A obra de Jorge Luis Borges é frequentemente celebrada por sua erudição, seus labirintos lógicos e suas especulações metafísicas sobre o tempo e o infinito. No entanto, por trás da frieza intelectual e das referências bibliográficas, pulsa um coração de violência arcaica. Em "O Aleph", e em toda a sua cosmogonia literária, a traição, o ódio e a vingança não são apenas temas secundários, mas forças motrizes que impulsionam o destino humano em direção a uma revelação inevitável.
Borges não trata as paixões como explosões sentimentais, mas como mecanismos de precisão matemática. Para o autor argentino, um ato de vingança ou uma traição no momento exato define a identidade de um homem para sempre.
A Vingança como Destino em "O Aleph"
No conto que dá título ao livro, "O Aleph", a vingança manifesta-se de forma sutil, mas devastadora. O narrador (o próprio "Borges") nutre um desdém intelectual e um ciúme profundo por Carlos Argentino Daneri. A motivação é pessoal: a memória de Beatriz Viterbo, a mulher amada que ambos perderam.
O Ódio Intelectual e a Humilhação
A vingança de Borges contra Daneri não é física; é literária e existencial. Ao expor a mediocridade do poema de Daneri, o narrador tenta aniquilar a relevância do rival. Contudo, o destino inverte o jogo quando Borges é confrontado com o Aleph no porão de Daneri. O ódio atua aqui como o véu que o narrador precisa atravessar para acessar o infinito, revelando que a mesquinhez humana coexiste com a grandiosidade do cosmos.
A Traição e a Identidade: O Destino de Tadeo Isidoro Cruz
Para entender como Borges analisa a traição com frieza clínica, devemos olhar para o conto "Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874)". Aqui, a traição não é vista como uma falha de caráter, mas como o cumprimento de um destino.
O Momento da Revelação: Cruz, um sargento da polícia, está caçando um desertor (Martín Fierro). Ao vê-lo lutar com bravura contra a partida policial, ele compreende que o seu destino não é ser o perseguidor, mas o perseguido.
A Traição ao Dever: Cruz trai seu exército e seu cargo para lutar ao lado do desertor.
A Tese de Borges: Naquele momento de "traição", Cruz descobre quem realmente é. Para Borges, qualquer destino, por mais longo e complicado que seja, resume-se na realidade a um único momento: o momento em que um homem sabe para sempre quem ele é.
Emma Zunz: A Geometria Perfeita da Vingança
Se existe um conto onde a vingança é dissecada como um experimento de laboratório, este é "Emma Zunz". Após receber a notícia do suicídio de seu pai, Emma planeja uma vingança meticulosa contra o homem que o traiu, Aaron Loewenthal.
A Desumanização para o Ato
Emma não age por impulso. Ela sacrifica sua própria integridade — submetendo-se a um ato sexual mecânico e repugnante com um marinheiro desconhecido — para construir uma prova inquestionável de estupro que justifique o assassinato de Loewenthal.
A Verdade vs. A Realidade
Borges conclui o conto com uma reflexão arrebatadora: a história de Emma era falsa em quase todos os detalhes, exceto no ódio que sentia e na injustiça que sofreu. A vingança, portanto, cria sua própria verdade.
O Ódio Transmuta a História: Guerreiros e Cativas
Em "História do Guerreiro e da Cativela", Borges compara dois destinos opostos marcados pela lealdade e pela "traição" às suas origens. Droctulft, o guerreiro bárbaro que trai sua tribo para defender a civilização de Ravena, e a inglesa que se torna uma índia no pampa argentino.
A Frieza da Escolha: Ambos agem movidos por um impulso profundo que os leva a abandonar sua cultura original.
O Paradoxo: O ódio à própria barbárie (no caso do guerreiro) ou o amor à liberdade selvagem (no caso da cativa) são forças que subvertem a história oficial. Para Borges, essas traições são, na verdade, atos de fé em um destino pessoal superior.
