domingo, 15 de outubro de 2017

I fought the law - de Bobby Fuller ao Clash


“I Fought the Law” é uma composição de Sonny Curtis, guitarrista da banda de Buddy Holly The Crickets. No entanto, a canção só se tornou famosa com a versão de Bobby Fuller Four, quando esteve nas paradas das dez mais tocadas do ano de 1966. No Brasil e no mundo, a música ficou conhecida nos anos 80, com a versão feita pelo Clash. Em 2004, a versão de Bobby Fuller foi ranqueada pela revista Rolling Stone na posição de 175ª. da lista das 500 maiores músicas de rock de todos os tempos.


A música é sobre um cara que vai para a cadeia após explodir um cofre para roubar. Desde então, a expressão do refrão "I Fought the Law” (lutei contra a lei) acabou entrando para o léxico da língua inglesa norte-americano. A música também apareceu em muitos filmes, programas de TV, anúncios publicitários e até videogames.

Os Crickets gravaram “I Fought the Law” pela primeira vez em 1959, depois do acidente aéreo de Buddy Holly.

Em 1963, foi lançada por Paul Stefen & The Royal Lancers.

Em 1964, Sammy Masters gravou a canção com o título completo: "I Fought the Law (And the Law Won)". E finalmente o sucesso de Bobby Fuller Four.

O Clash gravou I Fought the Law em 1979, depois de ouvir a versão de Fuller. Mas eles tornaram a música mais sombria, mudando a letra "Eu abandonei minha garota" para "Eu matei minha garota". Esta versão os fez conhecidos nos EUA quando foi parar nas paradas musicais em 26 de julho de 1979.

A música também foi gravada por muitos outros artistas, dentre eles, Richard Clapton, She Trinity, The Rattles, Beatsteaks, Ducks Deluxe, Sam Neely , Viper, Bryan Adams, John Cougar Mellencamp, Johnny Cash, Bruce Springsteen, Roy Orbison, Tom Petty, Social Distortion, Stiff Little Fingers, Mike Ness, Waylon Jennings, Gary Allan, Green Day, Alvin and the Chipmunks, Ska-P, the Jolly Boys, Grateful Dead, Stray Cats, Mary’s Danish, Claude François, Mano Negra, the Big Dirty Band, Lolita No. 18, The Brian Jonestown Massacre, Attaque 77, Die Toten Hosen, Status Quo, Nanci Griffith, La Vida Bohème, Anti-Flag, Chumbawamba, Tsuyoshi Kawakami and His Moodmakers, the Airborne Toxic Event, The Bad Shepherds, Johnny Marr etc.

domingo, 1 de outubro de 2017

Carimã, a quiniquinau

1. O conto “Carimã, a quiniquinau”, de Visconde de Taunay, tem em comum, às obras comentadas em aula, a escolha do protagonista entre o elemento indígena. O índio aparece como representante da conciliação nacional, que, na verdade, é uma alegoria para justificar o conflito de interesses entre os grupos sociais divergentes. Neste sentido, o mito fundador na literatura brasileira do projeto nacional é constituído sob a metáfora do herói indígena congregador das contradições políticas, embora deixando intacta a estrutura social. Por isso, o índio sempre aparece aliado ao branco, seja nas lutas entre portugueses e estrangeiros (franceses, holandeses, espanhóis), ou nas lutas internas entre portugueses e brasileiros ou entre partidos locais. No caso de “Carimã”, o protagonista, Pacalalá, índio da tribo quiniquinau, luta ao lado dos brasileiros contra os “castelhanos”, no contexto da Guerra do Paraguai. Conflito deveras conhecido, envolvendo os países da tríplice aliança – Brasil, Argentina e Uruguai – e o Paraguai de Solano Lopes, e que resultou em um genocídio em terras paraguaias. Várias características do romantismo podem ser destacadas em “Carimã, a quiniquinau”, como o medievalismo, na analogia do índio com o cavaleiro medieval, cujos valores são a coragem, a força, a lealdade, a verdade, a justiça, o desprendimento etc.; o mito “rousseauniano do bom selvagem”; as descrições da natureza em tom sublime; e o grotesco quando do enterro de Pacalalá por sua mãe, Carimã.

2. O foco narrativo é em terceira pessoa de tipo narrador onisciente. Porém, o narrador não assume um tom distante e frio. Ao contrário, ele toma partido, em tom ufanista, e participa como “expectador apaixonado” dos acontecimentos narrados, ao exaltar as virtudes dos personagens brasileiros, que são aguerridos, heroicos e incutem admiração até mesmo nos adversários paraguaios. Há também forte carga emocional e comiseração ao descrever as mazelas por que sofrem os brasileiros acossados pelas tropas paraguaias e também nas descrições dos povoados e vilas devastados e em ruínas. Escreve Taunay: “No meio da grita das mulheres, do chorar das crianças, das lamentações dos fracos, do vozear dos índios, dos conselhos desencontrados, das discussões calorosas, aqueles que deviam tomar providências para o bem geral e assumir a responsabilidade de uma resolução imediata, quer no sentido de resistência, quer no de pronta retirada, perderam a cabeça e deixaram-se arrastar pelo movimento da população, que, a 6 de janeiro, em peso abandonou Miranda na mais extraordinária confusão”.

