Quando Doris Lessing, decidiu migrar do realismo social para a "ficção visionária", o mundo literário foi pego de surpresa. O resultado dessa transição foi a série Canopus em Argos, um projeto de cinco romances que utiliza a vastidão do espaço e do tempo para realizar uma autópsia profunda da condição humana. O primeiro volume, intitulado Shikasta, estabelece as bases de uma história galáctica onde a Terra não é o centro do universo, mas um peão em um jogo cósmico de influências espirituais e evolutivas.
Canopus em Argos não é ficção científica convencional. Não há foco em tecnologia de ponta ou batalhas espaciais épicas no sentido tradicional. Em vez disso, Lessing utiliza o gênero como uma alegoria poderosa para criticar o poder, a degradação das sociedades e os desastres humanos recorrentes, oferecendo uma perspectiva que é, simultaneamente, fria como o vácuo espacial e ardente como uma busca mística.
A Arquitetura Galáctica: Canopus, Sirius e Shammat
O universo de Canopus em Argos é governado por forças que transcendem a compreensão humana imediata. A narrativa é apresentada como uma série de relatórios, diários e documentos históricos arquivados pelos administradores de Canopus.
O Império de Canopus
Canopus representa o ápice da evolução consciente. É um império benevolente que governa através da "substância da luz", uma nutrição espiritual que mantém a harmonia planetária. A intervenção de Canopus em outros mundos, incluindo Shikasta (a Terra), é baseada na necessidade de guiar espécies inferiores em direção à autoconsciência e ao equilíbrio.
Sirius e a Pragmática do Poder
Sirius é o outro império galáctico, frequentemente em colaboração ou competição com Canopus. Enquanto Canopus é espiritual e evolutivo, Sirius é burocrático, tecnológico e sociológico. A relação entre os dois serve para Lessing explorar diferentes filosofias de governança e controle.
O Antagonista: Shammat e a Degeneração
O planeta Shammat, parte do Império Puttiora, atua como um parasita. Eles sugam a energia vital e a harmonia de Shikasta, alimentando-se da ganância, do ódio e da destruição dos humanos. Essa tríade — a benevolência de Canopus, o pragmatismo de Sirius e a malevolência de Shammat — forma a base para a crítica social da série.
Shikasta: A Terra sob a Lente da Evolução
O volume central, Arquivos Shikasta, foca especificamente no nosso planeta. Na cosmologia de Lessing, a Terra já foi um lugar de harmonia plena, conectada a Canopus por um "fluxo de aridez" que garantia a longevidade e a paz.
A Queda e a "Substância-da-Luz"
Devido a um alinhamento cósmico infeliz, a conexão com Canopus foi enfraquecida. Esse evento é a versão de Lessing para a "Queda do Homem". Sem a nutrição espiritual de Canopus, os habitantes de Shikasta tornaram-se suscetíveis às influências degeneradas de Shammat.
Aceleração do Tempo: Os humanos começaram a viver vidas curtas e brutais.
Perda de Memória Coletiva: A humanidade esqueceu sua origem cósmica e propósito.
Ciclos de Guerra: A história humana tornou-se uma sucessão de conflitos sem sentido, alimentados pela carência espiritual.
Temas Filosóficos e Alegóricos em Canopus em Argos
Doris Lessing utiliza a série para processar suas próprias frustrações com o comunismo, o feminismo radical e as estruturas de poder ocidentais.
A Crítica à Burocracia e ao Totalitarismo
Através dos relatórios de Johor, o emissário de Canopus, Lessing observa as atrocidades do século XX como se fossem sintomas de uma doença planetária. Ela critica como ideologias humanas, por mais bem-intencionadas que sejam, acabam se tornando ferramentas de opressão quando desconectadas de uma compreensão holística da vida.
Evolução Social e Espiritualidade
A série foi fortemente influenciada pelo interesse de Lessing no Sufismo (misticismo islâmico). A ideia de que a humanidade está em um estado de "sono" e precisa ser "despertada" por mestres superiores é o cerne de Canopus em Argos. A evolução aqui não é biológica, mas sim a capacidade de uma sociedade agir em harmonia com as leis cósmicas.
Perguntas Comuns sobre a Série
Por que Doris Lessing mudou para a ficção científica?
Lessing sentia que o realismo tradicional não era mais capaz de conter as verdades "maiores" que ela queria expressar. Para ela, o gênero espacial permitia uma distância necessária para olhar para a Terra como um todo, permitindo uma análise sociológica e espiritual que o drama doméstico não comportava.
Preciso ler os livros em ordem?
Embora Shikasta seja a base, os livros seguintes como Os Casamentos entre as Zonas Três, Quatro e Cinco exploram diferentes aspectos e estilos (como a fábula e a sátira). No entanto, para compreender a terminologia e a cosmogonia de Canopus em Argos, começar pelo primeiro volume é altamente recomendado.
A série é considerada "difícil"?
É uma leitura intelectualmente exigente. Lessing evita o entretenimento fácil em favor da densidade filosófica. No entanto, para leitores interessados em política, psicologia profunda e o destino da humanidade, a série é imensamente recompensadora.
O Legado de um Projeto Ambicioso
Canopus em Argos permanece como uma das contribuições mais singulares à literatura do século XX. Doris Lessing provou que a ficção científica pode ser o veículo para as perguntas mais elevadas da filosofia. Ao reduzir os humanos à condição de "Shikastanos" observados por inteligências superiores, ela nos força a confrontar nossa própria pequenez, nossa arrogância e, estranhamente, nossa potencial grandeza.
A série é um lembrete de que as sociedades humanas são frágeis e que o progresso técnico sem evolução ética e espiritual é uma rota para o desastre. Lessing não nos oferece respostas fáceis, mas um espelho galáctico onde podemos ver nossas falhas com uma clareza desoladora.
Conclusão: O Desafio de Olhar para as Estrelas
Ao final de Canopus em Argos, o leitor não vê mais o mundo da mesma forma. A visão de Lessing nos convida a pensar em escalas milenares e a considerar a possibilidade de que somos parte de algo muito maior e mais complexo do que nossas lutas políticas diárias sugerem. É uma obra que exige paciência, mas que entrega uma visão transcendental da história humana.
(*) Notas sobre a ilustração:
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