segunda-feira, 1 de abril de 2019

A Bolha do Tempo

Por Nilza Monti Pires

José e Miguel eram dois amiguinhos inseparáveis, moravam na mesma rua, saíam sempre juntos, na escola, nas brincadeiras e nos passeios.

Combinavam em tudo apesar de José ser muito alto com as pernas bem longas, enquanto Miguel, ao contrário, era baixinho com as pernas curtas demais.

Desenho de Annina Ramona

O dia amanheceu ensolarado, o sol da primavera brilhava, no alto um azul limpíssimo e os dois garotos resolveram dar uma volta pelas redondezas.

Ao passar por uma das ruas arborizadas do bairro, viram um lindo gramado e lá havia um grupinho de meninos jogando bola.

José e Miguel tiveram a mesma ideia, um olhou para o outro e um deles falou:

- Vamos, vamos perguntar se podemos jogar com eles?

- Claro!

Chegando perto dos garotos perguntaram:

- Ei, podemos jogar com vocês?

Quando os meninos viram José e Miguel, todos deram uma risadinha.

- O problema - disse um dos garotos, chamado Renato - é que você tem as pernas muito compridas, em dois passos chega no gol, e o seu amigo tem as pernas curtas demais, para chegar no gol vai levar uma eternidade.

José e Miguel ficaram tristes e desanimados. Resolveram ir embora.

De repente a terra tremeu. Uma descarga elétrica na atmosfera, causando um grande estrondo, assustador, instantaneamente abriu no chão um grande buraco, uma enorme abertura pegando José e Miguel e os outros meninos desprevenidos, arremessando todos para o fundo da terra.

Eles rolaram, giraram, rodopiaram, dando várias voltas, e uma chuva repentina formou em torno deles uma grande bolha transparente, levando-os cada vez mais longe, onde caíram numa fenda muito profunda.


Quando a bolha parou, todos estavam assustados e, ao saírem da bolha, ficaram amedrontados.

- Aonde será que a gente foi parar?

- Sei lá, aqui está muito escuro, não estou enxergando nada, acho que vai ser difícil sair daqui - disse André, um dos meninos da turminha.

Enquanto isso José nesse momento estava preocupado com suas longas pernas, pois foi muito sacudido, espremido e esmagado, mas, ao se levantar, percebeu que nada tinha acontecido.

- Ufa! - exclamou aliviado.

- Que bom que todos estão bem, mas como vamos sair daqui, não estou vendo nada - disse Renato aflito.

- Aqui que não podemos ficar – disse com ansiedade Léo, outro dos amiguinhos - tá muito escuro!

- Eu tenho no meu bolso uma lanterninha ultravioleta - disse Miguel. Mas com tantas viravoltas... Vou ver se ainda está no meu bolso. Por sorte a lanterninha não caiu, pessoal - gritou - e ainda acende!

- Que bom!!! - gritaram todos entusiasmados.

- Agora é só coragem - disse José.

Miguel pegou sua pequena lanterna luminosa, acendeu e surpreenderam-se com o que viram:

Era um grande túnel, tão perfeito, colorido, com vários tons de azul, amarelo, verde, branco, vermelho... Era limpíssimo e sem nenhum inseto.


- Nunca pensei encontrar um túnel tão grande e tão bonito.

- Nem eu.

E assim começaram a andar pelo longo túnel colorido por várias horas até que mais adiante viram uma claridade.

- Que sorte, enfim uma saída neste caminho subterrâneo.

Ao chegarem perto da saída, viram que era muito alta.

- Mas que saída alta – lamentou um dos meninos.

José então com suas pernas longas pôde ver afinal aonde tinham saído.

Assim que José colocou a cabeça para fora exclamou:

- Não é possível o que estou vendo, é incrível! - disse espantado.

- O que é?!!! - responderam todos, curiosos.

- Dinossauros!!! Muitos dinossauros!!!


- Está ficando doido? Está vendo demais, quer nos enganar?

