terça-feira, 20 de janeiro de 2026

O Despertar das Paixões Proibidas: Uma Análise de Sodoma e Gomorra de Marcel Proust

A ilustração evoca de forma precisa o universo social e simbólico de Sodoma e Gomorra, volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, apresentando uma cena de salão da alta sociedade parisiense do fim do século XIX. O estilo de gravura antiga, em tons sépia, reforça a atmosfera de memória, observação minuciosa e distanciamento crítico que caracteriza a narrativa proustiana.  O ambiente aristocrático é marcado pelo excesso de ornamentos: espelhos dourados, quadros nas paredes, lustres, cortinas pesadas e mobiliário refinado. Esse espaço fechado e sofisticado funciona como palco da vida social, onde cada gesto, olhar e postura tem significado. A reunião elegante sugere um evento mundano — uma recepção ou visita — típico da sociedade observada por Proust com ironia e rigor psicológico.  No primeiro plano, dois homens conversam em tom confidencial, quase sussurrado. Esse gesto de intimidade masculina é central para o sentido da ilustração: remete ao tema fundamental de Sodoma e Gomorra, a homossexualidade vivida de modo clandestino, dissimulado sob convenções sociais rígidas. O segredo, o não dito e a duplicidade das aparências são visualmente encenados nesse cochicho, símbolo da vida oculta que coexiste com a respeitabilidade pública.  As mulheres elegantemente vestidas, distribuídas pelo salão, aparecem como observadoras, mediadoras ou participantes passivas do ritual social. Suas posturas calculadas e seus vestidos elaborados reforçam a teatralidade do convívio aristocrático, onde todos representam papéis socialmente aceitos. Ao fundo, a multidão de convidados sugere uma sociedade homogênea, vigilante, na qual o indivíduo raramente escapa ao olhar coletivo.  O espelho ao fundo, elemento recorrente na iconografia proustiana, amplia o espaço e duplica as figuras, reforçando a ideia de identidade fragmentada e refletida, um tema essencial do romance. Ele simboliza tanto a vaidade social quanto o desdobramento interior dos personagens, que vivem entre o que são e o que aparentam ser.  O título “Sodome et Gomorrhe”, inscrito abaixo da cena, dialoga ironicamente com o episódio bíblico: não se trata de uma destruição explícita, mas de uma condenação moral silenciosa imposta pela própria sociedade. A ilustração, assim, traduz visualmente a crítica de Proust à hipocrisia social, à repressão dos desejos e à complexa rede de códigos que regula o comportamento humano.  Desse modo, a imagem não narra um acontecimento específico, mas cristaliza o clima moral e psicológico do livro: um mundo de aparências refinadas sob o qual se escondem paixões, segredos e identidades proibidas.

Dentre os sete volumes que compõem a monumental obra Em Busca do Tempo Perdido, nenhum foi tão transgressor para a sua época quanto Sodoma e Gomorra (Sodome et Gomorrhe). Publicado em 1921 e 1922, este quarto volume marca um ponto de ruptura na narrativa de Marcel Proust, deslocando o foco da aristocracia superficial para as profundezas da sexualidade humana e as "raças malditas" que habitam as sombras da sociedade parisiense.

Neste artigo, exploraremos como Proust utiliza a metáfora bíblica para dissecar a homossexualidade e a bissexualidade, transformando o que era tabu em uma análise sociológica e psicológica sem precedentes na literatura mundial.

O Ponto de Inflexão: A Revelação do Barão de Charlus

O livro abre com uma das cenas mais famosas da literatura proustiana: o narrador, escondido, observa o encontro entre o Barão de Charlus e o coleteiro Jupien. Este momento de voyeurismo não é gratuito; ele serve como a chave que abre a porta para uma nova compreensão do mundo.

A Descoberta da Inversão

Até este ponto, o Barão de Charlus era visto como uma figura de virilidade arrogante e aristocrática. Ao presenciar sua interação com Jupien, o narrador compreende o conceito da "inversão". Proust introduz aqui a tese de que existem homens-mulheres, seres que carregam uma alma feminina em um corpo masculino, e que formam uma fraternidade secreta espalhada por todas as classes sociais.

A Metáfora das Plantas e Insetos

Para conferir uma aura de "lei natural" ao que a sociedade via como vício, Proust utiliza analogias botânicas. Assim como certas flores dependem de um inseto específico para a polinização, a natureza humana teria suas próprias mecânicas de atração que fogem à norma reprodutiva. Essa abordagem científica e fria foi uma forma audaciosa de legitimar o tema sob a ótica da observação intelectual.

Sodoma e Gomorra: O Masculino e o Feminino

O título da obra faz referência direta às cidades bíblicas destruídas por seus "pecados". No entanto, Proust ressignifica esses termos para dividir o universo das paixões não heterossexuais.

  • Sodoma: Representa o mundo dos homens que amam homens, centralizado na figura trágica e majestosa de Palamède de Charlus.

  • Gomorra: Representa o mundo do lesbianismo, uma esfera que o narrador encara com muito mais medo e desconfiança. É o mundo que ele suspeita que sua amada, Albertine, habite secretamente.

O Medo do Inconhecível

Se em Sodoma o narrador é um observador clínico, em Gomorra ele é um homem torturado. A suspeita de que as mulheres possuem um prazer e uma cumplicidade que excluem totalmente o homem gera o combustível para o ciúme patológico que dominará os volumes seguintes (A Prisioneira e A Fugitiva).