3. Pacalalá tem em comum com os demais líderes indígenas do romantismo gonçalvino e alencarino o fato, já salientado acima, de possuir constituição física extraordinária ao lado de um caráter extremamente virtuoso, de integridade moral inquestionável, e também a pureza imbuída na ideia da inocência do “bom selvagem”. Sobre ele, escreve Taunay: “Tinha ele pouco mais de 20 anos; mas era um soberbo índio, cor de cobre vermelho, com feições angulosas, maçãs do rosto salientes, dentes acerados, olhos pequenos e inteligentes, queixo acentuado e denunciando energia”. A mim, me lembrou muito a resignação, a valentia e o heroísmo de Peri, este quase um sobre-humano.

4. A igreja é representada pelo vigário de Miranda, o frei capuchino Marianno Bagnaia. Frei Bagnaia é o elo entre as populações indígenas e brancas nas terras brasileiras, e dada sua posição, embora quase sempre desprestigiada, não mede esforços para trazer a paz entre as nações contendoras, ao buscar a compaixão para os seus dos inimigos invasores. No entanto, a principal característica do frei é descrita na obstinação por construir, com magros rendimentos e condições adversas, a igreja de Miranda. “Havia na vila uma razão que o atraía com força irresistível: era a igreja matriz que construíra com grande trabalho, empregando nela os seus magros vencimentos e tudo quanto conseguia da caridade dos fregueses”. Esta foi totalmente destruída, levando a ira do frei, que acabou preso por isso, e, por conseguinte, malogrando de uma vez por todas as frágeis possibilidades de diplomacia na região.

5. Diante do assédio das tropas paraguaias lideradas pelo comandante Resquin à vila de Miranda, aparecem comunidades indígenas, como as dos terenos, laianos (nação chané), quiniquinaus, guanás, guaicurus e cadiuéos, em busca de armas para defesa própria e da comunidade, através da guerra de emboscadas. Tal atitude, não é por acaso. Para os índios, os “castelhanos” eram inimigos históricos. Porém, nem todos os grupos indígenas se aliaram aos brasileiros, como fora o caso dos quiniquinaus, guanás e laianos. Os terenos evitaram a luta e se isolaram, enquanto os cadiuéos passaram a atacar ambos os lados do conflito. Mas, de fato, o que levou os índios a entrarem no conflito foram questões territoriais que os ligavam à região. Conforme escreve Taunay: “Os terenos, em número talvez superior a três mil indivíduos, estavam estabelecidos ao Naxedaxe, a seis léguas da vila, no Ipêgue, a sete e meia; e na Aldeia Grande, a três: os quiniquinaus no Agaxi, a sete léguas N. E.: os guanás, no Eponadigo e no Lauiád; os laianos, a meia légua – estes todos da nação chané. Dos guaicurus havia aldeamentos no Lalima e perto de Nioac. Quanto aos cadiuéos moravam em Amagalobida e Nabileke, também chamado Rio Branco”. Evidentemente, no conto, o grupo indígena de maior destaque é quiniquinau, já que os protagonistas Pacalalá e sua mãe Camirã pertencem a esta etnia.

6. Pacalalá é um exemplo e admirado por todos. Diante da invasão das tropas estrangeiras, e na ausência de um chefe capaz para liderar brasileiros e portugueses, Pacalalá, apesar de muito jovem, “pouco mais de 20 anos”, é eleito o líder da resistência. Antes da guerra, Pacalalá defendia os interesses dos índios perante o assédio dos brancos, tendo sempre êxito, pois contava com a admiração e o respeito de brancos e índios. Sua mãe sentia por ele um imenso orgulho, mas sempre com muita discrição. Como descreve Taunay: “Camirã tinha orgulho em ser mãe daquele filho, orgulho imenso, mas oculto no ádito de sua alma. Não só por índole, como pelos costumes dos seus, nunca deixara transparecer a afeição intensa que sentia por ele, nunca correra ao seu encontro ou o abraçara, quanto mais beijá-lo ou tecer-lhe elogios!” Ao saber, da morte do filho em combate, Carimã se veste de muda tristeza e vai ao encontro do corpo insepulto do filho para render-lhe homenagens através de um enterro digno, libertando, então, a alma de Pacalalá que estava presa ao corpo. E, assim, Carimã põe fim a própria vida ao se sacrificar junto à cova de Pacalalá. Neste caso, a atitude da índia é muito diferente do velho tupi, pai de I-Juca Pirama, que só se concilia com o filho ao mandá-lo de volta ao ritual de sacrifício feito pelos índios timbiras quando então I-Juca Pirama redime-se ao provar sua bravura dizimando os guerreiros inimigos.