- É verdade, juro, não estou brincando.

André começou a rir:

- Essa é boa, os dinossauros existiram há mais de 200 milhões de anos.

- Deve ser uma miragem - disse Miguel - você bateu a cabeça e pirou de vez.

- Estou falando sério, são muito grandes!

- Veja - disse Léo - aqui na parede tem até uma escadinha. Dá para subir!

Todos muito curiosos subiram para certificar se eram mesmo dinossauros.

- Caramba, é verdade! - para surpresa de todos.

A euforia foi grande quando viram os dinossauros.


- Que legal, adoro dinossauros. Vamos até lá? – disse Miguel.

- Está louco, olha só os dentes do dinossauro. Afiadíssimos!

- Quem tem coragem de ir até lá e passar por esses enormes bichos? – interrogou Renato.

- E se a gente chegar um pouco mais perto? – concordou Miguel.

- Pensa que é que nem nos filmes que os dinossauros correm atrás, não pegam ninguém e ainda por cima são bonzinhos?!!! – retrucou André.

- Eu que não vou até lá, não quero ser comida de dinossauro.

- O melhor mesmo é usar o bom senso e voltar de onde viemos, pelo mesmo buraco - disse o sensato Renato.

Todos concordaram e novamente Miguel acendeu sua lanterninha luminosa e lá foram caminhando pelo grande túnel confortável. José com suas pernas longas não tinha nenhuma dificuldade em andar nele.

Depois de andar bastante, sentaram-se um pouco para descansar e viram logo mais adiante outra claridade.

- Vejam, a luz do sol - gritou um dos garotos.

- O que são esses desenhos na parede da caverna? - perguntou Léo.

- Acho que eram dos homens das cavernas - respondeu José.

- Que bom, desta vez a saída é fácil, já dá para sair direto.

- Nossa, quantos macacos, parece o planeta dos macacos! - exclamou Renato.


- Vejam, estão conversando e andando de pé. São mesmo os homens das cavernas, da pré-história!

- Será que são os nossos antepassados? – disse Léo, brincando.

- Os historiadores - argumentou André -, baseados na teoria da evolução, provam que seriam nossos antepassados.

- Vamos ver o que eles estão falando, estou curioso – disse Miguel.

- Que ideia é essa! Estes primatas são selvagens e se nos vissem iriam nos matar. Parecem inteligentes, porém somos estranhos para eles - desse José.

Então resolveram voltar pelo grande túnel esculpido, de parede lustrada e sem nenhum bicho peçonhento. Andaram por alguns quilômetros até encontrarem uma outra saída.

Mas ao saírem do túnel ficaram ainda mais surpresos ao verem as pirâmides do Egito.


- Nossa, as pirâmides do Egito. Então estamos no túnel do tempo!

- Estão construindo a pirâmide de Quéops, conhecida como a grande pirâmide. Ela é uma das sete maravilhas do mundo antigo. Li que a pirâmide de Quéops foi construída no ano 1270 a 1300 antes de Cristo – explicou André.

- Estes homens que estão trabalhando agora não sabem que essa obra genial virou atração turística – confirmou José.


- É verdade, por incrível que pareça, teremos que voltar para o ano 2019 para ver de perto essa grande pirâmide.

- Vamos até lá! - exclamou novamente Miguel.

- Lá só tem múmias - disse Léo - e eu não pretendo encontrar nenhuma delas.

- Agora está deserto, silencioso, vamos até lá admirar de perto as pirâmides?

Estavam distraídos quando ouviram um grito abafado.

- É um grito da Múmia - disse José.

- Eu não falei - respondeu Léo - que era a múmia!

E aí todos correram desesperados para o túnel.

- Que medo, que grito abafado...

No final todos estavam rindo e felizes. Pareciam estar gostando desta aventura.

Miguel teve a seguinte ideia:

- Quem sabe se na próxima saída encontraremos o pico do Everest, para escalar aquelas altíssimas montanhas cobertas de gelo?

