Publicado em 1963, O Jogo da Amarelinha (Rayuela), do mestre argentino Julio Cortázar, não é apenas um romance; é um manifesto de rebeldia contra a estrutura linear do pensamento ocidental. Se você busca uma obra que desafie sua percepção de realidade, tempo e narrativa, este clássico do "boom" latino-americano é o seu destino final.
Introdução: O Romance que Quebrou as Regras
Quando Julio Cortázar lançou O Jogo da Amarelinha, ele não entregou apenas uma história de amor e desilusão entre Paris e Buenos Aires. Ele entregou um "tabuleiro" de infinitas possibilidades. A obra é famosa por sua estrutura revolucionária, que permite ao leitor escolher seu próprio caminho, tornando-se um coautor da trama.
Neste artigo, exploraremos a profundidade filosófica de Horacio Oliveira, a mística de La Maga e como a estrutura "hipertextual" de Cortázar antecipou a era digital décadas antes da internet.
A Estrutura Dual de O Jogo da Amarelinha
Cortázar apresenta, logo no início, um "Tablado de Instruções". Ele sugere que o livro é, na verdade, muitos livros, mas destaca duas formas principais de abordagem:
1. A Leitura Linear (Do Lado de Lá ao Lado de Cá)
Nesta modalidade, o leitor segue do capítulo 1 ao 56. A história encerra-se com uma sensação de incompletude proposital, focando na trajetória linear dos personagens e nos eventos cronológicos. É a forma "passiva" de leitura, que o autor frequentemente criticava em seus ensaios.
2. A Leitura Salteada (O Caminho do Infinito)
Aqui, o leitor segue a ordem proposta pelo autor, saltando entre os 155 capítulos. Esta sequência inclui os chamados "Capítulos Prescindíveis", que de prescindíveis não têm nada: são colagens, recortes de jornal, reflexões filosóficas e sub-tramas que dão a textura de caos e profundidade necessária para compreender o universo de O Jogo da Amarelinha.
Personagens e Cenários: Entre Paris e Buenos Aires
O Lado de Lá: A Boemia em Paris
A primeira parte do livro situa-nos em Paris, onde Horacio Oliveira, um intelectual argentino, vive uma relação intensa e caótica com La Maga (Lucía). Eles fazem parte do Clube da Serpente, um grupo de intelectuais que passa noites discutindo jazz, metafísica e literatura enquanto vagam pelas pontes do Rio Sena.
Horacio Oliveira: O protagonista angustiado, em busca de um "centro" que nunca alcança.
La Maga: Representa a intuição, a pureza e a conexão direta com o mundo, algo que a intelectualidade de Horacio o impede de atingir.
O Lado de Cá: O Retorno a Buenos Aires
Após o desaparecimento de La Maga e eventos trágicos em Paris, Oliveira retorna à Argentina. Lá, ele encontra seu duplo, Traveler, e a esposa deste, Talita. O cenário muda das ruas cinzentas de Paris para um hospital psiquiátrico e o cotidiano portenho, onde o surrealismo começa a invadir a realidade de forma mais agressiva.
Temas Centrais: Caos, Jazz e a Busca de Sentido
O Papel do Jazz na Narrativa
O jazz não é apenas trilha sonora em O Jogo da Amarelinha; ele é a própria estrutura do texto. Assim como em uma jam session, Cortázar utiliza o improviso e a quebra de ritmo para conduzir o leitor. A música serve como metáfora para a liberdade que Oliveira tanto busca — uma fuga das "casas" numeradas da amarelinha social em direção ao "Céu".
O "Leitor-Fêmea" vs. O "Leitor-Cúmplice"
Cortázar usa termos polêmicos para a época para distinguir dois tipos de público:
Leitor-Fêmea (ou passivo): Aquele que quer que a história seja contada sem esforço, aceitando a linearidade.
Leitor-Cúmplice: Aquele que aceita o desafio de montar o quebra-cabeça, que se arrisca nos saltos de capítulos e que aceita o caos como parte da beleza.
Por que ler O Jogo da Amarelinha hoje?
Apesar de ter sido escrito nos anos 60, a obra permanece extremamente atual. Vivemos em uma era de hiperlinks, onde nossa atenção salta constantemente de um ponto a outro. O Jogo da Amarelinha foi o precursor literário dessa experiência fragmentada.