Comparação das Forças Motrizes na Obra de Borges
| Conto | Força Motriz | Consequência |
| O Aleph | Ciúme e Inveja | Revelação do Infinito e esquecimento. |
| Emma Zunz | Vingança Planejada | Construção de uma "verdade" subjetiva. |
| Tadeo Isidoro Cruz | Traição ao Cargo | Descoberta da identidade verdadeira. |
| A Intrusa | Ódio/Amor Fraternal | O sacrifício violento para restaurar a ordem entre irmãos. |
Conclusão: A Eternidade das Paixões Sombrias
Em O Aleph, Borges nos mostra que o universo pode ser um livro ou um sonho, mas as páginas desse livro são escritas com o sangue das paixões humanas. A vingança, o ódio e a traição não são meros pecados morais na literatura borgiana; são ferramentas de conhecimento. É através do ódio que o homem se fixa em um símbolo; é através da traição que ele rompe com a máscara social; e é através da vingança que ele tenta equilibrar a balança de um cosmos indiferente.
Ao ler Borges sob esta ótica, percebemos que a "frieza intelectual" do autor é, na verdade, uma lupa que amplia a intensidade das nossas sombras mais profundas.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Por que Borges trata a violência com tanta frieza?
Borges acreditava que a literatura deve ser uma forma de ordem aplicada ao caos. Ao tratar a violência de forma intelectual, ele consegue analisar os padrões universais do destino humano sem se perder no sentimentalismo.
2. Qual o papel da traição na filosofia de Borges?
Para Borges, a traição é frequentemente o ato que revela a verdadeira natureza de um personagem. Trair uma causa ou um grupo pode significar ser fiel a si mesmo ou a um propósito maior e invisível.
3. "O Aleph" é um livro de contos ou apenas um conto?
O Aleph é o título de um dos livros de contos mais famosos de Borges, publicado em 1949, que inclui, além do conto homônimo, obras como "Emma Zunz" e "A Casa de Asterion".
(*) Notas sobre a ilustração:
A ilustração inspirada em “O Aleph”, de Jorge Luis Borges, articula visualmente os temas da traição, do ódio e da vingança como forças que impulsionam a ação humana e contaminam a percepção da realidade. A composição é organizada de forma circular e simétrica, lembrando vitrais ou iluminuras medievais, sugerindo um universo fechado, obsessivo, no qual tudo se conecta e retorna ao mesmo centro.
No núcleo da imagem encontra-se o Aleph, representado como um olho cósmico envolto por uma espiral escura. Ele simboliza o ponto onde todos os tempos, lugares e acontecimentos coexistem simultaneamente — uma visão absoluta que, longe de trazer redenção, expõe também o lado mais sombrio da experiência humana. O olhar central não julga: apenas revela, de maneira implacável, tudo aquilo que se prefere ocultar.
Ao redor desse centro, surgem cenas fragmentadas que expressam paixões destrutivas. A figura monstruosa que expele palavras e objetos cortantes evoca o ódio verbal e simbólico, a violência que nasce da linguagem e da humilhação. Os livros, moedas e manuscritos remetem à cultura, à memória e à herança intelectual que, em Borges, jamais estão dissociadas da rivalidade e do ressentimento. A traição intelectual — tão presente na relação entre o narrador e Carlos Argentino Daneri — aparece como uma ferida aberta, em que o conhecimento se torna instrumento de disputa e vingança.
Outras cenas sugerem ameaça e violência direta, como a arma apontada contra a figura feminina, associando a vingança à tentativa de controle e aniquilação do outro. O relógio e os símbolos circulares reforçam a ideia de tempo aprisionado, em que o passado não se resolve e retorna incessantemente como rancor. A mulher que segura objetos simbólicos — moedas, livros ou flores — parece representar a memória traída, aquilo que deveria ser preservado, mas é corrompido pelo desejo de revanche.
O conjunto da ilustração traduz visualmente a leitura de O Aleph como uma narrativa em que o acesso ao absoluto não purifica o sujeito. Pelo contrário, intensifica suas obsessões. A traição, o ódio e a vingança não são apenas sentimentos individuais, mas forças estruturantes que orientam o olhar e deformam a experiência do infinito. Assim, o Aleph deixa de ser apenas um milagre metafísico e se transforma em um espelho cruel da condição humana, onde tudo é visto — inclusive o que há de mais obscuro.
* Mpra
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