quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O Labirinto do Ciúme: A Obsessão por Albertine em A Prisioneira e A Fugitiva

A ilustração dedicada a A Prisioneira e A Fugitiva, de Marcel Proust, organiza-se como um grande medalhão simbólico, evocando a estética do Art Nouveau e das gravuras fin-de-siècle, em perfeita sintonia com o universo psicológico e sensorial de Em Busca do Tempo Perdido. A composição circular sugere desde o início a ideia de clausura, repetição e aprisionamento interior — temas centrais desses volumes.  No centro da imagem, destaca-se o perfil feminino, de traços delicados e expressão distante, cercado por longos cabelos ondulantes que parecem se dissolver no ar. À sua frente, uma gaiola aberta funciona como símbolo ambíguo: ao mesmo tempo emblema do cativeiro amoroso imposto pelo narrador e da fuga tardia, incompleta e dolorosa. Acima, um olho lacrimejante observa a cena, representando a vigilância obsessiva, o ciúme e a consciência atormentada que perpassam A Prisioneira. A lágrima que cai reforça a dimensão do sofrimento íntimo e da impossibilidade de posse plena do outro.  Ao redor do núcleo central, as vinhetas narrativas ampliam esse drama psicológico. Em uma delas, o narrador aparece espiando por uma porta entreaberta, imagem clara da desconfiança constante e do controle emocional exercido sobre a amada. Em outra, a mulher escreve ou lê no quarto, espaço fechado e doméstico, que simboliza tanto proteção quanto confinamento. A presença de cartas sugere o segredo, a comunicação truncada e as zonas obscuras do desejo.  Nas cenas inferiores, surgem a cidade — com ruas, pontes e figuras solitárias — e a música, representada pelo piano e pelas pautas musicais. Esses elementos remetem à fuga, à errância após a separação e ao papel da arte como tentativa de sublimação da perda. A música, em especial, aparece como memória sensível, capaz de reavivar emoções e dores já vividas, ecoando a função da arte no projeto proustiano.  Assim, a ilustração traduz visualmente o núcleo trágico de A Prisioneira e A Fugitiva: o amor como forma de aprisionamento mútuo, a vigilância que corrói o afeto, a fuga que não liberta completamente e a memória que perpetua a ausência. Mais do que narrar eventos, a imagem encena o drama interior do narrador, fazendo do espaço simbólico um reflexo da sua consciência.

Dentre as muitas facetas da obra-prima de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, os volumes A Prisioneira e A Fugitiva (também conhecido como Albertine Desaparecida) formam o núcleo mais denso e claustrofóbico da narrativa. Neles, o autor abandona temporariamente os grandes salões da aristocracia para se trancar em um apartamento em Paris, dissecando a anatomia de um amor doentio.

Estes volumes exploram a tentativa impossível de possuir a alma de outra pessoa. Através da figura enigmática de Albertine Simonet, Proust constrói um tratado sobre o ciúme, a mentira e a dolorosa redescoberta da liberdade através do luto.

A Prisioneira: O Amor como Enclausuramento

Em A Prisioneira, o narrador traz Albertine para morar em sua casa. Sob o pretexto de protegê-la e sustentá-la, ele cria uma prisão doméstica refinada. O que se segue não é um romance idílico, mas uma investigação policial contínua.

A Vigilância e o Medo de Gomorra

O motor do ciúme do narrador é a suspeita de que Albertine tenha inclinações lésbicas (referenciadas pelo termo "Gomorra"). Ele monitora seus horários, interroga suas amizades e tenta controlar cada centímetro de sua vida social.

  • O Efeito da Reclusão: Para Proust, o desejo não nasce da proximidade, mas da incerteza. Ao prender Albertine, o narrador paradoxalmente alimenta sua própria obsessão, pois quanto menos ela sai, mais ele fantasia sobre o que ela faz quando ele não está olhando.

  • A Indiferença e o Desejo: O livro demonstra a tese proustiana de que só amamos aquilo que não possuímos totalmente. Quando Albertine parece dócil e submissa, o narrador sente tédio; quando ela demonstra independência, o amor dele inflama-se novamente.

A Arte como Único Refúgio

Em meio ao sufocamento do relacionamento, o narrador encontra momentos de transcendência na arte, especialmente na música de Vinteuil. Proust sugere que, enquanto as pessoas são mutáveis e mentirosas, a arte oferece uma verdade estável e uma comunicação que ultrapassa as barreiras do ego.

A Fugitiva: A Dor do Espaço Vazio

O equilíbrio precário de A Prisioneira rompe-se no início de A Fugitiva. Albertine, incapaz de suportar a vigilância, foge. Pouco tempo depois, o narrador recebe a notícia de sua morte acidental.

A Anatomia do Luto e do Esquecimento

A segunda parte desta díptico literário foca na ausência. O narrador tenta, desesperadamente, reconstruir os passos de Albertine após sua morte, descobrindo novas mentiras e traições que o torturam mesmo após o fim da vida dela.

  1. A Fragmentação do Ser: Proust argumenta que a pessoa que amamos não existe de forma única, mas em fragmentos guardados em nossa memória. Com a morte de Albertine, o narrador precisa "matar" cada uma dessas versões dela dentro de si.

