terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Quem Me Dera Ser Onda: Uma Sátira Genial sobre a Angola Pós-Independência

A ilustração dialoga simbolicamente com o conto Quem Me Dera Ser Onda, de Manuel Rui, traduzindo em imagem o desejo de liberdade, fluidez e subversão presente na obra. No centro da cena, um homem simples, vestido de modo modesto e usando chapéu de palha, está sentado sobre uma grande onda do mar. Ele não a enfrenta nem tenta dominá-la; ao contrário, integra-se a ela, como se a onda fosse extensão de seu próprio corpo e de seu desejo.  A frase “QUEM ME DERA SER ONDA”, escrita em destaque no céu, funciona como enunciado poético e político. Assim como no texto de Manuel Rui, o desejo de “ser onda” expressa a vontade de escapar às amarras sociais, às normas rígidas e às estruturas de controle que regulam a vida cotidiana. A onda simboliza o movimento livre, imprevisível e coletivo, em oposição à imobilidade e à ordem imposta.  O cenário marítimo — com o pôr do sol, a praia serena, a palmeira e a pequena embarcação ao fundo — reforça a ideia de horizonte aberto e de possibilidade. O sol que se põe sugere transição e mudança, remetendo ao contexto pós-colonial angolano, no qual a obra de Manuel Rui se insere, marcado por tensões entre utopia, liberdade e realidade social. A presença de elementos simples do cotidiano aproxima a cena do povo comum, protagonista silencioso tanto da ilustração quanto do texto literário.  As molduras geométricas que cercam a imagem evocam padrões africanos tradicionais, conferindo identidade cultural e memória coletiva à composição. Assim, a ilustração não representa apenas um desejo individual, mas um anseio compartilhado: o de viver com mais leveza, autonomia e dignidade. Tal como no conto, “ser onda” torna-se metáfora de resistência, imaginação e liberdade diante das restrições do mundo concreto.

A literatura angolana possui marcos que transcendem o tempo, mas poucos são tão vibrantes e mordazes quanto Quem Me Dera Ser Onda, do escritor Manuel Rui. Publicada originalmente em 1982, esta novela curta é uma das peças centrais da sátira política e social africana, utilizando o humor e o absurdo para retratar as contradições de uma nação recém-independente que tentava se equilibrar entre o idealismo revolucionário e a dura realidade da escassez urbana.

Neste artigo, vamos mergulhar na trama inusitada de Quem Me Dera Ser Onda, analisando como a presença de um porco num sétimo andar de um prédio em Luanda se torna a metáfora perfeita para as tensões de uma sociedade em transformação.

O Enredo: Um Porco no Apartamento

A premissa de Quem Me Dera Ser Onda é tão simples quanto cômica: o Sr. Faustino, um burocrata zeloso e ambicioso, decide criar um porco na varanda do seu apartamento, num edifício no centro de Luanda. O objetivo é óbvio: garantir o sustento e a carne para a família num período em que o abastecimento de comida é precário e as filas são intermináveis.

No entanto, o animal acaba por se tornar o catalisador de um conflito geracional e ideológico. Enquanto os adultos olham para o porco como alimento (o "Carnaval"), as crianças da casa, Zeca e Rui, desenvolvem uma relação de amizade com o bicho, tratando-o como um animal de estimação e dando-lhe o nome de "Carnaval".

Temas Centrais e Crítica Social em Manuel Rui

Manuel Rui utiliza o cotidiano do edifício para tecer uma crítica profunda aos "novos ricos" e à burocracia estatal da Angola pós-colonial. Quem Me Dera Ser Onda não é apenas uma história sobre um porco, mas sobre a alma de um povo.

1. A Burocracia e o Pequeno Poder

O personagem Faustino representa a classe que ascendeu com a revolução, mas que rapidamente se acomodou aos privilégios. Ele tenta aplicar regras rígidas no prédio ao mesmo tempo em que as infringe ao criar um animal de grande porte em área urbana. É a personificação do "faça o que eu digo, não faça o que eu faço".

2. A Inocência Infantil vs. O Pragmatismo Adulto

As crianças em Quem Me Dera Ser Onda simbolizam a esperança e a pureza. Elas não veem o porco como quilos de carne, mas como um companheiro. O desejo de liberdade dos meninos — espelhado no título do livro, que remete à liberdade do mar — contrasta com o confinamento físico e moral dos adultos.

3. A Crise de Abastecimento e a Sobrevivência

A obra retrata fielmente a Luanda dos anos 80, onde a escassez de produtos básicos forçava os cidadãos a soluções criativas (e muitas vezes ilegais) para sobreviver. O porco na varanda é uma solução individualista para um problema coletivo.