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domingo, 17 de setembro de 2017

U2: curiosidades


O primeiro nome da banda multiconhecida U2 foi Feedback, devido à terrível barulheira que Bono, The Edge, Adam e Larry faziam nos primeiros ensaios. Algum tempo depois mudaram para The Hype. Os dois primeiros nomes da banda foram sugeridos pelo vocalista Bono. Ele próprio não gosta do nome U2, acha uma “palavra de baixo calão”. Talvez porque o vocalista é um pacifista e U2 é o nome de um avião de guerra. E você, concorda? You too?


Os integrantes da banda se encontraram no ensino médio quando Larry Mullen publicou um anúncio procurando músicos para dar início a uma banda.

Os músicos da banda tiveram vários apelidos ao se conheceram. "The Edge" surgiu por causa do queixo dele. "Bono Vox" era o nome de uma companhia de aparelhos auditivos que Paul Hewson assistia numa propaganda de TV.

A primeira apresentação foi no Trinity College, em Dublin, quando Bono cantou "The White Riot", da banda The Clash.

Eles formaram a banda mesmo antes de aprenderem a tocar instrumentos musicais. Por isso passaram a compor suas próprias canções e músicas, porque não eram bons o suficiente para tocar músicas de outras bandas.

A revista Rolling Stone considerou o U2 a "banda dos anos 80".

No ano de 1998, em Belfast, eles tocaram em um show gratuito para apoiar o acordo de paz na Irlanda do Norte. Líderes protestantes e católicos, que negociavam o acordo, subiram no palco e juntaram-se ao U2 para celebrar o referendo de paz.

Bono tocou em muitos eventos de caridade, com ou sem o U2, incluindo Band Aid, Live Aid, Netaid e Anistia Internacional.

A criança na capa de Boy é Peter Rowan, um sobrinho de um amigo da banda. Dois álbuns depois, Peter pousou novamente para a capa do álbum War.

Sobre a diferença entre a música pop e o rock, Bono declarou: "A música pop frequentemente fala que tudo está bom, enquanto o rock de que nada está bom, mas que você pode mudar isso. O rock traz um motivo para você sair da cama de manhã e enfrentar os desafios do mundo. Já a maior parte das músicas pop não faz você querer sair da cama. Lamento dizer isso, mas a música pop dá sono".

U2: Dublin, Irlanda, 1976.

Integrantes do U2:

Bono, vocalista e compositor. Nome verdadeiro: Paul Hewson. Data de nascimento: 10/5/1960.

The Edge, guitarrista, pianista, tecladista. Nome verdadeiro: David Howell Evans. Data de nascimento: 8/8/1961.

Larry, baterista. Nome verdadeiro: Larry Mullen Jr. Data de nascimento: 31/10/1961.


Adam, baixista. Nome verdadeiro: Adam Clayton. Data de nascimento: 13/4/1960.


THE JOSHUA TREE
Turnê Brasil 2017:
19, 21, 22 & 25 de outubro/Estádio do Morumbi
São Paulo

domingo, 3 de setembro de 2017

O Peixinho Barrigudo

Autora: Nilza Monti Pires
Ilustrações: Annina, Paula Vanessa, Sabrina e Jean


Laurinha era uma menina muito rica.

Tinha muitos brinquedos, mas só queria brincar com jogos eletrônicos.

Passava dias em frente do computador.

Não saía nem para brincar, recebia seus amiguinhos em casa e ficavam horas nos jogos eletrônicos e no “orkutinho” infantil.

Só saía de casa para ir à escola.

Assim que batia o sinal da escola, Laurinha saía correndo para casa. Tomava rapidamente o seu banho, almoçava e já ia para o computador conversar com os amiguinhos pela internet.

Seus pais ficavam muito aborrecidos com isso: “Hoje as crianças trocam as brincadeiras ao ar livre pelas telas de computador e videogames”.

domínio público
Um dia ela ganhou um lindo peixinho.


Laurinha não gostou nada. Que chato cuidar de um peixinho! O que ela queria era um novo videogame com jogos em três dimensões.

Certa ocasião seus pais tiveram que viajar. Laurinha não quis ir com eles, preferiu ficar pois ia sobrar mais tempo, queria aproveitar a saída dos pais para ficar mais no computador.

