Em janeiro de 2002, o mundo voltava os olhos para Porto Alegre, no Brasil, onde o Fórum Social Mundial se consolidava como o contraponto necessário ao Fórum Econômico de Davos. Foi nesse cenário de efervescência social que o Nobel de Literatura português, José Saramago, proferiu um dos discursos mais contundentes da história contemporânea: "Este mundo da injustiça globalizada".
Neste artigo, mergulhamos na profundidade ética deste texto, analisando como Saramago utiliza a alegoria e a crítica política para denunciar a morte da justiça e a fragilidade das democracias modernas perante o avanço desenfreado do poder econômico.
A Alegoria do Camponês de Florença: A Justiça está Morta
Saramago inicia sua reflexão com uma parábola poderosa. Ele nos transporta para uma aldeia nos arredores de Florença, no século XVI. O som de um sino a finados interrompe o trabalho dos camponeses. No entanto, ninguém havia morrido. O autor da badalada era um camponês que, após ter suas terras roubadas por um senhor poderoso e ser ignorado pelas instituições, decidiu anunciar ao mundo a morte da Justiça.
A Justiça Pedestre vs. A Justiça Retórica
Para Saramago, a morte da justiça não é um evento único, mas um processo cotidiano. Ele diferencia dois tipos de justiça:
A Justiça Retórica: Aquela que se veste de túnicas, que se perde em burocracias e "flores de vã retórica judicialista", e que muitas vezes vicia os pesos da balança em favor dos poderosos.
A Justiça Pedestre: Uma justiça que deveria ser a "companheira quotidiana dos homens", tão essencial para o espírito quanto o alimento é para o corpo.
Esta distinção é crucial para compreender Este mundo da injustiça globalizada. Saramago argumenta que a justiça deveria ser uma emanação espontânea da sociedade, baseada no imperativo moral do respeito ao direito de ser de cada indivíduo.
O Embate entre Direitos Humanos e Globalização Econômica
Um dos pontos mais críticos do discurso de Saramago é a sua visão sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ele a descreve como um "código de aplicação prática" que está sendo sistematicamente silenciado e desprezado.
O Rato e o Gato: Uma Fábula Moderna
Saramago utiliza uma metáfora zoológica para descrever a geopolítica atual: o "rato" dos direitos humanos está prestes a ser devorado pelo "gato" da globalização econômica. Para o autor, a economia de mercado não possui ética intrínseca; ela obedece a estratégias de domínio que ignoram o bem comum.
A Crítica aos Partidos e Sindicatos
O autor não poupa as instituições tradicionais de esquerda. Ele aponta que:
Partidos Políticos: Estão anquilosados em fórmulas caducas e são incapazes de enfrentar as realidades brutais do mundo atual.
Sindicatos: Tornaram-se dóceis e burocratizados, contribuindo para o "adormecimento social" que facilita a expansão da injustiça globalizada.
A Ilusão da Democracia no Século XXI
Saramago levanta uma questão provocativa: vivemos realmente em democracias? Embora o sistema permita o voto, ele argumenta que o poder real não reside nos parlamentos, mas nas empresas multinacionais e no poder financeiro.
O Governo como Comissário Político do Capital
Na visão de Saramago apresentada em Este mundo da injustiça globalizada, os governos eleitos tornaram-se meros "comissários políticos" do poder econômico. Sua função principal seria produzir leis que favoreçam o mercado, maquiando-as com publicidade oficial para evitar protestos.
A Urgência de um Debate Mundial
O autor clama por um debate honesto sobre a decadência do sistema democrático. Ele sugere que discutimos tudo — da ecologia ao lixo —, mas aceitamos a democracia como um dado imutável e intocável, enquanto ela se esvazia de sentido e se torna uma "missa laica" de gestos inócuos.
A Nova Voz dos Sinos: Movimentos de Resistência
Apesar do tom sombrio, o texto de Saramago não termina em niilismo. Ele identifica "novos sinos" que dobram pelo mundo. Esses sinos não choram a morte da justiça, mas convocam para a ação.
Movimentos Sociais: São a voz da resistência que pugna por uma nova justiça distributiva.
Ação Cidadã: A necessidade de intervenção direta para resgatar a dignidade racional e sensível.