- Pelo jeito estão gostando de ficar no túnel - replicou Renato - mas nossa intenção é voltar para casa.

Novamente a pequena lanterna luminosa de Miguel foi útil na escuridão do túnel brilhante, colorido e agradável.

Caminharam por um bom tempo, com a luz difusa da lanterninha.

Num certo momento, começaram a descer uma enorme rampa, que os levava mais para o fundo da terra, encontrando uma rocha por onde saía muita água.

- Nossa, aqui é o fundo do mar!


- Como vamos passar por aqui se está tudo inundado? - questionou André.

- Então, vamos voltar - disse Renato.

- Se retornarmos, voltaremos para o passado – André ponderou.

- Como vamos atravessar esse mar? - indagou José preocupado.

- Vai ser impossível sair daqui - conclui André - tem água para todos os lados e pelo azul escuro do mar, acho que essa região é a mais profunda do oceano. São as fossas Marianas, no abissal oceânico.

- Xiiii, é complicado – indagou Léo.

- Sim, conforme a extensão e a profundidade não vai ter mais jeito de sair daqui – disse José.

- Não vamos esmorecer – falou Renato.

- Mas como vamos sair daqui? – disse Léo.

- Já sei como sair daqui - respondeu Miguel. - Eu trouxe no meu bolso a bolha transparente. É só assoprar e entraremos nela.

- A bolha transparente!!! - exclamaram todos.

- Ela mesmo - disse Miguel.

- Mas será que ela é forte o suficiente - argumentou André - para aguentar a pressão do fundo do mar?

- Temos que arriscar – José retrucou.

- E se a bolha estourar - questionou Léo.

- Ela é forte e vai aguentar - Miguel respondeu com convicção.

Todos sopraram a bolha transparente, entraram um por um nela e lá foram entre as cachoeiras no profundo mar azul.


Contentes, alegres e satisfeitos, com o bom êxito da bolha, que deu ótimos resultados, boiando entre as ondas volumosas, agitadas, no meio do oceano.

Estavam numa euforia só, pois pela bolha transparente era possível avistar todo o fundo do mar, o lindo mundo aquático, com suas cores mágicas e peixes coloridos, corais de luzes e algas flutuantes, nem parecia real, coisas incríveis da natureza.

De repente, da alegria virou um pesadelo. Um enorme tubarão passou bem na frente da bolha, parou, observou. 


Por sorte, o tubarão passou de raspão e foi embora.

- Puxa, escapamos por um fio. Num piscar de olhos e todos nós seríamos devorados – falou José muito aliviado.

Depois de várias horas, sendo sacudidos pelas ondas gigantescas, que fazia a bolha balançar e rodar que nem parafuso, os meninos já não aguentavam mais. Finalmente, a bolha flutuante, depois de muitos obstáculos, elevou-se à superfície, atracando na areia da praia.

- A bolha já parou - gritaram - estamos em terra firme!

Assim que saíram da bolha, viram um imenso deserto, com um sol escaldante, e então ficaram perplexos com uma vastidão tão grande.


- Que lugar é este - indagou José - será o deserto do Saara?

- Curioso, parece terra de ninguém – um dos meninos comentou.

- Nossa, o que é aquilo, um vulto? Vem em nossa direção – disse André.

- É um homem - disse Miguel - está vindo com seu cavalo pomposo.


- De onde surgiu essa figura? - rebateu Léo.

- Olá garotos, tudo bem? Vocês apareceram na minha tela.

- Na sua tela? - falou José engasgado. - Da onde você é? Sua pele é verde...

- Sim, sou daqui mesmo, vim atrás de vocês. Sei controlar suas mentes.

José ficou meio desconfiado e perguntou:

- Por que seu cavalo tem muitos os olhos?

- Não são olhos – respondeu o homem esverdeado - são botões magnéticos, que detectam alvos inimigos e também captam sinais com exatidão, que até podem manipular as pessoas. É uma inteligência artificial.

