O terceiro volume da série Em Busca do Tempo Perdido, intitulado O Caminho de Guermantes (Le Côté de Guermantes), representa um ponto de virada monumental na obra de Marcel Proust. Se nos volumes anteriores o narrador explorava as brumas da infância e as descobertas da adolescência, aqui ele finalmente penetra no santuário que idealizou durante toda a vida: o salão da aristocracia francesa.
Neste artigo, analisamos como Proust utiliza a sua "lente de aumento" literária para dissecar a vaidade, a política e a decadência de uma classe social que vive de aparências, enquanto o tempo, implacável, continua a corroer tudo ao seu redor.
O Santuário Inalcançável: A Fascinação pelo Nome Guermantes
Para o narrador, o nome "Guermantes" não designava apenas uma família, mas uma espécie de linhagem mitológica, herdeira da história da França. Desde a infância em Combray, ele via os Duques de Guermantes como seres divinos, distantes da realidade comum.
A Mudança para o Hotel de Guermantes
A ação de O Caminho de Guermantes começa com a mudança da família do narrador para um apartamento no mesmo prédio do Hotel de Guermantes, em Paris. Essa proximidade física marca o início da desmistificação. O narrador passa a observar obsessivamente a Duquesa de Guermantes, Oriane, tentando decifrar no seu rosto os séculos de história que ele imaginava estarem ali gravados.
O Salão como Campo de Batalha
O livro é famoso por suas longas e detalhadas cenas de jantares e recepções. Nestes espaços, Proust demonstra que a aristocracia não é movida por inteligência ou bondade, mas por um complexo código de etiqueta e exclusão. O prestígio de um convidado pode subir ou descer com um simples movimento de sobrancelha da Duquesa.
O Caso Dreyfus: A Política Invade o Salão
Um dos pilares históricos de O Caminho de Guermantes é o Caso Dreyfus, o escândalo político-militar que dividiu a França no final do século XIX. Proust utiliza este evento real para mostrar como a ideologia e o preconceito permeiam as relações sociais.
Dreyfusards vs. Anti-Dreyfusards: A sociedade parisiense divide-se. Amizades de décadas são rompidas dependendo da posição de cada um sobre a inocência ou culpa do capitão judeu Alfred Dreyfus.
O Antissemitismo Velado: Proust expõe a hipocrisia da elite, que muitas vezes aceita indivíduos judeus ricos (como Charles Swann) em seus salões, mas revela um preconceito profundo e sistêmico assim que a política entra em pauta.
A Fragilidade das Opiniões: O autor observa com ironia como as opiniões políticas nos salões são formadas mais pelo desejo de pertencer ao grupo do que por uma busca pela verdade.
A Morte da Avó: A Invasão da Realidade
No coração de O Caminho de Guermantes, ocorre um dos episódios mais emocionantes e dolorosos de toda a obra: a doença e morte da avó do narrador. Este evento serve como um contraponto brutal às futilidades dos salões aristocráticos.
A Anatomia da Agonia
Proust descreve o declínio físico da avó com uma precisão quase médica e uma sensibilidade poética. A morte não é um evento heróico, mas uma sucessão de momentos degradantes e tristes. Através desta perda, o narrador confronta a ideia de que o tempo e a morte são os únicos poderes verdadeiramente soberanos, indiferentes a títulos de nobreza ou prestígio social.
A Indiferença dos Guermantes
Um momento icônico ocorre quando o narrador tenta falar sobre a saúde de sua avó ou sobre a iminente morte de um amigo (Swann) aos Duques de Guermantes. Eles, preocupados em não perder um jantar ou um baile, desviam o assunto de forma superficial. Para os Guermantes, um sapato da cor errada é uma tragédia maior do que a morte de um ente querido.
Personagens e Dinâmicas de Poder
Além dos Duques, O Caminho de Guermantes aprofunda a relação do narrador com outras figuras essenciais:
Robert de Saint-Loup: O amigo aristocrata do narrador, que representa a nobreza militar e intelectual. Sua relação com a atriz Rachel revela as tensões entre o amor e o status social.