- Laurinha, você permanece tanto tempo na internet, estuda ou vê TV sempre com o computador conectado. Não sou contra os avanços tecnológicos ou invenções que melhoram a nossa vida. Quero que você cuide bem do peixinho, dê atenção redobrada a ele.


Insatisfeita, concordou, despediu-se dos seus pais, foi até a sala onde estava o aquário, tirou o peixinho, colocou-o numa taça de cristal e levou-o perto do computador. 


E assim, passavam os dias, jogando... jogando... jogando... Não queria perder nenhum lance!


Dava comida para o peixinho sem mesmo olhar para ele... cada minuto, cada instante... dava comida para o peixinho.

Não desligava o computador para nada.

Coitado do computador, até ele não aguentava mais!


Mas ela dava tanta comida e nem se dava conta que o peixinho estava engordando... engordando... engordando, cada vez mais.



Laurinha continuava atenta nos jogos. Mal dava atenção ao peixinho, que ficou tão barrigudo que não cabia mais na taça de cristal, seus olhinhos ficaram brancos e sua pele cinzenta. 


Aí, o peixinho começou a soltar bolhinhas e fazer um barulho estranho, só nesse momento que Laurinha percebeu que seu peixinho tinha virado uma grande bola de tão barrigudo.  


De repente houve uma grande explosão.



- Nossa... o peixinho explodiu! Preciso socorrê-lo antes que ele morra.

- Laurinha saiu correndo com o peixinho para salvá-lo, percebendo o erro que tinha cometido.

- Vá bem depressa Sr. Antonio (disse para o chofer de seu pai), cada segundo é perdido se eu demorar.

- Laurinha, tenho boas notícias, disse o veterinário, costurei a barriga dele e deu tempo de salvá-lo. Você teve muita sorte, pode levar para casa o seu peixinho.

Laurinha agradeceu e saiu muito feliz com seu peixinho. Não percebera que gostava tanto do peixinho assim. 


Passaram alguns dias, seus pais chegaram de viagem.

- Laurinha, trouxemos o computador que você queria, o mais moderno que encontramos.

- Que ótimo, obrigada, é muito bonito, mas primeiro preciso cuidar do meu peixinho barrigudo.

Seus pais não entenderam nada, ficaram surpresos com a atitude da Laurinha e, além disso, o peixinho ficou muito esperto.

- Laurinha, você nos deu uma grande alegria, estamos muito felizes por você ter cuidado tão bem do peixinho barrigudo.

- Agora, disse Laurinha, prefiro sempre ter um novo peixinho, ao invés de um computador. Também quero estabelecer um horário para outras atividades e não mais me exceder no computador.

Seus pais adoraram ouvir isso, mas não entenderam a mudança. Laurinha agora ia moderar seu dia entre o computador, cuidar do peixinho e outras atividades.

Logo depois, chegaram seus amiguinhos.

- Laurinha, sabemos que você ganhou um computador de última geração.

- É verdade, disse Laurinha.

- Estamos ansiosos para jogar, disseram seus amiguinhos.

- Esta bem, disse Laurinha, mas primeiro preciso limpar o aquário. Vocês podem me ajudar? Vamos logo começar esta missão, meu peixinho precisa muito de mim.



domingo, 20 de agosto de 2017

Schopenhauer por Thomas Mann - parte (2)


Thomas Mann foi um escritor alemão do século XX, laureado com o prêmio Nobel de Literatura em 1929. Romancista e ensaísta, é considerado um expoente do realismo alemão, levando o romance clássico do século XIX à perfeição, ao mesmo tempo em que incorporou técnicas do romance do século XX. Sua obra discorre sobre a condição humana, através de alegorias que tratam da falta de sentido da vida na sociedade burguesa. Em 1933, Thomas Mann teve de abandonar a Alemanha ao se contrapor à ascensão do partido nazista. Em 1938, exilou-se nos EUA, onde se radicaliza. Após a guerra, Thomas Mann se naturalizou estadunidense. Suas principais obras são: Os Buddenbrook: decadência de uma família (1901), vencedor do Nobel; A morte em Veneza (1912); José e seus irmãos (romance dividido em quatro partes: A história de Jacob [1930]; O jovem José [1931]; José no Egito (1932-36]; e José, o provedor [1940-43]); e o célebre Doutor Fausto: a vida do compositor alemão Adrian Leverkühn, contada por um amigo (1943-47).