- Então, isso não é um cavalo, é uma máquina?


- Exatamente - disse o estranho homem.

- Mas aqui é um deserto – indagou André - não estou vendo nada. Onde estão as casas?

- Realmente aqui ninguém tem casa. Esta máquina é minha casa. Basta apertar um dos botões e vai aparecer tudo o que eu quiser.

- Essa máquina é um robô? – perguntou Miguel.

- Sim. Aqui era muito poluído, houve uma grande mudança climática, tudo virou um deserto e o sol ainda continua escaldante... Mas o que vocês vieram fazer aqui, meninos?

- A bolha nos trouxe aqui. Precisamos voltar para casa - disse Renato temeroso e olhando furtivamente para os seus amigos.

- Tá certo vou ajudar - disse o esverdeado - mas antes vou pedir um favor. Se me fizerem, deixarei vocês livre, senão largarei vocês à sua sorte.

- O que devemos fazer? – Miguel perguntou.

- Vem comigo. Está vendo aquela árvore cheia de frutos?


- Sim, é uma macieira.

- Aqui só existe essa árvore, é a única neste planeta e eu nunca comi uma fruta. Quero experimentar.

- Credo, só tem uma árvore? Caramba!

- Então, preciso de você que tem as pernas longas e do pequenininho.

- Eu? - disse José.

- Eu? – disse Miguel.

- Você tem as pernas longas e pode erguer o seu amiguinho de pernas curtas. Ele pode andar entre os galhos e alcançar e pegar para mim todas as frutas.

José indagou:

- Você que tem um robô, com uma tecnologia incrível e outras mil coisas, e não consegue alcançar e pegar aquelas frutas?

- É verdade, minha máquina tem raciocínio exato, mas não consegue pegar as frutas porque suas mãos não são flexíveis que nem a de vocês.

Então José e Miguel fizeram um acordo com aquele homem incomum, pegariam as frutas e ficaram livres.

O homem esverdeado aceitou a proposta.

José ficou temeroso de não alcançar o galho e Miguel pegar as maçãs. Mas chegando pertinho ergueu Miguel, que subiu no galho e conseguiu pegar as frutas. Assim José ficou aliviado.

E Miguel foi pegando uma a uma e deu para o homem as tão desejadas maçãs.

Assim que o homem esverdeado pegou uma maçã, deu uma mordida e exclamou:

- Hummm, que delícia! – disse, ao dar uma abocanhada - Que sabor, que fruta suculenta, joia rara!

Todos ficaram admirados, nunca tinham visto alguém que nunca tinha comido uma fruta.

- Nunca comi uma coisa igual - murmurou os esverdeado, com satisfação. - E pensar que neste planeta já teve muitas árvores com saborosas frutas.

- Ainda bem que gostou das maçãs - disse José, olhando para os seus amigos.

E esperaram ele comer até não aguentar mais.

- Obrigado meninos – disse o homem incomum - não sei como agradecer. Mas, como eu prometi, entrem nesta geringonça, a bolha do tempo, que vou mandar vocês para as suas casas.

Todos os meninos se despediram abraçando o homem esverdeado, tão esquisito e misterioso. Então, agradeceram, deram adeus e entraram na bolha transparente.

Ele chegou perto da bolha, deu um adeus emocionado, deu um forte assoprão e a bolha transparente começou a girar dando numerosas voltas, caindo direitinho no buraco do tempo, rodando, rolando, parecia o fim do mundo, até que parou.


- A bolha parou - gritaram todos felizes.

Ao saírem, disseram:

- Vejam, é a nossa pracinha!

- Olha o relógio, continua no mesmo horário!

- Engraçado – disse André - passaram milhões de anos, desde a época dos dinossauros e aqui continua tudo igual!

- Verdade! Aquele homem-máquina seria um ser humano do futuro, do ano 3001, ou um extraterrestre? – indagou Renato.

- Talvez fosse do planeta Marte ou do cosmo? Seria um androide? - Léo questionou.

