quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O Enigma de O Aleph: Jorge Luis Borges e a Geometria do Tempo Eterno

A ilustração propõe uma leitura visual e simbólica de O Aleph, de Jorge Luis Borges, traduzindo em imagem a ideia central do conto: a coexistência simultânea de todos os tempos, lugares e experiências em um único ponto do espaço.  No centro da composição está um grande olho, representação direta do Aleph, o ponto secreto que permite ver, ao mesmo tempo e sem confusão, a totalidade do universo. Dentro desse olho aparece um microcosmo urbano e humano, sugerindo que o mundo inteiro — cidades, histórias, memórias e destinos — cabe em um instante de visão absoluta. As linhas geométricas e luminosas que irradiam do olho evocam a infinitude, a ordem secreta do cosmos e as conexões invisíveis entre todas as coisas.  Diante do Aleph, surgem duas figuras masculinas, uma delas associável ao narrador borgiano e a outra ao personagem de Carlos Argentino Daneri. Ambos parecem hesitar, discutir ou confrontar-se diante da revelação, simbolizando o conflito central do conto: a tensão entre a experiência genuína do infinito e sua tentativa de ser apropriada, descrita ou instrumentalizada pela linguagem e pela ambição humana.  Ao redor do núcleo central, uma série de vinhetas circulares apresenta cenas de diferentes épocas, culturas e geografias: cidades antigas e modernas, templos, multidões, indivíduos solitários, rituais, viagens e paisagens. Essa disposição circular reforça a ideia de tempo cíclico, recorrente na obra de Borges, onde passado, presente e futuro coexistem e se refletem mutuamente.  A presença de símbolos como a serpente que morde a própria cauda (ouroboros), arquiteturas clássicas, figuras religiosas e cenas cotidianas sugere a fusão entre o sagrado e o profano, o erudito e o banal, o eterno e o efêmero. Tudo tem o mesmo peso ontológico quando visto do Aleph.  A paleta sóbria e o estilo gráfico que remete a gravuras antigas reforçam o caráter filosófico e metafísico da obra, evocando bibliotecas, manuscritos e enciclopédias — espaços privilegiados do imaginário borgiano.  Assim, a ilustração não apenas representa o conto, mas o interpreta: mostra o Aleph como uma experiência vertiginosa, na qual o infinito se revela de forma total, silenciosa e impossível de ser plenamente traduzida em palavras, reafirmando a obsessão de Borges pelo tempo, pela eternidade e pelos limites da percepção humana.

A literatura universal possui marcos que alteram nossa percepção da realidade, e O Aleph, de Jorge Luis Borges, é indiscutivelmente um deles. Publicado originalmente em 1945 e dando título à famosa coletânea de 1949, este conto não é apenas uma narrativa sobre obsessão ou rivalidade literária; é uma exploração metafísica sobre a coexistência de todos os tempos e espaços em um único ponto.

Neste artigo, mergulharemos no universo borgiano para entender como o autor utiliza O Aleph para desafiar a linearidade do tempo, explorando conceitos de circularidade, eternidade e a simultaneidade que define sua obra-prima.

Introdução ao Infinito: O que é O Aleph?

Na obra de Borges, o Aleph é um ponto no espaço que contém todos os outros pontos. Quem olha para ele vê o universo inteiro simultaneamente, sem confusão e sem transparência. Localizado no porão de uma casa antiga em Buenos Aires, ele serve como o dispositivo central para Borges discutir a limitação da linguagem humana diante do infinito.

No entanto, para compreender O Aleph em sua totalidade, precisamos olhar além do objeto físico e focar na obsessão de Borges pelo tempo. Para o autor argentino, o tempo não é uma flecha que avança, mas um labirinto, um círculo ou, em última instância, uma esfera cujo centro está em toda parte.

O Tempo Cíclico e a Rejeição da Linearidade

Borges sempre demonstrou um profundo desdém pela visão histórica linear. Para ele, a ideia de que o tempo flui do passado para o futuro é uma convenção útil, mas filosoficamente pobre. Em O Aleph e em outros contos da mesma coletânea, ele propõe modelos alternativos.

O Modelo do Tempo Circular

Inspirado por filosofias orientais e pelo "Eterno Retorno" de Nietzsche, Borges sugere que os eventos humanos se repetem infinitamente. Se o tempo é infinito, as combinações de eventos devem, necessariamente, se repetir.

A Simultaneidade Absoluta

Diferente do tempo circular, onde as coisas acontecem uma após a outra em ciclos, O Aleph apresenta a simultaneidade. No Aleph, o "ontem" não precede o "amanhã"; ambos estão ali, visíveis no mesmo instante. É a eternidade não como um tempo muito longo, mas como a ausência total de tempo sucessivo.

A Eternidade em Outras Obras: "O Imortal" e "Os Teólogos"

Para entender a profundidade de O Aleph, é essencial analisar como Borges distribui suas ideias sobre a imortalidade e o tempo em contos correlatos.

O Fardo da Imortalidade em "O Imortal"

Em "O Imortal", Borges desconstrói o desejo humano pela vida eterna. Ele apresenta a ideia de que, para um ser imortal, todas as coisas acabam por acontecer a todos os homens. Se o tempo é infinito, o indivíduo perde sua identidade.

  • O conceito: Se todos os atos possíveis já foram realizados, o indivíduo é todos os homens (e ninguém).

  • A conexão com O Aleph: Assim como o Aleph contém todos os lugares, o Imortal contém todos os destinos.

A Identidade Única em "Os Teólogos"

Neste conto, dois rivais teológicos passam a vida combatendo as heresias um do outro. Ao morrerem e chegarem ao reino divino, descobrem que, para Deus, eles eram a mesma pessoa. Aqui, o tempo e a individualidade se fundem. A circularidade é tamanha que os opostos se tornam idênticos na eternidade.