*****

(continuação) Todas as vezes que Schopenhauer evoca o sofrimento do mundo, a lamentável angústia e a fúria de viver das múltiplas encarnações do querer (ele trata disso frequentemente e com minúcias), sua já excepcional eloquência e seu gênio de escritor atingem os cimos mais resplandecentes e mais gélidos de sua perfeição. Fala com uma veemência decidida, com o cunho da experiência, no tom de quem sabe, de quem com isso se aterroriza e é arrebatado pela sua verdade potente. Há em certas páginas uma zombaria sarcástica que ele lança à vida, o olhar faiscante, os lábios apertados, mesclando-a com citações gregas e latinas; cheio de piedade e sem piedade, ata ao pelourinho a miséria do mundo, lavra o respectivo certificado, faz-lhe a conta e presta-lhe contas; aliás, muito longe de esmagar tanto como se deveria esperar de tal precisão e de tão sombrio talento de expressão, ao contrário, enche de satisfação estranhamente profunda pelo protesto do espírito pela revolta humana, que aí se revela num contido tremor de voz. Esta satisfação todos as experimentam, porque, quando esse homem, ao mesmo tempo espírito que ajuíza e grande escritor, fala do sofrimento do mundo em geral, fala também do teu e do meu sofrimento, e nós regozijamos por nos sentirmos vingados pelo verbo grandioso.

Miséria, aflição, preocupação de conservar a vida, primeiro; depois, quando estas foram penosamente banidas, instinto de reprodução, dor de amar, ciúme, inveja, ódio, angústia, ambição, avareza, cupidez, doença e assim, inesgotavelmente, todos os males oriundos da contradição interna da vontade surgem da caixa de Pandora. E que resta no fundo? A esperança? Oh! não, o tédio! Porque todas as existências humanas se balançam entre a dor ao tédio. A dor é o elemento positivo; a alegria não é mais que sua interrupção, um elemento negativo pois, e logo se transforma em tédio da mesma forma que a dominante, a que cabe o desenvolvimento sinuoso da melodia, ou a harmonia, na qual se introduz a desarmonia, se as prolongássemos sem interrupção, provocariam insuportável tédio. Felicidades positivas? Há algumas. Mas, comparadas ao longo tormento de nossa cobiça, ao infinito de nossas exigências, são curtas e mesquinhas e, para um desejo satisfeito, dez ao menos restam insatisfeitos. Aliás, é só aparente a satisfação, porque, apenas atendido, um desejo cede o lugar a outro: o primeiro é um erro reconhecido, o seguinte um erro que não foi ainda. Nenhuma satisfação do querer que atinge seu objeto pode durar; semelha a esmola que, dada ao mendigo, prolonga sua lamentável existência de hoje para amanhã. A felicidade? Seria o repouso. Mas este é precisamente incompatível com a vontade. Perseguir, evitar, recear a infelicidade, procurar avidamente o gozo - tudo se assemelha; a inquietude causada pelas exigências sempre renascentes da vontade enche e agita sem demora a consciência e, assim, o sujeito que sempre quer jaz sob a roda de Ixion, enche incansavelmente o tonel das Danaides; é Tântalo e a sua sede eterna.

Contudo, pode-se salvar o mundo da miséria, do erro, do engano e da penitência que é a vida; e a salvação está ao alcance do homem, que realiza a mais alta e a mais evoluída objetivação da vontade, mas também, por esta mesma razão, a mais capaz de sofrer e a mais rica de sofrimento. Crê-se que isso possa ser a morte? Muito falta para tal. A morte pertence inteiramente ao domínio dos fenômenos e do empírico, à esfera da multiplicidade e da mudança; nenhum contacto tem com a realidade transcendente e verdadeira. O que morre conosco é unicamente a individuação; a vontade, que é vontade de viver e forma o núcleo de nosso ser, não é sequer atingida por ela; tão demoradamente quanto se afirma a si mesma, poderá sempre encontrar os caminhos que dão acesso à vida. Resulta daí, digamo-lo de passagem, que o suicídio é absurdo e imoral, pois nada conserta: o que o indivíduo nega e suprime, destruindo-se, é unicamente sua individuação, mas não o erro original, a vontade de viver, que, pelo suicídio, não fez mais que tender para uma realização mais feliz. A salvação, pois, de maneira alguma se chama "morte"; liga-se a condição muito diferente. Ninguém imagina a que mediador devemos eventualmente esta benção. É a inteligência.