- Será que fomos abduzidos? – perguntou André, intrigado.

- Sei lá! – falou Miguel.

- Olha, Miguel, o seu cachorro Fernando vem correndo em sua direção abanando o rabo feliz por te ver.



- Que alegria ver meu cachorro! Vou abraçá-lo, que saudades!

- Então estamos de volta à pracinha e ao campinho. Até pareceu um conto de fadas – José concluiu.

- Ei pessoal – gritou André - o dia está claro, a hora continua no mesmo horário e a bola está no mesmo lugar. Vamos jogar!


Nisso, José e Miguel foram saindo de fininho.

Os meninos olharam os dois e chamam:

- Ei, Miguel e José, onde vocês pensam que vão? Venham jogar bola com a gente!

- Legal, vamos jogar bola - gritou José, e com um sorriso travesso, dá uma piscadinha para Miguel.

E foram jogar bola.


sexta-feira, 15 de março de 2019

Cultura punk: anarquismo e juventude

Movimento punk

O punk é considerado um elemento indissociável da cultura britânica do século XX. Assim como os ônibus vermelhos de dois andares, policiais desarmados e o Big Ben, no imaginário popular o punk também faz parte do patrimônio cultural da Inglaterra. Quando surgiu, seu ideário e estilo refletiam o clima político, social e econômico do final da década de 1970. 


Nessa época, o punk aparecia como uma cultura jovem distinta e que, por sua vez, provocou verdadeiro pânico moral na tradicional sociedade inglesa. Mais significativamente, o punk mobilizou uma prática política e cultural contestadora, por parte de uma parcela da juventude ligada à classe operária, em resposta ao “thatcherismo” capitaneado pelo Partido Conservador. Suas letras e iconografia negavam, através de uma postura anarquizante, a política como um todo, ao mesmo tempo em que desafiavam os ditames e monopólios da indústria musical. O punk lutava acima de tudo contra a alienação e por liberdade plena, assumindo uma atitude de anticensura na qual questionava hierarquias sociais e a desigualdade social e econômica.


Mas apesar do punk oferecer um espaço de contracultura para vozes dissonantes, aqueles que nunca tiveram o direito de falar, os excluídos da cultura, da sociedade e das políticas tradicionais, permitindo assim uma diversidade de experimentação artística sem precedentes, que desafiava as normas da indústria cultural, bem como da ordem social vigente; com o tempo, o punk foi sendo mistificado e absorvido pela narrativa mais ampla da história da música pop. O movimento punk, que inicialmente questionava os alicerces do establishment, também acabou por ocupar as prateleiras dos grandes magazines, gerando lucros vultosos para a indústria fonográfica.


Política anti-política

O surgimento do punk como estilo e forma cultural, ideológica e musical, é reconhecidamente relacionado à banda inglesa Sex Pistols. As músicas "Anarchy in the UK" (1976) e "God Save the Queen" (1977) escandalizaram a mídia e a opinião pública britânica, o que acabou por definir o punk como uma cultura jovem abertamente politizada e de contracultura. Essa percepção foi reforçada pelos significantes políticos exibidos pelos punks (símbolos da anarquia etc.) e por grupos como The Clash, que fazia referência direta às tensões raciais, ao desemprego e às mazelas da vida cotidiana ocasionadas pela crise econômica.


Neste contexto, bandas punks se engajaram abertamente na campanha Rock Against Racism de 1976-1978, em resposta ao aumento das tensões raciais e ao crescimento de grupos neonazistas. Mesmo quando o punk começou a se fragmentar em diferentes tendências, ainda assim o foco crítico-político foi mantido como uma característica inerente. Se bandas pós-punk como a Gang of Four abordavam questões de consumo e relações de gênero, a cena Oi! ou skinhead se concentrava em questões de identidade de classe e Street Politics. No início dos anos 80, o anarquismo de bandas como o Crass defendia um ativismo contundente em torno da Campaign for Nuclear Disarmament (CND) – Campanha de Desarmamento Nuclear – e ações-diretas que ajudaram a iniciar o Stop the City, entre 1983 e 1984, ao qual foi descrito como um “carnaval contra a guerra, opressão e destruição” e que, de certa forma, antecipou o movimento antiglobalização dos tempos atuais. Enquanto isso, a cena musical se deslocava para a extrema direita da política britânica com a formação de bandas neonazistas.