A Redenção em "A Outra Morte"

Borges explora a ideia de que Deus (ou o tempo) pode modificar o passado. Ao reescrever a história de um homem que morreu como covarde para que ele "tenha morrido" como herói, Borges desafia a imutabilidade do tempo linear, sugerindo que o passado é tão plástico quanto o futuro.

A Estrutura de O Aleph: Linguagem vs. Infinito

Um dos maiores desafios que Borges apresenta em O Aleph é a impossibilidade de descrever o infinito através de uma ferramenta linear: a linguagem.

  1. A Sucessão das Palavras: Para escrever, precisamos colocar uma palavra após a outra.

  2. A Visão do Aleph: O Aleph é visto tudo de uma vez.

  3. O Fracasso Literário: O narrador (o próprio "Borges" ficcional) admite que sua descrição é apenas um pálido reflexo da experiência, pois a linguagem é inerentemente temporal e sucessiva.

Perguntas Comuns sobre O Aleph e Jorge Luis Borges

O que o Aleph simboliza na obra de Borges? O Aleph simboliza o ponto de convergência de todo o conhecimento e experiência humana. É uma metáfora para a totalidade do universo e para a busca frustrada do homem em compreender o infinito através da razão e da palavra.

Qual a relação entre o Aleph e a Cabala? "Aleph" é a primeira letra do alfabeto hebraico. Na tradição cabalística, ela representa a unidade de Deus e o princípio de todas as coisas. Borges utiliza essa carga mística para elevar o objeto do porão de Daneri a um nível espiritual e metafísico.

Borges acreditava realmente no tempo circular? Borges via o tempo circular mais como uma possibilidade estética e filosófica do que como um dogma. Para ele, as ideias eram "ferramentas de espanto". Ele preferia a dúvida intelectual à certeza científica, usando esses modelos temporais para criar o que chamava de "fantástica metafísica".

Conclusão: O Legado da Eternidade Borgiana

Ler O Aleph é aceitar um convite para o desorientamento. Ao rejeitar o tempo linear, Jorge Luis Borges nos força a encarar a possibilidade de que cada momento de nossa vida contém, em potência, toda a história da humanidade.

O tempo circular e a simultaneidade do Aleph não são apenas truques literários; são reflexões profundas sobre nossa própria insignificância e, paradoxalmente, sobre nossa conexão absoluta com o cosmos. Na obra de Borges, somos todos o Aleph: um ponto ínfimo onde o universo inteiro se encontra para ser observado.

A imagem apresenta um design simples e acolhedor, com fundo marrom. No centro, há uma pilha de livros coloridos — vermelho, azul, verde e amarelo — empilhados de forma irregular. Sobre esses livros, está sentado um gato preto estilizado, de olhos amarelos grandes e expressivos, com formato minimalista e elegante.  Na parte superior, em letras grandes e brancas, aparece o nome “Ariadne”. Na parte inferior, também em branco, lê-se “Nossa Livraria Online”. O conjunto transmite a ideia de uma livraria charmosa, aconchegante e com personalidade, associando livros ao símbolo do gato — frequentemente ligado à curiosidade, mistério e imaginação.

Conhece nossa Livraria Online Ariadne!!!

(*) Notas sobre a ilustração:

A ilustração propõe uma leitura visual e simbólica de O Aleph, de Jorge Luis Borges, traduzindo em imagem a ideia central do conto: a coexistência simultânea de todos os tempos, lugares e experiências em um único ponto do espaço.

No centro da composição está um grande olho, representação direta do Aleph, o ponto secreto que permite ver, ao mesmo tempo e sem confusão, a totalidade do universo. Dentro desse olho aparece um microcosmo urbano e humano, sugerindo que o mundo inteiro — cidades, histórias, memórias e destinos — cabe em um instante de visão absoluta. As linhas geométricas e luminosas que irradiam do olho evocam a infinitude, a ordem secreta do cosmos e as conexões invisíveis entre todas as coisas.

Diante do Aleph, surgem duas figuras masculinas, uma delas associável ao narrador borgiano e a outra ao personagem de Carlos Argentino Daneri. Ambos parecem hesitar, discutir ou confrontar-se diante da revelação, simbolizando o conflito central do conto: a tensão entre a experiência genuína do infinito e sua tentativa de ser apropriada, descrita ou instrumentalizada pela linguagem e pela ambição humana.

Ao redor do núcleo central, uma série de vinhetas circulares apresenta cenas de diferentes épocas, culturas e geografias: cidades antigas e modernas, templos, multidões, indivíduos solitários, rituais, viagens e paisagens. Essa disposição circular reforça a ideia de tempo cíclico, recorrente na obra de Borges, onde passado, presente e futuro coexistem e se refletem mutuamente.

A presença de símbolos como a serpente que morde a própria cauda (ouroboros), arquiteturas clássicas, figuras religiosas e cenas cotidianas sugere a fusão entre o sagrado e o profano, o erudito e o banal, o eterno e o efêmero. Tudo tem o mesmo peso ontológico quando visto do Aleph.

A paleta sóbria e o estilo gráfico que remete a gravuras antigas reforçam o caráter filosófico e metafísico da obra, evocando bibliotecas, manuscritos e enciclopédias — espaços privilegiados do imaginário borgiano.

Assim, a ilustração não apenas representa o conto, mas o interpreta: mostra o Aleph como uma experiência vertiginosa, na qual o infinito se revela de forma total, silenciosa e impossível de ser plenamente traduzida em palavras, reafirmando a obsessão de Borges pelo tempo, pela eternidade e pelos limites da percepção humana.


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