Quando Alberto Moravia publicou seu romance de estreia, Os Indiferentes (Gli Indifferenti), em 1929, a literatura italiana sofreu um abalo sísmico. Escrito quando o autor tinha apenas 21 anos, o livro não apenas lançou uma carreira brilhante, mas também serviu como uma autópsia impiedosa da classe média alta italiana durante o auge do fascismo.
A obra não é apenas uma narrativa sobre uma família em declínio; é um manifesto sobre a paralisia da alma. Neste artigo, exploraremos como a apatia e a inércia emocional se tornam os pilares de uma tragédia doméstica que, quase um século depois, ainda ecoa na nossa sociedade contemporânea.
O Contexto Histórico: O Surgimento de Alberto Moravia
Publicado em um período de censura e exaltação nacionalista na Itália, Os Indiferentes foi uma lufada de ar frio e realista. Enquanto o regime fascista promovia a imagem de uma nação vigorosa e moralmente íntegra, Moravia revelava o "vazio" que existia por trás das portas fechadas dos palacetes romanos.
A Literatura Existencialista Antecipada
Embora o existencialismo tenha se tornado uma escola filosófica dominante após a Segunda Guerra Mundial, Moravia já apresentava em 1929 os conceitos de náusea e tédio que Jean-Paul Sartre e Albert Camus explorariam décadas depois. A sensação de estar "fora de si" e a incapacidade de agir são as marcas registradas de seus personagens.
O Enredo: Uma Dança de Sombras e Conveniências
A história de Os Indiferentes desenrola-se em poucos dias e concentra-se na família Ardengo. Viúva e em dificuldades financeiras, Mariagrazia vive uma relação de dependência com seu amante, Leo Merumeci. Leo, por sua vez, é um personagem maquiavélico que planeja se apoderar da mansão da família.
Os Protagonistas da Inércia: Carla e Michele
O foco central do livro recai sobre os filhos de Mariagrazia: Carla e Michele.
Carla: Sente um tédio profundo por sua vida burguesa e, em um ato de desespero para mudar sua realidade (ou simplesmente por incapacidade de resistir), permite-se ser seduzida por Leo, o amante de sua mãe.
Michele: É o personagem mais torturado. Ele possui plena consciência da imoralidade e da degradação que o cerca, mas sofre de uma incapacidade crônica de sentir indignação real ou de agir contra ela.
Temas Centrais: O Tédio e a Indiferença
A palavra-chave para entender este romance é, sem dúvida, a indiferença. Não se trata de uma falta de conhecimento, mas de uma falta de vontade.
A Paralisia da Vontade
Michele Ardengo é o arquétipo do herói paralisado. Ele tenta forçar a si mesmo a sentir raiva, a ter uma reação violenta, a defender a honra da irmã, mas falha miseravelmente. Para Moravia, a tragédia de Michele é que ele sabe que deveria agir, mas a substância de sua alma é feita de tédio.
A Reificação das Relações
Em Os Indiferentes, as pessoas são tratadas como objetos. Leo vê Carla como uma conquista; Mariagrazia vê Leo como um seguro social; Carla vê a si mesma como uma mercadoria que pode ser trocada por uma "vida nova". Não há amor, apenas transação e conveniência.
O Estilo Literário: Realismo e Teatralidade
A estrutura de Os Indiferentes assemelha-se a uma peça de teatro. Grande parte da ação ocorre em espaços fechados — salas de estar, quartos, salas de jantar — o que acentua a sensação de claustrofobia emocional.
A Linguagem Direta
Moravia evita ornamentos desnecessários. Sua escrita é seca, focada nos gestos e nas expressões faciais que revelam a mentira social. Ele descreve a "miséria moral" com a precisão de um cirurgião, expondo a podridão por trás dos bons modos burgueses.
Por que ler "Os Indiferentes" hoje?
Embora o cenário seja a Roma de 1920, os temas de Alberto Moravia são atemporais.
A Crise da Autenticidade: Em uma era de redes sociais, a ideia de viver uma "mentira social" para manter as aparências é mais relevante do que nunca.
O Papel da Inércia: O livro nos questiona sobre as situações em que somos indiferentes diante da injustiça por simples conforto ou tédio.
A Estética da Decadência: Moravia ensina como a falta de valores morais sólidos pode levar ao colapso de uma estrutura familiar e social.
Perguntas Comuns sobre Os Indiferentes (FAQ)
1. Alberto Moravia era um autor fascista?
Não. Pelo contrário, Moravia foi vigiado pelo regime e muitos de seus livros foram censurados ou proibidos mais tarde. Os Indiferentes era uma crítica implícita à passividade que permitia o fascismo florescer.
2. Qual a principal lição do livro?
O livro não é moralista, mas aponta que a consciência sem ação é uma forma de tortura. Michele sofre porque sabe o que é certo, mas não tem fibra moral para executá-lo.
3. O livro é considerado difícil de ler?
A linguagem é acessível e a trama é envolvente, lembrando um drama psicológico. A dificuldade reside no desconforto emocional de ver personagens tão passivos diante de sua própria ruína.
4. Existe adaptação cinematográfica?
Sim, a obra foi adaptada diversas vezes para o cinema, sendo a mais famosa a versão de 1964, dirigida por Francesco Maselli, e uma versão mais recente em 2020, que traz a trama para os dias atuais.
Conclusão: O Espelho Incômodo de Moravia
Ao concluir a leitura de Os Indiferentes, o leitor é deixado com um sentimento de inquietude. Alberto Moravia não oferece redenção para seus personagens; ele os deixa presos em suas salas de estar, destinados a repetir os mesmos erros e a afundar na mesma lama de conveniências.
A obra permanece como um alerta contra a indiferença, lembrando-nos de que a vida só adquire sentido quando a consciência é acompanhada pela coragem de agir. Em um mundo que muitas vezes nos empurra para a passividade, o romance de Moravia é o despertar necessário, um grito contra o tédio que corrói a humanidade.
(*) Notas sobre a ilustração:
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