O cenário cultural brasileiro do final do século XIX e início do XX não seria o mesmo sem a verve satírica e a produtividade incansável de Artur Azevedo. Entre contos, crônicas e peças teatrais, o autor maranhense consolidou-se como o grande cronista dos costumes da capital federal. Dentro de sua vasta produção, o conto "A 'Não-me-toques'!" destaca-se como uma pequena joia de observação psicológica e social, utilizando o humor para desmascarar as hipocrisias e as etiquetas rígidas da sociedade burguesa da época.
Neste artigo, mergulharemos na estrutura desta narrativa, compreendendo como Azevedo utiliza a linguagem e a ironia para construir uma crítica que, apesar de datada em seu contexto, permanece surpreendentemente atual em sua análise do comportamento humano.
O Contexto Histórico: A Belle Époque Carioca
Para entender "A 'Não-me-toques'!", é preciso situar Artur Azevedo no Rio de Janeiro da virada do século. Era o período da Belle Époque, onde o Brasil buscava espelhar-se em Paris. A elite carioca valorizava as aparências, o "bom tom" e uma série de normas de conduta que muitas vezes beiravam o absurdo.
Artur Azevedo: O Observador da Corte
Azevedo não era apenas um escritor; ele era um homem do teatro. Essa característica transparece em seus contos. Suas histórias possuem um ritmo ágil, diálogos vívidos e uma construção de cena que remete diretamente às comédias de costume. Em "A 'Não-me-toques'!", o autor foca em uma figura feminina que personifica o excesso de melindre e a afetação da época.
Análise da Obra: Quem é a "Não-me-toques"?
O título "A 'Não-me-toques'!" faz referência tanto a uma planta sensível (a mimosa) quanto a um tipo social específico: a mulher que se ofende com qualquer proximidade física ou quebra de protocolo, mantendo uma barreira intransponível de reserva.
Estilo Narrativo e Ironia
Artur Azevedo utiliza um narrador que observa a situação com um distanciamento irônico. A linguagem é clara e elegante, característica da linguagem literária clássica, mas permeada por termos que buscam a expressividade da fala urbana.
A Caracterização da Personagem: A protagonista é descrita através de suas reações exageradas diante de situações banais. O "não-me-toques" não é apenas uma barreira física, mas um escudo psicológico de superioridade.
O Conflito: Geralmente, as tramas de Azevedo giram em torno de um mal-entendido ou de um encontro social que coloca à prova a fachada de bons costumes dos personagens.
A Função do Humor
O humor em "A 'Não-me-toques'!" não é a gargalhada gratuita, mas o riso de reconhecimento. Azevedo convida o leitor a rir das convenções sociais que nós mesmos criamos e que, muitas vezes, nos tornam prisioneiros de comportamentos artificiais.
Temas Recorrentes e Relevância Literária
Assim como em suas peças de teatro de revista, Artur Azevedo utiliza este conto para discutir a identidade brasileira em formação.
1. O Contraste entre Essência e Aparência
Um dos temas centrais da obra é a fragilidade das máscaras sociais. A personagem "Não-me-toques" luta para manter uma imagem de pureza e inacessibilidade, mas a realidade da vida cotidiana e as interações humanas inevitavelmente rompem essa bolha.
2. A Condição Feminina na Época
Embora o tom seja de sátira, a obra permite uma reflexão sobre as pressões exercidas sobre as mulheres no século XIX. A exigência de um comportamento impecável e quase inumano muitas vezes resultava em figuras como a descrita no conto: nervosas, sensíveis ao extremo e socialmente isoladas.
Perguntas Comuns sobre Artur Azevedo e sua Obra
Qual a importância de Artur Azevedo para o teatro brasileiro?
Artur Azevedo é considerado o consolidador da comédia de costumes e do teatro de revista no Brasil. Ele lutou incansavelmente pela construção do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e pela profissionalização do artista dramático nacional.
O conto "A 'Não-me-toques'!" ainda é atual?
Sim. Embora os protocolos sociais tenham mudado, o tipo psicológico da pessoa que utiliza o melindre e a "ofensa fácil" como forma de controle social ou distinção ainda é muito comum nas redes sociais e nas relações interpessoais modernas.
Como a linguagem literária de Azevedo se diferencia de seus contemporâneos?
Diferente de autores mais densos ou pessimistas do Naturalismo, Artur Azevedo prefere a leveza e a fluidez. Sua escrita é focada na ação e no diálogo, buscando uma comunicação direta com o público, sem perder o rigor gramatical e a elegância.
Conclusão: O Legado de um Mestre da Ironia
Ler "A 'Não-me-toques'!" é fazer uma viagem no tempo para um Rio de Janeiro de carruagens e luvas de pelica, mas é também olhar para um espelho. Artur Azevedo, com sua capacidade de captar o ridículo humano, ensina-nos que a rigidez excessiva é, muitas vezes, apenas uma forma de esconder nossas próprias inseguranças.
A obra deste autor maranhense continua sendo uma porta de entrada essencial para quem deseja entender a formação da alma brasileira e o desenvolvimento da nossa literatura urbana. Azevedo provou que é possível fazer crítica social profunda através do riso, transformando o cotidiano em arte eterna.
(*) Notas sobre a ilustração:
A ilustração retrata uma cena social do final do século XIX, ambientada em um salão burguês elegante, com cortinas pesadas, quadros nas paredes e um público numeroso, bem-vestido, que observa atentamente o acontecimento central. O traço e a composição remetem às gravuras satíricas e caricaturais da imprensa ilustrada oitocentista, muito associadas ao teatro e à crônica de costumes.
No centro da composição, destaca-se a personagem feminina que dá título à cena: A “Não-me-toques”!, de Artur Azevedo. Vestida com um traje sofisticado, de mangas bufantes e saia rodada, e usando um chapéu exuberante adornado com plumas — típico da moda da Belle Époque —, ela se inclina para trás em um gesto brusco de recusa. O braço erguido e a expressão facial de surpresa e indignação indicam uma reação imediata a uma aproximação considerada inadequada.
À sua frente, um homem de bigode, igualmente elegante, parece recuar, com o corpo inclinado e as mãos levantadas, como alguém repreendido em público. O movimento sugere uma quebra das normas de etiqueta ou de decoro, elemento central da comicidade na obra de Artur Azevedo, conhecido por explorar, com ironia, os pequenos conflitos morais da sociedade urbana.
Ao redor, outras mulheres e homens assistem à cena com expressões de curiosidade, espanto ou julgamento silencioso. As figuras femininas, com vestidos elaborados e chapéus ornamentados, reforçam o ambiente de vigilância social, em que gestos, olhares e comportamentos são imediatamente avaliados. O pequeno vaso com planta em primeiro plano contribui para a atmosfera doméstica e respeitável, em contraste com a tensão do episódio.
Assim, a ilustração traduz visualmente o espírito da peça A “Não-me-toques”!, de Artur Azevedo: uma crítica bem-humorada aos costumes da burguesia, às convenções de gênero e às fronteiras do toque, do recato e da moralidade, transformando um incidente trivial em sátira social e teatral.
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