A Estrutura Narrativa e o Estilo Literário

A escrita de Manuel Rui em Quem Me Dera Ser Onda é marcada por uma agilidade narrativa e uma linguagem que incorpora o falar angolano, rica em expressões locais e ritmos próprios.

  • Humor e Ironia: A sátira é a principal ferramenta do autor para denunciar a corrupção e a hipocrisia sem cair no panfletarismo pesado.

  • Espaço Confinado: Quase toda a ação ocorre dentro do prédio, o que cria uma sensação de claustrofobia social, onde todos se vigiam e todos têm segredos.

  • Simbolismo: O porco é um símbolo multifacetado: é comida, é crime, é amigo, é sujeira e é riqueza.

Por que o título "Quem Me Dera Ser Onda"?

O título é um verso de uma canção que as crianças cantam no livro. Ele representa o anseio pela liberdade absoluta e pela fuga das restrições impostas pela sociedade. Enquanto o porco está preso numa varanda imunda e os moradores estão presos em suas próprias ambições e medos, a "onda" é fluida, limpa e impossível de ser capturada pela burocracia estatal. É o grito lírico em meio à prosa satírica de Quem Me Dera Ser Onda.

Perguntas Frequentes sobre a Obra

Qual é o gênero literário de Quem Me Dera Ser Onda?

É uma novela satírica. Manuel Rui utiliza o humor para criticar costumes e instituições políticas, uma característica marcante da literatura de intervenção social.

O livro é baseado em fatos reais?

Embora a história específica seja ficção, o cenário de escassez alimentar e o surgimento de uma nova elite burocrática em Angola após 1975 são fatos históricos que serviram de base para a construção da obra.

Qual a importância de Manuel Rui para a literatura angolana?

Manuel Rui é uma das figuras mais proeminentes da literatura lusófona. Além de escritor, ele foi o autor da letra do Hino Nacional de Angola. Quem Me Dera Ser Onda é sua obra mais popular e estudada internacionalmente.

Conclusão: O Legado de um Clássico

Décadas após sua publicação, Quem Me Dera Ser Onda continua atual. A obra nos lembra que, independentemente da ideologia política de um governo, a natureza humana tende a buscar privilégios e que a burocracia pode, muitas vezes, sufocar a vida e a liberdade.

A história de Carnaval, o porco, e das crianças que queriam ser ondas, permanece como um convite à reflexão sobre que tipo de sociedade estamos construindo e se ainda somos capazes de enxergar o mundo com a pureza de quem prefere um amigo a um prato de comida. Se você busca entender a transição de Angola para a modernidade através de uma lente inteligente e divertida, este livro é indispensável.

* Notas sobre a ilustração:

A ilustração dialoga simbolicamente com o conto Quem Me Dera Ser Onda, de Manuel Rui, traduzindo em imagem o desejo de liberdade, fluidez e subversão presente na obra. No centro da cena, um homem simples, vestido de modo modesto e usando chapéu de palha, está sentado sobre uma grande onda do mar. Ele não a enfrenta nem tenta dominá-la; ao contrário, integra-se a ela, como se a onda fosse extensão de seu próprio corpo e de seu desejo.

A frase “QUEM ME DERA SER ONDA”, escrita em destaque no céu, funciona como enunciado poético e político. Assim como no texto de Manuel Rui, o desejo de “ser onda” expressa a vontade de escapar às amarras sociais, às normas rígidas e às estruturas de controle que regulam a vida cotidiana. A onda simboliza o movimento livre, imprevisível e coletivo, em oposição à imobilidade e à ordem imposta.

O cenário marítimo — com o pôr do sol, a praia serena, a palmeira e a pequena embarcação ao fundo — reforça a ideia de horizonte aberto e de possibilidade. O sol que se põe sugere transição e mudança, remetendo ao contexto pós-colonial angolano, no qual a obra de Manuel Rui se insere, marcado por tensões entre utopia, liberdade e realidade social. A presença de elementos simples do cotidiano aproxima a cena do povo comum, protagonista silencioso tanto da ilustração quanto do texto literário.

As molduras geométricas que cercam a imagem evocam padrões africanos tradicionais, conferindo identidade cultural e memória coletiva à composição. Assim, a ilustração não representa apenas um desejo individual, mas um anseio compartilhado: o de viver com mais leveza, autonomia e dignidade. Tal como no conto, “ser onda” torna-se metáfora de resistência, imaginação e liberdade diante das restrições do mundo concreto.

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