  2. O Trabalho do Tempo: O tema central de Proust retorna: o tempo cura, mas o faz através do esquecimento, o que é uma forma de morte em si mesma. O narrador percebe com horror que, aos poucos, a imagem de Albertine está desaparecendo de sua mente.

Veneza e a Superação

O volume termina com uma viagem a Veneza, onde o narrador finalmente começa a respirar o ar do mundo exterior. A cidade, com seus canais e luzes, serve como o cenário perfeito para a dissolução final da obsessão. Ele percebe que o "tempo perdido" com o ciúme foi um desvio, mas um desvio necessário para sua maturação como artista.

Temas Universais: Verdade, Mentira e Posse

Tanto em A Prisioneira quanto em A Fugitiva, Proust desafia a ideia convencional de amor romântico.

O Outro como Mistério Inalcançável

A obra postula que nunca conheceremos verdadeiramente outra pessoa. Albertine é um "ser em fuga", não apenas fisicamente, mas ontologicamente. Suas mentiras não são necessariamente maldosas; elas são a defesa natural de uma alma que se recusa a ser capturada.

O Ciúme como Instrumento de Conhecimento

Para o narrador, o ciúme é uma ferramenta de pesquisa. É através da dor da dúvida que ele se torna um observador aguçado. No entanto, é um conhecimento que não traz paz, apenas mais perguntas.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. Albertine realmente amava o narrador?

Proust deixa essa questão propositalmente ambígua. A visão que temos é apenas a do narrador. Albertine pode ter sido uma oportunista, uma vítima de um homem controlador, ou alguém que genuinamente tentou amar apesar da opressão.

2. Qual a diferença entre os títulos "A Fugitiva" e "Albertine Desaparecida"?

Albertine disparue (Albertine Desaparecida) foi o título pretendido por Proust, mas devido à existência de um livro com nome similar na época, o título foi alterado para La Fugitive (A Fugitiva). Hoje, ambas as nomenclaturas são aceitas.

3. Preciso ler os volumes anteriores para entender estes dois?

Sim, é altamente recomendável. A relação entre o narrador e Albertine começa em À Sombra das Raparigas em Flor e o contexto social é estabelecido em O Caminho de Guermantes. Sem essa base, a intensidade da obsessão em A Prisioneira pode parecer injustificada.

Conclusão: Do Prisioneiro ao Artista

Ao final de A Fugitiva, o narrador não é mais o homem que tentou trancafiar uma mulher em um quarto. Ele emerge da experiência devastado, mas consciente de que o sofrimento é o material bruto da criação literária.

A Prisioneira e A Fugitiva ensinam que a tentativa de posse é a morte do amor, e que a única forma de reaver o que foi perdido é através da transmutação da dor em arte. O tempo recuperado não é o tempo vivido na felicidade, mas o tempo compreendido através da reflexão.

(*) Notas sobre a ilustração:

A ilustração dedicada a A Prisioneira e A Fugitiva, de Marcel Proust, organiza-se como um grande medalhão simbólico, evocando a estética do Art Nouveau e das gravuras fin-de-siècle, em perfeita sintonia com o universo psicológico e sensorial de Em Busca do Tempo Perdido. A composição circular sugere desde o início a ideia de clausura, repetição e aprisionamento interior — temas centrais desses volumes.

No centro da imagem, destaca-se o perfil feminino, de traços delicados e expressão distante, cercado por longos cabelos ondulantes que parecem se dissolver no ar. À sua frente, uma gaiola aberta funciona como símbolo ambíguo: ao mesmo tempo emblema do cativeiro amoroso imposto pelo narrador e da fuga tardia, incompleta e dolorosa. Acima, um olho lacrimejante observa a cena, representando a vigilância obsessiva, o ciúme e a consciência atormentada que perpassam A Prisioneira. A lágrima que cai reforça a dimensão do sofrimento íntimo e da impossibilidade de posse plena do outro.

Ao redor do núcleo central, as vinhetas narrativas ampliam esse drama psicológico. Em uma delas, o narrador aparece espiando por uma porta entreaberta, imagem clara da desconfiança constante e do controle emocional exercido sobre a amada. Em outra, a mulher escreve ou lê no quarto, espaço fechado e doméstico, que simboliza tanto proteção quanto confinamento. A presença de cartas sugere o segredo, a comunicação truncada e as zonas obscuras do desejo.

Nas cenas inferiores, surgem a cidade — com ruas, pontes e figuras solitárias — e a música, representada pelo piano e pelas pautas musicais. Esses elementos remetem à fuga, à errância após a separação e ao papel da arte como tentativa de sublimação da perda. A música, em especial, aparece como memória sensível, capaz de reavivar emoções e dores já vividas, ecoando a função da arte no projeto proustiano.

Assim, a ilustração traduz visualmente o núcleo trágico de A Prisioneira e A Fugitiva: o amor como forma de aprisionamento mútuo, a vigilância que corrói o afeto, a fuga que não liberta completamente e a memória que perpetua a ausência. Mais do que narrar eventos, a imagem encena o drama interior do narrador, fazendo do espaço simbólico um reflexo da sua consciência.

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