Mas a inteligência não é o produto da vontade, seu instrumento, sua luz na escuridão, a serva que lhe foi reservada? É assim e assim continua. Nem sempre, porém, nem em todos os casos. Em circunstâncias particularmente felizes - oh! pode-se mesmo dizer bem-aventuradas - em circunstâncias excepcionais por consequência, esse criado que é o intelecto, esse pobre servente pode tornar-se mestre de seu mestre; pode pregar-lhe uma peça, emancipar-se, tornar-se autônomo e, ao menos durante algum tempo, estabelecer sobre o mundo sua soberania benfazeja de bondade e de luz, na qual, despojada de seu poder e de sua influência, a vontade cede à doçura de um delicioso aniquilamento. Há um estado em que esse milagre se realiza: o conhecimento se separa violentamente da vontade, o sujeito deixa de ser um simples indivíduo, tornando-se, puro e sem vontade, o sujeito do conhecimento. Chama-se-lhe estado estético. É uma das maiores e mais profundas experiências de Schopenhauer. Tanto dispõe o filósofo de acentos medonhos para descrever os tormentos que a dominação do querer acarreta, quanto sua prosa encontra tons seráficos e sua gratidão transborda e se derrama quando - e ele o faz com uma abundância inesgotável - fala nas bênçãos da Arte. Interpretou esta experiência, uma das mais pessoais talvez de sua vida, e lhe deu forma como discípulo de Platão e de Kant. Ele definira o belo "o que apraz de maneira desinteressada". Para Schopenhauer isso significa acertadamente: sem relação com a vontade. O prazer estético seria puro, desinteressado, livre do querer; seria "representação", no sentido mais forte e mais sereno, contemplação clara, imperturbada, cheia de calma. E por que seria? Aqui, Platão deve vir-lhe em ajuda, Platão e o "esteticismo" latente de sua doutrina das Ideias. As Ideias! Foram elas que, no estado estético, tornaram visíveis, através dos fenômenos, essas cópias da eternidade; o olhar direto que nelas incidisse seria a contemplação objetiva, pura, larga, luminosa como o sol, da qual só o gênio - e ainda em suas horas e instantes de genialidade - seria julgado digno e, com ele, quem soubesse acolher e gozar a obra estética.

Apolo que vê longe, o Deus das Musas, é um Deus do afastamento e da distância; não é o da confusão, das "pathos" e da patologia, nem do sofrimento, mas da liberdade, um Deus objetivo, o Deus da Ironia. Por esta, como viu Schopenhauer, pela objetividade genial, o conhecimento seria, pois, arrancado à escravidão da vontade; a atenção deixaria, enfim, de ser perturbada por qualquer móvel da vontade; nós nos abandonaríamos e as coisas não seriam mais objetos da vontade, mas simples objetos da representação: um repouso até então desconhecido ser-nos-ia afinal oferecido. “Estamos perfeitamente bem”, escrevia nosso autor. “É o estado sem dor que Epicuro celebrava como o maior dos bens e como condição dos deuses; nesse instante, nós nos libertamos da necessidade desprezível de querer, celebramos o sabbat dos trabalhos forçados da vontade, a roda de Ixion para”. Palavras célebres, tantas vezes citadas. O belo e o alívio imenso que o contemplá-lo proporciona arrancaram-nas a essa alma amarga e atormentada. Serão verdadeiras?

Mas que é a verdade? Uma experiência vivida que encontra tais palavras é verdadeira; justifica-se pela força do sentimento. Dever-se-ia crer, talvez, que essas palavras de um reconhecimento total e ilimitado foram escritas para caracterizar uma felicidade relativa e que seria ainda puramente negativa? Porque, de maneira geral, a felicidade, simples suspensão de uma tortura, é negativa; e não é de outro modo para quem procura a contemplação estética das Ideias, para a objetividade que acalma o querer, como o provam, aliás, sem dúvida possível, as imagens que essa felicidade inspira a Schopenhauer. Também só é efêmera, provisória. O estado de artista, julgava ele, a parada diante de uma imagem iluminada pela Ideia, não representaria a salvação definitiva. O estado estético seria apenas uma etapa; deveria levar-nos a estado mais perfeito, em que a vontade, que no primeiro não havia encontrado mais que passageira satisfação, seria para sempre submergida pelos raios do conhecimento, expulsa do terreno e aniquilada. O acabamento do artista seria o santo.

De maneira geral, que é a ética? É a ciência das ações dos homens, a ciência do bem e do mal. Ciência? A vontade cega, sem razão nem senso, poderia receber ensinamento? Evidentemente, não se poderia ensinar a virtude, assim como não se poderia formar um artista explicando-se-lhe o que constitui o estado estético, nem se poderia levar um homem a praticar o bem e a evitar o mal com o explicar-se-lhe o sentido e significação de um e outro. Verdadeiramente nenhuma prescrição havia a fazer à vontade: seria livre, absoluta e todo-poderosa. A liberdade encontrar-se-ia mesmo unicamente nela, existiria exclusivamente no transcendente, jamais no empírico, na objetivação da vontade, que repousaria no espaço, no tempo e na causalidade, no mundo. Aqui, tudo estaria submetido à inflexível causalidade, ligado e determinado como causa e efeito; a liberdade encontrar-se-ia para além das aparências fenomenais, como a vontade, mas lá estaria presente e com poder absoluto, lá estaria a liberdade da vontade. Como acontece frequentemente, a "sã razão humana" enganava-se inteiramente quanto à liberdade, que não estaria no ato, mas no ser, não no "operari", mas no "esse"; no ato, é verdade, reinariam, pois, inelutavelmente a necessidade e o determinismo, mas o ser continuaria originalmente e metafìsicamente livre. Certo, o homem que tivesse cometido um ato culposo deveria necessariamente, na qualidade de caráter empírico, sob a influência de móveis determinados, agir assim, mas teria podido ser outro, e mesmo o remorso, a angústia da consciência visariam o ser, não o ato.