Barão de Charlus: Um dos personagens mais fascinantes de Proust, que ganha destaque neste volume. Sua arrogância, erudição e mistério preparam o terreno para as revelações sobre a sua sexualidade nos volumes seguintes.
Mme. de Villeparisis: O salão dela serve como uma "ante-sala" para o mundo dos Guermantes, onde o narrador começa a aprender as regras do jogo social.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. "O Caminho de Guermantes" é um livro difícil de ler?
É um volume longo e denso, com descrições minuciosas de diálogos e comportamentos sociais. No entanto, é também um dos mais irônicos e engraçados de Proust. Uma vez que o leitor entra no ritmo da "comédia humana" aristocrática, a leitura torna-se fascinante.
2. Qual o papel do tempo neste volume específico?
O tempo aqui aparece como o "grande nivelador". Ele transforma a saúde em doença e os ídolos em pessoas comuns. A admiração que o narrador sentia pelos Guermantes começa a murchar conforme ele percebe o vazio intelectual por trás de seus títulos.
3. Por que o livro é dividido em duas partes?
Tradicionalmente, a divisão reflete a publicação original francesa. A primeira parte foca na vida militar em Doncières e no salão de Mme. de Villeparisis; a segunda, no mergulho definitivo no mundo dos Duques e na morte da avó.
Conclusão: A Descoberta do Vazio
Ao final de O Caminho de Guermantes, o narrador finalmente alcançou o topo da escada social. Ele está lá, jantando com os deuses do seu panteão de infância. Contudo, a lição de Proust é agridoce: o paraíso, uma vez alcançado, deixa de ser paraíso.
O livro nos ensina que o brilho da aristocracia é uma construção da nossa própria imaginação. Ao despir os nobres de suas máscaras, o que sobra são seres humanos limitados, egoístas e tão sujeitos ao esquecimento quanto qualquer camponês. A única nobreza real, sugere o autor, reside na capacidade da arte de capturar a essência dessas vidas antes que o tempo as apague por completo.
(*) Notas sobre a ilustração:
A ilustração inspirada em O Caminho de Guermantes, de Marcel Proust, representa visualmente o universo aristocrático que ocupa lugar central neste volume de Em busca do tempo perdido. A cena se passa em um salão luxuoso, ricamente decorado com lustres, retratos ancestrais e mobiliário elegante, elementos que evocam a longa tradição, o prestígio social e o apego às aparências da alta nobreza francesa.
No centro da composição, figuras masculinas e femininas interagem segundo um rigoroso código de gestos e posturas. Os homens, trajados com sobriedade, parecem desempenhar o papel de mediadores sociais — apresentando, comentando, observando — enquanto as mulheres, vestidas com elaborados vestidos e adornos, encarnam a visibilidade e o brilho do mundo aristocrático. Nada é espontâneo: cada movimento sugere uma encenação cuidadosamente aprendida, característica fundamental do “lado Guermantes”.
A disposição dos personagens reforça a hierarquia social que Proust analisa minuciosamente. Alguns ocupam o centro da atenção, outros permanecem ligeiramente afastados, como espectadores silenciosos que aspiram à inclusão nesse círculo fechado. A conversa, embora invisível ao espectador, é sugerida pelos gestos elegantes e pelas inclinações corporais, indicando que ali se trocam palavras carregadas de prestígio simbólico, ironia velada e distinção social.
O jovem homem em primeiro plano pode ser associado ao narrador proustiano, que observa fascinado esse mundo que durante tanto tempo idealizou. Sua atitude revela admiração, mas também uma certa distância crítica: ele está presente, mas não plenamente integrado. Como na obra de Proust, o acesso ao universo Guermantes não significa a realização de um sonho, mas o início de um desencanto lúcido, em que o esplendor social se revela sustentado por convenções, vaidades e jogos de poder.
Assim, a ilustração não se limita a retratar uma recepção elegante. Ela traduz visualmente um dos temas centrais de O Caminho de Guermantes: a descoberta de que a nobreza, mais do que um ideal elevado, é um teatro social, onde títulos, nomes e tradições moldam identidades e relações. O brilho do salão contrasta com a rigidez das atitudes, refletindo a visão proustiana de um mundo belo, sofisticado, mas profundamente preso às ilusões do prestígio e do tempo que passa.
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