Cultura jovem

O punk apresentou-se principalmente como uma cultura jovem. Seu principal meio de expressão era o estilo, cabelos e roupas extravagantes, a crítica social e a música punk rock ou hardcore. Seus principais adeptos eram adolescentes e jovens no início dos 20 anos. Esta juventude criticou o pacifismo de movimentos anteriores, como o hippie. O punk perdera a ingenuidade do Flower Power aprendendo que os poderosos não entregavam a paz e verdadeira justiça assim de mão-beijada. Como reação, a violência simbólica do seu estilo intencionava escandalizar e abrir brechas no sistema para depois destruí-lo.


Até certo ponto, portanto, o punk pode ser visto como um elo final na linha de "subculturas" juvenis que se estendia pelo menos até os anos 1950. No entanto, o punk surgiu em um contexto socioeconômico distinto. Se as culturas juvenis do pós-guerra se desenvolveram em conjunto com o crescimento econômico, o punk floresceu em um período de crise econômica. Consequentemente, o punk pode ser visto menos como uma cultura de aspirações idealistas e mais como uma cultura de revolta. Uma de suas características mais notáveis era seu desafio explícito aos costumes culturais e sociais predominantes.



Naturalmente, a extensão dos impactos causados pela cultura punk está sujeita a questionamentos e controvérsias. Mas, de fato, o legado punk se estendeu além do estilo e da música, influenciando amplamente a moda, as artes visuais e os espaços sociais, como clubes, lojas etc. Para muitos, o punk desenvolveu, sim, uma cultura, que convidava à criatividade e experimentações ilimitadas, através de um debate pluralista que justificava a base de um estilo de vida alternativo além do mainstream e da sociedade de consumo.

“Os Sex Pistols lançam God Save The Queen às beiras do Jubileu, em 15 de julho de 77. A música é uma feroz agressão e uma grande provocação. E a voz de Johnny Rotten passa, melhor que nunca, a mensagem punk, arrepiando a Inglaterra inteira. A letra da música começa assim: “Deus salve a Rainha/ e seu regime fascista”. É a política do confronto em plena semana comemorativa. Não pode ser mais shakespeareano, não pode ser mais teatral. A rainha é a estrela máxima do Império nesta semana em que se celebra seus 25 anos de reinado. E a outra figura-estrela nesta semana é Johnny Rotten. Faltam dois dias para o Jubileu. God Save The Queen, o compacto, está em segundo lugar no hit parade. No dia do Jubileu os Sex Pistols chutam fora Rod Stewart e se ocupam do primeiríssimo lugar. E a realeza não tem como evitar a ralé. E ao contrário do conto de fada, no qual o anão fazia vênia à rainha, aqui o Joãozinho Podre mandou uma cusparada na imagem da soberana e os punks ainda espetaram um alfinete de fraldas no rosto dela. Perfeito. Johnny Rotten declara: Não é nada engraçado estar na fila do desemprego. Mas nem por isso a música deve ser deprimente. A música deve oferecer assistência a esse lixo todo. Se o tema é a estagnação, a música deve apontar saídas e mostrar como vencer essa estagnação. Tem que ter verdade mas tem que ter humor também. Otimismo. E isso não é político” (BIVAR, Antonio. O que é punk. Editora Brasiliense: São Paulo, 1982).

sexta-feira, 1 de março de 2019

Camões vs Fernando Pessoa: Portugal

Resumo do texto “Os Lusíadas e Mensagem: um jogo intertextual”, de Cleonice Berardinelli.

Por J. P. A. G.

