Dentre as muitas facetas da obra-prima de Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, os volumes A Prisioneira e A Fugitiva (também conhecido como Albertine Desaparecida) formam o núcleo mais denso e claustrofóbico da narrativa. Neles, o autor abandona temporariamente os grandes salões da aristocracia para se trancar em um apartamento em Paris, dissecando a anatomia de um amor doentio.
Estes volumes exploram a tentativa impossível de possuir a alma de outra pessoa. Através da figura enigmática de Albertine Simonet, Proust constrói um tratado sobre o ciúme, a mentira e a dolorosa redescoberta da liberdade através do luto.
A Prisioneira: O Amor como Enclausuramento
Em A Prisioneira, o narrador traz Albertine para morar em sua casa. Sob o pretexto de protegê-la e sustentá-la, ele cria uma prisão doméstica refinada. O que se segue não é um romance idílico, mas uma investigação policial contínua.
A Vigilância e o Medo de Gomorra
O motor do ciúme do narrador é a suspeita de que Albertine tenha inclinações lésbicas (referenciadas pelo termo "Gomorra"). Ele monitora seus horários, interroga suas amizades e tenta controlar cada centímetro de sua vida social.
O Efeito da Reclusão: Para Proust, o desejo não nasce da proximidade, mas da incerteza. Ao prender Albertine, o narrador paradoxalmente alimenta sua própria obsessão, pois quanto menos ela sai, mais ele fantasia sobre o que ela faz quando ele não está olhando.
A Indiferença e o Desejo: O livro demonstra a tese proustiana de que só amamos aquilo que não possuímos totalmente. Quando Albertine parece dócil e submissa, o narrador sente tédio; quando ela demonstra independência, o amor dele inflama-se novamente.
A Arte como Único Refúgio
Em meio ao sufocamento do relacionamento, o narrador encontra momentos de transcendência na arte, especialmente na música de Vinteuil. Proust sugere que, enquanto as pessoas são mutáveis e mentirosas, a arte oferece uma verdade estável e uma comunicação que ultrapassa as barreiras do ego.
A Fugitiva: A Dor do Espaço Vazio
O equilíbrio precário de A Prisioneira rompe-se no início de A Fugitiva. Albertine, incapaz de suportar a vigilância, foge. Pouco tempo depois, o narrador recebe a notícia de sua morte acidental.
A Anatomia do Luto e do Esquecimento
A segunda parte desta díptico literário foca na ausência. O narrador tenta, desesperadamente, reconstruir os passos de Albertine após sua morte, descobrindo novas mentiras e traições que o torturam mesmo após o fim da vida dela.
A Fragmentação do Ser: Proust argumenta que a pessoa que amamos não existe de forma única, mas em fragmentos guardados em nossa memória. Com a morte de Albertine, o narrador precisa "matar" cada uma dessas versões dela dentro de si.
O Trabalho do Tempo: O tema central de Proust retorna: o tempo cura, mas o faz através do esquecimento, o que é uma forma de morte em si mesma. O narrador percebe com horror que, aos poucos, a imagem de Albertine está desaparecendo de sua mente.
Veneza e a Superação
O volume termina com uma viagem a Veneza, onde o narrador finalmente começa a respirar o ar do mundo exterior. A cidade, com seus canais e luzes, serve como o cenário perfeito para a dissolução final da obsessão. Ele percebe que o "tempo perdido" com o ciúme foi um desvio, mas um desvio necessário para sua maturação como artista.
Temas Universais: Verdade, Mentira e Posse
Tanto em A Prisioneira quanto em A Fugitiva, Proust desafia a ideia convencional de amor romântico.
O Outro como Mistério Inalcançável
A obra postula que nunca conheceremos verdadeiramente outra pessoa. Albertine é um "ser em fuga", não apenas fisicamente, mas ontologicamente. Suas mentiras não são necessariamente maldosas; elas são a defesa natural de uma alma que se recusa a ser capturada.
O Ciúme como Instrumento de Conhecimento
Para o narrador, o ciúme é uma ferramenta de pesquisa. É através da dor da dúvida que ele se torna um observador aguçado. No entanto, é um conhecimento que não traz paz, apenas mais perguntas.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Albertine realmente amava o narrador?
Proust deixa essa questão propositalmente ambígua. A visão que temos é apenas a do narrador. Albertine pode ter sido uma oportunista, uma vítima de um homem controlador, ou alguém que genuinamente tentou amar apesar da opressão.
2. Qual a diferença entre os títulos "A Fugitiva" e "Albertine Desaparecida"?
Albertine disparue (Albertine Desaparecida) foi o título pretendido por Proust, mas devido à existência de um livro com nome similar na época, o título foi alterado para La Fugitive (A Fugitiva). Hoje, ambas as nomenclaturas são aceitas.
3. Preciso ler os volumes anteriores para entender estes dois?
Sim, é altamente recomendável. A relação entre o narrador e Albertine começa em À Sombra das Raparigas em Flor e o contexto social é estabelecido em O Caminho de Guermantes. Sem essa base, a intensidade da obsessão em A Prisioneira pode parecer injustificada.
Conclusão: Do Prisioneiro ao Artista
Ao final de A Fugitiva, o narrador não é mais o homem que tentou trancafiar uma mulher em um quarto. Ele emerge da experiência devastado, mas consciente de que o sofrimento é o material bruto da criação literária.
A Prisioneira e A Fugitiva ensinam que a tentativa de posse é a morte do amor, e que a única forma de reaver o que foi perdido é através da transmutação da dor em arte. O tempo recuperado não é o tempo vivido na felicidade, mas o tempo compreendido através da reflexão.
(*) Notas sobre a ilustração:
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