Cruel e duro pensamento, insultante, desapiedado, arrogante! Aceitá-lo repugna ao nosso sentimento, e eis que nosso sentimento apela para sua mística. A verdade mística, na qual se funda, longe de deixar cair no esquecimento o par de conceitos culpa-mérito, ao contrário, equivale a espantoso aprofundamento. Por isso, é verdade, ambos escapam à esfera moral concebida em estreito sentido. Mas os espíritos aristocráticos, precisamente os que não faziam grande caso da “justiça”, sempre se inclinaram a privar a moralidade da culpa e do mérito. Goethe fala complacentemente de "méritos inatos", o que é uma reunião de palavras deveras absurda do duplo ponto de vista da lógica e de moral. Porque o "mérito" é inteiramente e por natureza um conceito moral, e o que é inato, como a beleza, a inteligência, a distinção, o talento, ou conferindo-lhe o valor do destino, a felicidade, nada disso logicamente pode ser mérito. Para que aqui se pudesse falar de mérito, fora preciso que tudo isso fosse resultado de livre escolha, a expressão de uma vontade colocada ante os fenômenos, e é precisamente o que Schopenhauer afirma quando declara, com dureza aristocrática, que, feliz ou infeliz, cada um sempre recebe apenas o que lhe é devido.

Mas a aristocrática aceitação da injustiça e da diversidade no destino dos homens não demora a se resolver em uma igualdade, a mais determinada e a mais democrática de todas, pelo simples fato de que o raciocínio reduz a desigualdade e a diferença e mesmo a disparidade a uma ilusão. Para designar esta ilusão, serve-se Schopenhauer De um nome emprestado à sabedoria hindu, que ele admira muito, dada a concordância dela com a sua própria visão do mundo; chama-a “o véu de Maia”. Mas já muito antes, segundo o costume dos sábios ocidentais, tinha-se expressado em latim; esta grande ilusão que representa a injusta desigualdade das fortunas, dos caracteres, das situações e dos destinos repousa no "principium individuationis". Diferença e injustiça não são mais do que as consequências que a multiplicidade no seio do tempo e do espaço implica, mas aquela que não é mais que aparência, é a representação que nós, seres individuais, graças à organização de nossa inteligência, podemos ter de um mundo que, em sua verdadeira realidade, é a objetivação da vontade de viver una e única no todo e nas partes, em mim e em ti. Mas aquilo, o indivíduo, que tem o sentimento de sua unicidade em face do mundo, não o reconhece. E como poderia reconhecê-lo se as condições de seu conhecimento, o "véu de Maia", que envolve seu olhar e o mundo, o impedem de contemplar a verdade? Não vê ele a essência das coisas, que é una, mas suas aparências fenomenais, separadas, diferentes, e mais ainda, opostas: alegria e tormento, carrasco e vítima, vida contente aqui, e ali lamentável. Dizes sim a um, especialmente por tua própria conta, e repudias ao outro, sobretudo no que te diz respeito. A vontade, que é tua origem e tua essência, faz-te aspirar à felicidade, às alegrias e aos prazeres da vida; estendes para ela as mãos, aperta-as com força contra teu peito; e esquece-te de que, admitindo assim a vontade, admites também todos os tormentos do mundo e os apertas contra ti. O que, ao mesmo tempo, tu fazes de mau, o mal que cometes, tua revolta contra a injustiça da vida, e também a inveja, a aspiração e o desejo, a tua cobiça do mundo, tudo isso provém da ilusão da multiplicidade, deste erro, que tu não és o mundo e o mundo não é tu. Sim, tudo isso vem desta diferença entre "eu" e "tu", que não é mais que uma ilusão, a ilusão de Maia.

Vem daí igualmente teu medo da morte. A morte não é mais que a supressão de um erro, de um descaminho, porque cada individuação é um descaminho. Não é mais que o desaparecimento de uma parede imaginária que separa o resto do mundo o eu, em que tu te achas encerrado. Crês que, à. tua morte, este resto do mundo continuará a existir, ao passo que tu – horrível pensamento! – não existirás mais. Ora, eu te digo: este mundo, que é tua representação, não será mais: mas tu (mais exatamente: aquilo que, em ti, teme a morte, que não a quer, porque é a vontade de viver), tu permanecerás, viverás, porque a vontade, que é a tua substância, poderá sempre encontrar o caminho da vida. Não te pertence toda a eternidade? E com a vida, que para esta não é mais que um tempo, quando, na verdade, ela é contínua presença, de novo o tempo te será dado em partilha. À tua vontade está assegurada a vida, com todas as suas alegrias e todos os seus tormentos, durante o tempo que ela a quiser. Melhor seria para ti que ela não a quisesse.