A conclusão do discurso é um convite ao silêncio para ouvir o sino do camponês de Florença, que volta a subir à torre. É um chamado para despertar do adormecimento social e reconhecer que a injustiça de um é a injustiça de todos.
Conclusão: O Legado Ético de Saramago
O texto lido por José Saramago no Fórum Social Mundial de 2002 permanece assustadoramente atual. Este mundo da injustiça globalizada nos desafia a olhar para além das aparências institucionais e a lutar por uma justiça que seja, de fato, o sinônimo mais exato do ético. O camponês de Florença somos todos nós quando nos recusamos a aceitar o silêncio diante da expoliação e da desigualdade.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Qual o contexto histórico do discurso "Este mundo da injustiça globalizada"?
O texto foi lido no encerramento do II Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, em 2002. O evento era um espaço de debate para movimentos que se opunham ao neoliberalismo e à globalização excludente.
2. Quem é o "camponês de Florença" mencionado por Saramago?
É uma figura alegórica de uma história do século XVI. Ele toca o sino da igreja a finados para protestar contra a perda de suas terras para um senhor ganancioso, afirmando que "a Justiça morreu".
3. O que Saramago defende como solução para a crise da democracia?
Ele defende um debate mundial sobre as causas da decadência democrática e a aplicação rigorosa da Declaração Universal dos Direitos Humanos como programa político superior aos interesses econômicos.
4. Por que Saramago critica os sindicatos e partidos de esquerda?
Ele acredita que essas organizações se burocratizaram e se tornaram impotentes ou cúmplices do processo de globalização, falhando em proteger os trabalhadores e os direitos básicos.
(*) Notas sobre a ilustração:
A ilustração “Este mundo da injustiça globalizada”, associada ao pensamento crítico de José Saramago, constrói uma poderosa alegoria visual sobre as desigualdades estruturais do mundo contemporâneo, articulando passado e presente sob o signo da dominação, da hipocrisia institucional e da desumanização.
No centro superior, o título funciona como chave interpretativa: a injustiça não é episódica, mas sistêmica e global, atravessando fronteiras, regimes políticos e épocas históricas. A composição remete deliberadamente a gravuras antigas, evocando a continuidade histórica da exploração, como se o mundo moderno apenas tivesse sofisticado mecanismos já antigos de opressão.
À esquerda, a cena do sino tocado por um homem diante de uma multidão lembra anúncios públicos medievais ou coloniais. A legenda “conde ou marquês sem escrúpulos” sugere as elites aristocráticas de outrora, cuja autoridade se exercia de modo arbitrário e violento. Essa figura histórica funciona como espelho das elites atuais: muda-se a forma, mas permanece a lógica da dominação.
À direita, a Justiça sentada no trono, vendada e segurando a balança, aparece ironicamente acompanhada da inscrição “Justiça morta”. A imagem subverte o ideal clássico de imparcialidade: a justiça não apenas falha, ela está capturada, esvaziada e instrumentalizada. O trono indica poder institucional; a venda, que deveria simbolizar neutralidade, aqui sugere cegueira deliberada.
No centro da imagem, um dos símbolos mais fortes: uma mão mecânica, adornada por engrenagens e cifrões, esmaga um pequeno animal identificado como “Direitos Humanos”. A desproporção entre a mão e o ser vivo evidencia a fragilidade dos direitos frente ao capital, à tecnocracia e aos interesses econômicos globais. O animal, indefeso, representa a vida concreta, vulnerável, reduzida a objeto descartável pelo sistema.
Na parte inferior, a cidade moderna, com arranha-céus e multidões anônimas, revela a massificação e a alienação urbana. A população aparece homogênea, cansada, silenciosa, enquanto, em primeiro plano, dois homens de terno conversam de forma cordial — provável alusão às elites políticas e econômicas, que negociam entre si enquanto a maioria permanece excluída. Ao fundo, placas como “Publicidade Oficial” indicam o papel da propaganda e do discurso institucional na manutenção da ordem injusta.
Assim, a ilustração traduz visualmente uma das ideias centrais de Saramago: a injustiça moderna não se impõe apenas pela força, mas pela normalização, pela linguagem, pela burocracia e pela indiferença coletiva. O mundo globalizado, longe de corrigir desigualdades, apenas as reorganiza em escala planetária, tornando-as mais eficientes, mais invisíveis — e, por isso mesmo, mais cruéis.
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