A Vida em Balbec e o Salão dos Verdurin

A segunda parte de Sodoma e Gomorra leva o narrador de volta à estância balneária de Balbec. Aqui, a comédia social de Proust atinge o seu ápice através do salão de Mme. Verdurin.

A Ascensão da Burguesia

Os Verdurin representam a "pequena facção" burguesa que, através da manipulação social e do patrocínio das artes, começa a rivalizar com a velha aristocracia dos Guermantes. Proust observa com ironia como os preconceitos mudam: o que é perdoado em um duque é ridicularizado em um burguês, e vice-versa.

A Música de Vinteuil e a Sensibilidade

A música continua a ser um fio condutor. Em Sodoma e Gomorra, a obra do compositor Vinteuil serve para unir personagens de diferentes "estirpes" morais, provando que a sensibilidade artística é independente da orientação sexual ou da posição social.

Temas Centrais: Solidão e Mentira

Para Proust, os habitantes de Sodoma e Gomorra são condenados a uma solidão perpétua. Por viverem em uma sociedade que os criminaliza, eles são mestres na arte da dissimulação.

  1. A Mentira como Sobrevivência: Charlus mente para manter seu prestígio; Albertine mente para manter sua liberdade. A mentira torna-se a linguagem universal das relações humanas.

  2. O Tempo Devorador: Como em toda a obra, o tempo é o carrasco. O narrador observa como o envelhecimento torna os desejos mais grotescos ou mais urgentes, e como a sociedade se esquece de escândalos antigos para abraçar novos vícios.

  3. A Identidade Fluida: Ninguém é apenas uma coisa. O Barão pode ser um tirano social e um submisso na intimidade; Albertine pode ser a "rapariga em flor" e uma habitante de Gomorra.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. "Sodoma e Gomorra" é um livro explícito?

Não nos padrões modernos. Proust foca muito mais na análise psicológica, nos gestos, nos olhares e nas implicações sociais do que em descrições físicas. A "nudez" aqui é da alma e do caráter.

2. Qual o papel de Albertine neste volume?

Albertine torna-se o centro do tormento do narrador. É neste volume que ele decide "se sacrificar" e casar-se com ela (ou melhor, aprisioná-la) para impedir que ela frequente os círculos de Gomorra.

3. Charlus é baseado em alguém real?

Sim, o Barão de Charlus foi inspirado em grande parte pelo conde Robert de Montesquiou, um dândi aristocrata e poeta que foi figura central na sociedade parisiense da época.

Conclusão: O Espelho da Humanidade

Em Sodoma e Gomorra, Marcel Proust não busca julgar seus personagens. Ele age como um entomologista, classificando os comportamentos humanos com uma curiosidade insaciável. O livro nos ensina que o que chamamos de "anormal" é apenas uma variação da complexidade humana, e que todos, independentemente de suas inclinações, buscam a mesma coisa: amor, reconhecimento e um sentido para o tempo que foge.

Ler este volume é enfrentar as sombras de nossa própria percepção e aceitar que a realidade é muito mais vasta e diversa do que os salões da nossa mente permitem enxergar.

(*) Notas sobre a ilustração:

A ilustração evoca de forma precisa o universo social e simbólico de Sodoma e Gomorra, volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, apresentando uma cena de salão da alta sociedade parisiense do fim do século XIX. O estilo de gravura antiga, em tons sépia, reforça a atmosfera de memória, observação minuciosa e distanciamento crítico que caracteriza a narrativa proustiana.

O ambiente aristocrático é marcado pelo excesso de ornamentos: espelhos dourados, quadros nas paredes, lustres, cortinas pesadas e mobiliário refinado. Esse espaço fechado e sofisticado funciona como palco da vida social, onde cada gesto, olhar e postura tem significado. A reunião elegante sugere um evento mundano — uma recepção ou visita — típico da sociedade observada por Proust com ironia e rigor psicológico.

No primeiro plano, dois homens conversam em tom confidencial, quase sussurrado. Esse gesto de intimidade masculina é central para o sentido da ilustração: remete ao tema fundamental de Sodoma e Gomorra, a homossexualidade vivida de modo clandestino, dissimulado sob convenções sociais rígidas. O segredo, o não dito e a duplicidade das aparências são visualmente encenados nesse cochicho, símbolo da vida oculta que coexiste com a respeitabilidade pública.

As mulheres elegantemente vestidas, distribuídas pelo salão, aparecem como observadoras, mediadoras ou participantes passivas do ritual social. Suas posturas calculadas e seus vestidos elaborados reforçam a teatralidade do convívio aristocrático, onde todos representam papéis socialmente aceitos. Ao fundo, a multidão de convidados sugere uma sociedade homogênea, vigilante, na qual o indivíduo raramente escapa ao olhar coletivo.

O espelho ao fundo, elemento recorrente na iconografia proustiana, amplia o espaço e duplica as figuras, reforçando a ideia de identidade fragmentada e refletida, um tema essencial do romance. Ele simboliza tanto a vaidade social quanto o desdobramento interior dos personagens, que vivem entre o que são e o que aparentam ser.

O título “Sodome et Gomorrhe”, inscrito abaixo da cena, dialoga ironicamente com o episódio bíblico: não se trata de uma destruição explícita, mas de uma condenação moral silenciosa imposta pela própria sociedade. A ilustração, assim, traduz visualmente a crítica de Proust à hipocrisia social, à repressão dos desejos e à complexa rede de códigos que regula o comportamento humano.

Desse modo, a imagem não narra um acontecimento específico, mas cristaliza o clima moral e psicológico do livro: um mundo de aparências refinadas sob o qual se escondem paixões, segredos e identidades proibidas.

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