Esperando, vives tal qual és. Vês e amas, olhas e desejas, cobiças a imagem que te é estranha, tão estranha, tão outra, diferente de ti sofres por isso, queres atraí-la a ti, em ti, ser ela. Mas ser uma coisa não é vê-la; para isso muito falta; é incomparavelmente mais penoso e mais lamentável. O desejo é um logro causado pela representação. Tu és dado a ti mesmo, teu corpo te é dado a princípio como representação, assim como tudo o resto do mundo, mas ao mesmo tempo como vontade, e é a única coisa no mundo que te foi dada também como vontade. Tudo o mais não é para ti senão representação. O mundo inteiro parece-te um bailado, um espetáculo, ao qual o teu primeiro e natural julgamento está longe de atribuir tamanha realidade quanto a ti, o espectador; estás longe de torná-lo tão a sério quanta a ti, no mesmo grau e com o mesmo sentido. Ao Eu, escravo do princípio de individuação, envolto no véu de Maia, todos os outros seres aparecem como máscara e fantasmas, aos quais não está absolutamente em condições de atribuir uma existência tão importante e tão séria quanto a tua mesma. Só tu importas, não é? Único ser real. Tu és o centro do mundo, e tudo conspira para teu bem-estar, para, no máximo possível, afastar de ti os sofrimentos da vida, para te procurar profusão de felicidades. O que aos outros acontece é de uma importância incomparavelmente menor, não te faz bem nem mal. Tal é o ponto de vista do egoísmo natural, inteiro e inteiramente cego, o aprisionamento sem remissão no princípio de individuação. Penetrar com o olhar esse princípio, penetrar por intuição seu caráter enganador, que vela a verdade, pressentir confusamente que não há diferença entre Eu e Tu, ter o sentimento de que por tudo e em todos os seres não há mais que uma só e mesma vontade, é o começo e a essência de toda ética. O mal é aquele que, desde que nenhuma força exterior o impeça, comete o mal, isto é, um homem que não se contenta com afirmar a vontade de viver tal qual aparece em seu corpo, mas, além disso, nega a que aparece nos outros e se esforça por aniquilar-lhes a existência, desde que entrave o caminho aos esforços de sua própria vontade.

No caráter mau exprime-se uma vontade imperiosa, que ultrapassa a afirmação de seu próprio corpo, mas, sobretudo, uma profunda impotência do conhecimento para se libertar das aparências assim como do princípio de individuação, a ponto de se manter duro como o ferro na diferença que este princípio estabelece entre sua própria pessoa e todas as outras; é precisamente porque considera a essência das outras inteiramente estranha à sua, separada dela por um abismo, e porque nelas não vê, no sentido literal da palavra, mais que máscaras vazias, atribuindo-se, com a mais profunda convicção, a única realidade que exista.





sábado, 19 de agosto de 2017

Green Day - Punk anos 90

O Green Day foi formado em 1986, em plena cena punk californiana, pelos amigos de infância Billie Joe Armstrong (guitarra e vocal) e Mike Dirnt (baixo). Na época, eles tinham apenas 14 anos e a banda se chamava Sweet Children. Em 1989, Al Sobrante (bateria) entra na banda e o grupo muda para o nome que o tornaria mundialmente conhecido: Green Day.


Naquele ano, lançam o primeiro EP “1,000 Hours”. Depois, o grupo assina contrato com uma gravadora independente, a Lookout! Records, e grava o primeiro álbum, “39 / Smooth”. Pouco depois do lançamento, Tre Cool assume a batera. Em breve, estão viajam por todo o país e representando o ressurgimento do punk no início dos anos 90, juntamente com as bandas Offspring e Rancid. O álbum "Dookie", de 1994, trouxe o sucesso mundial. Mas a capacidade do Green Day de se reinventar e álbuns como “American Idiot” foram o segredo para que a banda se tornasse uma das mais importantes do rock dos anos 2000.

Discografia: 39/Smooth (1990); Kerplunk (1991)[138][139][140]; Dookie (1994); Insomniac (1995); Nimrod (1997); Warning (2000); American Idiot (2004); 21st Century Breakdown (2009); ¡Uno! (2012); ¡Dos! (2012); ¡Tré! (2012); Revolution Radio (2016).