Dois poetas: Luis Vaz de Camões e Fernando Pessoa. O primeiro, eclipsando as gerações vindouras, com sua obra poética insuperável; o segundo, “o proximamente-vindouro”, destinado a receber o fardo histórico e literário de superar o “ainda-primeiro”. Pessoa, um Super-Camões.


Esta é a difícil tarefa, talvez megalômana, que se autoproclama Fernando Pessoa, pela voz de seu heterônimo Álvaro Campos, a saber, subir ao panteão dos maiores, ao lado de Dante, Shakespeare e, obviamente, Camões. Sua vontade de superação, entretanto, não é desprezo pelo ainda maior poeta lusitano, mas profunda admiração.

Muito embora a obra poética de Fernando Pessoa não referencie diretamente Camões, a reverência ao maior poeta da língua portuguesa é manifesta na intertextualidade sem precedente e marcada pelo tom ufanista sem limites de Mensagem (século XX) ao épico fundador Os Lusíadas (século XVI). O paralelo, não evidente por si, seria fácil perceber se Fernando Pessoa mantivesse o título provisório em sua coletânea de poemas: Portugal. Salta à vista, todavia, o tema retratado por ambos os poetas; em Camões lê-se: “um amor da pátria não movido De prêmio vil, mas alto e quase eterno...”; em Pessoa: “um nacionalista místico, um sebastionista racional”.  

Dissipada a névoa que os separam de início, os paralelos tornam-se ainda mais evidentes. Camões segue a tradição épica e inicia seu poema in medías res, para depois invocar a musa da epopeia Calíope, então passa a palavra ao navegador Vasco da Gama, a quem cumprirá a tarefa de narrar o poema, exaltando o grandioso reino Português. Dentre todos os reinos europeus, Vasco glorifica Portugal a um interlocutor, o rei de Melinde: “Quase cume da cabeça”. Por outra forma, em Mensagem, Fernando Pessoa alude aos versos do grande clássico da literatura portuguesa: “rosto com que fita” o “Occidente”.

N’Os Lusíadas, Camões introduz uma passagem histórica, através da narrativa de Paulo da Vasco da Gama, remetendo as origens da nação lusitana aos símbolos e brasões de nacionalidade que seguem a tradição de Ulisses até a guerra de Reconquista. Em Mensagem, Fernando Pessoa também esboça uma genealogia mítica e também atribui às origens portuguesas o herói da Odisseia. A menção a este passado é um recurso usado por Camões para introduzir na longínqua nação portuguesa o herói Viriato, líder da resistência do povo lusitano aos conquistadores de Roma. Fernando Pessoa também recorda Viriato como o segundo castelo. Ambos os poetas fazem referência a D. Henrique, do condado Portucalense. Nesta passagem, há uma citação, em Mensagem, mais especificamente a epígrafe em latim Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum, ao início de Os Lusíadas: “armas e os barões assinalados”.

Tal qual seu compatriota, Fernando Pessoa não presta homenagem a Dona Tareja, esposa de D. Henrique, a primeira rainha de Portugal. Camões havia acusado-a de não saber ser boa mãe. Pessoa, porém, apenas a trata com indiferença.

Diante disso, nota-se uma ruptura com o nacionalismo laudatório, para aquilo que a autora, Cleonice Berardinelli, denomina de nacionalismo crítico, o que representa, no caso de Camões, um desvio conceitual da epopeia clássica.

Ainda traçando um paralelo intertextual entre Camões e Pessoa, em Os Lusíadas, o marco da fundação de Portugal dá-se com o reinado de Affonso Henriques, cantado em cinquenta e cinco oitavas. O poema de Fernando Pessoa é, no entanto, bem mais econômico e dispensa ao referido rei apenas dois quartetos, muito embora significativos. Camões também é mais perdulário ao descrever a dinastia real, enquanto Pessoa se detém a D. Diniz. E aqui a uma divergência entre os dois poetas. Camões canta a liberalidade de Affonso Henriques, marcada pelo progresso cultural. Já Pessoa traz à memória os epítetos de D. Affonso, omitidos por Camões, por meio de uma metáfora na qual indica o futuro de Portugal associado à terra e ao mar: rei trovador e rei lavrador.