Experimentação Linguística: Cortázar inventa línguas (como o Gliglico) para descrever o indescritível.
Filosofia do Cotidiano: O livro questiona se as convenções sociais são apenas barreiras que nos impedem de viver a "verdadeira" vida.
A Amarelinha como Metáfora: O jogo infantil de empurrar a pedrinha até o topo é a jornada humana em busca do absoluto, do "Céu" ou da iluminação.
Perguntas Comuns sobre O Jogo da Amarelinha
1. É difícil ler O Jogo da Amarelinha seguindo a ordem dos saltos? Não é difícil, mas exige paciência. É recomendável usar dois marcadores de página: um para o capítulo atual e outro para o próximo na sequência sugerida por Cortázar. A recompensa é uma imersão muito mais profunda na psicologia dos personagens.
2. Qual a diferença entre a versão linear e a completa? A versão linear (cap. 1-56) foca na trama romântica e existencial. A versão completa (com os saltos) transforma o livro em uma experiência filosófica, onde o autor discute a própria escrita e a impossibilidade de capturar a totalidade da vida em palavras.
3. O que são os capítulos prescindíveis? São fragmentos de textos, citações de outros autores e pensamentos soltos que o personagem Morelli (um alter ego de Cortázar) utiliza para teorizar sobre o "novo romance". Eles fornecem o contexto intelectual para as ações de Oliveira.
Conclusão: O Salto para o Desconhecido
O Jogo da Amarelinha não é um livro para se ler uma única vez. É uma obra que se transforma a cada leitura, dependendo do estado de espírito do leitor e do caminho escolhido. Julio Cortázar nos convida a abandonar o conforto da narrativa convencional e a pular, sem medo, nas lacunas do texto. Ao final da jornada, você descobrirá que o "Céu" da amarelinha não é um destino, mas o próprio ato de saltar.
Você está pronto para ser o "leitor-cúmplice" que Cortázar tanto desejou? Comece sua leitura hoje e descubra por que este livro mudou a história da literatura mundial.
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(*) Notas sobre a ilustração:
A ilustração representa de forma simbólica e narrativa O Jogo da Amarelinha (Rayuela), de Julio Cortázar, traduzindo visualmente a estrutura fragmentária, lúdica e existencial do romance.
No centro, vê-se um homem de sobretudo e chapéu, figura que remete a Horacio Oliveira, avançando sobre um tabuleiro de amarelinha em espiral, cujas casas numeradas não seguem uma ordem linear. Esse caminho circular e instável simboliza a proposta do livro: uma leitura não convencional, que pode ser feita de diferentes maneiras, saltando capítulos como quem joga amarelinha, em busca de um sentido que nunca se fixa completamente.
As inscrições “Paris” e “Buenos Aires” nas casas do tabuleiro indicam os dois grandes espaços do romance, que não são apenas cidades geográficas, mas também estados de espírito: Paris como o lugar da reflexão intelectual e da errância, e Buenos Aires como o retorno, a memória e o confronto com a realidade concreta. A travessia entre esses espaços sugere o deslocamento permanente do protagonista, tanto físico quanto interior.
A figura feminina ao fundo, de vestido azul, evoca La Maga, presença central e enigmática da narrativa. Ela aparece de costas, quase inalcançável, reforçando sua condição de mistério, afeto e ausência — alguém que orienta o jogo existencial de Oliveira sem jamais se deixar apreender por completo.
Ao redor do tabuleiro, livros abertos, folhas soltas, instrumentos musicais, um saxofone, um olho flutuante e elementos urbanos constroem um universo caótico e poético. Esses símbolos remetem ao jazz, à literatura, à filosofia e à vigilância da consciência — temas recorrentes em Cortázar. O olho, em especial, sugere a busca por uma percepção ampliada da realidade, um “ver além” do cotidiano trivial.
As setas vermelhas desenhadas sobre a cena reforçam a ideia de movimento, ruptura e leitura não linear, guiando o olhar do observador de maneira semelhante às instruções que o próprio romance oferece ao leitor. Nada é fixo: tudo convida ao salto, ao risco e à experimentação.
Assim, a ilustração sintetiza Rayuela como um jogo existencial e literário, no qual viver, amar, pensar e ler são atos inseparáveis — sempre provisórios, sempre em movimento, sempre à beira do desequilíbrio.
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