a estação do "fim de ano" em um símbolo de purificação e vitória nacional russa.
Por que Ler Guerra e Paz no Ano Novo?
A iniciativa de ler o livro em janeiro (muitas vezes dividindo a leitura em pequenos capítulos diários ao longo do ano) transformou-se em um ritual de resiliência.
1. Um Compromisso com a Profundidade
Iniciar o ano com Tolstói é uma declaração de intenções contra a superficialidade da era digital. Exige paciência, atenção e entrega — virtudes que todos desejamos cultivar em um Ano Novo.
2. A Jornada de Pierre Bezukhov
Pierre é o avatar do homem que está constantemente tentando "começar de novo". Ele entra em seitas, tenta administrar suas terras, entra na Maçonaria e busca o sentido da vida em meio ao sofrimento. Sua busca por renovação é a essência do sentimento de virada de ano.
3. A Perspectiva Épica
Ao acompanhar a transição dos anos de 1805 a 1820 na obra, o leitor ganha uma perspectiva única sobre como os grandes eventos históricos afetam as pequenas vidas individuais. É um exercício de humildade e esperança para enfrentar o ano que começa.
Estrutura e Estilo: A Grandiosidade de Tolstói
Tolstói não escreve apenas sobre a guerra; ele escreve sobre a paz interior. A estrutura do livro alterna entre os campos de batalha (onde a História é feita) e as salas de estar (onde a vida é sentida).
Humanismo: A capacidade de Tolstói de entrar na mente de um imperador ou de um soldado raso.
Realismo Psicológico: A forma como ele descreve a sensação de ver o céu pela primeira vez (como o Príncipe Andrei em Austerlitz) evoca o tipo de epifania que muitas vezes buscamos no Ano Novo.
Perguntas Frequentes sobre Guerra e Paz (FAQ)
1. O livro realmente começa no Ano Novo?
Cronologicamente, não. Começa em julho de 1805. No entanto, sua escala épica e o tom de "grande começo" fizeram com que leitores ao redor do mundo adotassem o livro como uma leitura tradicional de janeiro.
2. Qual a relação entre Napoleão e o Ano Novo na obra?
Napoleão é visto como a força disruptiva que encerra o antigo mundo da aristocracia russa. Sua invasão traz um "novo tempo" de sofrimento, mas também de redescoberta espiritual para a Rússia.
3. É difícil ler Guerra e Paz?
A linguagem de Tolstói é clara e direta. A dificuldade reside no volume de páginas e na quantidade de personagens. Ler um pouco a cada dia, começando no Ano Novo, é a melhor estratégia para vencer o desafio.
4. Existe uma edição recomendada?
Para leitores de língua portuguesa, as traduções diretas do russo (como as de Rubens Figueiredo ou da editora 34) são as mais indicadas para capturar a sonoridade e o ritmo original de Tolstói.
Conclusão: Um Brinde à Grande Literatura
Terminar ou começar Guerra e Paz no período do Ano Novo é mais do que um desafio literário; é uma experiência transformadora. Através da recepção de Anna Pavlovna e das batalhas sangrentas, Tolstói nos ensina que a vida é um fluxo contínuo de começos e fins.
Como as fofocas de salão que abrem o livro mostram, o mundo pode estar acabando lá fora, mas a busca humana por conexão, propósito e renovação nunca cessa. Que tal fazer deste clássico a sua maior resolução para o próximo ciclo?
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(*) Notas sobre a ilustração:
A ilustração propõe uma síntese visual poderosa de Guerra e Paz, de Liev Tolstói, condensando em uma única cena os grandes eixos temáticos do romance: o contraste entre guerra e vida social, o fluxo do tempo histórico e o destino individual diante das forças coletivas.
A composição é dividida simbolicamente em dois mundos. À esquerda, domina o cenário da guerra: um campo de batalha coberto de neve, soldados em retirada, fumaça, fogo ao longe e a silhueta de igrejas russas sob um céu noturno turbulento. Em primeiro plano, um jovem oficial ferido repousa no chão, olhando para o céu — imagem que remete diretamente às reflexões existenciais dos personagens de Tolstói, especialmente à experiência da guerra como revelação da pequenez humana diante da imensidão da vida e da história.
À direita, surge o universo oposto: um salão aristocrático iluminado por lustres de cristal, onde a nobreza russa celebra o Ano Novo. Homens e mulheres elegantemente vestidos conversam, brindam e dançam, aparentemente alheios à tragédia que se desenrola fora das paredes do palácio. Esse contraste visual explicita a crítica central de Tolstói à superficialidade da alta sociedade e à distância entre a elite social e o sofrimento real provocado pela guerra.
No centro da imagem, funcionando como eixo simbólico, está um livro aberto, sobre o qual repousa uma ampulheta, e abaixo dele um relógio antigo marcando a passagem do tempo. Esses elementos representam a dimensão filosófica do romance: o tempo histórico que avança inexoravelmente, a memória registrada na narrativa e a ideia de que os indivíduos são atravessados por forças maiores — políticas, sociais e históricas — que escapam ao controle pessoal.
A presença de confetes e fogos de artifício, associada à inscrição “Com o Ano Novo”, cria uma ironia visual: enquanto a sociedade festeja a renovação do tempo, a guerra continua ceifando vidas. Tolstói questiona, assim, o sentido de progresso, glória e heroísmo, contrapondo celebração e destruição.
Dessa forma, a ilustração traduz visualmente a essência de Guerra e Paz: um romance monumental que não se limita a narrar batalhas ou romances aristocráticos, mas investiga profundamente a condição humana, o papel do indivíduo na história e a tensão permanente entre a vida privada e os grandes acontecimentos que moldam o destino coletivo.
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