Novamente, Camões e Fernando Pessoa diferem quanto à enumeração dos elementos da realeza, sendo o primeiro, como vimos, mais “generoso” e o segundo, “parcimonioso”. O alvo agora, em ambos, é D. João I e sua mulher Felipa, geradores da dinastia de Avis. Enquanto em Camões a figura de maior destaque é Inês, em Pessoa, dispensa-se atenção apenas a Tareja e Felipa, rainhas de impérios, às quais o poeta não emite qualquer juízo de valor. Fernando Pessoa também dedica especial atenção aos filhos de D. João I, notadamente, D. Sebastião. Mas, em ambos os poetas, nota-se uma história de fracasso relativa aos cinco irmãos. Camões, entretanto, limita-se ao sofrimento de D. Duarte, por ter o irmão, D. Fernando, cativo dos inimigos; a D. Pedro, poucas notas; a D. João, emudece; e a D. Sebastião, seu contemporâneo, o poeta o coloca a par dos deuses. Em Pessoa, porém, há algo de positivo nesse fracasso, enquanto “dever cumprido”, e que transparece nos celebres verso de “Mar portuguez”: “Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena”. A loucura aqui é um valor muito caro, o único que restou, já que o Império se desfez.

Divergem outra vez os grandes poetas. Para Camões, D. Manuel é patrono das navegações. Para Pessoa, D. João II.

Em “Mostrengo”, Pessoa aproxima-se bastante de Camões, no que se refere ao Gigante Adamastor. Neste sentido, segundo a autora, os dois poetas portugueses constroem seus versos “seguindo o roteiro dos reis” e, para ambos, o grande herói nacional é Nuno Álvares Pereira.

Neste ponto, a autora comentará o estilo de ambos os poemas, ao qual denomina “linha sinuosa descrita pelos dois poemas – ascendente, íngrememente descendente e, por fim, em ligeira ascensão”. Assim, ambos os poetas, mas em particular Fernando Pessoa, consagram os poemas a D. Sebastião.

José Régio chega atribuir ao poema Os Lusíadas o tema da aventura tresloucada do jovem rei em Alcácer Quibir, no intuito de conquistar o Quinto Império, O Império de Cristo na terra. Esse tom glorioso dedicado a D. Sebastião da dedicatória contrasta com o último canto, em tom bem mais pessimista, no qual o poeta lamenta a própria sorte. Então Camões acaba por realizar uma crítica abarcando toda a sociedade portuguesa. Segundo a autora, o final do poema transmite, ao tentar resgatar a inspiração das musas, uma sensação de “desalento, de desencanto”: os nautas já cumpriram sua missão. Enfim, o tom baixo do poema, imiscuído pela subjetividade do poeta, subverte o modelo da epopeia e coincide com a decadência das aspirações grandiosas de Portugal.

É, enfim, o idealismo desmedido, sebastianista, o tema central dos poemas, e pelo qual Fernando Pessoa irmana-se a Bandarra e Vieira nas profecias sobre o Encoberto e o Quinto Império. Portanto, há um desespero em Fernando Pessoa, compatível ao de Camões, que se observa na própria estrutura de Mensagem, como ao que é expresso no título “Nevoeiro”, dos versos finais, marcado por uma negatividade: “Ó Portugal, hoje és nevoeiro”.

Segundo a autora, os maiores poetas portugueses apontam para uma solução: em Camões, real; em Pessoa, transcendental. “Dois poemas épicos – ou épico-líricos? - ‘de espécie complicada’, diria Pessoa, e digo eu: como convinha a Portugal”.

BERARDINELLI, Cleonice. “Os Lusíadas e Mensagem: um jogo intertextual”. In: Estudos Camonianos. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.